Num momento em que conteúdos da internet estimulam garotos a comportamentos agressivos contra as mulheres e impõe um padrão de beleza e atitude recatada para meninas, psicólogos realizam projeto exitoso ao trabalhar gênero em ambiente escolar onde essas questões são discutidas.
A misoginia e a violência contra a população feminina estão cada vez mais perceptíveis no cotidiano, seja com manchetes da mídia sobre feminicídios, seja no aumento de conteúdos ligados à chamada “machosfera” nas redes sociais. Como criar filhos que não sejam seduzidos por esse ambiente de agressividade misógina? Para os psicólogos Edna Granja e Daniel Costa Lima é essencial oferecer aos meninos um espaço de escuta e acolhimento das suas dúvidas e inseguranças. E, ao invés de apontá-los como vilões dessa realidade, fazê-los entender que, assim como as meninas, eles também são vítimas desse padrão socialmente imposto que impele o homem a dominar e a não demonstrar seus sentimentos. Mais importante é revelar aos meninos que eles podem ser parte ativa de uma mudança sobre o comportamento de gênero na sociedade.
A partir desse entendimento, Edna e Daniel criaram o projeto Fazendo Gênero na Escola, em instituições de ensino do Recife. Atualmente eles atuam no Instituto Capibaribe. Mais do que inserir o debate de gênero no ambiente escolar, a proposta busca construir espaços de escuta, reflexão e ação que impactem não apenas estudantes, mas também as famílias e profissionais da educação.
Nesta entrevista a Larissa Aguiar, eles revelam os resultados do projeto, os desafios de executá-lo e os caminhos possíveis para pensar gênero, educação e saúde mental em um cenário contemporâneo cada vez mais complexo.
Como surgiu o projeto Fazendo Gênero na Escola?
Daniel: O projeto surge do encontro entre nossas trajetórias. A gente se conhece desde a graduação em psicologia na UFPE e, ao longo dos anos, construímos caminhos próximos, tanto na pesquisa quanto na atuação profissional, especialmente no campo de gênero, masculinidades e prevenção de violências. Existia um desejo antigo de fazer algo juntos e o Fazendo Gênero na Escola foi o primeiro projeto que a gente construiu em parceria. Mas ele não nasce só de um desejo nosso, também responde a uma demanda das escolas. As questões de gênero atravessam o cotidiano escolar o tempo todo nos conflitos, nas relações, nas situações de violência, nos silêncios também. Algumas escolas começaram a reconhecer isso e a buscar formas mais estruturadas de trabalhar essas questões.
Edna: É importante dizer que nossos filhos estudam na escola onde o projeto hoje está mais consolidado, então vemos essas questões acontecerem de perto, e isso também foi mobilizando a gente a pensar: o que é que a gente pode construir? A primeira experiência acontece em 2023, de forma piloto, em duas escolas do Recife, a Arco-Íris e o Instituto Capibaribe. Foi um momento de testar metodologia, de entender como esse trabalho poderia acontecer dentro da escola, principalmente com adolescentes. Com o tempo, no Instituto Capibaribe, o projeto foi ganhando mais espaço, mais continuidade, até se tornar algo integrado à própria dinâmica da escola.
Daniel: Hoje ele funciona quase como um projeto institucional lá, com uma presença contínua, dialogando com a grade curricular, com os professores, os estudantes e as famílias.
Como acontece na prática o projeto?
Edna: A principal estratégia é sair do modelo tradicional de ensino e apostar na roda de conversa e nos grupos reflexivos. A gente cria um espaço onde os adolescentes não estão sendo ensinados, mas convidados a falar e a construir junto. As encenações de situações do cotidiano também ajudam muito, porque trazem o debate para a realidade deles e permitem pensar outras formas de agir.
