“O setor de moda vem enfrentando uma tempestade perfeita.”

Larissa Aguiar

Em um cenário marcado por instabilidade econômica, pressão internacional e mudanças profundas no comportamento do consumidor, o Polo de Confecções do Agreste pernambucano atravessou 2025 sob tensão mas, também, revelou sinais claros de reinvenção. Trata-se de um ambiente desafiador, em que fatores macroeconômicos e transformações globais impactam diretamente o cotidiano de milhares de empreendedores. Ainda assim, o polo demonstra resiliência ao buscar alternativas para se manter competitivo em meio a um mercado cada vez mais exigente e dinâmico. O diagnóstico é de Bruno Bezerra, empreendedor e integrante do Conselho Consultivo da CDL de Santa Cruz do Capibaribe, que acompanha de perto os movimentos de um dos setores mais relevantes da economia regional.

Em entrevista concedida à jornalista Larissa Aguiar, Bezerra traça um panorama detalhado do desempenho recente do polo, apontando a queda nas vendas como um dos principais sinais de alerta. Ele também chama atenção para desafios estruturais históricos que persistem e para um ambiente competitivo cada vez mais complexo, marcado pela presença de produtos importados e pela transformação dos canais de consumo. Ainda assim, o empresário destaca a capacidade adaptativa dos empreendedores locais, uma característica que, segundo ele, tem sido fundamental para garantir não apenas a sobrevivência mas, também, a contínua transformação do setor ao longo dos anos.

Essa capacidade de adaptação se manifesta de diferentes formas, seja na busca por novos mercados, na incorporação de tecnologias ou na reformulação de modelos de negócio. O polo, que historicamente se destacou pela força do atacado, passa agora a dialogar com novas possibilidades, especialmente no ambiente digital. Esse movimento exige não apenas investimentos mas, também, uma mudança de mentalidade em que inovação deixa de ser um diferencial e passa a ser uma necessidade constante para acompanhar as exigências do consumidor contemporâneo.

Como o senhor avalia o desempenho do setor de confecções em Santa Cruz do Capibaribe e no Agreste pernambucano ao longo de 2025? 

O ano de 2025 foi muito difícil para o setor têxtil e de confecções no Brasil inteiro. No Polo de Confecções do Agreste de Pernambuco não foi diferente. Fiz um levantamento com 200 empresas nos meses da alta temporada de fim de ano e 7 em cada 10 relataram que venderam menos em 2025 em relação ao mesmo período de 2024.

O setor de moda vem enfrentando uma verdadeira tempestade perfeita, que drena o caixa dos varejistas e, consequentemente, impacta fabricantes e atacadistas. Além da concorrência desleal das roupas chinesas, há também uma economia desaquecida, pressão inflacionária e renda estagnada, fatores que fazem com que roupas e acessórios percam prioridade no consumo. Ao mesmo tempo, o endividamento das famílias ultrapassa o patamar de 78%, segundo a CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo).

Esse cenário é agravado ainda pela proliferação das apostas online, que vêm funcionando como um ralo financeiro. Em 2025, o brasileiro gastou, em média, R$ 164 por mês com esse tipo de aposta. Segundo dados do Banco Central, os gastos com apostas online chegam a cerca de R$ 30 bilhões por mês no Brasil. Esse dinheiro deixa de circular na economia real, especialmente no comércio popular.

Houve crescimento real no faturamento e na produção ou o setor ainda enfrenta instabilidade pós-pandemia e oscilações econômicas recentes?

No levantamento que realizei com uma amostra de 200 empresas, durante os meses da alta temporada de fim de ano, os dados revelam um cenário de retração no setor. Cerca de 7 em cada 10 empresas relataram que venderam menos em 2025 quando comparado ao mesmo período de 2024, o que evidencia uma queda significativa no desempenho geral do polo nesse intervalo.

Esse resultado indica que, apesar de alguns sinais pontuais de reação, o setor ainda enfrenta instabilidade, reflexo das oscilações econômicas recentes e dos impactos que se prolongaram no pós-pandemia. Ao mesmo tempo, há uma parcela menor de empresas que conseguiu crescer: 2 em cada 10 afirmaram ter vendido mais, demonstrando que, mesmo em um cenário adverso, existem nichos ou estratégias que conseguem gerar resultados positivos.

Por fim, apenas 1 em cada 10 empresas manteve o mesmo nível de vendas do ano anterior, o que reforça a percepção de um ambiente econômico desafiador e pouco estável. Esses números mostram que o setor ainda não alcançou uma recuperação consistente e segue operando sob incertezas, exigindo dos empresários maior capacidade de adaptação e planejamento diante das variações do mercado.

