Nos anos 1970, o Expresso Asa Branca cruzava o Nordeste por trilhos e simbolizava um projeto de integração hoje esquecido.
Em 1975, entrou em operação o Expresso Asa Branca, trem de passageiros da Rede Ferroviária Federal (RFFSA) que ligava Recife a Fortaleza, passando pela Paraíba. Durante cerca de cinco anos, ele percorreu aproximadamente 1.100 km, conectando cidades e estados por trilhos. Segundo o historiador André Cardoso, estudar o Asa Branca permite revelar “uma conectividade ferroviária entre capitais e estados nordestinos que estava consolidada, mas que durante a segunda metade do século XX foi gradualmente desmobilizada”.

Luxo, propaganda e identidade nordestina

Divulgado como “expresso de luxo”, o Asa Branca oferecia poltronas estofadas, carro-restaurante e reduzia o tempo de viagem entre Recife e Fortaleza de cerca de 48 para 23 horas. Seu nome fazia referência à música de Luiz Gonzaga, aproximando o trem da identidade cultural nordestina.
O autor destaca que a ferrovia era mais do que transporte: “constituiu-se como um símbolo de modernidade, integração regional e identidade cultural”.

O começo do fim dos trens de passageiros
O Expresso Asa Branca surgiu em um período de crise das ferrovias. Ramais eram fechados, estações abandonadas e os investimentos migravam para o transporte rodoviário.
Nesse contexto, “sob alegações de déficit, a malha ferroviária foi sendo aos poucos apagada, sem se considerar sua importância histórica e sua função social no desenvolvimento de diversas localidades nordestinas”, observa o autor.

O que se perdeu com os trilhos
Com a extinção do Asa Branca e de outros trens interestaduais, o Nordeste passou a depender quase exclusivamente das estradas. Isso significou perda de mobilidade, aumento de custos e isolamento de várias cidades do interior. Como resume o historiador: “o resultado deste processo significou não apenas a extinção de um serviço, mas também a perda de um horizonte de integração que poderia ter transformado a mobilidade regional”.
Texto baseado no artigo “O Expresso Asa Branca e o transporte ferroviário de passageiros entre capitais nordestinas no século XX”, de André Luiz Rocha Cardoso, publicado na revista A História e suas Interfaces.


