Marília Arruda: "Precisamos criar centros de enfrentamento climático nas cidades brasileiras"
Foto: Tânia Rego (Agência Brasil)

Os mais recentes acontecimentos na Zona da Mata Mineira confirmam meu sentimento de que, já faz tempo, estamos falhando assustadoramente diante da crise climática, infelizmente fingindo que alertas bastam. A crise climática não é mais previsão científica remota, é realidade cotidiana. As consequências dos eventos extremos estão se repetindo com violência crescente, colapsando territórios e ceifando vidas. E, mesmo assim, seguimos reagindo como se cada tragédia fosse surpresa. Não são mais inesperadas, vão acontecer!

Alguns avanços importantes foram feitos. Existe investimento do Governo Federal, sobretudo por meio do Cemaden  (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais). Mas fico me perguntando, para que serve um alerta via SMS ou o toque de uma sirene se as pessoas não sabem o que fazer? De que adianta avisar sobre o risco se não há treinamento, rotas definidas, protocolos claros e comunidades preparadas?

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Alertas isolados salvam muito menos vidas do que a preparação adequada. Isso é adaptação climática, e as cidades precisam se adaptar. Essa questão virou consenso técnico, discurso político e pauta de conferência. Mas ainda não é prioridade real na agenda dos governantes. Existe orçamento estruturado, continuidade administrativa e planejamento de longo prazo? Ou seguimos presos ao ciclo da descontinuidade política, em que cada gestão desmonta o que a anterior iniciou?

O Plano de Adaptação Climática brasileiro foi aprovado ano passado, na teoria, mas, na prática, pouco saiu do lugar. E por quê? Porque nosso sistema político tende a valorizar cargos comissionados passageiros e a negligenciar servidores de carreira que desenvolvem conhecimento técnico continuado. Faltam investimentos em formação continuada, institucionalidade, compromisso com a permanência das políticas públicas. Temos também a Política Nacional de Educação Ambiental que, em 2024, incluiu a crise climática como elemento obrigatório nos currículos escolares. Todavia, pouco tem sido feito e posto em prática. 

Enquanto isso, os desastres se intensificam e nós continuamos atuando amadoristicamente: os gestores, a sociedade civil, as comunidades e até os pesquisadores. Quando o caos chega, e ele tem chegado com cada vez mais frequência, ninguém se entende. Escolas são improvisadas como abrigos, multiplicam-se campanhas emergenciais, vaquinhas virtuais surgem às milhares. O brasileiro é, sem dúvida, solidário, mas profundamente desorganizado. Doações se acumulam sem coordenação e, depois, vem a triagem tardia de roupas, móveis, alimentos, água, colchões... Sempre a mesma improvisação.

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Se sabemos que vai acontecer, por que continuamos atuando como se fosse inesperado? A crise climática, não resta mais nenhuma dúvida, não é eventual, é estrutural. Portanto, a resposta também precisa ser estrutural. É uma questão de lógica elementar.

Nenhum, repito, nenhum, gestor público no Brasil estruturou até hoje um CEC (Centro de Enfrentamento Climático) – nome que criei com minha vontade de salvar o mundo e combater a crise climática. Um equipamento permanente, ativo o ano inteiro, dedicado exclusivamente à preparação e à resposta organizada aos eventos extremos (em um local seguro, livre de alagamentos e deslizamentos, evidentemente).

E o que seria isso? Um centro que receba doações contínuas previamente organizadas, que mantenha estoque estratégico, equipe treinada, preparada psicologicamente para atuar sob pressão. Que funcione em parceria permanente com a Defesa Civil, formando lideranças comunitárias, capacitando escolas, treinando servidores e, sobretudo, preparando as comunidades mais vulneráveis, as que sempre pagam o preço mais alto pela crise climática.

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Treinar rotas de fuga, simular evacuações, ensinar protocolos, organizar redes de resposta, deixar engatilhado o que hoje só é pensado quando a água já invadiu as casas ou o barranco já desceu. Na hora do desastre, não haveria dispersão de esforços, haveria coordenação. Não haveria improviso, haveria planejamento. Não haveria desespero desorganizado, haveria comando, estratégia e capilaridade para alcançar simultaneamente os territórios afetados.

Poderia ser o local ideal para abrigar as pessoas desalojadas e desabrigadas em tempos de crise, sem parar o ensino das escolas. Nele pode funcionar uma cozinha solidária que durante todo ano teria funcionalidade e, até mesmo, um espaço de capacitação para pessoas interessadas. 

Isso não é utopia, é uma política pública responsável que valoriza vidas!

Adaptar cidades não é apenas fazer obra necessária de drenagem e reconstruir o que foi perdido. Deve ir muito mais além disso: formar pessoas, estruturar instituições, criar cultura de prevenção. É tratar a crise climática como política de Estado e não apenas como indispensável pauta corretiva após cada tragédia dramaticamente divulgada.

Não podemos mais continuar romantizando a solidariedade emergencial enquanto negligenciamos a organização prévia. A crise climática exige maturidade institucional e coragem política. Exige menos improviso e mais estrutura. Não precisamos ser amadores diante de algo que já sabemos que virá.

Precisamos decidir se queremos continuar contando mortos ou começar, finalmente, a contar vidas salvas.

*Marília Arruda é doutora em Alterações Climáticas e Políticas de Desenvolvimento Sustentável, pela Universidade de Lisboa, gestora ambiental e criadora do Goles de Ciências Recife.

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