Economista e pesquisador, coordenador do estudo Ilusão da Racionalidade, da Unifafire Inteligência de Mercado, explica como os vieses influenciam nossas escolhas econômicas, políticas e a formação de opiniões.
Você já parou para pensar o que leva em conta naquele momento em que vai tomar uma decisão importante? Durante muito tempo, convencionou-se acreditar que as decisões eram fruto exclusivamente de pensamentos racionais. Milimetricamente calculados avaliando os melhores cenários e contextos. Fato é que diante de muita informação, o cérebro tenta simplificar. Ele recorre a atalhos mentais, são os chamados vieses comportamentais.
Uranilson Carvalho, economista e Mestre em Economia, desenvolveu e produziu a pesquisa A Ilusão da Racionalidade, para a Unifafire, onde ouviu 800 moradores do Recife e da Região Metropolitana, para comprovar que os vieses comportamentais são responsáveis diretos pelo processo decisório de todas as pessoas. O objetivo da pesquisa é garantir que as pessoas façam escolhas melhores, mais assertivas, principalmente em questões desafiadoras.
Em entrevista à Yuri Euzébio, o professor refletiu sobre a importância de compreender as escolhas que fazemos no cotidiano, o que se leva em conta durante esse processo de escolha, a relação do viés comportamental com as Fake News e quais os fatores preponderantes durante uma tomada de decisão.

Revista Algomais – O que são vieses comportamentais e por que são tão importantes para compreender as escolhas que fazemos no cotidiano?
Uranilson Carvalho – A economia comportamental, essa temática que trata os vieses comportamentais, é uma das últimas fronteiras de estudo das ciências econômicas. É um fenômeno estudado na Europa, nos Estados Unidos e vem chegando ao Brasil na última década. Nós acreditávamos que as decisões eram sempre racionais, então nós tomávamos decisões a partir de escolhas racionais, considerando a escassez que há no mundo, escassez de recursos, de mão de obra, de matéria-prima… Então somos levados a fazer escolhas e essas escolhas devem ser acertadas nos governos e nas empresas. Os economistas partiram da premissa, por muitos e muitos anos, de que nossas escolhas seriam sempre racionais, a emoção não entraria.
Ou seja, em uma empresa, as pessoas iam se ajustando, porque os seres humanos são racionais e sempre vão fazer escolhas racionais. O Daniel Kahneman, que veio a conquistar o primeiro Nobel de economia nesse campo da economia comportamental, trouxe justamente essa informação: “olha, nós não tomamos decisões com base na racionalidade ou em dados.” Então, nossas escolhas são permeadas por emoção, e aquilo que você aprendeu e que você acredita, enquanto formação que você teve. As emoções terminam afetando os processos de escolha.
Eu diria que não é uma limitação, é uma característica, e ainda bem, porque somos humanos. Nós não somos uma máquina, nós não somos um algoritmo. Então, a gente tem que entender que nós caímos em vieses. E eu vou explicar quais são esses vieses. Fazer escolhas não é uma coisa fácil. O que nós fazemos para desenvolver essas escolhas? Os vieses comportamentais são esses atalhos mentais, que agem no inconsciente e que distorcem o nosso julgamento, nos fazem tomar decisões baseadas em emoções ou pressa, afastando a racionalidade.

Revista Algomais – Você poderia reiterar e aprofundar quais os principais tipos de vieses que existem?
Na pesquisa eu estudei o viés do enquadramento, o viés da ancoragem, o viés do excesso de confiança e o viés da representatividade.
Posso citar também o de enquadramento. Como nós não somos completamente racionais e as nossas decisões são rápidas, os vieses são a forma que uma informação pode fazer com que as pessoas mudem de opinião mais do que o dado em si, mais do que o fato em si. É como se fala desses fatos, como se apresentam esses fatos, ou seja, o mérito não está no fato, mas sim como você apresenta. As pessoas são enquadradas para tomar uma decisão dependendo de como você apresenta esse fato.
O viés da ancoragem é quando eu não tenho informação segura e eu tendo a pegar qualquer dado que surge na minha frente para tomar como referência, portanto usar como uma ancoragem no processo decisório. A pessoa tende a tomar decisões mesmo com algo que seja extremamente aleatório e que não tem nada a ver com o fato que está sendo ali escolhido.
Já o viés do excesso de confiança ocorre quando, mesmo sem dados, é feita uma pergunta à pessoa sobre se ela está acima ou abaixo da média. Ela acredita que tem muito mais informações do que os outros. E isso acontece muitas vezes com pessoas que não têm informação segura, mas se colocam como se tivessem muito mais conhecimento.
Sobre o viés da representatividade, podemos falar sobre o Bolsa Família, que é muito julgado e pesquisas mostram o contrário. Muita gente diz que o Bolsa Família está deixando as pessoas mais preguiçosas. Se a pessoa acredita que o Bolsa Família deixa as pessoas mais preguiçosas, certamente ela conhece uma pessoa vizinha que é assim, mas cientificamente não é o que os dados mostram. É o contrário. Desde quando o programa se fortaleceu pós-2002 até agora, nós estamos ampliando o mercado de trabalho das pessoas, você hoje tem uma taxa de desemprego menor e quando vai ver esses empregados são frutos, em grande parte dele, de pessoas que tiveram Bolsa Família.
Nós temos que entender que aí está o viés da representatividade, que traz o preconceito do indivíduo, talvez com outras pessoas mais pobres, mais humildes e diz logo que o beneficiário é preguiçoso, está recebendo e não quer trabalhar. Esse é o viés da representatividade e ele é perigoso porque eu crio opiniões sem dados e elementos científicos e me baseio apenas no estereótipo.

