Uma diretriz contra os mitos da gravidez – Revista Algomais – a revista de Pernambuco

Uma diretriz contra os mitos da gravidez

O Ministério da Saúde lançou neste ano a Diretriz Nacional de Assistência ao Parto Normal que desmistifica vários tabus que envolvem essa maneira tão natural de dar a luz. Muitas gestantes desconhecem, por exemplo, que a tão temida dor sentida na hora de ter o bebê pode ser aliviada com anestesia ou métodos não farmacológicos logo no início das contrações. Também não sabem que um procedimento simples como o contato pele a pele do bebê com a mãe, logo após o nascimento traz inúmeros benefícios para a saúde de ambos.

A diretriz deve ser seguida pelas unidades de saúde e visam a resgatar o protagonismo da mulher ao seu próprio parto em especial daquelas que não optaram pela cesárea. “Um estudo publicado em 2012, O Nascer no Brasil, verificou que mais da metade dos brasileiros nasce por meio de cirurgia, a cesariana, que chega a alcançar mais de 95% dos nascimentos em algumas instituições privadas. Esse dado precisa ser reconhecido como alarmante”, alerta a obstetra do Imip e professora da Faculdade Pernambucana de Saúde Brena Melo.

Em países europeus, como a Dinamarca, a taxa de cesariana fica abaixo dos 15% recomendados pela OMS (Organização Mundial de Saúde). Lá, há maior chance de indicação de cesariana em uma mulher com alguma doença prévia, geralmente crônica, mal controlada. “Se partirmos da premissa do parto como evento fisiológico (portanto, natural) e de que a maior parte das mulheres da nossa população é sadia ou não tem uma condição ameaçadora de vida, não há por que imaginar que ela não irá conseguir parir e nem há por que deixar de provê-la de condições favoráveis para vivenciar esse momento tão bonito”, defende a médica, que atualmente desenvolve pesquisa na Universidade de Maastricht, na Holanda, sobre Saúde da Mulher e Educação Médica.

Há gestantes, porém, que escolhem a cesariana por temerem a dor do parto normal causadas pelas modificações do organismo para a expulsão do bebê. Um processo que provoca “repuxos” e incômodos. Para proporcionar mais conforto à gestante, a diretriz do MS garante à grávida o direito a ter acesso a técnicas como massagens e o uso de água quente. Também podem contar com os serviços de uma doula, palavra que em grego significa “aquela que cuida”, que pode ser uma pessoa leiga ou profissional de saúde.

Ana Katz Schuller é uma doula e explica que sua principal função é oferecer suporte emocional às grávidas. “Também damos apoio físico, ajudando a mulher a superar e a lidar com a dor. Usamos métodos como massagens, exercícios e o uso da bola de pilates. Algumas posições promovem muito alívio, assim como bolsa de água quente e banho de chuveiro ou na banheira”, relata. Outra técnica utiliza nada menos que um xale conhecido como rebozo, usado por mulheres mexicanas e imortalizada na indumentária da artista plástica Frida Kahlo. “Com ele podemos fazer algumas manobras que levam o bebê a se posicionar no útero e descer mais rápido”, acrescenta Ana.

A boa notícia para os maridos é que as doulas oferecem apoio para que o futuro papai participe do parto. Todo esse conforto seduziu a servidora pública Luciana Aguiar que recorreu a uma dessas profissionais no nascimento dos filhos. “Contratei a doula porque queria parto normal e eu e meu marido não tínhamos experiência. Eu queria uma babá pra mim”, brinca Luciana, que ficou tão satisfeita com a decisão que repetiu no nascimento do segundo filho. “Ela fez massagens, fui pra o chuveiro quente. Toda vez em que começava a contração, ela me abraçava e esse conforto foi o que mais aliviou a dor”, recorda-se.

Para conseguir esse vínculo, porém, é necessário que o contato da doula com a grávida e o marido ocorra durante a gravidez. Estudos comprovam que mulheres que tiveram a assistência de uma doula em seu trabalho de parto tiveram: maior chance de parto vaginal, que tiveram duração menor, bebês nascidos em melhores condições de oxigenação e menor chance dar à luz por fórcipes ou vácuo.

