Turismo Em Transformação: As Novas Tendências Que Redesenham O Setor Em Pernambuco - Revista Algomais - A Revista De Pernambuco
Turismo em transformação: as novas tendências que redesenham o setor em Pernambuco

*Por Rafael Dantas

O sol e o mar pernambucanos atravessam um período de forte aquecimento do turismo. O cenário é marcado por recordes de movimentação no Aeroporto do Recife e de visitantes estrangeiros, além da maior captação de eventos e da estruturação de atrativos. Esse movimento dialoga diretamente com as tendências de consumo que vêm redesenhando o setor.

A última pesquisa Tendências do Turismo, publicada pela Rede de Inteligência de Mercado do Ministério do Turismo, apontou alguns dos principais desejos dos viajantes no Brasil. Entre os vetores destacados estão a valorização de destinos urbanos com forte identidade cultural, o crescimento do turismo de sol e mar aliado à gastronomia e à economia criativa, além do aumento da demanda por eventos, viagens de curta duração e experiências personalizadas. O estudo também destacou o avanço do turismo sustentável e o interesse crescente por destinos do Nordeste.

A pesquisa Travel Trends, da Skyscanner, indica que as viagens em 2026 serão orientadas por afinidades pessoais e experiências significativas, organizadas em sete grandes tendências (veja o gráfico abaixo). O estudo aponta a incorporação do autocuidado aos roteiros (bem-estar), a valorização de mercados e feiras locais na gastronomia, a busca por refúgios naturais e viagens inspiradas pela literatura. Também ganham força os deslocamentos voltados à socialização, as viagens em família e a escolha de hospedagens que deixam de ser apenas suporte para se tornar parte central da experiência turística.

tendencias

Muitos desses desejos dos turistas brasileiros e internacionais já integram a experiência de vários destinos pernambucanos. Além disso, os próprios empresários e gestores locais de equipamentos turísticos já percebem esses comportamentos dos visitantes que desembarcam no Estado.

IPOJUCA ALÉM DO SOL E MAR

No Litoral Sul, Ipojuca aparece como um dos exemplos dessa mudança de olhar sobre o turismo. Segundo o secretário municipal de Turismo, Deomaci Ramos, embora a praia siga como principal motivador das viagens, as pesquisas realizadas pela pasta indicam um interesse crescente por experiências mais diversas. “Todo mundo vem para usufruir da praia, para conhecer o balneário, fazer os passeios tradicionais. Mas o turista, especialmente o estrangeiro, também quer esse turismo de experiência”, afirmou.

A estratégia do município passa, a partir de 2026, por ampliar o foco para além do litoral e incorporar o interior de Ipojuca à dinâmica turística. “A gente vai voltar o olhar para dentro da cidade”, planeja o secretário, ao destacar que 99,4% do território é zona rural e reúne um conjunto de riquezas naturais, culturais e históricas ainda pouco exploradas. Entre elas estão 62 engenhos mapeados, territórios quilombolas, gastronomia tradicional e narrativas pouco conhecidas. Os registros históricos, por exemplo, apontam que uma rainha africana foi escravizada no início do Século 19 no Engenho Sibiró. Esse episódio citado pelo secretário é um exemplo do potencial do município para o turismo cultural e de memória.

O desafio, segundo Deomaci, é fazer com que o turista, que já chega em grande volume ao balneário, mais de 1,2 milhão de visitantes por ano, circule também por distritos históricos como Nossa Senhora do Ó e Ipojuca Sede. Hoje, cerca de 30 mil pessoas trabalham direta ou indiretamente com o turismo no município, e uma pesquisa realizada para o Plano Plurianual (PPA) mostrou que 63% da população aponta o desenvolvimento de novas rotas turísticas como prioridade para o futuro de Ipojuca.

VALORIZAÇÃO DAS EXPERIÊNCIAS CULTURAIS

No Sertão, na outra ponta do Estado, as experiências locais também ganham força entre os visitantes. Maria Regina Santana, analista do Sebrae-PE em Petrolina, ressalta que os turistas têm procurado “vivências em comunidades de povos originários (quilombolas e indígenas), balneários ribeirinhos com camping, enoturismo, corridas por trilhas e rotas da fé. No Sertão do São Francisco, estamos trabalhando exatamente nessas modalidades.”

