Paisagista e engenheiro analisa o alcance da legislação que estimula e, em alguns casos, determina a instalação de coberturas com vegetação em novas construções no Recife. Ele também ressalta os benefícios que essas estruturas proporcionam à cidade e à população, especialmente diante do avanço das consequências das mudanças climáticas no espaço urbano.
EEm meio a ruas asfaltadas, edifícios verticais e poucas áreas vegetadas das cidades, soluções baseadas na natureza ganham espaço no planejamento urbano contemporâneo. Entre elas, os telhados verdes (estruturas que integram vegetação às coberturas de edifícios) surgem como alternativa capaz de reduzir temperaturas, reter água da chuva e melhorar a qualidade de vida da população.
A discussão sobre esse tipo de solução ganha relevância em um contexto de mudanças climáticas. A predominância de superfícies impermeáveis, como concreto e asfalto, contribui para o fenômeno das ilhas de calor e para o alagamento das vias em dias de chuva. Nesse cenário, iniciativas que reintroduzem áreas verdes no ambiente construído passam a ser vistas não apenas como recursos estéticos ou paisagísticos, mas como estratégias de infraestrutura ambiental capazes de tornar as cidades mais resilientes.
No Recife, a legislação municipal, que incentiva e em alguns casos determina a adoção desse tipo de cobertura em novos empreendimentos, impulsionou a presença dos telhados verdes e ampliou o debate sobre o papel das soluções ambientais na arquitetura.
Em entrevista concedida à repórter Larissa Aguiar, o engenheiro agrônomo, paisagista e mestre em engenharia ambiental, Marcelo Kozmhinsky, analisa os avanços dessa tecnologia no Brasil, especialmente após a criação de legislações urbanísticas que incentivam sua adoção. Considerado uma das principais referências no tema em Pernambuco, Kozmhinsky acompanha há mais de duas décadas o desenvolvimento dos telhados verdes e defende que, além de inovação ambiental, eles representam uma mudança cultural na forma de pensar as cidades.
Como o senhor avalia o cumprimento da legislação que incentiva ou determina a adoção de telhados verdes em áreas urbanas?
De modo geral, a legislação tem sido cumprida, especialmente nos novos empreendimentos. A partir do momento em que a exigência passa a fazer parte das normas urbanísticas e do processo de licenciamento, as construtoras acabam incorporando essa solução aos projetos arquitetônicos. Com o tempo, o que era visto apenas como uma obrigação legal também passou a ser percebido como um diferencial de qualidade ambiental e de valorização dos empreendimentos. Hoje, muitos projetos incluem áreas verdes nas coberturas ou em lajes de estacionamento, além de espaços de convivência associados a essas áreas, como rooftops e jardins elevados.
Os principais desafios não estão necessariamente ligados à resistência das empresas, mas a questões práticas de implantação. Em muitos casos, a dificuldade está no acesso às áreas onde o telhado verde será instalado, sobretudo quando se tratam de lajes amplas ou edificações que não foram originalmente projetadas para receber esse tipo de intervenção. O transporte de materiais, como terra, substrato, plantas e sistemas de drenagem, pode exigir soluções logísticas específicas, especialmente quando não há acesso fácil por elevadores ou escadas adequadas. Ainda assim, esses obstáculos costumam ser superados à medida que o setor ganha mais experiência técnica na execução desse tipo de projeto.
Outro ponto importante diz respeito ao processo de adaptação cultural dentro do setor da construção civil. Toda inovação demanda um período de aprendizado e assimilação. No início, havia dúvidas sobre custos, manutenção e riscos estruturais, como infiltrações. Com o avanço das pesquisas, da experiência prática e da divulgação de projetos bem-sucedidos, essas preocupações foram sendo esclarecidas. Hoje já existe uma compreensão maior sobre os benefícios ambientais e urbanos dos telhados verdes, o que tem contribuído para consolidar essa prática como parte das estratégias de construção mais sustentáveis nas cidades.
Quais são os benefícios ambientais que os telhados verdes trazem para cidades?
Telhados verdes trazem uma série de benefícios ambientais especialmente relevantes para cidades densamente urbanizadas como o Recife, onde a presença de áreas verdes naturais é cada vez mais reduzida. Um dos impactos mais imediatos é a redução da temperatura urbana. Em ambientes com grande concentração de concreto, asfalto e edificações, o calor tende a se acumular, intensificando o fenômeno conhecido como ilhas de calor. Ao introduzir vegetação nas coberturas dos edifícios, os telhados verdes ajudam a amenizar esse efeito, contribuindo para a redução da temperatura do ambiente e para o aumento da umidade relativa do ar.
