“O Acordo é Uma Oportunidade Estratégica Para Pernambuco Se Integrar às Cadeias Globais” - Revista Algomais - A Revista De Pernambuco
“O acordo é uma oportunidade estratégica para Pernambuco se integrar às cadeias globais”

A assinatura do Acordo Mercosul–União Europeia tende a produzir efeitos relevantes sobre a economia pernambucana, com potencial de ampliar exportações, atrair investimentos estrangeiros e reforçar o papel logístico do Estado. Nesta entrevista à Revista Algomais, o economista Demorval dos Santos analisa os principais benefícios do tratado para Pernambuco, os setores que podem ganhar competitividade e os segmentos mais expostos à concorrência europeia.

Quais os principais benefícios para Pernambuco com a assinatura do Acordo Mercosul–União Europeia?

A assinatura do Acordo Mercosul–União Europeia tende a trazer impactos positivos e relevantes para o crescimento econômico do Estado de Pernambuco, especialmente sob a ótica do comércio exterior e da economia internacional.

Em primeiro lugar, destaca-se a ampliação do acesso ao mercado europeu, bloco que reúne mais de 450 milhões de consumidores e responde por cerca de 15% do PIB mundial, segundo dados da Eurostat (2025). Esse movimento tem sido estratégico diante das restrições impostas pelos Estados Unidos às exportações brasileiras. Ao buscar novas parcerias comerciais e aprofundar relações já existentes, o Brasil amplia suas alternativas no cenário internacional.

Com a redução ou eliminação de tarifas sobre produtos nos quais Pernambuco possui vantagem competitiva — como açúcar, frutas tropicais (uva e manga), sucos e derivados do agronegócio — esses itens ganham maior competitividade. Além da agricultura, o Estado também se destaca na exportação de combustíveis minerais, lubrificantes, máquinas e equipamentos de transporte, produtos químicos e animais vivos. A União Europeia já figura entre os principais destinos das exportações pernambucanas, e o acordo tende a ampliar esse fluxo, reduzindo custos e barreiras comerciais.

Outro benefício importante está no fortalecimento do Complexo Industrial Portuário de Suape como ativo estratégico. Em 2025, o porto movimentou mais de 23 milhões de toneladas, com crescimento consistente no comércio exterior. A intensificação das relações comerciais com a Europa tende a consolidar Suape como hub logístico internacional, atraindo novas rotas marítimas, operadores logísticos e empresas exportadoras.

O acordo também favorece a atração de investimentos estrangeiros diretos (IED). A União Europeia responde por cerca de 40% do estoque de investimentos estrangeiros no Brasil (Banco Central, 2025). Pernambuco torna-se mais atrativo para empresas interessadas em acessar o mercado brasileiro e sul-americano, especialmente nos setores industrial, energético, químico, farmacêutico e de infraestrutura logística. Esse movimento estimula a geração de empregos, a transferência de tecnologia e o aumento da produtividade.

Além disso, o tratado contribui para a inserção de Pernambuco nas cadeias globais de valor, facilitando a integração de empresas locais a redes produtivas europeias, sobretudo em alimentos processados, têxteis, autopeças, insumos industriais e artesanato. Esse processo tende a elevar padrões técnicos, sanitários e ambientais da produção estadual.

Outro ponto relevante é a diversificação da pauta exportadora. Historicamente concentrada em poucos produtos, a economia pernambucana pode ampliar a exportação de bens com maior valor agregado, reduzindo a dependência de commodities tradicionais.

Por fim, os efeitos combinados do acordo podem gerar impactos positivos sobre o desenvolvimento regional, com aumento do comércio exterior, maior atração de investimentos, geração de empregos mais qualificados e elevação da renda, desde que acompanhados por políticas públicas e estratégias empresariais adequadas.

Quais setores ficam mais vulneráveis à concorrência europeia?

O acordo também traz desafios importantes para Pernambuco, especialmente para setores mais expostos à concorrência externa. Esses riscos decorrem do elevado nível tecnológico, da escala produtiva e do apoio institucional característicos da economia europeia.

Um dos segmentos mais sensíveis é o industrial, sobretudo nos ramos de máquinas, equipamentos, produtos químicos, farmacêuticos e bens de capital. Com a redução das tarifas, produtos europeus podem chegar ao mercado brasileiro com preços mais competitivos e maior qualidade percebida, pressionando a indústria local, que enfrenta custos elevados, menor escala e limitações tecnológicas.

O setor têxtil e de confecções também é vulnerável, especialmente nos polos de Caruaru, Toritama e Santa Cruz do Capibaribe. A União Europeia concentra marcas consolidadas, forte investimento em design e tecnologias avançadas de produção. Empresas locais voltadas a produtos de menor valor agregado podem perder espaço.

No setor agropecuário, apesar da competitividade em alguns produtos, há riscos em segmentos como lácteos, carnes processadas, vinhos e derivados alimentícios, dada a forte política de subsídios e os elevados padrões tecnológicos europeus.

Outro grupo afetado pode ser o de serviços associados à indústria e ao comércio — como logística especializada, engenharia e consultoria — onde empresas europeias possuem atuação global e elevada capacidade de investimento.

As pequenas e médias empresas tendem a ser as mais expostas aos efeitos da abertura comercial, por operarem com margens reduzidas, menor acesso a crédito e menor capacidade de inovação.

Assim, embora o acordo represente uma oportunidade estratégica, ele exige adaptação produtiva. Sem políticas públicas voltadas à inovação, qualificação da mão de obra e fortalecimento da competitividade industrial, alguns setores pernambucanos podem perder espaço no mercado interno. A vulnerabilidade, portanto, também funciona como alerta para a modernização da estrutura produtiva do Estado.

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