"No Memorial Da Democracia A Memória é Uma Prevenção à Violência" - Revista Algomais - A Revista De Pernambuco
"No Memorial da Democracia a memória é uma prevenção à violência"

Quem visitar o Memorial da Democracia de Pernambuco Fernando Vasconcellos Coelho, no Sítio Trindade, no Recife, perceberá que uma de suas áreas mais impactantes é a dedicada ao período da ditadura militar. Ao som de tiros vindos de vídeos, o visitante se depara com fotografias de 51 pessoas mortas e desaparecidas em Pernambuco durante o regime de exceção.

No meio da sala, há uma bolsa. Ela pertenceu a Anatália de Souza Melo Alves, presa e violentada em série por vários militares. Eles a mataram, queimaram seu corpo da cintura para baixo, (para não deixar vestígio da atrocidade)e a esganaram. Pelos relatos oficiais dos seus algozes, ela cometeu suicídio, enfocando-se com a alça da bolsa exposta.

A história verídica de Anatália foi revelada pela Comissão da Memória e Verdade Dom Helder Câmara que, no seu relatório final em 2012, recomendou a criação do Memorial. A finalidade do espaço é trazer a veracidade de casos como o de Anatália e dar voz às vítimas por meio de documentos, mas principalmente de relatos. 

Como Pernambuco tem uma longa tradição de lutas, o Memorial não se limita ao golpe de 1964 mas abarca toda a trajetória insurgente do Estado, desde a Revolução de 1817, e dá voz aos movimentos contemporâneos como o da defesa da reforma agrária, as pautas feministas, LGBTQIA+ e por direitos étnico-raciais.

Vinculada à Secretaria de Justiça, Direitos Humanos e Prevenção à Violência, o Memorial, segundo seu gestor Pedro Xavier – e como o próprio nome do órgão sugere – promove a memória como forma prevenir a violência. Nesta entrevista a Cláudia Santos, ele aborda os objetivos do espaço, fala do seu acervo e a importância dedicada às artes.

 “Há uma produção artística (...) que é de uma criação de rememoração, como se houvesse uma ferida aberta e essa obra de arte fosse um curativo”, compara Xavier. Um processo que temos presenciado com o sucesso de filmes como Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto, que trouxeram à tona a voz de vítimas da ditadura e a memória de um tempo de crueldade e ausência de direitos que não devem ser esquecidos para que não retornem.

Chale

Como surgiu o Memorial da Democracia de Pernambuco Fernando Vasconcellos Coelho?

O Memorial da Democracia surge como uma recomendação da Comissão da Memória e Verdade Dom Helder Câmara que investigou os crimes em Pernambuco na ditadura iniciada em 1964. Em seu relatório final, a comissão recomenda que o Estado deveria criar este espaço, que está sob a Secretaria de Justiça, Direitos Humanos e Prevenção à Violência. Então, no Memorial da Democracia, a memória é uma prevenção à violência. 

Em 2012, uma lei cria o Memorial que é, de fato, instituído em dezembro de 2022, quando a comissão encerra seu trabalho. Mas ele, na verdade, continua. Parte da comissão foi incorporada ao conselho do Memorial e a gente recebeu, há pouco tempo, os arquivos de Gregório Bezerra foram doados ao Memorial pela família dele, e esse grupo está investigando esses arquivos para organizar, publicizar, incorporar e trabalhar esse material. Então, o Memorial é um processo de continuidade histórica, de missão e de ética desta Comissão. Ressalte-se que, proporcionalmente, Pernambuco é o estado brasileiro com mais mortos e desaparecidos durante a ditadura. E isso nos dá uma missão também de continuidade.

Outra recomendação da Comissão foi a refacção da escultura Torre Cinética, de Abelardo da Hora, que foi demolida, na época, pelos militares e que hoje se encontra aqui na frente do Memorial.

Por que teve essa recomendação? Qual a importância dessa escultura?