Outro benefício está relacionado à gestão das águas pluviais. A camada de terra e vegetação presente no telhado verde funciona como um sistema natural de retenção da água da chuva, absorvendo parte desse volume antes que ele seja direcionado para a rede de drenagem urbana. Em cidades que enfrentam episódios frequentes de chuvas intensas e alagamentos, essa retenção contribui para reduzir a sobrecarga das galerias pluviais e diminuir a velocidade com que a água chega às ruas. Além disso, ao transformar superfícies antes impermeáveis em áreas com vegetação, os telhados verdes também ajudam a reintroduzir biodiversidade no ambiente urbano, criando pequenos habitats que podem atrair pássaros, insetos e outros organismos.
Que impactos os telhados verdes podem gerar na qualidade de vida urbana?
Um dos efeitos mais perceptíveis está relacionado ao conforto térmico dentro das edificações. A vegetação e a camada de substrato funcionam como uma espécie de isolante natural, reduzindo a incidência direta do sol sobre a laje. Com isso, os ambientes internos tendem a permanecer mais frescos, diminuindo a necessidade de climatização artificial e o consumo de energia elétrica.
Outro aspecto importante é o bem-estar visual e psicológico proporcionado pela presença de áreas verdes. Em muitos edifícios, moradores e trabalhadores convivem diariamente com paisagens dominadas por concreto e estruturas rígidas. Quando um telhado verde é implantado, esse cenário se transforma, oferecendo uma vista mais agradável e natural. Essas coberturas também podem se tornar espaços de convivência quando integradas a áreas de lazer ou rooftops, funcionando como ambientes de descanso, encontros e atividades ao ar livre, e contribuindo para tornar os espaços urbanos mais humanos e acolhedores.
Quais as principais dificuldades para a implantação de telhados verdes em edifícios já existentes?
Do ponto de vista técnico, uma das principais dificuldades está relacionada à capacidade estrutural da construção. Nem todas as edificações foram projetadas originalmente para suportar o peso adicional de um sistema desse tipo, que inclui camadas de drenagem, substrato e vegetação. Dependendo da configuração do projeto, um telhado verde pode acrescentar entre 100 e 250 quilos por metro quadrado à estrutura. Por isso, antes de qualquer intervenção, é fundamental que um engenheiro realize uma avaliação técnica para verificar se a laje suporta essa carga com segurança.
Outro desafio envolve o acesso às áreas onde o telhado será instalado. Em muitos edifícios, especialmente os mais antigos, a logística para transportar materiais até a cobertura pode ser complexa, já que terra, substrato, plantas e outros componentes precisam ser levados até a laje. Além disso, é necessário garantir impermeabilização adequada, drenagem eficiente e manutenção periódica da vegetação, incluindo poda, irrigação e controle das espécies plantadas, cuidados essenciais para preservar a estrutura e o bom funcionamento do sistema ao longo do tempo.
Custa muito caro implantar um telhado verde?
A percepção de que o telhado verde é uma solução muito cara ainda existe, mas está associada ao período inicial de difusão dessa tecnologia no Brasil. Como acontece com muitas inovações, os primeiros projetos costumam ter custos mais elevados, seja pela falta de experiência técnica, seja pela necessidade de importar materiais ou adotar soluções construtivas mais complexas. Com o tempo, porém, o desenvolvimento de novas técnicas, a ampliação do conhecimento sobre o sistema e a adaptação das soluções à realidade local contribuíram para tornar a implantação mais acessível.
Hoje já é possível executar telhados verdes com diferentes níveis de complexidade, desde sistemas mais simples, com gramados ou vegetação de pequeno porte, até projetos mais elaborados com jardins e áreas de convivência. Em muitos casos, a simplificação das estruturas e o uso de materiais disponíveis localmente ajudam a reduzir custos. Quando se observa o longo prazo, os benefícios tendem a compensar o investimento inicial, seja pela redução da temperatura interna das edificações e do consumo de energia, seja pela maior proteção da laje contra variações térmicas, o que pode aumentar a durabilidade da estrutura.
Como o telhado verde pode contribuir para a gestão das águas pluviais em cidades com histórico de alagamentos, como o Recife?
A legislação municipal que trata dos telhados verdes também prevê a adoção de mecanismos complementares de controle das águas pluviais, entre eles os chamados tanques de retardo. Esses reservatórios são instalados, em geral, nas áreas subterrâneas das edificações e funcionam como estruturas de armazenamento temporário da água da chuva. Em vez de permitir que toda a água captada pelos telhados e superfícies impermeáveis seja direcionada imediatamente para a rede de drenagem urbana, os tanques acumulam esse volume e o liberam gradualmente, evitando sobrecargas repentinas no sistema pluvial da cidade.
O telhado verde atua como uma primeira camada de controle hídrico. A presença do substrato – a camada de terra e vegetação que compõe o sistema – permite que parte significativa da água da chuva seja absorvida e retida temporariamente. Esse processo diminui a velocidade com que a água escorre para as tubulações e para as ruas, reduzindo o impacto das precipitações intensas, especialmente em períodos de chuvas fortes.
