*Por Stênio de Coura Cuentro
Com pouco mais de 18 anos passei no vestibular de engenharia civil na UFPE e dei de cara com um mundo novo, absolutamente desconhecido, mas rico e valioso pelo aprendizado, os amigos e professores. Em 1976, conheci o professor Joaquim, na cadeira de Materiais. Figura altiva, calmo, sereno, atencioso. Um professor. Todo mundo gostava de assistir às suas aulas.
“Sabe como se fabrica o cimento? Primeiro você extrai a rocha calcária, moe, coloca no alto forno… A brita, pedra britada, vem da pedreira e depois de triturada é peneirada, separada pelo tamanho, brita 19, 25, 38… Já o aço é classificado por sua bitola que varia de resistência, 3.4, 5.0, meia polegada…” Assim mesmo. Cada segredo era aberto, descrito, explicado, muito bem detalhado. Fim da aula e muitos acompanhavam o professor no corredor fazendo mais e mais perguntas. E, com isso, atraia nossa atenção, admiração e respeito.
Uma montanha de saberes, conselhos, conversas, simplicidade. Um verdadeiro mestre. Aliás, esse batismo apareceu na minha frente pelas falas de Ronald, Paulinho e Rui, todos o chamavam de Mestre. Mestre Quinca, assim o tratamos pelo resto da vida. Estavam lançados os alicerces de uma ponte que ao longo da vida se ampliou e consolidou.
Como seu aluno, estagiário e engenheiro na empresa Hadan e nas dezenas de anos seguintes, por mais importante que fosse o cargo que ocupei, sempre o tratamos de Mestre. Ele, engenheiro, professor, consultor, empresário, o Mestre Quinca traz enormes lembranças de carinho, sinceridade e amizade, como na primeira viagem que fizemos aos Estados Unidos para conhecer novas tecnologias para habitação popular. Ele dizia que a poltrona do avião fora projetada para sujeitos de meu tamanho, nunca o dele, impossível acomodar aquelas longas pernas nas apertadas fileiras da classe econômica.
Cansou de dizer que era a primeira viagem internacional e a culpa era minha, de Rui e de Érico. Por cima do aperto físico, veio a perda do passaporte na chegada. “Como isso acontecera? Coisa de matuto viajando pro exterior. Devia ter ficado em casa”, disse e repetiu, mas, ao mesmo tempo, mostrando humildade para conhecer novas tecnologias e disposição para trabalhar. Assim ampliava, sempre, as pontes que construíra a vida toda e fazia questão de consolidar com todos.
Poderia passar o tempo todo contando e detalhando a admiração e o respeito ao nosso Mestre. Mas agora, convido a todos, especialmente o prefeito do Recife, Victor, nosso colega, para eternizar a lembrança de um grande engenheiro que veio lá do interior, formou-se com sacrifício, esforço e perseverança e dedicou toda vida a ensinar, transmitir aos jovens uma boa engenharia, exercer com dignidade os cargos que lhe conferiram, ser um exemplo de Mestre e construtor das mais sólidas pontes que o ser humano conhece: a confiança, a fé no saber e na experiência e o respeito humano.
Vamos batizar a nova ponte do Cordeiro no Recife de Mestre Joaquim Correia, o Mestre Quinca. Topa prefeito?

*Stênio de Coura Cuentro É presidente licenciado da Abenc/PE (Associação Brasileira de Engenheiros Civis – Pernambuco)

