Pernambuco: uma breve história do Leão do Norte

A História de Pernambuco, que passou a ser disciplina obrigatória no currículo das escolas da rede estadual de ensino a partir deste ano, é rica em personagens, revoltas, movimentos libertários, e insurreições que até hoje são evocadas quando nos referimos ao estado como sendo o "Leão do Norte". Os mais entusiastas dizem que o conceito de pátria brasileira foi forjado aqui, nas guerras travadas para expulsar os holandeses, com muito sangue e suor dos indígenas, lusos e escravizados que pegaram em armas contra um inimigo comum. Os pernambucanos nunca foram de baixar a guarda, nem de reconhecer a superioridade daqueles que queriam dominá-los. Nem internamente, como aconteceu na Guerra dos Mascates em 1710, nem externamente quando enfrentou o autoritarismo de D. João VI em 1817 e de seu filho D. Pedro I em 1824.

Fomos de lutas épicas: expulsamos os holandeses em 26 de janeiro de 1654 quando eles assinaram a sua rendição no campo do Taborda, demos o primeiro grito de República nas Américas em 10 de novembro de 1710 no antigo Senado da Câmara de Olinda com Bernardo Vieira de Melo, durante a Guerra dos Mascates (feito lembrado por Oscar Brandão da Rocha no seguinte trecho do Hino de Pernambuco "a República é filha de Olinda"), embora esta república tenha sido muito mais inspirada nas repúblicas italianas do que no modelo republicano propriamente dito.

A Revolução Pernambucana de 1817 foi um marco na História brasileira por ter sido a única revolta do período colonial que ultrapassou a fase de conspiração e conseguiu de fato tomar o poder durante 75 dias (alguns historiadores falam em 74 dias), sendo inclusive a data magna do Estado – 6 de março, porque nesta data o capitão José de Barros Lima, que ficou conhecido como o “leão coroado”, reagiu a voz de prisão dada pelo militar português Manoel Joaquim Barbosa, matando-o a golpes de espada, o que acabou se tornando o estopim para a revolta. Esta espada encontra-se atualmente na sede do Instituto Arqueológico, Histórico, Geográfico Pernambucano (IAHGP), que fica na Rua do Hospício, centro do Recife.

Não escondemos que uma das causas do fracasso do movimento foi a contradição entre libertar os escravos ou manter a estrutura escravista que sustentava os engenhos, o qual fez com que os grandes senhores de engenho retirassem seu apoio à causa revolucionária. Isso sempre será lembrado nas comemorações anuais da Revolução Pernambucana de 1817, cuja bandeira elaborada pelo padre João Ribeiro, até hoje empunhamos com orgulho. Não por acaso, foi escolhida como a bandeira mais bonita do Brasil em algumas votações.

Quanto aos mortos de 1817, existem várias estatísticas, e os que morreram foram em sua maioria vítimas da repressão do governo joanino instalado no Rio de Janeiro, que prendeu, condenou e executou personagens memoráveis como: Domingos José Martins (noivo de Maria Teodora Costa, eternizados no romance histórico "A Noiva da Revolução" do escritor Paulo Santos de Oliveira, depois transformado no filme "1817 - A Revolução Esquecida" dirigido por Tizuka Yamazaki), Frei Miguelinho, padre Roma. Foi a primeira vez que se condenaram padres no Brasil, daí esta revolta também ser chamada de Revolução dos Padres.

A repressão joanina mandou Frei Caneca para os cárceres baianos, e profanou o corpo do padre João Ribeiro, arrastado de Paulista a Recife, mesmo depois de sepultado na capela do Engenho Paulista. Seu crânio hoje descansa desde 29 de outubro de 2001 numa lápide na Igreja de Santa Isabel, logo na entrada do templo religioso, após passar décadas nas dependências do Instituto Arqueológico, Histórico, Geográfico Pernambucano.

Onze meses antes do "Grito do Ipiranga" antecipamos a emancipação política quando Gervásio Pires e Francisco de Paula Cavalcanti assinaram em 5 de outubro de 1821 a Convenção de Beberibe, acordo que reconheceu a autonomia da Junta Governativa eleita em outubro de 1821, formada por brasileiros, que governou Pernambuco de 26 de outubro de 1821 até setembro de 1822.

Durante o período imperial, nos levantamos contra o autoritarismo de D. Pedro I na gloriosa Confederação do Equador de 1824, liderada por ninguém menos que Joaquim do Amor Divino Caneca, Frei Caneca, que dizia "quem bebe de minha caneca, tem sede de liberdade", um dos poucos personagens históricos brasileiros que nenhum carrasco quis executar, sendo morto por arcabuzeamento (naquela época não podemos falar em fuzilamento, uma vez que os fuzis ainda não haviam sido inventados) em vez de enforcamento. Perdermos a Comarca da Bahia em 1824 como castigo (assim como perdemos Alagoas em 1817), mas quem disse que nos acovardamos?

Em 1848 os liberais pernambucanos, do Diário Novo, que ficava na rua da Praia lançaram um manifesto ao mundo, cujas pautas lançadas há mais de 150 anos permanecem pertinentes e atuais. A Revolução Praieira até hoje ecoa nos versos de Chico Science quando nas ladeiras históricas de Olinda a multidão em dias carnavalescos canta a plenos pulmões "A Praieira". E não parou por aí. Tivemos a Revolta Sebastianista do Rodeador (1820), a Pedrosada (1823), a Guerra dos Cabanos (1832), a Revolta da Pedra do Reino (1825), o Ronca da Abelha (1851), o Cangaço (final do século XIX e começo do século XX), as Ligas Camponesas (década de 60 do século XX), etc.

Quem tem Frei Caneca, André Vital de Negreiros, Henrique Dias, Felipe Camarão, Clara Camarão, Anna Paes, Branca Dias, Bernardo Vieira de Melo, Padre Roma, Frei Miguelinho, Padre João Ribeiro, José de Barros Lima (Leão Coroado), Antônio Gonçalves Cruz (Cabugá), Gervásio Pires Ferreira, Malunguinho, Lampião, Francisco Julião, e as heroínas de Tejucupapo não flerta com o despotismo, com o fascismo e muito menos com regimes de exceção. Não é por acaso que Pernambuco até hoje é conhecido como o "Leão do Norte". Somos guerreiros por natureza, rebeldes por ideal, e libertários por essência!

Jose Ricardo historiador

*José Ricardo de Souza é historiador, professor da rede pública estadual de ensino e escritor. Sócio honorário do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano (IAHGP) e membro da Academia de Letras e Artes da Cidade do Paulista (ALAP).

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