“Uma marca da festa junina é proporcionar grandes momentos de sociabilidades, de reafirmar a identidade de um povo.”

Maior e mais tradicional festa popular do Nordeste, o São João movimenta o turismo, a economia e a gastronomia a partir da cultura popular da região. Antropólogo, museólogo, curador, escritor e especialista em antropologia da alimentação, Raul Lody há mais de 50 anos se dedica a pesquisar e disseminar a relação entre a gastronomia e o modo de viver de um povo.

Para ele, o São João é uma marca da identidade da cultura nordestina e representa uma construção histórica dos povos da região e está atrelada às origens do local. Em Pernambuco, não é diferente. Bandeirinhas coloridas, fogueiras, comidas e muito forró ajudam a dar uma dimensão do colorido da festa no Estado. Em entrevista concedida a Yuri Euzébio, Raul Lody reflete sobre a importância do São João e como a gastronomia local representa a festa. Também analisa a relação entre os festejos populares e a religiosidade, a multiculturalidade das festas, as tradições juninas, a relação da música com a data e os símbolos nordestinos do período.

Procissao das Bandeiras Foto Andrea Rego Barros Arquivo PCR

Como é que surgiram os festejos juninos no Nordeste?

Essas festas chegaram aqui com os portugueses, que tinham as devoções cristãs, católicas. Esses santos eram e ainda são ainda muito populares em Portugal. São João, Santo Antônio, São Pedro, todos eles com localizações regionais e festas muito marcantes. Essas tradições chegam de Portugal e ganham acréscimos de outras culturas porque o Brasil é um país multicultural, tem vertentes culturais de vários povos, várias culturas do mundo. É uma festa do mundo cristão. Esses povos vão se reunir e celebrar conforme as suas tradições.

E essa relação do catolicismo com o catolicismo popular, tudo se mistura aqui no Brasil?

São João e São Pedro são dois santos que fazem sincretismos com o Orixá Xangô, em especial. Xangô é uma manifestação do Nordeste, é uma manifestação religiosa de matriz africana e ele como as demais manifestações de matriz africana tem o que a gente chama de paralelismo ou sincretismo religioso. 

Aqui em Pernambuco temos muita relação com o São João em função de também ele ser, no sincretismo, o orixá Xangô. Aqui em Pernambuco, o Xangô Pernambucano tem até o Acorda Povo, que é uma manifestação religiosa, em que muitos lugares saem de terreiros e passam pelas ruas. São manifestações sincréticas que trazem vertentes do catolicismo e vertentes da matriz africana. 

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A gastronomia junina surgiu também nessa relação entre povos diversos aqui do Brasil?

O ciclo junino é marcado por um grande ingrediente que é o milho, que está presente em vários preparos da festa. A pamonha, por exemplo, é um preparo americano, temos registros arqueológicos de mais de sete mil anos da pamonha. A pamonha não é uma comida que veio com a colonização ibérica, já era uma comida de povos sul-americanos. O milho é americano, não é europeu, e junto com o milho temos o coco que é da Índia, e no São João juntamos isso tudo. Juntamos com a canela, com o cravo que também são da Ásia. 

Aí temos uma multiculturalidade na gastronomia muito grande e certos preparos também usam massa de mandioca que é mais um tubérculo sul-americano, que está no Brasil e em outras áreas da América do Sul. Dessa mistura você vai criando vários preparos, mas o milho é um ingrediente dominante, ele aparece muito nessa variedade, não só no Nordeste, mas no Brasil como um todo. 

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Essa tradição do plantio do milho acho que 40 dias antes para ter uma colheita boa no São João também surge aqui do Nordeste?