A Torre Cinética foi executada nos anos 1960, num contexto em que Abelardo da Hora cuidava das praças e parques públicos da cidade. Ele fez muitas esculturas com temas populares. Na Praça Treze de Maio, por exemplo, está a obra Os Violeiros. Mas na Praça da Torre, ele traz uma escultura abstrata, em ferro, que conforme o vento vai passando por ela, algumas partes da obra se movimentam. Só que quando veio o golpe civil militar de 64, os militares questionaram que com esse movimento produzido pela Torre, mensagens eram enviadas para a União Soviética. A gente pode ficar se questionando se eles acreditaram mesmo nisso ou se só queriam maltratar o artista que tinha executado a obra e que era tão ligado aos processos sociais e vinculado ao Partido Comunista. 

Em resposta, Abelardo solta a frase: "Mande prender o vento”, porque é o vento que roda as pás da escultura. Os militares, então, derrubam a obra e a arrastam pelo bairro da Torre. Essa escultura é toda destroçada, vai para um galpão, fica enferrujada. Ela é refeita em 2022 por Jobson Figueiredo e está instalada aqui. O próprio Jobson também doa para o Memorial uma outra obra sua, Você Me Prende Vivo e Eu Escapo Morto, verso que faz parte daquela música Pesadelo, que ficou muito famosa com o MPB4. Há uma terceira obra, recomendada pela Prefeitura do Recife, A Cabeça de Gregório Bezerra, que está próxima à Torre Cinética. Gregório Bezerra é uma figura importante por ter lutado, desde a Era Vargas, até 1964, pelos direitos. 

Por que o Memorial está no Sítio da Trindade? Qual a simbologia desse local?

Por uma série de camadas históricas. Esse chalé, nos anos 1960, foi a sede do MCP (Movimento de Cultura Popular), quando Paulo Freire, Germano Coelho, entre outros, fizeram desta casa um centro de união entre cultura, arte e educação. A semente das escolas municipais do Recife está nesse movimento. Em 1964, a sede do MCP foi fechada por dois tanques de guerra. Isso torna essa casa única entre outros memoriais do Brasil porque é um espaço de educação, de memória positiva e, não, um lugar de mortes, como a Casa da Morte em Teresópolis (RJ), por exemplo. 

No Sítio Trindade também estão os antigos restos de uma muralha do Arraial Velho do Bom Jesus, que foi um forte de resistência contra a ocupação holandesa, o que também reflete as lutas pernambucanas por liberdade. Aqui também está o Teatro Arraial Velho que é outra peça do MCP, uma fusão com o Teatro Popular do Nordeste de Hermilo Borba Filho. A ideia deles era fazer teatro com e para o povo.

Quando foi inaugurado em 1961, foi realizada uma festa de São João, com apresentação de Luiz Gonzaga. Começa aí a tradição de festas populares no Sítio Trindade. Então, a gente tem esse território de múltiplos exemplos de resistência e do povo incorporando seu poder e a cultura.

O que consta no acervo do Memorial? 

Um dos eixos centrais do Memorial é o período da ditadura (1964 a 1985), uma época em que os militares e o poder não estavam interessados em manter documentos e, sim, em queimá-los porque eles queriam que a memória vivida fosse apagada. Por isso nosso acervo é calçado em relatos e menos em documentos. 

Na sala dedicada ao golpe de 1964, temos, de um lado, uma grande linha do tempo sobre como o Brasil chegou e saiu da ditadura. Do outro, temos fotos de 51 pessoas identificadas como mortas ou desaparecidas pela ditadura em Pernambuco. Cada uma tem uma trajetória que foi investigada pela Comissão. Há uma história específica relacionada a um objeto que está no centro da sala: uma bolsa de couro marrom, bem singela. Ela pertenceu a uma dessas pessoas: Anatália de Souza Melo Alves, presa e assassinada em 22 de janeiro de 1973.

Bolsa marrom de Anatalia

Quem estava próximo à cela onde ela foi prisioneira contou que se formou um fila de militares para violentá-la. Ela foi estuprada em sequência por uma série de militares. A partir desse momento, eles tentaram esconder essa violência queimando o corpo dela do torço para baixo e depois, a enforcaram. A gente sabe disso pelo breve laudo do IML e pelos relatos de quem estava ao redor. 

