Tecnologia e inteligência artificial não são mais opcionais

Por Mariana Lira de Melo

Pense em fevereiro de 2020. Poucas pessoas falavam sobre um vírus se espalhando no exterior. Se alguém mencionasse que estava estocando papel higiênico, você provavelmente acharia que essa pessoa tinha passado tempo demais em um canto estranho da internet. Três semanas depois, o mundo inteiro tinha mudado. A comparação é de Matt Shumer, cofundador e CEO da OthersideAI, em um artigo publicado em fevereiro de 2026 que viralizou com mais de 80 milhões de visualizações. Segundo ele, estamos vivendo a fase do "isso parece exagero" de algo muito maior que a Covid. E os sinais estão por toda parte.

Participei recentemente do Mobile World Congress (MWC), em Barcelona, o maior evento global de tecnologia móvel e conectividade. Foram mais de 100.000 participantes de 200 países, 2.400 empresas expositoras espalhadas por 240.000 metros quadrados de feira, o equivalente a mais de 30 campos de futebol. Todo reunidos no maior centro de convenções de Barcelona, com palestras e participação de nomes de peso do mercado de tecnologia, como Google, Microsoft, OpenAI, Oura Ring, Samsung, Salesforce, Ericsson, Cisco, Huawei e Meta. Fui a 13 palestras, em 3 dias, e visitei muitos dos expositores (mas certamente nem metade deles), e saí de lá com uma certeza: inteligência artificial não é mais assunto de nicho tecnológico. É a questão central de qualquer negócio que pretende existir nos próximos anos.

Explosão exponencial que poucos viram chegando

Todas as palestras das quais participei tinham um tema central: inteligência artificial e como ela cresceu exponencialmente em 2025, com lançamentos históricos nos primeiros meses de 2026. Em janeiro, a Anthropic lançou o Cowork, ferramenta que transforma a IA em um colega de trabalho autônomo capaz de gerenciar arquivos, criar documentos e executar tarefas de múltiplas etapas sem supervisão constante. Em fevereiro, a OpenAI lançou o GPT-5.3 Codex, o primeiro modelo que ajudou a construir a si mesmo. Sim, você leu isso direito: a IA que a OpenAI acabou de lançar foi usada para criar a própria IA. É literalmente um loom exponencial de melhoria contínua trabalhando 24h, 7 dias por semana.

Para dimensionar a velocidade dessa mudança, o britânico Azeem Azhar, fundador da Exponential View e pesquisador na Harvard Business School, subiu ao palco principal do MWC com um gráfico que deixou a platéia em silêncio. O consumo global de tokens de inteligência artificial passou de 7 trilhões por mês em janeiro de 2023 para impressionantes 8.900 trilhões por mês em janeiro de 2026. Um crescimento de 1.200 vezes em apenas três anos. Para colocar em perspectiva: nenhuma tecnologia na história da humanidade alcançou um ritmo de adoção sequer parecido. Nem a internet, nem o smartphone, nem as redes sociais.

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Dex Hunter-Torricke, fundador e presidente do The Center for Tomorrow

Dex Hunter-Torricke, fundador e presidente do The Center for Tomorrow (O Centro para o Amanhã, em tradução livre), organização global dedicada a preparar sociedades para a transformação tecnológica, foi ainda mais direto. Do palco principal, projetou em letras garrafais: "A próxima década será o momento mais disruptivo da história." E os números que apresentou sustentam a afirmação: 60% dos empregos em economias avançadas estão vulneráveis ao impacto da IA.

De R$ 65 para R$ 0,10: a lógica que muda tudo

Se os números macro impressionam, os exemplos práticos assustam. Bret Taylor, cofundador da Sierra e presidente do conselho da OpenAI, apresentou um dado que pode tirar o sono de muitos: um atendimento ao cliente tradicional por telefone custa cerca de R$ 65 por chamada. Com a implementação de agentes de IA, esse custo cai para algo entre R$ 0,10 e R$ 3,50. Não se trata de uma melhoria incremental. É uma mudança estrutural que tem o poder de transformar fontes de custo em motores de crescimento.

A Singtel, gigante de telecomunicações de Cingapura, já redesenhou sua estrutura organizacional ao redor dessa premissa. Criou um cargo de head de IA reportando diretamente ao CEO, não enterrado na área de TI, e implantou o que chamam de "master orchestrator agent", um agente único que gerencia toda a jornada do cliente em múltiplos canais. A Salesforce, por sua vez, rebatizou todo o seu pavilhão no evento com os dizeres: "Welcome to the Agentic Enterprise" (Bem-vindos à Empresa Agentíca). O futuro deixou de ser promessa. Virou produto.