Quando os telhados verdes são associados aos tanques de retardo previstos na legislação, cria-se um sistema integrado de gestão das águas pluviais dentro da própria edificação. A água que não é absorvida pela vegetação é direcionada para os reservatórios, onde permanece armazenada por um período, antes de ser liberada lentamente para a rede urbana. Na prática, essa combinação contribui para reduzir o volume imediato de água que chega às galerias pluviais, ajudando a minimizar alagamentos e a melhorar o funcionamento do sistema de drenagem da cidade.
A adoção desse tipo de solução depende mais de regulamentação pública ou de uma mudança cultural na forma como pensamos a construção e o planejamento urbano?
Depende de ambas. A legislação tem um papel fundamental nesse processo, porque estabelece diretrizes e incentivos que acabam impulsionando a implementação dessas soluções. No caso do Recife, a exigência do telhado verde em determinadas edificações passou a fazer parte do processo de licenciamento urbano, o que levou construtoras e incorporadoras a incorporarem essa prática aos seus projetos. A partir do momento em que a lei entra em vigor, o setor da construção civil precisa se adaptar e desenvolver soluções técnicas para atender às novas exigências.
No entanto, a legislação por si só não garante uma transformação completa. Existe também uma dimensão cultural importante nesse processo. Temas, como sustentabilidade, meio ambiente e planejamento urbano sustentável não faziam parte central da formação de muitos profissionais da área. Hoje, essa realidade começa a mudar. As novas gerações que chegam às universidades têm maior contato com essas discussões e tendem a incorporar, de forma mais natural, práticas que valorizam a integração entre cidade e natureza.
Para proprietários interessados em instalar um telhado verde em casa, quais são os cuidados?
O primeiro passo é verificar a capacidade estrutural da construção. É fundamental que um engenheiro realize uma avaliação técnica da laje e emita um laudo que comprove que a estrutura suporta o peso adicional do sistema. Dependendo do tipo de telhado verde a ser implantado, a carga pode variar significativamente, já que envolve camadas de drenagem, substrato, vegetação e, em alguns casos, sistemas de irrigação. Sem essa análise prévia, a instalação não é segura e pode representar riscos para a estrutura da edificação e para os moradores.
Com a viabilidade estrutural confirmada, o projeto passa para as etapas técnicas de implantação, que incluem a impermeabilização da laje e a instalação das camadas que compõem o sistema do telhado verde, como drenagem, filtragem e o substrato que servirá de base para o plantio. Também é importante escolher espécies vegetais adequadas às condições do telhado, considerando fatores como exposição ao sol, vento, profundidade do substrato e necessidade de manutenção. Em muitos casos, optam-se por gramados ou plantas de baixo porte, justamente para evitar danos à estrutura.
Existe diferença entre os telhados verdes instalados em residências e os utilizados em grandes edifícios?
A lógica básica é a mesma. Todo telhado verde possui camadas estruturais: drenagem, filtragem, substrato e vegetação. O que muda é a capacidade de carga e o tipo de vegetação escolhida. Algumas coberturas comportam apenas gramados ou plantas rasteiras, enquanto outras podem receber arbustos e até pequenas árvores.
Há exemplos inspiradores de telhados verdes no mundo?
Existem vários exemplos interessantes que mostram como essa solução pode ir muito além de um simples jardim na cobertura. Nos Estados Unidos, algumas grandes edificações transformaram áreas extensas de telhados em espaços produtivos, com hortas urbanas e até apiários para criação de abelhas. Esses projetos demonstram como um espaço antes sem uso pode se transformar em um ambiente vivo, que produz alimentos, melhora o microclima e cria novas possibilidades de convivência.
No Brasil também há iniciativas inspiradoras, como a do Shopping Eldorado, em São Paulo, que implantou uma grande horta em sua cobertura e utiliza compostagem para reaproveitar resíduos orgânicos dos restaurantes. Outro exemplo está no Vietnã, onde uma escola foi projetada com um telhado verde acessível para os alunos, funcionando como espaço de aprendizado e contato com a natureza. Experiências como essas mostram que os telhados verdes podem ter usos diversos e ajudar a reconectar as pessoas com a natureza mesmo dentro das cidades.
Pensando no futuro das cidades, qual deve ser o papel de soluções baseadas na natureza no urbanismo?
As soluções baseadas na natureza devem ter um papel cada vez mais relevante no planejamento urbano. Com o crescimento das áreas construídas e os impactos das mudanças climáticas, iniciativas como telhados verdes, jardins, áreas permeáveis e maior arborização ajudam a reduzir o calor, melhorar a drenagem da água da chuva e tornar os ambientes urbanos mais equilibrados e agradáveis para as pessoas.
O telhado verde é uma alternativa importante para as cidades, mas a verdadeira solução continua sendo plantar árvores, especialmente em cidades densamente urbanizadas, onde há pouca disponibilidade de espaço para novas áreas verdes. Ainda assim, é importante lembrar que eles funcionam como complemento às soluções mais amplas de urbanismo sustentável.

