Em período eleitoral, ficam latentes as diferenças entre a quantidade de candidaturas entre homens e mulheres. Além disso, também se fazem notórias as diferenças como as candidaturas masculinas e femininas trabalham a própria visibilidade nas campanhas. As mulheres estão muito mais expostas ao escrutínio público, por fatores que fogem ao seu controle.
E por que é tão mais difícil para as mulheres falar em público? No livro A linguagem das mulheres políticas: desmecanizar o pensamento é emancipar a fala pública, da Editora Appris, a jornalista Juliana Romão, propõe uma reflexão sobre a relação entre linguagem e poder, atravessada pelo fato de que a fala pública foi criada por e para homens.
Em entrevista à Yuri Euzébio, a jornalista reflete sobre como surgiu a ideia do livro, como esse modelo de fala pública vigente na política é desenvolvido por e para homens, e é elitizado e conservador. Também explica o surgimento desse sistema que beneficia o masculino no debate público, o impacto das redes sociais no ambiente político e a importância da linguagem para a representatividade feminina.

Como surgiu a ideia desse livro?
Juliana Romão – Esse livro é um projeto muito antigo e, de 2023 para cá, fui amadurecendo sobre como o faria. Ele nasce da minha experiência muito pessoal, muito particular de uma conexão forte com a linguagem. Sou jornalista, trabalhei nos jornais, tenho essa relação muito próxima com a linguagem e os incômodos. Sempre tive relação com o uso da expressão pública, a forma como se narra as trajetórias, as pessoas, o uso das flexões do masculino e feminino, as representações originadas por meio da linguagem.
Durante muito tempo dei aula de jornalismo, fala pública e fui me aproximando desse lugar da ambiência política, seja nas minhas pesquisas acadêmicas, seja na minha atuação profissional. Fui compreendendo que ainda que eu considere extremamente importantes cursos de oratória e de media training – porque eles levam quem está fazendo a entender um pouco do jogo e a gente precisa entender do jogo para saber jogar – mas, a minha experiência mostrou que esses cursos têm uma base muito básica. O pano de fundo é entender como as mídias funcionam. Então, se há três pessoas, três mulheres em estágios de atuação pública muito distintas, elas vão terminar fazendo o mesmo curso e uma vai aproveitar muito mais do que a outra. Não é que os cursos são ruins, eles são muito importantes. Mas eles são insuficientes para dar conta da complexidade de cada trajetória.
E aí eu desenvolvi uma formação para a fala pública que contém elementos de oratória e de disposição linguística, mas que traz outras ferramentas, que vêm dos feminismos, da política, da linguagem como um todo, da linguística, mas também da vida de cada uma.

É exclusivamente para o público feminino?
Juliana Romão – Na verdade, não é que eu não faço com homens, é que as mulheres terminam me procurando mais. Acaba sendo um nicho e aí eu fui percebendo que esse ferramental diferente que busca também promover uma segurança para fala pública, que busca entender o contexto histórico da nossa presença na fala pública, da nossa presença no ambiente de poder, na tribuna com o microfone na mão, exigia uma metodologia diferente e uma reflexão diferente.
Fui percebendo que, talvez quando começamos a enxergar a fala pública de uma maneira alternativa, com insumos que possam valorizar a criatividade e a potência das mulheres, sem um lugar de imitação, sem o lugar de projeção para uma fala que viralizou, teríamos muito mais condição de estar com consistência nos espaços de poder, sem ingenuidade. Tentei trazer para o livro o ímpeto das oficinas, que é de se mover numa jornada, ao mesmo tempo de autoconhecimento, mas também de oratória, de linguagem, de contexto político, das violências e de como conseguimos superar as inúmeras barreiras que estão colocadas não só para a mulher no espaço de liderança, mas como liderança no espaço de fala pública, nesse lugar do microfone que é tão desafiador.

