Diante do impacto do turismo de massa no litoral, professor da UFPE aponta que a ausência de políticas urbanas nos destinos afeta moradores, visitantes e meio ambiente. Ele propõe um planejamento turístico realizado juntamente com o ordenamento urbano, e investimentos em educação ambiental e na capacitação dos trabalhadores.
Neste verão, o litoral de Pernambuco e de boa parte do Brasil estampou o noticiário e as redes sociais com notícias que não tinham como foco suas belezas naturais, mas os impactos provocados pelo turismo de massa. Para o professor do Departamento de Hotelaria e Turismo da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco), Sérgio Rodrigues Leal, as praias, ao longo das décadas transformaram-se em vitrines econômicas, territórios disputados pelo mercado imobiliário e espaços de lazer cada vez mais pressionados por fluxos intensos de visitantes. O crescimento acelerado, muitas vezes dissociado do planejamento urbano, ampliou conflitos cotidianos, como a ocupação irregular da orla, a poluição sonora, o acúmulo de resíduos, a inflação local e a precarização de serviços.
Nesse cenário, a atividade turística permanece estratégica para a economia regional mas enfrenta o desafio de se reinventar para não comprometer os próprios atributos que a sustentam: paisagem, sociabilidade, cultura e qualidade ambiental. Em Pernambuco, onde praias urbanas convivem com destinos de alto valor ecológico e histórico, o debate sobre ordenamento territorial, regulação de serviços e participação comunitária tornou-se incontornável.
Sérgio Rodrigues Leal é docente do Programa de Pós-Graduação na área e atual vice-coordenador do Bacharelado em Turismo, além de pesquisador do planejamento turístico e das dinâmicas socioeconômicas associadas à atividade. Nesta entrevista a Larissa Aguiar, ele analisa como o turismo de massa se consolidou no litoral brasileiro, de que forma a ausência de políticas urbanas afeta moradores e visitantes, quais são os impactos ambientais e culturais do crescimento desordenado das áreas costeiras e por que a regulação dos espaços públicos se tornou tema sensível.

Como o turismo de massa se consolidou no litoral brasileiro e quais fatores históricos e econômicos contribuíram para esse modelo?
Desde a segunda metade do Século 20, houve uma priorização do turismo de sol e praia no Brasil. Esse processo ocorreu por diversos motivos. Um deles foi a difusão internacional do próprio modelo de turismo de massa, que já vinha se estruturando havia décadas na Europa e em outros países. Soma-se a isso o desenvolvimento histórico do Brasil, marcado por maior concentração populacional e infraestrutura no litoral, em comparação com o interior.
Também pesaram as características físicas dessas regiões, como o clima e a presença de extensas faixas de areia, capazes de atrair visitantes de diferentes partes do País e do exterior. Houve ainda investimentos privados em hotéis, resorts e condomínios, além de uma decisão política de promover o Nordeste brasileiro como destino tropical, com potencial para rivalizar com o México e outros polos do Caribe. Todos esses fatores, combinados, ajudaram a consolidar o modelo atual.
De que forma a ausência do ordenamento urbano impacta diretamente a experiência turística e a qualidade de vida das comunidades locais?
O turista deve ser encarado como um morador temporário. Por isso, grande parte dos problemas urbanos que afligem a população local também acaba afetando quem visita à cidade. Como dizia Caio Luiz de Carvalho, ex-presidente da Embratur, nos anos 1990, um bom destino para o turista é, também, uma boa cidade para o cidadão.
Nesse sentido, a experiência turística sofre impactos diretos quando não há ordenamento urbano. Uma localidade onde a qualidade de vida não é elevada dificilmente poderá oferecer uma vivência positiva, exceto quando essa experiência se dá dentro de uma espécie de “bolha”, em que o visitante tem acesso a serviços e produtos desvinculados da realidade local. Isso não é uma solução estrutural mas, apenas, uma maquiagem para esconder problemas persistentes. O ordenamento urbano, quando bem conduzido, pode trazer ganhos tanto para turistas, quanto para comunidades residentes.

O crescimento desordenado das áreas litorâneas pode ser considerado hoje o principal gargalo para a sustentabilidade do turismo de praia? Por quê?
O turismo sustentável, seja em áreas costeiras ou em outros contextos, baseia-se em três pilares: meio ambiente, cultura e sociedade, e economia. A complexidade da atividade impossibilita tratar esses elementos de forma isolada, já que cada um influencia e é influenciado pelos demais.
Dentro desse quadro, o crescimento desordenado traz impactos evidentes para os três campos. A especulação imobiliária, muitas vezes, leva à destruição de áreas de preservação para dar lugar a empreendimentos, provocando danos ambientais, mudanças nos modos de vida e nos meios de subsistência da população e concentração de renda em pequenos grupos, frequentemente compostos por investidores externos. Por isso, esse tipo de expansão é incompatível com o desenvolvimento sustentável do turismo.
O uso de caixas de som em alto volume nas praias tem se tornado uma das maiores fontes de conflito. O que essa prática revela sobre a falta de regulação e fiscalização dos espaços públicos?
A ausência de regulação nas praias é um problema antigo. Os frequentadores que utilizam caixas de som em volumes elevados sabem que dificilmente serão legalmente impedidos. Quando não há proibição clara ou punição efetiva, o espaço público tende a se transformar em um território sem regras, no qual cada um faz o que quer, sem considerar os demais usuários.
Isso não se resume à fiscalização: envolve também educação básica e respeito ao próximo. Campanhas de conscientização são necessárias, assim como ações mais amplas, que incluam educação para o turismo nas escolas, palestras com comerciantes locais e sinalização visível sobre o que é ou não permitido. Conjuntos de medidas desse tipo podem ajudar a minimizar conflitos recorrentes.
Quais são os impactos ambientais, sociais e culturais do turismo de massa quando não há planejamento adequado nas praias?
O turismo sempre gera impactos, tanto positivos quanto negativos. Quando não há planejamento, os efeitos tendem a ser mais prejudiciais para a localidade. Entre eles estão o acúmulo de lixo na areia, construções irregulares, conflitos entre visitantes e moradores e a descaracterização de práticas culturais.

