*Por Elton Alves | Foto: Freepik
O ambiente de academia é, em geral, muito mais seguro do que se pode imaginar. Quando olhamos para os dados, percebemos que as taxas de lesões graves são baixas; a maioria dos problemas é leve e, sobretudo, passível de prevenção. Os benefícios de saúde do exercício superam e muito os riscos.
Estudos internacionais apontam que a maior parte das lesões é musculotendínea, concentrada em ombros e nos membros inferiores, e costuma estar associada a erros de técnica, cargas acima da capacidade do praticante ou progressão inadequada. É importante ter esses dados em mãos para dissipar a ideia de que os acidentes se resumem a falhas catastróficas de equipamentos ou outros possíveis perigos do ambiente.
Há formas de mensurar a incidência de lesões e uma delas é comparar a quantidade de eventos por 1.000 horas de treino. Dentro dessa perspectiva, estudos apontam que a musculação apresenta taxa de aproximadamente 0,24 a 1 lesão para cada 1.000 horas de treino, valores comparáveis ou até menores do que os observados em muitos esportes coletivos. Mesmo modalidades mais intensas, como o CrossFit, mostram incidências próximas de 2 a 3 lesões por 1.000 horas, um resultado semelhante ao de outras atividades físicas recreativas, que cai ainda mais quando há supervisão adequada.
No cenário brasileiro, as pesquisas realizadas com praticantes de musculação em academias relatam que a maior parte das pessoas não sofre episódios que exijam afastamento prolongado, e muitos eventos são dores ligadas à fadiga ou à má execução. É importante ressaltar que os principais gatilhos de lesão não são "perigos intrínsecos" da academia mas, sim, comportamentos de risco, como aumento de carga sem planejamento adequado, treinar sem orientação profissional, ignorar sinais de dor ou copiar treinos de amigos ou influenciadores digitais.
Essa perspectiva é fundamental para o debate público pois mostra que a responsabilidade precisa ser compartilhada entre gestão, profissionais e usuários. Para lidar com problemas estruturais e eventos adversos, normas internacionais e nacionais regem os ambientes de treinamento. As normas internacionais para academias tratam esses espaços como ambientes de saúde e orientam triagem cardiovascular na admissão do praticante, especialmente em pessoas com maior risco. Também são recomendados planos de emergência, presença de profissionais capacitados em suporte básico de vida, DEA (desfibrilador externo automático) disponível e manutenção periódica dos equipamentos.
Outros pontos são o controle de lotação, sinalização de riscos, instruções claras de uso das máquinas e supervisão profissional ativa. No Brasil, resoluções do sistema Confef (Conselho Federal de Educação Física)/Cref (Conselho Regional de Educação Física) estabelecem anamnese e triagem de risco, limites de alunos por profissional, registro de incidentes e procedimentos de emergência. Além disso, a vigilância sanitária condiciona o funcionamento à licença específica, boas condições estruturais, responsável técnico habilitado e cumprimento das normas de segurança contra incêndio e pânico. Podendo variar entre estados e municípios, há ainda exigência de DEA e de profissionais treinados em primeiros socorros.
Do ponto de vista de saúde pública, o risco de se manter sedentário é incomparavelmente maior do que o risco de frequentar uma academia. A literatura científica indica com robustez que atingir cerca de 150 minutos semanais de atividade física moderada está associado a reduções no risco de mortalidade, doenças cardiovasculares e vários tipos de câncer, com ganhos particularmente grandes em quem sai do sedentarismo.
No caso específico da musculação, estudos indicam que apenas 30 a 60 minutos semanais de atividades já podem trazer reduções de 10% a 17% em mortalidade geral, doenças cardiovasculares, câncer e diabetes, mesmo quando se controla a influência da atividade aeróbica. Isso significa que deixar de treinar por medo de um evento raro e pontual aumenta muito mais o risco de adoecer e morrer precocemente do que continuar frequentando uma academia organizada e bem supervisionada.
Quando essas boas práticas são implementadas, a academia se mostra como um ambiente estruturado de promoção de saúde, no qual o risco é comparável ou inferior ao de outras atividades cotidianas que normalmente encaramos sem medos. O debate público deve se apoiar em dados como esses para mostrar que o melhor caminho não é fugir das academias mas, sim, exigir qualidade na gestão, qualificação profissional e na segurança, para que cada vez mais pessoas se tornem adeptas de uma prática que tem muito a contribuir com a sua saúde.

*Elton Alves é profissional de educação física e especialista em treinamento feminino e de alta performance.