Bem, essa tradição de plantar o milho no dia de São José, em março, e colher no dia de São João, em junho, que são três meses, é uma coisa muito sedimentada do imaginário do que a gente pode chamar de uma cultura nordestina, já está muito marcada nesse território. Mas, é uma feliz coincidência, você planta no dia de São José, passam três meses, é a média de colheita do milho e aqui em Pernambuco, na Bahia, em outros lugares do Nordeste tem a chamada mão de milho que é uma quantidade de espigas, que as pessoas compram nos mercados, nas feiras para fazer toda essa tradição. E também é tradicional colocar a espiga de milho dentro da fogueira para assar no fogo, há uma circularidade muito grande do milho dentro dessas festas tradicionais. Ele é central nas liturgias.

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Como surgiu a quadrilha junina?
A quadrilha junina vem de uma dança francesa. Os marcadores de quadrilha tradicional não só no Nordeste, mas no Brasil, davam os nomes dos passos em francês. E aí a quadrilha foi ganhando uma dimensão espetacular com muitas variações, com muitas mudanças e passa a ganhar uma notoriedade. É um grande espetáculo, tem uma dinâmica e como tudo que é cultura não é estática, não é engessada. Ela entra hoje nessa coisa mais espetacular, com passos de outras danças, fora da quadrilha, mas dentro do espírito da quadrilha. Passou a ser um grande espetáculo, mas muito distante das suas bases tradicionais.

Raul, por que o São João é tão forte aqui no Nordeste do Brasil?

Ele é forte em todo o Brasil, com características regionais, com diferenças, mas é uma festa, é um ciclo que reúne várias datas. Então, você tem as festas marítimas nas águas com São Pedro, as procissões fluviais marítimas. Você tem São João e Santo Antônio, que foi agora dia 13, e é um santo português.  Antônio nasceu em Lisboa. Aliás, o nome dele é Fernando de Bulhões, Antônio é um nome que a igreja dá para ele depois. Ele é um santo muito popular, não só popular no Brasil, mas em toda a diáspora portuguesa no mundo porque Portugal esteve em vários lugares do mundo e foi levando sua cultura e Santo Antônio sempre junto nessa caminhada pelo mundo. 

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Por que o forró é a dança do São João? De onde surgiu essa relação do forró com a festa?

A dança, como o xaxado, como o coco, como o samba de roda vão sendo criados para certas festas, certas celebrações e o forró faz parte. É uma dança de par, você tem um xaxado, você tem o coco que teve um ressurgimento muito grande nesses últimos anos, então é uma manifestação muito própria. E o forró, feito a capoeira, ganhou o mundo, hoje vemos escolas de forró pela Europa, no Japão você tem forró disseminado, como a capoeira também é uma forma muito extensiva de ver essas manifestações. 

Esses ciclos de festas são oportunidades sociais de dança, então nós temos danças que estão em outras manifestações, mas que também acontecem no São João. Por exemplo, o coco está em várias festas, mas também está no São João. O xaxado também. Mas o forró virou parte da identidade da festa.

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Você falou de outros ritmos, mas atualmente existe tanto um forró em capitais assim emblemáticas de São João, como Caruaru ou Campina Grande, e uma invasão de outros gêneros, como piseiro, sertanejo. O que você acha disso? 

Não é só no São João, está no Carnaval, está na semana santa e deixa como legado uma grande perda da identidade, porque você canta as mesmas coisas o ano inteiro. É uma questão midiática, uma questão de mercado, uma questão de consumo. As pessoas vão ver esses megashows, com cachês milionários e as manifestações tradicionais locais ficam esquecidas.

 Eu acho que se fala tanto dessa coisa de turismo cultural, de valorização cultural, mas na hora de pagar, eles pagam para esses artistas. Nada contra eles, eles estão no mercado, mas é uma grande perda da identidade, não só no Nordeste, mas no Brasil como um todo. Você ouve as mesmas músicas do Réveillon, no São João, no Carnaval, é a mesma coisa, não muda nunca. Isso é prejudicial às festas.

Para você, o que é que mais representa o São João?