Daniel: Uma questão central é ampliar o lugar dos meninos nesse debate. Historicamente, quando se fala em gênero, eles aparecem como problema ou como agentes de violência, e isso, muitas vezes, os afasta. O que tento fazer é construir um outro convite: mostrar que eles também são atravessados por essas normas, que sofrem com elas e que podem ser parte ativa de uma transformação. Isso passa por reconhecer, por exemplo, o silêncio emocional que marca muitas trajetórias masculinas, como foi a minha própria experiência, e abrir espaço para que possam nomear sentimentos, construir vínculos e desenvolver formas mais saudáveis de se relacionar.
Edna: Eu e Daniel compartilhamos a mesma perspectiva: não é possível falar de gênero sem considerar os vínculos, as histórias e os contextos em que esses jovens estão inseridos. Enquanto Daniel traz uma experiência muito consolidada no trabalho com masculinidades e com grupos de homens, eu entro com um olhar que atravessa a clínica, a psicanálise e as relações familiares. Isso permite construir uma escuta mais ampla, que não se limita ao comportamento visível, mas tenta compreender o que está por trás, os afetos, os silêncios, as repetições. Nada disso funciona isoladamente. Envolver a escola e as famílias é fundamental para sustentar esse ambiente de escuta.
Quais são as principais resistências que surgem nesse trabalho?
Daniel: Vivemos um contexto em que o debate de gênero é atravessado por desinformação e por uma certa demonização do tema, isso já cria uma resistência inicial, principalmente fora da escola, nas famílias e no debate público de modo geral. Entre os adolescentes, a resistência aparece mais de forma sutil. Muitos meninos, por exemplo, chegam mais fechados, mais silenciosos, às vezes com desconfiança, porque estão acostumados a serem colocados nesse lugar de problema quando o assunto é gênero.
O que a gente faz é não reforçar esse lugar. A gente convida esses meninos a se reconhecerem como parte da solução, cria um espaço onde eles possam falar sem serem julgados. Com o tempo, isso vai abrindo brechas. Muitas vezes eles não falam tanto no grupo, mas se expressam depois, de outras formas e a gente percebe que a reflexão está acontecendo.
Edna: Nas famílias, a resistência costuma vir do desconhecimento ou do medo do que significa falar de gênero na escola. Por isso, uma estratégia é incluir as famílias no processo, abrir espaço para diálogo, explicar a proposta e escutar as inquietações delas. Quando isso não acontece, pode gerar ruído, os adolescentes começam a trazer questões para casa e, se não há esse preparo, pode causar estranhamento.
No caso das instituições, a maior barreira é o contexto conservador que, por muito tempo, afastou esse debate da escola. Por isso, o projeto só acontece em espaços com alguma abertura e compromisso com essas discussões.
Como vocês analisam o crescimento de discursos ligados à chamada “machosfera?
Daniel: Há um elemento comum que atravessa esses discursos: a ideia de que existe um modelo único e verdadeiro de ser homem, que teria sido supostamente ameaçado ou distorcido por transformações sociais, especialmente pelos avanços dos movimentos feministas. Mas, pesquisadores da área apontam que nunca houve uma única forma de ser homem. As masculinidades sempre foram diversas, atravessadas por contextos históricos, culturais e sociais distintos.
Os discursos da chamada “machosfera” não chegam até os meninos por acaso. Eles ocupam um espaço que, muitas vezes, está vazio. São meninos que não encontram lugares legítimos de escuta, onde possam falar sobre suas inseguranças, frustrações, dúvidas sobre identidade e afetos. Esses grupos oferecem pertencimento, linguagem simples e uma espécie de manual, com respostas rápidas para questões complexas com regras claras sobre como agir no trabalho, nas amizades e, principalmente, nas relações com as mulheres. O problema é que as respostas geralmente vêm carregadas de misoginia.
Isso impacta a construção das masculinidades porque reforça modelos rígidos: o homem que não pode demonstrar fragilidade, precisa dominar e ver o afeto como fraqueza. E a violência, nesse contexto, continua encontrando espaço porque ela é, muitas vezes, uma das poucas linguagens que os meninos aprendem para lidar com frustração, rejeição ou sentimento de inadequação. A gente percebe isso no silêncio, muitos meninos não conseguem nomear o que sentem, mas isso aparece em comportamentos, em isolamento, ou até em falas mais duras, mais defensivas.
