“Ser punk no Recife é uma forma de questionar estruturas, provocar reflexão e buscar transformação”

A  trajetória de Cannibal, vocalista da banda Devotos, confunde-se com a própria história recente da cultura periférica do Recife. Nascido Marconi de Souza Santos em Vitória de Santo Antão e criado no Alto José do Pinho, o artista construiu, a partir de vivências marcadas por desigualdades, uma obra musical que ultrapassa os limites do punk e se firma como instrumento de transformação social. Em entrevista concedida à jornalista Larissa Aguiar, Cannibal revisita memórias, reflete sobre identidade, resistência e aponta caminhos possíveis para as juventudes das periferias.

Ao longo de mais de três décadas de carreira, a banda Devotos se consolidou como uma das vozes mais contundentes da música independente brasileira, sobretudo por sua capacidade de traduzir em som e atitude as tensões sociais vividas nos territórios marginalizados. Mais do que uma banda, o grupo tornou-se referência de engajamento comunitário, ajudando a ressignificar a imagem do Alto José do Pinho, historicamente estigmatizado pela violência e invisibilidade.

A entrevista percorre desde a infância de Cannibal até sua inserção no movimento punk e sua relação com o efervescente cenário cultural pernambucano, incluindo o diálogo com o Manguebeat. Em cada resposta, emerge uma visão de mundo que articula arte, política e afetividade como ferramentas de transformação.

Você cresceu no Alto José do Pinho. Que memórias da infância nesse território mais marcaram sua formação humana e artística?

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Nasci em Vitória de Santo Antão, mas cheguei ainda muito pequeno ao Alto José do Pinho, onde fui criado e vivi toda a minha infância. Minhas memórias mais marcantes são da vida na rua, da liberdade de brincar o dia inteiro com os amigos soltando pipa, jogando bola de gude, correndo pelas ladeiras e escadarias de barro. Era uma infância coletiva, muito intensa, em que a gente saía de casa de manhã e só voltava à noite. Mesmo com as dificuldades, existia uma alegria muito grande em viver aquele cotidiano simples mas cheio de movimento e descoberta.

Também me marcou muito o senso de comunidade. Naquela época, poucas casas tinham televisão, então a gente se reunia na casa de um vizinho para assistir aos programas. Lembro especialmente das gincanas de bairro, quando praticamente a rua inteira se juntava para torcer pelo Alto José do Pinho. Esses momentos criavam um sentimento forte de pertencimento, de estar junto, de compartilhar experiências, algo que foi essencial para a minha formação humana.

Do ponto de vista artístico, o Alto sempre foi muito rico culturalmente. Cresci vendo de perto manifestações como caboclinho, maracatu, escolas de samba, quadrilhas juninas e festas populares. O bairro era efervescente, cheio de música, dança e expressões culturais que aconteciam no dia a dia, não como espetáculo distante, mas como parte da vida. Tudo isso me atravessou de forma muito profunda e, mesmo antes de pensar em fazer música, já estava ali sendo formado por essa diversidade cultural.

Como você descreveria o ambiente cultural do Alto José do Pinho nas décadas em que você cresceu? Que expressões artísticas circulavam ali antes mesmo da sua inserção na música?

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O Alto José do Pinho, nas décadas em que cresci, era um território extremamente efervescente do ponto de vista cultural. Mesmo sendo uma periferia marcada por dificuldades sociais, a arte estava presente no cotidiano de forma orgânica, viva, acontecendo nas ruas, nos clubes e nas festas populares. Não era algo distante ou elitizado, era parte da vida das pessoas. Havia uma circulação constante de manifestações que misturavam tradição, festa e identidade comunitária.

O Carnaval, por exemplo, era muito forte dentro do bairro, com troças, bois, caboclinhos e escolas de samba como a Gigantes do Samba e a Galeria do Ritmo, que mobilizavam a comunidade inteira. As festas juninas também tinham grande destaque, com quadrilhas e grupos locais, como a Raízes do Pinho, que mantinham viva a cultura popular. Além disso, o Clube Bom Sucesso funcionava como um importante polo cultural, trazendo artistas de fora e promovendo shows que aproximavam o bairro de diferentes sonoridades e referências musicais.

