No Brasil, o terceiro evento global (2014- 2017) teve impactos menores, mas deixou os recifes mais vulneráveis a episódios posteriores
(Reportagem da Agência Bori | Foto: Freepik)
Um levantamento global sobre o terceiro evento de branqueamento em massa de corais, ocorrido entre 2014 e 2017, revela que 80% dos recifes do planeta apresentaram branqueamento moderado ou mais severo, e que 35% sofreram mortalidade também moderada ou elevada.
O estudo analisou mais de 15 mil levantamentos de recifes ao redor do mundo e foi publicado na revista Nature Communications na terça (10). Com abrangência geográfica inédita, a pesquisa envolve quase 200 coautores de 143 instituições e 41 países, incluindo cientistas brasileiros das universidades federais do Rio Grande do Norte (UFRN) e da Bahia (UFBA) e do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).
O branqueamento ocorre quando o aumento da temperatura do oceano rompe a associação entre os corais e as microalgas que vivem em seus tecidos e fornecem energia para sua sobrevivência. Sem essas algas, os corais perdem a coloração, reduzem crescimento e reprodução e, em casos mais intensos ou prolongados, podem morrer.
Para estimar a extensão dos danos, a equipe internacional combinou dados de satélite sobre temperatura da superfície do mar, produzidos pelo sistema Coral Reef Watch, com observações diretas em campo e levantamentos aéreos realizados em dezenas de países. A calibração entre estresse térmico e danos observados permitiu extrapolar os impactos também para áreas não amostradas diretamente, chegando a uma estimativa de que mais da metade dos recifes do mundo sofreu branqueamento significativo.
Os resultados mostram que o impacto desse terceiro evento global foi o mais extenso já documentado até então, superando episódios anteriores. Além das perdas ecológicas, a degradação dos recifes ameaça serviços ecossistêmicos essenciais, como pesca, turismo, proteção costeira e segurança alimentar, com reflexos diretos em economias locais e regionais.
No caso do Brasil, o terceiro evento global, entre 2014 e 2017, teve impactos relativamente menores, mas deixou os recifes mais vulneráveis a episódios posteriores, explica Guilherme Longo, pesquisador da UFRN e um dos autores brasileiros do estudo. Ele observa que em 2019 e 2020 houve um branqueamento forte no país, em decorrência de uma das mais intensas ondas de calor marinhas documentadas no Brasil, mas com poucos registros em outros lugares do mundo devido à pandemia, e que abriu caminho para perdas maiores no quarto branqueamento em massa, ocorrido em 2024.
“Os branqueamentos sucessivos de 2014-2017, seguido do episódio de 2020 foram determinantes para a mortalidade ainda maior observada no quarto branqueamento, em 2024, com perdas de até 80%. Os corais ficaram muito vulneráveis e não tiveram tempo de se recuperar. Para algumas espécies isso está significando extinção local”, aponta Longo. Segundo o pesquisador, o diferencial do estudo agora publicado é mostrar, em escala global e comparativa sem precedentes, como esses impactos se acumulam ao longo do tempo e ajudam a explicar a gravidade documentada nos eventos mais recentes.
Fonte: Agência Bori