Ao mesmo tempo, é importante dizer que eles não são apenas produtores dessa violência, mas também vítimas desse sistema. Eles estão submetidos a uma pressão enorme para corresponder a um ideal de masculinidade que é inalcançável e, muitas vezes, solitário. Quando não conseguem, buscam nesses espaços uma forma de se reconhecer.
Especialistas defendem a importância de ampliar os espaços de diálogo e escuta, oferecendo alternativas mais complexas e inclusivas para que os meninos possam pensar suas identidades. Em vez de respostas prontas, o desafio está em reconhecer a multiplicidade das masculinidades e construir caminhos que permitam formas mais diversas de ser homem.
Quais as principais dificuldades apresentadas pelos meninos?
Daniel: A dificuldade de lidar com as próprias emoções. Especialistas apontam que, muitas vezes, falta referência concreta de figuras masculinas que expressem afeto, vulnerabilidade e respeito no cotidiano. Mais do que o discurso, é o exemplo que forma.
Quando há um descompasso entre fala e prática, o resultado pode ser confusão e reforço de modelos mais rígidos de masculinidade. A manutenção dessa “armadura” emocional contribui para o silenciamento dos afetos e dificulta a elaboração de frustrações.
O que falta, muitas vezes, é a vivência concreta de outras formas de ser homem: relações baseadas no respeito, especialmente com as mulheres, e a possibilidade real de expressar emoções no dia a dia. Elementos fundamentais para reduzir comportamentos violentos e ampliar repertórios emocionais mais saudáveis.
Quais as principais pressões e vulnerabilidades que acometem as meninas, especialmente em relação aos padrões de beleza, às redes sociais e à violência?
Edna: Do lado das meninas, o cenário também é muito duro, mas se expressa de outras formas. As pressões sobre o corpo, a aparência e o comportamento são constantes e intensificadas pelas redes sociais. Existe uma exigência de performar uma feminilidade muito específica, que envolve ser desejável mas, ao mesmo tempo, respeitável. Isso gera sofrimento, insegurança e uma vigilância constante sobre si mesmas.
A violência aparece de forma muito concreta: o assédio, o medo, os relatos de situações que atravessam o cotidiano delas. E isso não é algo distante, é algo que elas reconhecem, nomeiam e vivenciam. Muitas meninas já chegam com alguma familiaridade com o debate de gênero, mas isso não significa proteção. Ao contrário, muitas vezes elas estão mais conscientes das violências, mas continuam expostas a elas.
Daniel: A partir da puberdade, muitas passam a vivenciar uma sensação de insegurança nos espaços públicos, marcada pelo olhar e pela abordagem de homens, muitas vezes mais velhos. Esse cenário limita a liberdade, gera medo e impõe uma preocupação precoce com a própria proteção. Esse conjunto de pressões faz com que meninas muito jovens precisem lidar com questões que não deveriam ocupar esse lugar tão cedo em suas vidas, afetando sua relação com o corpo, com o mundo e com os outros.
E o que é desafiador é que esses dois universos se encontram dentro da escola. De um lado, meninos tentando entender o que significa ser homem em um cenário de muitas cobranças e poucas referências saudáveis; do outro, meninas lidando com pressões intensas e com a necessidade constante de se proteger. Sem mediação, isso pode gerar mais conflito e incompreensão.
Edna: Por isso, o caminho sempre se estreita no diálogo. Quando a gente cria espaços reais de escuta, algo começa a se deslocar. Os adolescentes conseguem reconhecer padrões, questionar, se reposicionar. Surgem outras possibilidades: outras formas de ser, de se relacionar, de existir. Não é um processo rápido, mas é possível e necessário.
O que vocês têm aprendido com esses adolescentes?