Tal como em Petrolina, ao longo do Estado, os segmentos do turismo religioso, esportivo e de base comunitária estão recebendo investimentos. Seja na atração de competições, como no caso no Recife, à estruturação de destinos relacionados à fé católica, como no Santuário de Cimbres, em Pesqueira.

O turismo cultural em Pernambuco também se destaca com a consolidação de equipamentos como a Usina de Arte, em Água Preta, na Zona da Mata Sul. O empreendimento, que tem inspiração no Instituto Inhotim, de Minas Gerais, reúne arte contemporânea, jardim botânico e economia criativa, funcionando como um polo de atração de visitantes para a cidade que historicamente foi um centro de produção sucroalcooleiro. Além da realização de um grande festival anual, o Arte na Usina, o espaço investe todos os anos em novas obras de artistas brasileiros e estrangeiros.

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Inspirado em Inhotim (MG), a Usina de Arte, em Água Preta, na Zona da Mata Sul, reúne arte contemporânea, jardim botânico e economia criativa, funcionando como um polo de atração de visitantes para a cidade que historicamente foi um centro de produção sucroalcooleiro.

O fortalecimento do turismo com foco na cultura em Pernambuco passa pela valorização da identidade cultural, do patrimônio histórico, das festas populares e da gastronomia como vetores de desenvolvimento turístico e social. Segundo o presidente da Empetur, Eduardo Loyo, essa diretriz orienta as ações de promoção do destino no Brasil e no exterior. “A gente trabalha muito a parte cultural, que é da nossa história aqui em Pernambuco. Isso representa as nossas raízes, que a gente sempre valoriza nas ações de promoção do turismo”, afirma. Para ele, iniciativas como os ciclos festivos, os programas de fomento cultural e a ampliação de eventos como o festival Pernambuco Meu País ajudam a estender o calendário turístico, diversificar a oferta e impulsionar um crescimento mais sustentável do setor ao longo do ano.

FORÇA DO TURISMO REGENERATIVO

O avanço do turismo regenerativo vem se consolidando como uma das principais tendências nos mercados emissores mais maduros, como o europeu, o norte-americano, o canadense e o australiano. De acordo com o diretor de Marketing Internacional, Negócios e Sustentabilidade da Embratur, Bruno Reis, essa mudança de comportamento está diretamente relacionada aos impactos do overtourism (fenômeno em que um destino turístico recebe mais visitantes do que consegue suportar de forma sustentável), especialmente em destinos que enfrentam pressão excessiva sobre a infraestrutura urbana e ambiental. “Todo mundo está cada vez mais atento a isso, principalmente por causa do que vem acontecendo em lugares como a Espanha, com o Airbnb e a sobrecarga dos destinos”, observou.

Bruno Reis Embratur

Segundo Reis, esse cenário tem impulsionado o surgimento de uma camada de turistas mais conscientes e responsáveis, que passam a considerar não apenas o atrativo do destino mas, também, a forma como o turismo se relaciona com o território. “É uma tendência clara para o futuro”, afirmou, ao destacar que esse perfil de viajante busca experiências que estejam alinhadas a valores de responsabilidade social e ambiental, evitando práticas que agravem desigualdades ou danos aos ecossistemas locais.

O desafio, segundo o diretor da Embratur, é traduzir esse movimento global para a realidade dos destinos brasileiros. Isso envolve discutir como as comunidades locais são inseridas na cadeia produtiva do turismo, de que maneira os biomas são protegidos e como ativos naturais sensíveis são preservados no dia a dia da atividade turística.

Nesse contexto, iniciativas como a Biofábrica de Corais surgem como exemplos concretos de como o turismo pode se articular à conservação ambiental. O projeto atua na reprodução e no replantio de corais em áreas degradadas do litoral pernambucano, aliando ciência, educação ambiental e visitação controlada. “As pessoas estão com uma consciência ecológica um pouquinho maior e estão buscando bastante essa experiência. A Biofábrica de Corais, por exemplo, não é como no modelo mais tradicional de passeios. O turista participa do replantio da fazenda de corais e depois acompanha o crescimento, como se fosse uma plantação, até se formar todo um ecossistema ao redor”, explica Eduardo Tiburtius, presidente da Associação de Hotéis em Porto de Galinhas.