Quais segmentos dentro do Polo de Confecções apresentaram melhor desempenho no último ano e por quê?

Polo de Confeccoes do Agreste de Pernambuco 1

O segmento fitness cresceu de forma expressiva no Polo de Confecções do Agreste, especialmente em Santa Cruz do Capibaribe, consolidando-se como um dos destaques recentes dentro da produção local. Esse avanço não se limita apenas ao aumento do número de empresas atuando nesse nicho, mas também se reflete na diversificação das marcas e na ampliação da presença desse tipo de produto no mercado nacional.

Além da expansão quantitativa, houve também uma evolução significativa na qualidade das peças produzidas. As empresas passaram a investir mais em tecnologia têxtil, acabamento e design, buscando atender a um consumidor cada vez mais exigente. Esse aprimoramento contribuiu para fortalecer a competitividade do segmento, permitindo que os produtos do polo alcancem novos mercados e ampliem sua aceitação.

Esse movimento é resultado direto da reinvenção da moda fitness que, nos últimos anos, incorporou elementos da moda casual. As peças deixaram de ser pensadas exclusivamente para a prática de atividades físicas e passaram a dialogar com tendências de estilo, comportamento e identidade, acompanhando mudanças no modo de vestir da sociedade contemporânea.

Com isso, a moda fitness deixou de ser uma roupa restrita às academias e passou a ocupar um espaço mais amplo no cotidiano das pessoas. Hoje, ela transita por diferentes ambientes e ocasiões, oferecendo conforto, estilo e versatilidade, o que explica, em grande medida, o seu crescimento consistente dentro do Polo de Confecções do Agreste.

Para 2026, quais são as principais expectativas do empresariado local em termos de expansão, geração de empregos e abertura de novos negócios?

Existe uma certa expectativa positiva para o próximo período, impulsionada por fatores conjunturais como o registro de chuvas expressivas em várias regiões do Nordeste, a realização de eleições e a chegada da Copa do Mundo. Esses elementos tendem a aquecer a economia, ainda que de forma pontual, e contribuem para gerar um ambiente de maior otimismo entre os empresários do setor, especialmente no que diz respeito à retomada do consumo.

Ao mesmo tempo, há um movimento estratégico em curso voltado à aceleração da entrada das empresas no ambiente dos marketplaces, como Shopee e Mercado Livre. Esse processo tem ganhado força no polo e reflete a necessidade de adaptação às novas dinâmicas do comércio, cada vez mais orientadas pelo digital e pela ampliação dos canais de venda.

Trata-se não apenas de uma transição do físico para o digital, mas de uma mudança mais profunda no modelo de negócio, que passa a ir além do tradicional foco no atacado, incorporando investimentos mais consistentes no varejo online. Esse cenário cria muitas oportunidades, diversifica as formas de atuação das empresas e amplia a demanda por novos profissionais qualificados para atuar em áreas ligadas aos negócios digitais.

 Hoje, quais são os principais entraves para o crescimento das confecções no Agreste?

São muitos os desafios que ainda se impõem ao crescimento sustentável do setor. Entre os principais, podemos destacar a capacitação profissional, que segue como um eixo estruturante para o desenvolvimento do polo. Pessoas bem preparadas sempre fizeram a diferença, seja na gestão, na produção ou na inovação dos negócios. No entanto, em um contexto marcado pela economia do conhecimento e pela transformação digital, essa exigência se torna ainda mais intensa. Não se trata apenas de qualificar mão de obra para funções operacionais, mas de formar profissionais capazes de atuar em áreas estratégicas, como design, tecnologia, marketing digital e gestão de processos, acompanhando as novas dinâmicas do mercado.

Outro gargalo importante está na logística, que impacta diretamente a competitividade das empresas. A maior parte dos insumos utilizados na produção vêm de outros estados, enquanto uma parcela significativa das mercadorias produzidas no polo é destinada a diversas regiões do Brasil. Esse fluxo constante evidencia a forte dependência do transporte rodoviário que, por sua vez, enfrenta limitações estruturais. Muitas das estradas que interligam as cidades do polo apresentam condições precárias e demandam intervenções que vão desde manutenções básicas até reconstruções mais amplas. Essa realidade encarece o transporte, aumenta o tempo de deslocamento e compromete a previsibilidade das entregas, fatores decisivos em um mercado cada vez mais dinâmico.

Além disso, persistem desafios relevantes na segurança pública (que afetam tanto a circulação de mercadorias quanto a rotina dos trabalhadores e empresários) e no abastecimento de água (que ainda é um ponto crítico para a região). A escassez hídrica impacta diretamente a produção e limita o potencial de expansão das empresas, especialmente em períodos de maior demanda. Esses entraves, somados, revelam que o fortalecimento do polo passa não apenas pela capacidade empreendedora local mas, também, por investimentos estruturais e políticas públicas que garantam condições mais adequadas para o desenvolvimento econômico.