Edna: Uma das coisas mais fortes que esse processo tem reforçado para mim é a potência do diálogo. Não é só conversar, é realmente se colocar disponível para escutar, rever posições e construir algo junto. Os adolescentes mostram o tempo todo como esse espaço faz falta e como ele pode ser transformador quando existe de verdade.
Daniel: Para mim, tem sido um aprendizado muito grande sobre essa geração. A gente, como adulto, acha que entende o que é ser adolescente porque já passou por isso, mas a realidade deles hoje é muito diferente, principalmente por causa da presença da internet e das redes sociais. Eles vivem uma mistura de conexão e solidão que é muito própria do nosso tempo. Isso me fez perceber o quanto a escuta precisa ser mais atenta e menos baseada nas nossas referências.
E, pensando em gênero, isso tudo reforça uma ideia que já existia, mas que ganha mais força: não dá para trabalhar essas questões sem considerar o contexto emocional desses jovens. Falar de gênero também é falar de saúde mental, de pertencimento, de como estão construindo suas relações. Isso amplia muito o olhar e muda a forma como a gente se coloca nesse trabalho.
Qual é o papel das famílias nesse processo?
Daniel: Passa por reconhecer que as identidades de gênero não são fixas, mas constantemente performadas no cotidiano. Meninos crescem, muitas vezes, pressionados a sustentar uma ideia de masculinidade que exige controle emocional, força e distanciamento afetivo, como se precisassem provar o tempo todo que são homens de verdade.
Uma das funções centrais das famílias é ajudar a tornar esse processo visível. Ao compreender que muitos comportamentos são construídos socialmente, os adolescentes podem se sentir menos pressionados a corresponder a padrões rígidos. Isso abre espaço para que experimentem diferentes formas de ser, com mais liberdade e menos cobrança.
Pais e referências masculinas têm um papel decisivo ao oferecer modelos mais abertos de masculinidade, que incluam afeto, vulnerabilidade e responsabilidade emocional. Ao legitimar essas dimensões, contribuem para que adolescentes desenvolvam relações mais saudáveis consigo mesmos e com os outros.
Quais resultados o projeto tem proporcionado para realizar essa transformação?
Daniel: Entre os resultados está a incorporação de uma “lente de gênero” no cotidiano escolar. Esse olhar permite que equipes pedagógicas compreendam melhor dinâmicas entre estudantes e até comportamentos recorrentes, como o de meninos que expressam inseguranças por meio de atitudes disruptivas.
A abordagem também contribui para que alunos e alunas reconheçam como normas de gênero influenciam suas relações, expectativas e escolhas. Um exemplo recorrente é a percepção de que, entre meninos, o bom desempenho escolar nem sempre é valorizado, podendo inclusive gerar constrangimento entre pares.
A inclusão das famílias no debate amplia o alcance das reflexões e fortalece a compreensão coletiva sobre o tema. A longo prazo, a expectativa é que esse conjunto de mudanças contribua para ambientes mais conscientes, relações mais equilibradas e trajetórias escolares menos atravessadas por desigualdades de gênero.
Edna: No cotidiano a gente percebe pequenas mudanças. Um exemplo são as atividades de encenação: quando eles trazem situações reais da escola e, depois, conseguem recriar essas cenas de outra forma, reposicionando falas, atitudes, relações. Isso mostra que eles não só identificam a questão, mas já conseguem imaginar outras possibilidades de agir.
Também aparecem mudanças em temas como padrões estéticos, relações afetivas e até como passam a olhar para dentro de casa. Às vezes surgem falas do tipo: “meu pai diz que posso chorar, mas eu nunca vi ele chorar”. Esse tipo de reflexão mostra que algo já está sendo elaborado.
Daniel: Outro sinal é quando essas discussões atravessam a casa. Quando eles começam a levar esses temas para a família, a questionar, a conversar, isso mostra que o impacto saiu da sala e entrou na vida. E, no fim das contas, é aí que a gente entende que a ressignificação está acontecendo de verdade.