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Biofábrica de Corais

Ao aproximar o visitante dos esforços de preservação dos recifes, um dos biomas mais sensíveis à pressão turística e às mudanças climáticas, a Biofábrica contribui para a conscientização sobre a importância da proteção dos ecossistemas marinhos e reforça a lógica do turismo regenerativo, no qual a experiência turística passa a colaborar ativamente para a recuperação do patrimônio natural.

TURISTA PASSA MAIS TEMPO NO HOTEL

O turismo vive uma mudança de comportamento no pós- -pandemia, marcada por uma valorização crescente da experiência dentro dos próprios hotéis. Segundo Otaviano Maroja, presidente do Porto de Galinhas Convention Bureau & Visitors e proprietário dos hotéis Vivá e Solar, o hóspede passou a enxergar o meio de hospedagem como parte central da viagem. “O consumidor, desde a pandemia, quer mais serviço do hotel. Ele fica mais no hotel hoje do que na década passada”, afirma. Essa transformação se reflete na busca por mais espaço, lazer, conforto e conveniência, fazendo com que, em muitos casos, a hospedagem seja escolhida não apenas como apoio ao destino, mas como um atrativo em si.

Maroja 2026

Essa nova lógica impulsiona a demanda por experiências personalizadas e serviços adicionais. Restaurantes temáticos, cinema, recreação, spas, áreas exclusivas e a possibilidade de upgrades fazem parte das expectativas do turista contemporâneo, que aceita pagar mais quando percebe valor na entrega. “Hoje em dia o turista quer mais experiência, quer comprar coisa diferente. Vai lá, compra um upgrade, uma massagem, pede uma refeição separada, só naquele gazebo”, relata Maroja. A segmentação do público também pesa na escolha: famílias com crianças, casais ou viajantes em busca de descanso procuram hotéis que dialoguem com seus estilos de viagem e expectativas específicas.

Outro movimento relacionado a esse comportamento é o crescimento do turismo internacional em Porto de Galinhas, especialmente de sul-americanos, favorecido pelo aumento de voos diretos. Maroja estima que os estrangeiros já representam cerca de 20% dos hóspedes e destaca diferenças claras de comportamento em relação ao turista brasileiro. “Eles vêm para fugir do frio e ficam muito no hotel, na praia, o dia inteiro. É um jeito diferente de aproveitar”, explica. Para atender a esse público diversificado e cada vez mais exigente, os hotéis investem em renovações constantes e manutenção intensiva, um desafio permanente em empreendimentos de praia, com o objetivo de fidelizar o hóspede recorrente e manter a sensação de novidade a cada visita.

CRESCIMENTO DO TURISMO 60+

Diante do processo de envelhecimento da população, o turismo voltado para a terceira idade vem ganhando força em Porto de Galinhas, com destaque para grupos de viajantes acima dos 60 anos. Segundo Eduardo Tiburtius, proprietário do Village Porto de Galinhas e presidente da Associação de Hotéis de Porto de Galinhas, esse público tem se mostrado cada vez mais presente no destino, em especial mulheres que viajam em grupo. “A gente tem notado um crescimento desse mercado, principalmente de senhoras de 60 mais que se juntam para fazer viagens”, afirma. O movimento acompanha uma mudança no perfil do turista maduro, que viaja com mais frequência e valoriza serviços de qualidade.

Tiburtius 2026

Para atender a essa demanda, os hotéis têm ido além das adaptações básicas de acessibilidade e investido em experiências pensadas especificamente para esse público. Gastronomia diferenciada, eventos temáticos, degustações, concertos musicais e atividades culturais ganham protagonismo, assim como acomodações mais confortáveis e funcionais. No Village Porto de Galinhas, por exemplo, há uma política de benefícios direcionados a esse perfil de hóspede. “Quem tem 60 mais já ganha um upgrade automático para apartamentos térreos”, explica Tiburtius, destacando a importância da sensibilidade no atendimento e da personalização da experiência.

Esse movimento também contribui para reduzir a sazonalidade, já que o público da terceira idade tende a viajar fora dos períodos de alta estação. Embora sol e mar sigam como principais atrativos, o turismo sênior impulsiona a diversificação da oferta, estimulando a criação de produtos que combinam lazer, bem-estar e a cultura. “O sol e mar vão continuar sendo o principal atrativo, sem dúvida nenhuma, mas faz sentido criar outros produtos para estender a estadia do cliente”, afirma Tiburtius.