Revista Algomais – Pode detalhar mais a pesquisa?
Uranilson Carvalho – Nessa pesquisa que eu chamei de A Ilusão da Racionalidade, que aplicamos com 800 residentes na Região Metropolitana do Recife, eu testei esses quatro vieses comportamentais. Foi uma das maiores pesquisas já realizadas em nível nacional, o que evidenciou, que os vieses de fato influenciam nas decisões.
Por exemplo, esse viés de enquadramento. O que é o viés do enquadramento? Das questões mais simples às mais importantes nos processos decisórios, nós vamos fazer uma escolha ou tomar uma decisão de acordo com a forma como a situação é dita ou mostrada. Então, a origem do problema ou da situação é a mesma. A depender de como eu apresento essa situação, as pessoas podem ser favoráveis ou contra, apesar de o insumo, a informação, ser a mesma.
Por exemplo, aqui eu testei 400 pessoas, depois fizemos outra pergunta com mais 400 pessoas sobre um programa de saúde pública. A gente diz o seguinte [ao primeiro grupo]: se o programa de saúde pública resultar na morte de 400 pessoas e tem 600 pessoas. O que você faz? Você apoia ou não apoia? Quando eu fiz essa pergunta, destacando as mortes iniciais, o não apoio foi para 366 respostas. A maioria esmagadora não apoiou o programa.
[Ao segundo grupo] Perguntamos: se o programa de saúde pública salvar 200 pessoas? Destacamos o salvar na pergunta. O que aconteceu? O apoio foi para 281 respostas favoráveis. A opinião das pessoas mudou porque a forma como fizemos a pergunta foi diferente.

Revista Algomais – Professor, nós estamos em um momento político importante, eleição presidencial, mas nós tomamos decisões todo dia, do que consumir, do que fazer, para onde ir. Quando tomamos uma decisão, quanto dela é realmente racional? E quanto é influenciado por fatores que sequer percebemos?
Uranilson Carvalho – Cerca de noventa por cento das nossas escolhas estão no automático, está no emocional, portanto com condições de cair completamente nos vieses. E acho que as campanhas eleitorais, se elas não trazem o aspecto emocional, não captam quem querem atingir. Se uma empresa na sua campanha publicitária não traz o aspecto emocional, a sua marca não vende.
Então, nós sabemos que o aspecto emocional se sobrepõe à racionalidade. Mas aí tem um limite, porque nós somos muito mais emocionais do que racionais. O perigoso é desconhecer isso. A nossa pesquisa tem esse intuito, eu enquanto consumidor, ou eu enquanto empresário, ou enquanto gestor público, enquanto cidadão, eu tenho que saber que eu tenho esses limites. Eu tenho o viés da confirmação e aí eu gostaria de destacar, mas não vou entrar no campo partidário. Só vou dizer o seguinte: quando nós acreditamos em algo pela emoção, e não pelo nosso cognitivo, nós temos a tendência a procurar informações que confirmem aquilo que eu acredito. Esse é o chamado viés da confirmação
Até então, um viés da confirmação era estudado como um fenômeno mais inocente, vamos assim dizer, mais tranquilo. Eu ia buscar um livro ou buscar uma matéria jornalística que confirmasse aquilo que eu acredito e eu tendo a valorizar as informações em que mais acredito. Só que nos tempos dos algoritmos, o viés da confirmação se transformou no principal viés e o mais perigoso porque os algoritmos tendem a lhe alimentar com aquilo que você acredita.
E se você já tem uma propensão em acreditar em uma determinada informação, você tenderá a avançar com aquelas informações e os algoritmos vão alimentar até você ficar consumindo os produtos nas redes sociais. O algoritmo vai entregar exatamente aquilo em que você acredita, ele não vai apresentar o contraditório. Enquanto ser humano, gestor público ou privado, ou consumidor, eu tenho que ter a capacidade de aceitar o contraditório.

Revista Algomais – Eu queria saber de você o que é que mais chamou sua atenção nos resultados?
Eu te diria o resultado em si como um todo. Nós percebemos que até então essas pesquisas eram realizadas muito no campo acadêmico e quando você vai a campo, vai à rua, ou seja, testa com a população e uma amostra extremamente bem representativa, percebemos que, de fato, os vieses interferem nas decisões.
Está confirmadíssimo, ou seja, a população é afetada pelos vieses comportamentais. E o que me chamou a atenção foi como facilmente a gente cai nos vieses. Como de fato uma mudança numa pergunta, uma mudança num contexto modifica completamente a opinião do indivíduo. Então, a confirmação dos vieses em si foi o que mais me chamou a atenção. Conseguimos perceber que a ampla maioria está tendendo a ser impactada por esse viés.

