Em entrevista ao Pernambucast, a economista Tânia Bacelar analisa o novo momento geopolítico, explica as escolhas do mapa ferroviário e aponta onde estão, de fato, as prioridades para o desenvolvimento regional
O retorno das ferrovias ao centro do planejamento nacional marca uma mudança importante na estratégia de infraestrutura do Brasil, impulsionada por transformações no perfil produtivo do país e pelas disputas no comércio internacional. No entanto, esse novo ciclo de investimentos ainda reproduz desigualdades históricas, deixando o Nordeste à margem dos principais eixos ferroviários devido à baixa concentração de cargas de minérios e grãos na região. A avaliação é da economista Tânia Bacelar, em entrevista ao Pernambucast, podcast da revista Algomais.
Um novo momento para as ferrovias no Brasil
Segundo Tânia Bacelar, o atual mapa ferroviário reflete uma inflexão em relação ao modelo rodoviário adotado no passado, quando o país priorizou estradas e negligenciou as ferrovias, inclusive sucateando trechos já existentes. “Hoje a gente tá num outro momento”, afirma, ao destacar que, diante do perfil produtivo consolidado nas últimas décadas, a ferrovia volta a ser reconhecida como meio estratégico para o transporte de cargas no Brasil.
Esse movimento, ressalta a economista, está diretamente ligado ao cenário internacional. A China aparece como um ator relevante no apoio a projetos ferroviários no país, em diálogo com as disputas comerciais globais, especialmente entre Estados Unidos e China. Para ela, trata-se de um projeto estratégico do governo federal, incorporado ao novo Plano Plurianual (PPA), mas que exige planejamento de longo prazo.

O Nordeste no mapa dos investimentos ferroviários
Apesar da revalorização das ferrovias, o Nordeste segue fora das prioridades centrais. Tânia Bacelar observa que o desenho das chamadas rotas de integração sul-americana evidencia essa assimetria. A principal conexão prevista para a região é a rota bioceânica chegando ao sul da Bahia, enquanto articulações mais robustas aparecem apenas nos extremos, como no Porto de São Luís, impulsionado pela logística de escoamento mineral.
“O miolão do Nordeste é que é a discussão”, afirma, ao se referir ao trecho central da Ferrovia Transnordestina. Embora o projeto esteja incluído no PPA, mudanças recentes na sua trajetória favoreceram o Ceará e reduziram o papel de Pernambuco, reacendendo o debate sobre competitividade regional e integração logística.
A lógica econômica por trás das escolhas
Para a economista, a desigualdade regional nos investimentos ferroviários não pode ser explicada por decisões políticas. Ela chama atenção para o peso da produção econômica na definição das prioridades. O Nordeste representa cerca de 15% do PIB nacional, mas responde por aproximadamente 8% da produção de grãos e minérios — principais cargas do transporte ferroviário no país.
Nesse contexto, regiões como Centro-Oeste, Sudeste e Sul concentram os grandes projetos por abrigarem os principais polos produtores. A exceção no Nordeste é o Matopiba, especialmente o sul do Piauí, que passou a se integrar à dinâmica dos grãos e, consequentemente, aos novos corredores logísticos.

Integração nacional e viabilidade econômica
Defensora da integração da Transnordestina com a Ferrovia Norte-Sul, Tânia Bacelar avalia que esse elo é fundamental para reduzir a periferização logística do Nordeste. Ela destaca que o próprio PPA atual prevê estudos de viabilidade para ligar Elizeu Martins à Norte-Sul, o que considera um avanço. Para a economista, mais do que anunciar obras, é essencial avaliar a viabilidade econômica dos projetos.
Ela também relativiza o impacto da perda do trecho pernambucano da Transnordestina, argumentando que a decisão foi empresarial, dentro de um modelo de ferrovia privada, e não resultado direto de uma escolha governamental. Além disso, lembra que Pernambuco possui outros ativos estratégicos, como portos modernos e um grande litoral, que ampliam as possibilidades via transporte marítimo.
Quais devem ser as prioridades para o Nordeste
Ao refletir sobre uma política ferroviária para a região, Tânia Bacelar afirma que as prioridades já estão colocadas: discutir a viabilidade dos projetos em andamento e avaliar se, de fato, sairão do papel. Ela defende que o poder público concentre esforços em articulação política e na produção de estudos econômicos consistentes, sobretudo diante das restrições fiscais e do baixo espaço para investimento público.
Mais do que insistir apenas na agenda ferroviária, a economista sugere ampliar o olhar sobre o desenvolvimento regional. Para ela, Pernambuco e o Nordeste têm outras contribuições estratégicas a oferecer ao país, como a economia criativa, que desponta como um motor relevante de crescimento e geração de valor, e mesmo dos potenciais do bioma da Caatinga.
5 frases de Tânia Bacelar no podcast:
- “O mapa deixa muito claro que o Nordeste não é prioridade, e a única ligação importante que aparece é a bioceânica chegando ao sul da Bahia.”.
- “Se a gente não planejar o futuro, não acontece, porque ferrovia é um projeto de longo prazo.”
- “A explicação [da baixa prioridade das ferrovias no Nordeste] é econômica: não dá para botar prioridade onde não está o grosso da produção.”
- “Só anunciar que vai fazer o estudo de viabilidade já é um bom sinal, porque ninguém investe sem isso.”
- “A pergunta da viabilidade econômica, para mim, é a pergunta chave desse debate.”
A entrevista completa com a economista Tânia Bacelar está disponível no Pernambucast, podcast da revista Algomais, nas plataformas do YouTube e do Spotify.