TURISMO LITERÁRIO E DE CINEMA

Um dos segmentos que vem despontando nas pesquisas de tendências é o turismo literário. Com uma sólida tradição na literatura brasileira, o Recife reúne espaços emblemáticos de visitação, como a Casa-Museu Magdalena e Gilberto Freyre, onde o escritor viveu por mais de quatro décadas. Outro endereço vivo da memória literária é o Espaço Pasárgada, museu-casa de Manuel Bandeira, residência do poeta no fim do Século 19 e hoje dedicado à literatura, à memória e à cultura pernambucana. Há ainda expectativa em torno da abertura de um espaço cultural no imóvel onde Clarice Lispector viveu na infância, nas proximidades da Praça Maciel Pinheiro.

“Para acolher os visitantes, o Recife conta com o Espaço Pasárgada Casa de Manuel Bandeira, a Fundação Joaquim Nabuco – com espaços nos bairros de Casa Forte, Apipucos e do Derby. Outro espaço elogiável é da Biblioteca Pública Estadual onde, além de um vasto acervo de autores daqui, são apresentadas exposições de escritores e suas obras”, afirmou o escritor e crítico literário Paulo Caldas. Ele destaca ainda a recém-criada iniciativa da escritora Deborah Echeverria, que reúne o público infantil para lançamentos de livros e contação de histórias nos Compaz. Na iniciativa privada, o mesmo acontece com a Livraria Jardim.

Paulo Caldas

Além da capital, municípios do interior pernambucano também vêm investindo em festivais literários ao longo do ano, ampliando a agenda cultural e fortalecendo a circulação de escritores locais. No Recife, esse movimento é complementado por oficinas literárias tradicionais, conduzidas por autores como Raimundo Carrero e Paulo Caldas, que contribuem para a formação de novos talentos e para a vitalidade da cena literária.

Entre os atrativos ligados à literatura, a capital pernambucana conta ainda com um roteiro urbano de esculturas de escritores espalhadas por pontos turísticos. “O Recife possui um rico acervo de homenagens aos seus autores com bustos e esculturas estrategicamente colocadas. Trata-se do Circuito da Poesia que reúne os nomes de Manuel Bandeira, Clarice Lispector, João Cabral de Melo Neto, Chico Science, Capiba, inclusive os paraibanos Ariano Suassuna e Augusto dos Anjos”, destacou Paulo Caldas.

Uma tendência mais recente, porém, tem sido o turismo de cinema. Muitos visitantes que chegam ao Recife têm procurado conhecer os locais filmados no longa-metragem O Agente Secreto. O filme, vencedor de dois prêmios no Festival de Cannes, é indicado a três categorias no Globo de Ouro. Suas cenas são gravadas principalmente nos bairros centrais da capital pernambucana, com destaque ao Cinema São Luiz.

wanderley cinema

“O Recife tem servido de inspiração à obra de Kléber Mendonça Filho desde os primeiros curtas do cineasta. Destaque para Recife Frio, filme capaz de mexer com o imaginário de quem ainda não teve a oportunidade de conhecer a cidade”, relembra o crítico de cinema e colunista da Algomais Wanderley Andrade. "O Agente Secreto é uma carta de amor à capital pernambucana. Por um lado, Kleber atiça a memória afetiva dos que cresceram e transitaram por cenários como a Ponte Velha, o Parque Treze de Maio e o Cinema São Luiz. Por outro, desperta o desejo daqueles que ainda não tiveram a sorte de conhecer esses lugares. O filme é mais uma obra de Kléber que leva e eleva o Recife ao patamar de protagonista do cinema nacional”.

Ao diversificar sua oferta turística e alinhar-se às novas tendências de consumo, Pernambuco amplia suas oportunidades para além do sol e mar, incorporando cultura, sustentabilidade, bem-estar e experiências personalizadas. Ao valorizar seus territórios, identidades e comunidades, o Estado estimula a permanência dos visitantes e promove uma distribuição mais equilibrada dos benefícios econômicos gerados pelo turismo.

*Rafael Dantas é repórter da Revista Algomais e assina as colunas Pernambuco Antigamente e Gente & Negócios (rafael@algomais.com | rafaeldantas.jornalista@gmail.com)

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