Mas os militares disseram que ela se matou usando a alça da bolsa. E quando a gente vê a bolsa que foi encontrada pela Comissão da Memória e Verdade nos arquivos da época da ditadura, percebe que é muito fininha, seria impossível se matar com ela. Eles tentaram produzir uma verdade naquele momento, mas a verdade veio à tona, 50 anos depois, com a investigação da Comissão.

Outros objetos que temos são papéis escritos à máquina com informações da censura para as redações de jornais sobre os temas que não poderiam ser tratados pelos veículos. Veja, não era censura do que estava escrito, era do que não se poderia escrever.

Nessa sala a gente fala sobre reparação, sobre responsabilização, inclusive um questionamento é: como reparar e restaurar essa memória, 50 a 60 anos depois, para ter validade para essas pessoas e para seus parentes? Então, esse acervo de memórias é uma tentativa de atribuir a verdade a quem sofreu durante aquele período e não permitir que a gente volte a uma situação como aquela.

No momento em que a luta se impõe para garantir que a gente viva com direitos humanos, com verdade, é importante que a gente se coloque e construa redes de verdade para que, ainda que a apaguem, a gente a reconstitua. Nem sempre por meio de documentos. A importância que damos à oralidade aqui é para tentar dar dignidade a essas pessoas. Afinal, hoje a gente fala tanto sobre como a voz de uma mulher que se disse violentada vale mais do que qualquer outra prova. A voz de quem sofreu uma violência vale e é isso que a gente acessa.

Para além do período da ditadura militar, o que há no acervo do Memorial?  

Ele é constituído internamente de cinco salas. A primeira chama-se Alma Pernambucana, onde rastreamos pessoas que, nos últimos cinco séculos, lutaram por algum tipo de direito, como lideranças contra a ocupação holandesa e pessoas que lutaram contra a escravidão. Passamos pelas revoluções pernambucanas de 1817, pelo Quilombo dos Palmares, reconhecendo cada uma das pessoas que lutou em algum momento nesse território. Assim, tentamos trazer mais para perto essas pessoas, como Demócrito de Souza, estudante de Direito assassinado na Ditadura Vargas. Este lugar também é para lembrar que no Século 20 o Brasil viveu duas ditaduras e precisamos lutar para que o estado de exceção não retorne. 

Pernambuco é um estado permanente de lutas. Nessa sala também estão Mãe Biu de Xambá, que teve no seu terreiro objetos roubados pela polícia da Era Vargas, e dona Santa, que deixou o acervo do Maracatu Elefante para virar um museu no MCP. A ditadura militar fechou esse museu e foi necessária a intervenção da Fundação Joaquim Nabuco para retirar esse material e transformá-lo em parte da historiografia do Museu do Homem do Nordeste. Temos também nessa sala Adalgisa Cavalcanti, primeira deputada estadual de Pernambuco, e Francisco Julião, líder das Ligas Camponesas.

A sala 2 fala sobre os movimentos contra a ocupação holandesa no Século 17, reconhecendo o Arraial Velho do Bom Jesus como centro dessa resistência. Uma maquete mostra o forte, que foi construído de barro porque ele estava cercado pela artilharia holandesa, e era difícil trazer pedra para cá. Além disso, o barro resiste às balas. É a tecnologia da resistência. 

Na sala há uma obra sobre a Batalha dos Guararapes, cujo original está na igreja Nossa Senhora da Conceição dos Militares, que foi produzida 100 anos depois do combate, em 1780, e outra, uma reprodução de um quadro feito há uns 30 anos por Tereza Costa Rego. O quadro de Tereza coloca o povo pernambucano descalço – um povo sem meios – e os holandeses, calçados. Qual obra traz mais verdade? A verdade é uma fusão dessa história toda e uma escolha que a gente vai fazer a partir daquilo que acreditamos hoje sobre direitos humanos. 