Não haverá décadas de adaptação

Historicamente, revoluções tecnológicas levavam décadas para se consolidar. A eletricidade precisou de quase 50 anos para ser adotada em escala. A internet comercial levou uma década para mudar a forma como trabalhamos. Havia tempo e espaço para sociedades e indivíduos se adaptarem. O que está acontecendo agora é fundamentalmente diferente.

A razão é simples e, possivelmente aterrorizante, ao mesmo tempo: os modelos de IA mais recentes já se auto-corrigem e se auto-desenvolvem. Em 5 de fevereiro, a OpenAI incluiu na documentação técnica do GPT-5.3 Codex uma frase que deveria ter sido manchete em todos os jornais do mundo: "Este é nosso primeiro modelo que foi instrumental na criação de si mesmo." A IA ajudou a depurar seu próprio treinamento, gerenciar sua própria implantação e diagnosticar seus próprios resultados de teste. Quando a ferramenta constrói a própria ferramenta, o ciclo de inovação se acelera de forma exponencial. Não haverá décadas de adaptação. Talvez nem anos para algumas indústrias.

Matt Shumer, cujo ensaio viral mencionei no início, escreve que nos últimos meses ficou chocado ao descobrir que a IA pode realizar todo o trabalho técnico de seu emprego. E ele não é um leigo: é CEO de uma empresa de IA há seis anos. Da mesma forma, o ensaio alerta: profissionais de direito, finanças, medicina e contabilidade começarão a compartilhar experiências semelhantes em breve. Embora as críticas válidas, como a do cientista cognitivo Gary Marcus, apontem que Shumer exagera ao ignorar as falhas e alucinações dos modelos atuais, o ponto central permanece: a velocidade da mudança é sem precedentes, e subestimá-la é um risco real.

Quem domina a tecnologia domina o poder

Kate Crawford, pesquisadora de referência em inteligência artificial da Universidade do Sul da Califórnia e autora do aclamado Atlas of AI (eleito melhor livro do ano pelo jornal Financial Times), trouxe ao palco do MWC uma perspectiva histórica. Sua pesquisa, materializada no painel Calculating Empires, exposta no Museu de Design de Barcelona (vale a pena a visita!), é um mural de 24 metros que mapeia 500 anos de relação entre tecnologia e poder. A conclusão é simples: historicamente, o domínio da tecnologia está diretamente ligado ao poder. Impérios se construíram e se consolidaram ao redor das tecnologias que conseguiram criar e dominar.

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Kate Crawford, no palco do MWC.

O que vemos hoje é uma corrida global pelo domínio e desenvolvimento da inteligência artificial, porque é ela quem vai ditar os grandes players das próximas décadas. Os Estados Unidos, a China e a Europa já tratam a IA como questão de segurança nacional. A Comissão Europeia apresentou no MWC um pacote de diretrizes tecnológicas com quatro pilares: produção de semicondutores em solo europeu, investimento em infraestrutura de IA e data centers, incentivo ao software aberto e independente, e aposta na computação quântica. E isso não é discurso político. É estratégia de sobrevivência econômica.

O diferencial de hoje é o pré-requisito de amanhã

Estamos num momento crucial de mudança radical do curso da história. Hoje, usar a inteligência artificial pode ainda ser um diferencial competitivo. A empresa que adota agentes de IA para otimizar seu atendimento, automatizar processos ou criar produtos sai na frente. Mas essa janela está se fechando rapidamente.

Em pouquíssimo tempo, seja em alguns meses ou em alguns anos, a IA se tornará um pré-requisito para a competitividade. O que era vantagem virará linha de base. A comparação mais precisa talvez seja com a internet nos anos 1990. Em 1995, ter um site era diferencial. Em 2000, era obrigação. Com a IA, o ciclo será muito mais curto. Bret Taylor usou exatamente essa analogia no palco do MWC: agentes de IA são como websites em 1995. Vantagem competitiva hoje, requisito básico amanhã.

Ou você usa, ou ficará ultrapassado.

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Mariana Lira de Melo é fundadora da Hall Partners, holding dona e operadora do Workhall Coworking (Barcelona e Recife) e da Stayhall Imobiliária (gestão de imóveis e corretagem, Brasil e Espanha). Participou do MWC Barcelona 2026 com foco em inteligência artificial, agentes de IA e empreendedorismo. Email: mariana@hall.partners

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