Antes mesmo da minha inserção na música, eu já estava cercado por essa diversidade artística. Era comum ver apresentações, ensaios abertos e manifestações culturais acontecendo de forma espontânea. Tudo isso contribuía para um ambiente criativo e inspirador, onde a arte não era apenas entretenimento, mas uma forma de expressão coletiva e afirmação da identidade do território. Foi nesse cenário que minha sensibilidade artística começou a ser construída, muito antes de eu imaginar que seguiria esse caminho.

 O nome Cannibal é forte e carregado de significado. De onde ele vem e o que ele representa dentro da sua trajetória?

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O nome Cannibal surgiu ainda na adolescência, como um apelido ligado à minha aparência na época. Eu estudava no colégio e, quando comecei a deixar o cabelo mais enrolado, algumas pessoas diziam que eu parecia um canibal. No início, nem foi algo que pegou de imediato, mas dentro do movimento punk, onde quase ninguém se chamava pelo nome de batismo, os apelidos eram comuns e foi assim que Cannibal acabou ficando e me acompanhando até hoje.

Com o tempo, esse nome deixou de ser apenas um apelido e passou a carregar um significado muito mais profundo dentro da minha trajetória. Ele representa força, resistência e, principalmente, transformação. Tudo aquilo de negativo que eu vivi, preconceito, exclusão, violência, eu aprendi a ressignificar. Em vez de devolver com raiva, eu transformo em arte, em música, em diálogo. É como pegar o que seria destrutivo e converter em algo construtivo, coletivo, que possa gerar mudança.

Hoje, Cannibal simboliza essa postura diante da vida: a capacidade de transformar dor em potência e de ocupar espaços diversos sem abrir mão de quem eu sou. É também sobre acreditar na mudança, não só individual, mas coletiva, principalmente quando penso nas novas gerações. Mais do que um nome artístico, ele se tornou uma identidade que carrega essa ideia de resistência com sensibilidade, de lutar, mas sem perder a ternura e a vontade de construir um mundo melhor.

Como surgiu a banda Devotos e quais foram os principais desafios enfrentados no início, especialmente sendo uma banda punk vinda da periferia do Recife?

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A banda Devotos surgiu muito a partir do incentivo de amigos dentro do próprio movimento punk do Recife, especialmente de Lael (baixista da banda SS20 umas das primeiras bandas de punk do Recife), ele insistia para que eu formasse uma banda. No começo, eu não tinha esse interesse, queria apenas fazer parte do movimento, mas chegou um momento em que ele praticamente determinou que aquilo ia acontecer. A partir daí, nasceu a ideia da banda, inicialmente com o nome Devotos do Ódio, já carregando essa força contestadora típica do punk. O início foi totalmente intuitivo: a gente não sabia tocar, mas tinha vontade de se expressar, de falar sobre o que vivia.

O maior desafio era a falta de estrutura. A gente não tinha instrumentos, não tinha dinheiro, não tinha acesso fácil a equipamentos ou estúdios. Ensaiávamos de forma improvisada, muitas vezes simulando uma bateria em sofá, aprendendo na prática, errando e acertando juntos. Por isso, desde o começo optamos por fazer músicas autorais, era a única forma possível, já que não dominávamos a técnica para tocar covers. Ao mesmo tempo, isso acabou sendo um diferencial, porque nos deu liberdade para criar nossa própria identidade sonora e discursiva.

Além das dificuldades materiais, havia também o peso do preconceito e da violência institucional. Por sermos jovens, periféricos e punks, éramos constantemente abordados pela polícia, principalmente quando voltávamos dos shows, muitas vezes tratados como suspeitos e humilhados. Mesmo assim, a banda se manteve firme, transformando essas experiências em música e posicionamento. A Devotos nasceu desse contexto adverso, mas com um propósito muito claro: usar a arte como ferramenta de denúncia e transformação social, sem sair do lugar de origem, mas buscando mudar a realidade ao redor.

O que significa ser punk no Recife, uma cidade com tantas camadas culturais? Existe um “punk recifense” com identidade própria?

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Ser punk no Recife, para mim, nunca foi apenas uma questão estética ou musical, é uma visão de tudo, uma atitude diante da vida. Vai muito além do moicano, da jaqueta ou do som acelerado. É uma forma de pensar e agir, de questionar estruturas, de provocar reflexão e buscar transformação. Desde o início, eu entendi o punk como um caminho de desconstrução, de fazer as pessoas enxergarem outras possibilidades dentro da própria realidade em que vivem.

