São José do Belmonte, o Sebastianismo e a Serra do Catolé

*Por Geraldo Eugênio

Tendo como inspiração as Cruzadas – movimento católico tradicionalista, ocorrido entre os Séculos 12 e 13, que visava a retomada de Jerusalém, conquistada por Saladin – Portugal, logo após a grande façanha dos descobrimentos, sob liderança do rei D. Sebastião, um jovem de 24 anos, iniciou uma campanha malsucedida, no Marrocos. A guerra resultou na morte do monarca em combate na batalha de Alcácer-Quibir, em 1578, quando tentava combater a expansão do Império Otomano no Norte da África. A derrota devastadora e sua morte em combate moldou Portugal culturalmente e politicamente por séculos, preso a um ativismo católico, tendo como base o retorno rei para libertar Portugal do julgo espanhol entre 1580 e 1640. Essa história foi uma força que manteve o país de costas para a Europa até que a formação da União Europeia, na segunda metade do Século 20, finalmente o resgatasse desse isolamento atávico.

Este movimento foi tão marcante que atravessou o Atlântico e influenciou dois movimentos no Brasil em pleno Século 19. O primeiro, no Sertão de Pernambuco, na localidade conhecida como Serra do Catolé, hoje no município de São José do Belmonte, distando 474 km de Recife, em que dois beatos, João Antônio e João Ferreira, entre 1836 e 1838, fundaram uma seita que tinha como princípio o fato de o rei D. Sebastião estar escondido em dois rochedos de formação granítica, a Pedra do Reino, e que a personificação do líder ocorreria quando as pedras fossem banhadas de sangue humano. Este é o pano de fundo para um dos romances mais emblemáticos de um dos mais importantes escritores brasileiros, o paraibano-pernambucano Ariano Suassuna. O outro, no Sertão da Bahia resultando nos livros Os Sertões, de Euclides da Cunha e A Guerra do Fim do Mundo, de Mario Vargas Llosa, ilustrando a façanha de Antônio Conselheiro e seus devotos.

os sertoes vargas

ARIANO SUASSUNA LIGA O MOVIMENTO ARMORIAL À PEDRA DO REINO

Formatou-se no Recife, entre os anos 50 e 60 do século passado, um movimento cultural, liderado por Ariano, que tinha como raiz elementos do mundo mouro, do cangaço, do vaqueiro e como centro geográfico, a Serra do Catolé, onde o fato histórico ocorreu e no qual o escritor se baseou para o romance e o movimento.

Ao redor de quatro décadas após o lançamento do movimento armorial, foi concebida em São José do Belmonte uma cavalgada que, segundo o amigo Antônio de Alberto, em sua primeira edição, em 1993, contou com 13 cavaleiros, a segunda com 30 e as últimas edições com até dois mil participantes. A partir de 1995, fundiu-se o movimento armorial, o romance Pedra do Reino, a cavalgada e a construção de um ambiente cultural único no município da Pedra do Reino, que alberga todas essas manifestações culturais. Durante este mês de comemorações, que começou em julho com a cavalgada, contam-se com dezenas de eventos musicais, de cantoria, histórias e de culinária. Neste caso, enaltecendo a culinária sertaneja e tornando o coquinho catolé, que ainda se encontra sendo vendido nas feiras e mercados do Sertão na forma de rosário, no principal ingrediente para um festival gastronômico que ocorreu em plena praça pública em que se homenageava o escritor Ariano.

pedra reino

CRIOU-SE UMA IDENTIDADE CULTURAL ÚNICA

São José de Belmonte e Triunfo têm se destacado por investir em se tornarem centros turísticos de referência no Sertão de Pernambuco, o que é algo louvável, uma vez que, associando-se à Princesa Isabel, município da Paraíba, Floresta e Serra Talhada, em Pernambuco, formam um verdadeiro núcleo de uma programação cultural que pode se estender por todo o ano, atraindo turistas de todo o País. Um dos mais importantes atrativos logísticos é o fato de Serra Talhada contar com um aeroporto cuja pista foi recentemente ampliada para 1.800 metros, podendo receber aeronaves de médio porte e o fato de a maior distância a ser percorrida é uma visita a Floresta, com 95 quilômetros, ou às áreas de banho da barragem de Itaparica, um pouco mais distante. Princesa e São José do Belmonte encontram-se a 60 quilômetros e Triunfo a meros 35 quilômetros.

sao jose belmonte

Anuncia-se o início real, com máquinas trabalhando, da duplicação da principal rodovia do estado que liga o Sertão à capital, a BR-232, no trecho entre São Caetano a Belo Jardim, adicionando-se 29 quilômetros aos 150 duplicados. É um grande anúncio para uma rodovia que não se expande há 30 anos, desde quando o processo de duplicação alcançou São Caetano. Entre Belo Jardim e Serra Talhada ainda restam 240 quilômetros, mas não dá para deixar de ressaltar o esforço de todos empenhados nesse projeto, destacando-se o Governo Federal, o empresariado e, principalmente, o CREA-PE que nunca abandonou a luta pela ampliação da rodovia e da ferrovia Transnordestina entre Salgueiro e o Porto de Suape.

Outras regiões usarão os elementos que forjam a identidade regional aproveitando ao máximo o fato de que Pernambuco é mais do que a riqueza arquitetônica e cultural do Recife, as belas praias, o Carnaval e os festejos juninos e se abre uma corrida por novidades e manifestações que mantenham os municípios com um calendário atrativo durante todas as estações. Triunfo e São José do Belmonte saíram à frente. Que outros percebam quão importante é a iniciativa e sigam seus passos.

Deixe seu comentário

Assine nossa Newsletter

No ononno ono ononononono ononono onononononononononnon