Uma marca identitária, no meu olhar pessoal, é que toda festa vale pela forma de reunir pessoas, de trazer encontros, é um momento em que as pessoas têm para se manifestar com a música, com a dança, com a comida, com a roupa, com a fé religiosa. São sociabilidades, são formas de trocas.

 Eu vejo não só o São João, mas todas as festas populares tradicionais, grandes momentos de sociabilidades, de reafirmar e identidade de um povo, de fortalecer diferentes laços, laços de amizade, laços profissionais, lazer, religiosidade, e essas festas de São João têm uma pegada religiosa muito forte, porque são festas tradicionalmente em que você está cultuando santos, de diferentes formas. 

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Eu queria que você falasse um pouco assim dessa verve mais religiosa da festa. Se existem práticas, liturgias, tanto católicas quanto de matriz africana?

Eu acho que são muitas liturgias e são muito abertas, desde o momento que você faz uma fogueira diante da sua casa é uma forma religiosa, mesmo que você não tenha essa consciência porque está ligando ali com tradições milenares pré-cristãs, inclusive. Há o sacramento de que, geralmente, acende-se a fogueira às 18h. Há uma tradição de colocar dentro da fogueira um broto novo de uma planta como se fosse uma ação sacrificial, a planta está sendo ali oferecida ao fogo. Existem muitos sinais religiosos que as pessoas fazem naturalmente pela tradição, mas não fazem essa conexão ancestral e histórica, não se atentam a isso, já é naturalizado. E as próprias devoções das igrejas, das procissões em todas as maneiras, de a gente lembrar dos santos, das próprias comidas, tudo isso tem um sentido de uma pegada religiosa muito forte. 

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Fale um pouco agora sobre a sua trajetória nessa área de festejos de gastronomia e cultura popular.

Eu sou antropólogo e museólogo e  me interesso pela questão da alimentação há quase 50 anos. Tenho uma trajetória muito longa, não só no Brasil, mas fora daqui também. Viajo muito, pesquiso muito, vou começar o período de lançamento agora do livro chamado Comer é um ato ideológico. Tenho muitos livros publicados nessa área e me localizo, me nomino e me apresento como pensador da comida e da alimentação. 

A comida vem ganhando cada vez mais espaço midiático, espaço comercial em diferentes formas de expressão, de comunicação, não só no Brasil, mas no mundo. A gastronomia passa a ser uma forma de entrada social, de prestígio social, essa cultura atual de fotografar comida [nas redes sociais], existe aí toda uma relação forte com a comida e a comida não é só para comer, é para representar, para comunicar, para estabelecer muitos valores, além da alimentação em si. Eu já vi muitas transformações sociais com a comida. É um tema inquietante que eu estudo e gosto muito. Publico também, sempre que possível, eu tenho os dois endereços eletrônicos onde costumo publicar: o meu site e o Museu Virtual do Açúcar, que também é um projeto nosso. 

Eu publico muito, escrevo para jornais mensalmente também, então eu tenho uma produção intensa o que para mim não é um desafio, mas há uma energia de criação muito grande e eu estou sempre estudando, pesquisando. Para usar um termo gastronômico: é uma cachaça, isto é, você trabalhar com o que você gosta e lhe dá prazer. 

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Fale um pouco sobre esse seu novo livro Comer é um ato ideológico.

Ele é um livro da editora Nova Raiz, comercializado apenas pela Amazon, você compra o livro em ebook e também impresso, porque a Amazon oferece essa opção, eles imprimem nos Estados Unidos e enviam em um prazo de 20 dias. Superbem-feito, bem bolado. Eu tenho usado essa perspectiva em muitos livros porque é, de fato, muito ágil para você disseminar. A plataforma é uma entrada mundial, então esse livro tem essa pegada porque trabalha essas questões da comida, que a comida não é só para comer, né? A comida serve para representar, para simbolizar, para localizar a pessoa. O ato de comer, o ato de servir certas comidas, os rituais sociais da alimentação, estão cheios de aspectos políticos, ideológicos e simbólicos, e eu desenvolvo essas ideias nesse meu novo livro. 