No contexto do Recife, isso ganha uma camada ainda mais profunda, porque a própria vivência na periferia já carrega elementos muito fortes dessa postura punk. Crescer com poucas oportunidades, enfrentando desigualdades e, ainda assim, encontrar formas de existir, resistir e até ser feliz com o pouco que se tem, isso é extremamente punk. Existe, sim, uma identidade própria, porque ela nasce desse território, dessa experiência social específica, onde a revolta precisa ser canalizada para não virar destruição, mas sim transformação.

Então, o “punk recifense” se constrói muito mais na prática do que na aparência. Ele está na atitude de querer mudar o ambiente ao seu redor, de usar a arte como ferramenta de crítica e construção, de não aceitar passivamente as injustiças. É uma postura que mistura resistência, criatividade e consciência social. No fim das contas, ser punk aqui é transformar a realidade a partir de onde se está, sem precisar negar as próprias raízes.

Você vivenciou o período do Manguebeat. Como foi sua relação com esse movimento e de que forma ele dialogava (ou não) com o som e a postura da Devotos?

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Eu acompanhei de perto o surgimento do Manguebeat e considero que foi um dos momentos mais importantes para a cultura de Pernambuco. Até então, havia uma certa estagnação, e de repente surge um movimento que valoriza a diversidade cultural, que conecta tradição e modernidade e coloca o Recife no mapa de forma potente. Foi algo que não movimentou só a música, mas também outras linguagens como o cinema, as artes visuais e a moda, criando uma efervescência cultural muito forte.

A relação dos Devotos com o Manguebeat foi de respeito e diálogo, mesmo com diferenças sonoras claras. A gente já vinha do punk, com uma pegada mais crua e direta, e não mudou isso para se encaixar no movimento. Mas, ao mesmo tempo, havia uma conexão muito forte na temática: tanto o punk quanto o Manguebeat falavam de questões sociais, da realidade das periferias, das contradições da cidade. Isso aproximou as linguagens e permitiu que a gente circulasse dentro daquele cenário sem perder nossa identidade.

Fomos muito bem recebidos por artistas do movimento, e isso fortaleceu ainda mais essa troca. Existia uma abertura para diferentes expressões, e o fato de o Manguebeat reunir tantas sonoridades distintas facilitava essa convivência. No fim, o diálogo aconteceu muito mais pelo conteúdo e pela postura do que pelo estilo musical em si. Era uma convergência de ideias, de inquietações e de vontade de transformar a realidade a partir da cultura.

Como você enxerga hoje a realidade social do Alto José do Pinho? O que mudou desde a sua juventude e o que permanece como desafio?

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Hoje eu enxergo o Alto José do Pinho como uma comunidade que conquistou algo fundamental: autoestima. Na minha juventude, isso praticamente não existia. A gente crescia vendo o bairro associado apenas à violência, sempre retratado nas páginas policiais, o que fazia com que muitos moradores tivessem vergonha de dizer de onde vinham. Com o tempo, principalmente a partir do fortalecimento da arte e da música na comunidade, essa percepção começou a mudar. Hoje há um sentimento de pertencimento e orgulho muito mais presente.

Essa transformação também passa pelo protagonismo dos próprios moradores. Iniciativas culturais, bandas locais, movimentos comunitários e projetos como rádios comunitárias ajudaram a construir uma nova narrativa sobre o território. O Alto passou a ser visto não só pelos problemas, mas pela sua potência cultural. A presença de atividades artísticas, ensaios, eventos e até o reconhecimento institucional, como a criação de polos culturais no Carnaval, mostram que houve avanços importantes nesse processo de valorização.

Ao mesmo tempo, ainda existem muitos desafios. Questões estruturais como desigualdade social, falta de oportunidades e acesso limitado a políticas públicas continuam presentes, assim como em tantas outras periferias. A diferença é que hoje existe uma consciência maior dentro da própria comunidade sobre o seu valor e sobre a necessidade de continuar lutando por melhorias. Essa combinação entre autoestima e mobilização talvez seja uma das maiores conquistas e também o caminho para enfrentar o que ainda precisa mudar.

Ao longo da sua trajetória, a música sempre esteve conectada à denúncia social. Você acredita que o punk ainda cumpre esse papel de resistência nos dias de hoje?

