Pernambucana Marcela Dias leva ao circuito paulista a exposição inédita UMBO

A artista pernambucana Marcela Dias inaugura, no dia 28 de março, a exposição individual UMBO em São Paulo, em uma articulação que amplia a presença da produção nordestina no circuito contemporâneo de artes visuais. Realizada pela Marco Zero em parceria com a Galeria Claraboia, a mostra reúne 22 obras inéditas produzidas entre 2025 e 2026 e segue em cartaz até 2 de maio. Com texto crítico assinado por Ariana Nuala, a exposição se estrutura como um recorte consistente da pesquisa pictórica da artista, marcada por experimentações que tensionam a ideia de imagem acabada.

Em UMBO, a pintura se apresenta menos como representação e mais como campo de investigação. As telas são construídas a partir de camadas sucessivas, onde cores diluídas convivem com áreas de apagamento e reconfiguração. O gesto pictórico, longe de ser ocultado, é exposto como parte fundamental da obra: raspagens, diluições e acúmulos revelam os caminhos percorridos pela artista, aproximando o espectador do próprio processo de criação.

Essa lógica processual dialoga com o conceito de pentimento, em que marcas de versões anteriores permanecem visíveis, instaurando uma temporalidade expandida na superfície da tela. Em vez de ocultar o erro ou a revisão, Marcela Dias os incorpora como elementos constitutivos da imagem, criando composições que parecem sempre em estado de latência.

O conjunto de trabalhos evita a fixação em uma leitura única. Embora evoquem, em alguns momentos, paisagens ou formas orgânicas, as imagens escapam de qualquer definição estável. Operam em uma zona intermediária entre memória e invenção, sugerindo territórios que se constroem por sobreposição e deslocamento. O título da exposição, UMBO, reforça essa ideia ao remeter a um ponto de emergência — uma espécie de núcleo a partir do qual a forma se projeta e reorganiza o espaço ao redor.

A leitura crítica de Ariana Nuala sublinha o caráter quase orgânico dessas composições, comparando-as a estruturas que se expandem a partir de si mesmas, criando espaços internos e camadas de sentido. Nesse contexto, cada obra se configura como um campo aberto, onde a pintura não apenas se apresenta, mas se pensa enquanto acontece.

Os títulos atribuídos às obras ampliam esse horizonte interpretativo. Expressões como cordilheiras invisíveis, janelas e jardins e pequenas explosões silenciosas funcionam como extensões poéticas da imagem, sem, no entanto, delimitá-la. Ao contrário, atuam como dispositivos que convidam o público a atravessar a superfície da pintura e construir seus próprios percursos de leitura.

Formada e mestre em Artes Visuais pela Universidade Federal de Pernambuco, a artista vem consolidando uma trajetória marcada pela coerência investigativa. Exposições recentes, como Longe, enfim, na Garrido Galeria, e Desertos e esconderijos, no Acervo Diária, já indicavam esse interesse por processos abertos e pela materialidade da pintura. Sua produção também integra o acervo do Banco do Nordeste.

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