Revista Algomais – Existe alguma relação do viés com as Fake News?
Uranilson Carvalho – Sim, pelo viés da confirmação e o desafio é até maior na eleição com o bombardeio de informações. A nossa equipe da Unifafire Inteligência de Mercado foi a campo e a questão no teste foi a seguinte: Qual é a sua capacidade de identificar Fake News? Dos 600 entrevistados, 343 pessoas disseram que era um pouco maior do que todo mundo e 227 pessoas falaram que era muito maior.
Ou seja, está todo mundo achando que identifica facilmente uma Fake News, mas não é verdade. Sabemos que as pessoas são vítimas de fake news. Quando eu conheço meus limites e admito minha dificuldade, tendo a pesquisar, estudar e verificar. Mas [isso não acontece] quando tenho esse excesso de confiança, que não tem nada a ver com autoestima. Eu colocaria o viés da confirmação como um dos principais no contexto atual.
Lembrando que o viés da confirmação é a tendência dos indivíduos a buscarem informações que confirmem as suas crenças. E aí que as Fake News se tornam essa pandemia que eu chamo atenção. Porque se eu acredito em algo que é falso e em algum momento eu curto, eu assisto no YouTube, eu assisto no Instagram, compartilho algo, o algoritmo entende que você tem interesse nesse assunto e ele vai ampliar informações sobre esse tema com você.

Revista Algomais – Professor, em períodos de grande circulação de informações e discursos políticos, como vivemos atualmente, conhecer nossos próprios vieses pode nos tornar cidadãos e consumidores mais atentos? Como?
Uranilson Carvalho – Essa é a grande questão das ciências comportamentais ou da economia comportamental. O ponto principal do que nós estamos discutindo é para que as pessoas façam escolhas melhores. Nossa grande preocupação é escolher assertivamente quando é algo desafiador. Se eu conheço meus limites e se eu conheço alguns vieses e começo a estudar, é lógico que eu tendo a levantar informações e aí combatemos as Fake News. A maioria disse que não cai [em desinformação] e sabemos que caem. Mas, se você tem o reconhecimento dos seus limites, passa a fazer escolhas melhores. Essa é a grande questão e aí você melhora seu bem-estar.
Um outro viés que eu não pesquisei aqui, mas que é importantíssimo é o viés que se chama intertemporal. O que é? Nós fazemos uma distinção entre o eu do hoje e o eu do amanhã. Quando confrontamos uma escolha que tem um agora e uma escolha que tem um impacto no futuro, eu tendo a sobrevalorizar o presente e querer um resultado agora.
Nós somos acometidos e nós não estamos preparados para o viés intertemporal, nós privilegiamos o presente contra o futuro. Por exemplo, se eu digo: “Você prefere ganhar o dinheiro todo agora ou você quer poupar e ganhar mais no futuro?”. A maioria das pessoas vai dizer: eu quero agora.
A maioria do Brasil entende que o futuro não é prioridade. Só se for algo muito rentável e extremamente vantajoso é que se entende que vale a pena fazer esse esforço pensando no futuro. Então, a tendência é buscar tudo para o presente, porque isso é o viés intertemporal. Valorizamos muito mais os ganhos presentes do que os ganhos futuros.
Isso leva ao problema da falta de uma poupança, isso leva ao problema do vício do jogo. Se eu tenho, portanto, o conhecimento desse viés intertemporal, isso vai me ajudar enquanto ser humano, enquanto indivíduo. Eu vou saber que eu tenho que fazer poupança para o futuro. Eu vou saber que eu tenho que abdicar de jogos.

Revista Algomais – Professor, quem é que pode se beneficiar pelo resultado dessa pesquisa?
Uranilson Carvalho – Essa pesquisa tem como grande objetivo, inicialmente, atender ao setor produtivo para que os empresários compreendam também as políticas públicas, compreendam os vieses para que eles sejam trabalhados de forma positiva. O conhecimento desses vieses é justamente para ser trabalhado tanto pelas políticas públicas como em decisões empresariais e também para a população.
A população também se beneficia, enquanto sociedade, enquanto consumidor, enfim em toda esfera de indivíduo. Seja como consumidor, seja como ser humano, a partir do momento que elas conhecem os vieses, podem fazer melhores escolhas.
Por exemplo, vamos pegar o Donald Trump quando invade o Irã. Eu reflito que ele estava acometido por dois vieses. O excesso de confiança, porque ele estava muito confiante. E o viés da confirmação, porque possivelmente os seus assessores deram a orientação de que aquilo era o certo e que não teria nenhuma consequência econômica, inclusive para os próprios Estados Unidos. Como é que um chefe da nação mais poderosa do mundo cai no viés da confirmação? Porque ele está rodeado de assessores que não o contradizem. Por isso, a importância do contraditório para o indivíduo entender os dois lados e equilibrar a sua decisão.