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Ao longo da minha trajetória, a música sempre foi uma ferramenta de denúncia e de posicionamento, e acredito que o punk continua cumprindo esse papel de resistência, sim. Enquanto existirem desigualdades, injustiças e silenciamentos, vai existir a necessidade de uma linguagem que confronte tudo isso de forma direta. O punk nasce justamente dessa urgência de falar, de incomodar, de expor o que muita gente prefere não ver.

O que muda hoje são as formas e os contextos. A gente vive em um mundo diferente, com outras tecnologias e outras dinâmicas de comunicação, mas a essência permanece. O punk não está preso a uma estética ou a uma época específica. Está na forma como você se posiciona diante das injustiças, como você usa a arte para provocar reflexão e como você transforma revolta em construção, em vez de deixar isso virar apenas destruição.

Então, mais do que nunca, o punk segue sendo necessário. Talvez ele apareça de maneiras diferentes, em outros formatos e linguagens, mas continua sendo uma ferramenta potente de resistência, principalmente para quem vem das periferias. É uma forma de dizer que a gente existe, que a gente pensa, que a gente cria e que a gente não aceita passivamente as condições que nos são impostas.

Qual foi a sua percepção sobre o evento Mocó Filosófico? Que importância iniciativas como essa têm para o pensamento crítico e a cultura periférica?

Moco Filosofico Chico e Cannibal

Minha percepção sobre o Mocó Filosófico foi muito positiva. Achei um espaço potente de diálogo, de troca de ideias e de reflexão, algo essencial quando a gente pensa em transformação social. Ter a oportunidade de falar sobre minha trajetória, sobre música, sobre urbanismo e sobre a realidade da periferia em um ambiente aberto ao debate foi muito significativo. São nesses encontros que a gente consegue ampliar visões e provocar questionamentos importantes.

Ao mesmo tempo, eu sempre penso na importância da troca ser completa. Não basta apenas levar vozes da periferia para determinados espaços, é fundamental que esse movimento também aconteça no sentido contrário. Que esses debates, essas reflexões e essas escutas cheguem com mais frequência dentro das comunidades. Quando existe essa via de mão dupla, o diálogo se fortalece e as possibilidades de transformação se tornam mais reais.

Iniciativas como o Mocó Filosófico são essenciais para o fortalecimento do pensamento crítico e da cultura periférica, justamente porque criam pontes entre diferentes realidades. Elas permitem que experiências distintas se encontrem, se escutem e se confrontem de maneira construtiva. No fim, é sobre isso: criar espaços onde as pessoas possam falar, mas também ouvir, porque é nesse encontro que surgem caminhos possíveis para entender e enfrentar os problemas sociais de forma coletiva.

Olhando para sua trajetória, que legado você acredita estar construindo e que mensagem gostaria de deixar para os jovens das periferias do Recife que desejam seguir na música?

Olhar para a própria trajetória e falar de legado nunca é algo simples, porque quem está dentro do processo muitas vezes não tem dimensão completa do que construiu. Mas acredito que o principal seja mostrar, na prática, que é possível transformar a própria realidade a partir da arte, sem precisar sair do lugar de onde se veio. A caminhada com a Devotos sempre foi muito pé no chão, cheia de erros e aprendizados, mas também de muita verdade. E, pelos relatos que escuto de quem acompanhou nossa história, percebo que a música acabou tocando e transformando vidas de formas que vão além do que eu imaginava.

Esse legado também passa pela ideia de coletividade e de compromisso com o entorno. Não foi só sobre fazer música, mas sobre agir dentro da comunidade, criar oportunidades, incentivar outras pessoas e mostrar que a periferia é um espaço de potência. A longevidade da banda, que atravessa décadas, não vem apenas de talento, mas principalmente das relações construídas com pessoas verdadeiras, que acreditam no mesmo propósito e caminham juntas.

Para os jovens das periferias do Recife que querem seguir na música, a principal mensagem é: não procurem apenas os melhores, procurem os verdadeiros. São essas pessoas que vão somar, crescer junto, aprender e construir algo com identidade. Técnica é importante, mas caráter, compromisso e verdade fazem toda a diferença no caminho. E, acima de tudo, acreditem que é possível transformar sua realidade e a de quem está ao seu redor por meio da arte.

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