As várias revoluções pernambucanas, desde 1817, são o tema da terceira sala. Temos também nela a imagem de Frei Caneca e de integrantes do Ave Libertas, que é um grupo literário de mulheres brancas, da elite, que se organizavam contra a escravidão. Do outro lado temos duas pessoas do Clube do Cupim, um grupo composto por pretos que se organizavam para comprar e alforriar escravizados ou ajudar na fuga. São pessoas anônimas, não consta o nome delas, ao contrário das integrantes do Ave Libertas, o que demonstra o apagamento da história das pessoas pretas. Como a gente pode entender como isso também forja muitas das situações que vivemos hoje? De novo, a memória aqui está a serviço de uma prevenção à violência no agora. 

Frei Caneca e Clube do Cupim

Temos uma outra sala, que se chama Direito, Educação e Cultura para Todos. Nos anos 60 o registro de analfabetismo em Pernambuco atingia mais de 60% da população e Paulo Freire cria seu método de alfabetização, junto com Germano Coelho e Anita Paes Barreto no MCP, que consistia em dar poder de reflexão ao povo. É nesse momento que o Estado fomentou a união entre a arte popular e a educação. Isso porque, se a educação não se fundisse com as práticas populares, não faria as pessoas refletirem sobre suas realidades, suas vivências, para melhorar politicamente.

Falava-se de Pedagogia da Encruzilhada. O Sítio Trindade está numa encruzilhada. Do lado da Estrada do Arraial, está Casa Amarela, região de pessoas que estavam sendo alfabetizadas e do outro, na Estrada do Encanamento, está Casa Forte, residência de alguns dos mentores desse movimento (Paulo Freire, Miguel Arraes). Esse território é uma encruzilhada de conhecimento.

Quais as ações do Memorial voltadas para o público?

O Memorial funciona de terça a sábado, das 9h às 17h. Fazendo agendamento pelo nosso Instagram, podem vir grupos maiores. Em qualquer outro horário é só chegar aqui que a gente recebe. Nós recebemos um grupo grande de alunos da Universidade Católica que fazem formação nas escolas públicas do Estado. Depois eles trazem os alunos para visitar o Memorial. 

No ano passado concluímos um processo de formação de toda a rede estadual de professores da região metropolitana e do EJA (Educação de Jovens e Adultos), inclusive resgatando o MCP que tinha  a missão de alfabetizar. Temos uma programação divulgada nas redes sociais de uma oficina de colagem e costura em homenagem às pessoas mortas e desaparecidas de 1964, que acontece aqui na varanda. Temos ainda uma ação de programação no cinema São Luiz para exibição de filmes sobre direitos humanos que vai começar este ano. 

O Memorial recorre muito à arte para abordar a memória. Por quê?

Existe a produção material naquele período, quando as artes eram censuradas, e há uma produção artística posterior que é de uma criação de rememoração, como se houvesse uma ferida aberta e essa obra fosse um curativo. Essa obra é uma tentativa de processar esses líquidos que ainda estão saindo da ferida. Veja, mataram e desapareceram com o corpo de Rubens Paiva, a família não pôde enterrá-lo. Mas foi produzido o filme Ainda Estou Aqui. A obra de arte é o processo de tentar aplacar essa ferida e trazer a lembrança de volta, para quem não viveu aqueles tempos e para que a luta se perpetue. 

aindaestou2

A história de O Agente Secreto, por exemplo, não existia na minha cabeça até eu assistir ao filme. Ela agora faz parte de um panteão imaginário de lutas. O Memorial e todos esses espaços são chamados para que a gente construa exemplos pessoais de luta e dignidade. E a ficção ajuda-nos a produzir isso de um modo verdadeiro no nosso coração. O protagonista do filme é um professor universitário. Isso é a dignidade da luta pessoal. Assim, como existe a dignidade da luta de uma mulher trabalhadora que pega um ônibus e sai todos os dias bem cedo para trabalhar. Precisamos de histórias reais ou inventadas que nos motivem a continuar a lutar, lutar por aqueles que foram e por aqueles que vêm. 

O Agente Secreto Vitrine Filmes 1

A provocação que a gente faz para as pessoas como política de estado é: cheguem, se aproximem, questionem o que está exposto, tragam suas memórias. O Memorial é isso, não é um museu fechado e acabado, é um espaço em construção permanente. Quais são os apagamentos que a gente ainda mantém? 

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