Outro estímulo para quem não quer se submeter a uma cesariana, mas teme sentir dor é a anestesia. “A analgesia pode acontecer em qualquer estágio do parto, inclusive no início das contrações”, assegura o anestesiologista Luciano Braun, ex-presidente da Sociedade Brasileira de Estudo da Dor. E as vantagens dessa conduta não se resume ao alívio da sensação dolorosa. Isto poque ao diminuir a dor, explica o médico, reduz-se o estresse da gestante. Em consequência cai o nível de hormônios que são liberados nesse estado, como a noradrenalina, que interferem na contração. Essas substâncias também podem propiciar entre outras alterações, a elevação da pressão arterial e da frequência cardíaca, mudanças na contração uterina, tendo como consequências modificações na dinâmica do trabalho de parto A analgesia portanto ajuda a coordenar as contrações, facilitando a evolução do trabalho de parto.

Braun desmitifica a ideia de que, ao anestesiar a grávida, ela deixa de sentir as contrações e passa a não fazer força para a expulsão do bebê. “Isso não acontece porque, numa primeira etapa, fazemos a analgesia do útero, só para aliviar a dor, sem relaxar os músculos do abdome nem do assoalho pélvico, permanecendo o tônus dessas musculaturas para que a mulher consiga ajudar a fazer a rotação do bebê para que ele desça e possa sair”, explica o especialista. Nesta fase a grávida pode até caminhar pela maternidade. “Apenas quando ocorre a dilatação total do colo do útero fazemos analgesia do assoalho pélvico”, adverte.

O jejum obrigatório para as gestantes durante o trabalho de parto é outro mito que a diretriz derrubou. Parir é um processo fisiológico intenso, ressalta Brena, leva algumas horas para acontecer e demanda muita energia da mulher. “Nada mais natural, então, do que oferecer alimentos à parturiente nessa hora. Ela precisa de líquidos e calorias”, defende a obstetra. A médica faz uma comparação entre o trabalho de parto e uma corrida longa. “Nessas corridas são ofertados líquidos e calorias aos participantes. A lógica é semelhante”, assegura a especialista que considera o jejum obrigatório uma determinação “curiosa”. “Estamos falando de mulheres, em sua maioria saudáveis, ou sem condições clínicas ameaçadoras da vida, logo, com seu poder de decisão preservado. Elas têm então autonomia para decidir se querem e o que querem ingerir durante o trabalho de parto. Recomenda-se a ingesta de líquidos claros, sem resíduos, como água e chás, e alimentos de alta concentração calórica em pequeno volume, como chocolates, mel, ou nozes e castanhas”, orienta a médica.

PRIMEIRO CHAMEGO
Além da dor e da fome, outro componente que causa estresse às mães é a dificuldade de amamentar a criança nos primeiros dias após o nascimento. Uma medida simples tem ajudado muito a resolver o problema: colocar o bebê em contato pele a pele com a mãe assim que nasce. “Isso estimula a liberação de ocitocina, hormônio que ejeta o leite para a amamentação e ao mesmo tempo, contrai o útero”, esclarece Brena. Mas essa primeira demonstração afetiva oferece muitos outros benefícios já comprovados por evidências científicas.

Luciana teve o prazer de fazer esse primeiro carinho no filho Daniel e atesta: “ele pegou o peito rapidinho”. É sempre bom lembrar que mulheres que amamentam têm menor chance de depressão pós-parto e câncer de mama. “Por sua vez, um bebê amamentado tem melhor resistência a enfermidades, menor chance de doenças cardiovasculares no futuro, melhor desenvolvimento cognitivo e psicomotor, além de inúmeros outros benefícios”, acrescenta Brena.

Mais recentemente, começam a se verificar outros pontos favoráveis ao contato pele a pele precoce, como uma menor taxa de transferência dos bebês para a UTI neonatal, mesmo nos casos de cesariana. “Verificou-se também que a colonização do bebê pela flora fisiológica (bactérias de proteção) materna que ocorre quando o ele é exposto à pele da mãe de forma precoce, traz benefícios a longo prazo, como diminuir o risco dele desenvolver diabetes no futuro”, informa a obstetra.

A diminuição da incidência de hemorragia pós-parto é outro grande efeito desse “chamego” entre mãe e filho. O sangramento aumentado que pode ocorrer logo após o nascimento da criança e acontece em até 2 a cada 10 partos. Quando não tratado de forma adequada pode levar ao óbito. “É a maior causa de morte de mulheres no parto no mundo”, salienta Brena, que ressalta a necessidade dos serviços médicos realizarem esse procedimento tão simples como o contato pele a pele precoce. “Não favorecer essa prática, recomendada pela diretriz, é expor a mãe a riscos inaceitáveis”, alerta a médica.

Veja mais: entrevista com a obstetra Brena Melo.
(Por Cláudia Santos)

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