Existe uma percepção simplificada de que o turismo é sempre positivo para a economia e negativo para o meio ambiente, mas isso depende de como a atividade é estruturada e gerida. A inflação elevada em áreas turísticas, por exemplo, representa um impacto econômico adverso para quem vive nesses locais. Em contrapartida, investimentos em preservação e conscientização ambiental estimulados pela visitação responsável podem ter efeitos positivos. O planejamento turístico é a base para que o desenvolvimento seja sustentável, tanto em praias quanto em outros tipos de destinos.
Do ponto de vista do consumidor, crescem as queixas sobre preços elevados e baixa qualidade da comida vendida nas barracas de praia. Onde estão as falhas na regulação desses serviços? Como esses problemas afetam a imagem do destino turístico?
Em praticamente qualquer destino do mundo existem restaurantes, lojas e mercados voltados ao público visitante, com preços mais altos e qualidade variável. Isso não é, por si só, um problema exclusivo de regulação. A situação se torna crítica quando os valores passam a ser abusivos ou quando há cobranças indevidas, como taxas extras e práticas de venda casada. Nesses casos, a fiscalização se torna indispensável.
A imagem do destino é afetada diretamente por experiências negativas. Há modelos teóricos que apontam que os lugares possuem uma espécie de “aura” ou espírito na mente do consumidor, formada tanto pelas paisagens quanto por aspectos funcionais, como os serviços prestados e os preços cobrados. Assim, falhas na regulação e produtos de baixa qualidade comprometem a percepção do destino como um todo.
É possível afirmar que a precarização de serviços nas praias está ligada à informalidade dos trabalhadores do setor?
Não é simples estabelecer uma correlação direta entre informalidade e precarização. Entretanto, a qualificação profissional é fundamental para a melhoria dos serviços e produtos. Mais do que formalização, os trabalhadores precisam de capacitação. Ainda assim, a formalização pode contribuir para ampliar a fiscalização e a regulação das atividades, o que tende a repercutir positivamente na qualidade oferecida.
Quais experiências bem-sucedidas, no Brasil ou no exterior, podem servir de referência para reorganizar o turismo de praia sem afastar visitantes?
Existem iniciativas pontuais bem-sucedidas, embora seja difícil apontar um destino ideal como modelo absoluto. O controle do número de visitantes em Fernando de Noronha, respeitando a capacidade de carga do arquipélago, é um exemplo nacional relevante. No exterior, a política de turismo sustentável da Costa Rica, com certificação ambiental de empreendimentos e proteção de áreas costeiras, também oferece aprendizados importantes.
Mais do que reproduzir fórmulas, é essencial adaptar essas experiências às realidades locais. Um planejamento turístico integrado ao planejamento urbano aumenta as chances de sucesso da atividade sem comprometer a demanda.
Que papel cabe ao poder público na construção de um modelo mais ordenado, justo e sustentável? Como empresários, trabalhadores e comunidades podem ser incluídos nesse processo?
A participação de todos os atores é indispensável. Embora existam interesses distintos, no fim das contas todos desejam a melhoria do destino. Quando turistas têm boas experiências, divulgam o lugar informalmente e tendem a retornar, o que beneficia empresários, trabalhadores e a comunidade em geral.
Cabe ao poder público promover o diálogo e articular esses grupos. Os conselhos de turismo desempenham papel central nesse processo. Projetos precisam ser apresentados e debatidos coletivamente, em busca de consenso. Quando ele não for possível, concessões devem ser feitas para que interesses individuais não se sobreponham ao bem comum do destino.
Qual seria, na sua avaliação, a saída mais viável para os problemas apresentados?
Não acredito em soluções simples ou rápidas. Os problemas foram se acumulando ao longo dos anos e exigem respostas articuladas. É necessário um trabalho conjunto entre poder público, empresariado, trabalhadores formais e informais e comunidades locais, sempre respeitando os limites ambientais.
Também é fundamental mudar uma cultura de imediatismo, marcada por preços elevados e pouca atenção à qualidade dos serviços. Essa transformação passa por educação formal e informal, qualificação, conscientização e valorização do destino e da própria atividade turística como instrumento de melhoria da qualidade de vida. Nesse contexto, universidades e o Sistema S têm papel decisivo. As instituições de ensino precisam ser vistas como parceiras estratégicas no desenvolvimento sustentável do turismo.