Por que é tão mais difícil para as mulheres falarem em público? O que é que explica isso?
É uma marca histórica. Todas as mulheres são desafiadas na fala pública, 100% delas. Vamos mirar a Grécia, Roma, em que o atributo da fala pública é constitutivamente masculino, a qualidade masculina estava na oratória, era uma condição de masculinidade. A condição de feminilidade estava no cuidado, no zelo, no privado. Uma condição absolutamente inexpressiva.
Não se tratava do conceito de gênero feminino, qualquer atributo vinculado à fala pública, à expressão, ao raciocínio, ao intelecto. Então, na trajetória histórica que a gente tem de púlpito, os homens não só têm esse atributo de gênero, mas um atributo biológico que é a fala pública e, portanto, eles têm milênios a mais de experiência e de uma aceitação natural da sua fala. Ao contrário do lado oposto, as mulheres têm um déficit de tempo, de experimentação. Então, historicamente são caminhos muito opostos de uma fala masculina que é sempre reconhecida e aplaudida, independentemente de seu conteúdo, porque o homem que está falando na tribuna, está, na verdade, cumprindo uma expectativa. Quando a mulher vai falar na tribuna, esse estranhamento, descredibiliza a fala que faz com que às vezes o brinco, a roupa, o cabelo, o peso, a idade sejam mensagens que primeiro chegam nas pessoas para depois chegar o conteúdo em si.
Então, não dá para a gente mencionar um discurso que seja neutro, porque na medida em que a gente abre a boca, a cor da minha pele, o meu gênero, minha territorialidade, também estão manifestas e serão julgadas e passadas como mensagem, queira eu ou não. Na medida em que entendemos que existe uma relação direta entre poder, linguagem e participação política, precisamos fazer com que as mulheres consigam manejar a linguagem de uma outra maneira.

A quem se dirige esse livro, quais mulheres você deseja atingir com a obra?
Juliana Romão – Ele se dirige às mulheres políticas. Mas, não só. Especialmente as mulheres da institucionalidade política, parlamentares eleitas, as que são candidatas, as assessorias que também precisam dessa expressão pública, mas as mulheres políticas também no sentido mais amplo, entendendo que toda atuação pública é política, que toda atuação que as mulheres executam e exercem seja no judiciário ou como engenheiras também precisam desse olhar. Então ele também tem uma mirada para todo mundo que quer aprender sobre linguagem ou, mais do que aprender, refletir mais profundamente sobre o poder das palavras e como elas atravessam todas as relações e, portanto, merecem uma atenção especial para todas essas pessoas que desejam aprender, que desejam pensar juntas sobre isso. Mas, ele tem um horizonte muito destinado às mulheres.

Ao que me parece, nos tempos atuais, as redes sociais ocupam um bom espaço dentro do diálogo público e os discursos acabam sendo contaminados dentro dessa realidade, são construídos pensados nos cortes. Qual o impacto dessa nova realidade para as mulheres no jogo político?
Juliana Romão – Eu tenho um capítulo sobre isso também. Sou uma pessoa que lida com as redes sociais de uma maneira muito crítica, sem querer negar a importância para a comunicação. Quantas pessoas, quantas mulheres não teriam a projeção que têm se não tivessem a oportunidade de se comunicar pelas redes sociais? Mas é a forma como se pensa a determinação do algoritmo.
A exigência de uma postagem cotidiana – o stories é uma obrigação de postagem diária – então você vai retirando um processo extremamente importante da fala pública, que é a reflexão, que até é o subtítulo do livro. Quando temos uma fala que é projetada para as redes, em termos discursivos há uma perda imediata de uma troca, de uma capacidade de trabalhar o olho no olho. Há uma perda da reflexão porque termina que tem um roteiro que vai ser lido, há uma perda da naturalidade. A fala pública ou a comunicação em qualquer circunstância é um convite à troca.
Nas redes sociais há uma troca com quem você nem está vendo, é uma troca abstrata, tem uma função muito utilitarista para mais curtidas, mas obviamente que eu também reconheço e usufruo desse espaço que é o maior espaço de comunicação dos nossos tempos.

As redes sociais representam um novo patamar no receio das mulheres diante da fala pública, porque elas são bem mais julgadas do que os homens e já é um ambiente um tanto tóxico na realidade. Isso alterou o cálculo da mulher, ela pensa duas vezes antes de se expor ali?
Juliana Romão – Estamos falando de mulheres políticas e fiz questão de colocar o título no plural, porque as mulheres são muito diversas, há realidades distintas. Claro que essa dificuldade da fala pública é comum em níveis variados. Mas, acredito, sim, que altera o cálculo da fala pública, porque é um espaço de violência que vem de onde você nem está vendo. Gosto de fazer uma linha um pouco mais para trás porque o julgamento sempre existiu. Só que se vou fazer um discurso numa sala, posso sofrer julgamentos e serei julgada com certeza. Mas antes da internet, das redes, era um julgamento daquela sala, daquele público.
Eu não tenho um vídeo que está mirando a minha boca, a cor do batom, o meu decote, a minha saia. Então, esse julgamento sempre existiu quando as mulheres foram para a tribuna. Só que agora ele tem um potencial de expansão pavoroso. Ele permite que, ao mesmo tempo, um discurso seja expandido para pessoas que nunca me viram na vida e ele possa repercutir e influenciar positivamente muitas outras mulheres. É a mesma moeda que faz com que esse mesmo discurso possa fazer uma mobilização de agressão e violência contra as mulheres