Como a questão da informalidade impacta a competitividade e a sustentabilidade do polo? Há avanços concretos na formalização?

Com os avanços da nova sistemática de tecidos e confecções implementada em Pernambuco em 2016, essa questão deixou de ser um entrave histórico para o setor. A sistemática consiste em um regime tributário de tecidos e confecções de Pernambuco cujo o objetivo principal foi reduzir a burocracia e a carga tributária, beneficiando especialmente micro e pequenas empresas, incluindo confeccionistas que atuam no Agreste pernambucano (como Caruaru, Toritama e Santa Cruz do Capibaribe). A mudança trouxe maior organização e equilíbrio competitivo entre as empresas do polo. Com isso, o ambiente de negócios passou a ser mais previsível e estruturado. Esse novo cenário contribuiu para reduzir distorções que antes prejudicavam parte dos empreendedores. Ao mesmo tempo, fortaleceu as empresas que atuam de forma regularizada. Dessa forma, o que antes era um problema passou a ser um diferencial de competitividade para o polo.

De que forma a concorrência de produtos importados, especialmente os chineses, tem afetado os fabricantes locais? 

Tem impactado de forma relevante o segmento em todo o Brasil, principalmente porque essa disputa não acontece em condições equivalentes. O Polo de Confecções do Agreste produz dentro de uma estrutura formal, com carga tributária elevada, custos trabalhistas significativos e uma série de exigências regulatórias que encarecem o processo produtivo. Em contrapartida, muitos produtos importados chegam ao mercado com uma estrutura de custo muito mais agressiva, sustentada por escala, políticas industriais distintas e, em alguns casos, por ambientes produtivos com menor regulação.

Esse desequilíbrio competitivo se reflete diretamente no comportamento do mercado, sobretudo em segmentos mais sensíveis ao preço. Há, nesse contexto, uma perda de espaço para os fabricantes locais, especialmente entre consumidores que priorizam o menor custo na decisão de compra. Essa pressão se intensifica em períodos de desaceleração econômica, quando o poder de consumo das famílias diminui e o fator preço ganha ainda mais relevância.

Por outro lado, o polo tem reagido com adaptação estratégica, mobilizando características que historicamente marcam o setor. As empresas têm buscado competir por meio da rapidez na produção, da entrega ágil e da capacidade de reposição, além de investir em criatividade, qualidade e maior aderência ao gosto do consumidor brasileiro. Essa combinação de fatores tem permitido ao polo não apenas resistir às adversidades mas, também, reposicionar sua atuação em um mercado cada vez mais competitivo e dinâmico.

O empresário local tem conseguido inovar em design, tecnologia e modelo de negócios para enfrentar essa concorrência internacional?

Ao longo da nossa jornada empreendedora no Agreste, o grande diferencial dos empreendedores de Santa Cruz do Capibaribe tem sido uma capacidade aguçada e ágil de adaptação aos novos contextos. Atualmente, não tem sido diferente quando o assunto é inovação em design, tecnologia e modelos de negócio.

Como o senhor avalia o acesso ao crédito e às políticas públicas voltadas para o setor? Elas têm sido suficientes para impulsionar o crescimento?

Existe ainda uma grande dificuldade em função do excesso de burocracia para acessar crédito mais barato. No Agreste pernambucano, apesar da relevância econômica da atividade, não existe uma linha de crédito específica que leve em conta as particularidades do setor.

A chegada da Transnordestina pode representar uma mudança logística importante para a região. Quais impactos concretos o senhor enxerga para o setor de confecções?

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Todo avanço na infraestrutura logística é bem-vindo, especialmente por incorporar um novo modal à matriz de transporte. Em teoria, a Transnordestina tem potencial para aumentar a eficiência no escoamento da produção, reduzir custos e ampliar oportunidades.

No entanto, é fundamental que o projeto seja concluído e entre em operação. Só a partir disso será possível mensurar com clareza os impactos concretos e os ganhos reais para o polo. 

Pensando no médio e longo prazo, quais são as estratégias essenciais para garantir a competitividade e a sustentabilidade do Polo de Confecções do Agreste pernambucano?

É fundamental termos uma estratégia bem estruturada para capacitar empreendedores e colaboradores. Precisamos dominar e popularizar o modelo de vendas no varejo online. No atacado, é necessário desenvolver estratégias para atrair vendedores digitais que comercializam roupas online, mas não produzem. A frente mais desafiadora é viabilizar novos incentivos fiscais capazes de substituir os atuais, que serão perdidos com a Reforma Tributária.

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