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O que as comidas típicas de Pernambuco dizem sobre o Estado?

Representam muita coisa. Representam a economia, sociedade, cultura, história, meio ambiente, ecologia, geografia, representam tudo. Porque a comida é uma síntese, uma receita não é apenas a união de ingredientes. Ela é simbólica, tem significados, ela tem história, ela tem representações, então um bolo, um doce, um feijão verde, em suma, tudo isso tem um sentido muito grande porque ele mostra a história, mostra o que a região oferece de ingrediente, mostra as tecnologias culinárias, a estética da comida também é muito forte. Tudo isso remonta à identidade da comida.

Fogos
Foto: Renato Spencer\Santo Lima Data: 24-06-2010 Assunto: SAO JOAO – BEZERROS – FUNDARPE – Na foto destaque para publico curtindo a fogueira em Bezerros no Sao Joao da Serra Negra, em Bezerros, agreste Pernambucano.

Existe em algum outro lugar do mundo uma festa de São João que tem a mesma relevância que aqui? A mesma importância?

Olha, o São João é comemorado em muitos lugares. É uma festa do mundo cristão, e o mundo cristão é muito extenso. Está no mundo inteiro, em Portugal é muito forte. Eu já vi essas festas em Portugal várias vezes. Está no Ocidente, está no Oriente, está na Ásia. O que muda é que elas vão ganhando características locais, vão ganhando identidades regionais, mas tendo esse aspecto central, que é o religioso e o devocional. É uma festa de celebração, de comemoração do santo com música, com dança, com roupa, com comida e em todos os lugares do mundo essas características se mantêm.

Uma das tradições juninas de Pernambuco é o bolo pé de moleque. Qual a origem dele?

O pé de moleque é uma coisa muito pernambucana. Aliás, é um dos meus bolos preferidos. Ele é feito com mandioca, com café e tem muito pouco teor de açúcar. Canela, café, mandioca e um pouco de açúcar. É um bolo muito característico, um bolo junino, você vê nas padarias, nas casas e só nessa época do ano, os outros são do ano todo, mas também são juninos. 

Mas o pé de moleque é um bolo muito simbólico, ele tem castanhas de caju, o caju é de terroir nativo, e a mandioca, o café é africano e aí simboliza muito essa multiculturalidade da receita. Eu considero um bolo muito pernambucano. Se me perguntassem qual é o bolo mais pernambucano pra mim? É o bolo pé de moleque porque ele tem essa trajetória muito forte, ele tem até essa mistura de várias matrizes e eu acho que é uma grande representação do povo pernambucano. 

Fogueira

Qual a  origem da tradição da fogueira?

É uma tradição mundial, ela é imemorial. Você não sabe exatamente qual a origem, ela está em todos os pontos, diferentes culturas têm a fogueira com diferentes usos e sentidos. A fogueira é uma forma milenar de o homem se proteger, o fogo é muito importante para a própria alimentação, inclusive. São milhares de anos, é uma coisa também do domínio da arqueologia. Em resumo, todos os povos têm uma relação com a fogueira muito forte. A fogueira é um símbolo para muitas pessoas. No São João ela é ligada a essa coisa de marcar, de representar a festa que está muito condicionada com a fogueira. 

Para finalizar, Raul, quais os seus planos para o futuro? 

Meus planos são continuar as minhas atividades de viagem, de pesquisa, descobrir novos restaurantes, novos lugares que eu gosto muito de conhecer. Às vezes é bom, às vezes é ruim, mas é uma maneira de você viver, experimentando, além da questão profissional, é uma questão prazerosa. Eu gosto de comer, gosto de beber, em suma tem esse lado que a gente não descola, que é o lado do prazer. Está muito integrada a minha percepção da vida também, à questão da alimentação. Viajar, aprender e comer. Mas, o São João eu passo aqui. Não perco por nada.

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