Juliana, o quão a linguagem é importante para a representatividade?
É absolutamente fundamental, porque nos expressamos por meio da linguagem. A linguagem atravessa as relações e é por meio dela que conseguimos levantar uma agenda, defender um argumento, mobilizar uma pauta, portanto a linguagem para a representatividade é quase que o caminho possível para atingir um espaço mais amplo, para chegar num espaço de poder com condições de permanecer, de apresentar uma visão de mundo que não está colocada ainda.
Ela apresenta para a sociedade uma realidade quando as mulheres ou a diversidade como um todo, chegam nesses espaços elas precisam conseguir através da linguagem e a linguagem não é só a fala, estamos falando de verbal, não verbal, da palavra simbólica do que vem, mas ela precisa mobilizar através da linguagem outros horizontes de existência que podem formar um mundo diferente.

Como é que o discurso político foi historicamente construído para excluir as mulheres desse espaço?
Juliana Romão – O discurso político foi orientado para excluir as mulheres do ambiente da política, o discurso político masculinizado, elitizado. Quando você pede para uma criança pensar o que é uma pessoa política, ela vai imaginar um homem de gravata na tribuna. Esse é o imaginário e na medida em que historicamente as mulheres são empurradas ao trabalho doméstico, que ainda parece ser o seu destino, então a gente não tem perspectiva para que a mulher esteja num espaço de poder, para que discurse na tribuna.
Se ela tem uma família, tem filhos, ela vai precisar organizar toda essa gestão doméstica, levar os filhos na escola. Se ela não levar, ela precisa ver quem leva. O discurso político acontece muitas vezes no ambiente de madrugada, ele acontece na hora do almoço, ele acontece com a liberdade de quem tem tempo, porque não tem outras obrigações para além daquela.
Isso acontece, apesar da nossa busca incessante por mudanças, por creche, por divisão justa do trabalho doméstico. Temos um avanço, que está em debate na Câmara, que é as mulheres terem, a partir da criação de seus filhos, benefícios adicionais na Previdência, porque cuidar dos filhos é um trabalho enorme. Esse debate, já avançou em outros países para que as mulheres tenham benefícios na Previdência, que cada filho corresponda a anos de trabalho. O sistema exclui as mulheres, pela forma como o mundo se apresenta,em que há quase uma bifurcação: o doméstico está para o gênero feminino e o intelecto está para o gênero masculino.

No livro, você fala em desmecanizar o pensamento. Como fazer isso?
Juliana Romão – É uma proposta de tirar a reflexão do piloto automático porque nós temos essa zona das certezas. A imagem associada aos homens é de poder, é uma imagem de intelecto, de esporte, de negociação, de empresa. Se o raciocínio não repensar esse contexto, vamos preservar e retroalimentar esses estereótipos, essas imagens associadas à política, ao que é masculino e ao que é feminino. Então, desmecanizar o pensamento é tirar o pensamento do piloto automático, é pensar novamente sobre os contextos, sobre a realidade numa perspectiva diversa.
Trazer uma perspetiva alternativa para que possamos olhar o horizonte. É como se fosse desembaçar as lentes, um tecido aveludado para desembaçar as lentes, enxergar essa mesma realidade de uma outra maneira. Desmecanizar o pensamento é enxergar com novas lentes, ver a importância do contexto para que eu possa refletir com a minha própria cabeça.

Só para finalizar agora: apesar das inúmeras barreiras, houve avanços nos últimos anos, não é mesmo?
Juliana Romão – Muitos significativos avanços. É tudo muito difícil, o caminhar é lento e a sabemos pelos últimos anos no Brasil e no mundo que nem todo avanço está estabelecido e é imutável. Então não só os avanços são lentos, como existe uma permanente possibilidade de retrocesso. Mas nós temos uma legislação de violência política de gênero e raça que precisa ser qualificada. Porque ela nasce com muita redução do que ela se pretendia, de proteger as mulheres que estão nesses ambientes de poder e proteger as candidatas, de criminalizar a violência contra essas mulheres, contra essas ativistas.
É um ponto de partida muito importante. Nós temos a presidenta Dilma, que foi nossa primeira presidenta 16 anos atrás. Hoje nós temos presidentas no México, tivemos na Alemanha, começamos a ter uma mobilização. No México, temos a paridade política, há um exercício político de mulheres que vem avançando agora. Mas, é claro que todo avanço, como eu comentei, gera uma reação de enfrentamento. Na verdade, muitas vezes só sabemos que está avançando pelo tamanho da reação.


