Mudanças na legislação ampliaram o acesso ao procedimento, que não interfere na produção de testosterona nem na função sexual, mas exige avaliação médica e confirmação do sucesso por espermograma
A vasectomia é um método contraceptivo que vem ganhando espaço como escolha consciente no planejamento familiar. A decisão é adotada tanto por homens que já tiveram filhos e não desejam aumentar a família quanto por aqueles que optaram por não ter filhos. De acordo com dados atribuídos ao Ministério da Saúde, a procura pelo procedimento entre homens a partir dos 21 anos aumentou 40% desde 2022, ano em que foi sancionada a nova Lei do Planejamento Familiar, que entrou em vigor em 2023.
A mudança na legislação buscou ampliar o direito de escolha e o protagonismo masculino na contracepção. Com a nova regra, a idade mínima para realizar a esterilização voluntária passou de 25 para 21 anos, independentemente de o homem ter filhos. A cirurgia também pode ser realizada por pessoas com pelo menos dois filhos vivos, respeitados os demais requisitos legais. Outra mudança foi o fim da exigência de consentimento do cônjuge para a realização do procedimento.
“A nova lei estendeu a responsabilidade da contracepção para o homem, representando uma mudança de comportamento, uma vez que as escolhas sobre prevenção de gravidez historicamente estavam concentradas nas mulheres. E a realização da vasectomia pelo SUS, de graça, em todo o país, aumentou a possibilidade de um planejamento familiar consciente, seguro e eficaz”, destaca o urologista e cirurgião Eugênio Lustosa.
Sem medo dos mitos sobre a vasectomia
Apesar das vantagens do procedimento, a vasectomia ainda é cercada por mitos, principalmente os relacionados à perda da virilidade e a possíveis prejuízos à vida sexual. Na prática, a cirurgia interrompe a passagem dos espermatozoides pelos canais deferentes, impedindo que eles cheguem ao sêmen. O procedimento não interfere na produção de testosterona nem compromete, por si só, o desejo sexual, a ereção ou o orgasmo.

Eugênio Lustosa explica que muitos homens chegam ao consultório com receio de que a cirurgia afete a potência sexual. “Os homens chegam ao consultório achando que a vasectomia vai alterar a potência sexual e fazer com que eles percam a virilidade. A vasectomia não tem qualquer impacto na vida sexual. O homem continua produzindo testosterona, tendo desejo sexual, ereção, orgasmo e ejaculação. Só não haverá espermatozoides no sêmen”, afirma.
O médico também explica que a cirurgia é realizada, geralmente, com anestesia local e dura cerca de 30 minutos. Na maioria dos casos, o paciente recebe alta no mesmo dia. Embora seja um procedimento considerado de baixa complexidade, podem ocorrer desconforto e dor no período de recuperação, sendo importante seguir as orientações médicas.
A retomada das relações sexuais costuma ser liberada após cerca de sete a dez dias, ou conforme a avaliação do médico. O retorno às atividades deve respeitar o tempo de recuperação individual.
Eficácia depende da confirmação por espermograma
A vasectomia está entre os métodos contraceptivos mais eficazes, mas seu efeito não é imediato. Mesmo após a cirurgia, podem permanecer espermatozoides no sistema reprodutor, o que significa que ainda existe risco de gravidez nas primeiras semanas.
Por isso, é necessário manter outro método contraceptivo até que um exame de espermograma confirme o sucesso do procedimento e o médico autorize a interrupção de outros métodos. Essa avaliação costuma ocorrer cerca de 12 semanas após a cirurgia, conforme o protocolo adotado, podendo variar de acordo com os resultados e a orientação médica. A contagem de ejaculações, isoladamente, não substitui o exame.
Decisão deve ser bem avaliada
Embora a vasectomia seja considerada um método de esterilização permanente, existe a possibilidade de reversão por meio de uma microcirurgia chamada vasovasostomia, que reconecta os canais deferentes. No entanto, o procedimento é mais complexo do que a vasectomia e não garante o restabelecimento da fertilidade.
As chances de sucesso dependem de fatores como o tempo transcorrido desde a cirurgia original, as condições clínicas do paciente e a experiência da equipe médica. Por isso, a possibilidade de reversão não deve ser considerada uma garantia de que será possível ter filhos no futuro.
“Eu recomendo que, antes de escolher realizar a vasectomia, o paciente converse com seu médico, tire todas as dúvidas e faça o seu planejamento familiar. Se houver qualquer dúvida, por menor que seja, sobre ter filhos, ele deve adiar esse procedimento”, orienta Eugênio Lustosa.
| Vasectomia: o que é importante saber
O que é: procedimento cirúrgico que interrompe a passagem dos espermatozoides pelos canais deferentes, impedindo que cheguem ao sêmen.
Quem pode fazer: homens a partir dos 21 anos ou aqueles que tenham pelo menos dois filhos vivos, respeitados os requisitos legais e o prazo mínimo de 60 dias entre a manifestação da vontade e a cirurgia.
Anestesia e duração: geralmente, anestesia local e cerca de 30 minutos de procedimento.
Impacto na vida sexual: não interfere diretamente na produção de testosterona, no desejo sexual, na ereção ou no orgasmo.
Quando começa a fazer efeito: não imediatamente. É necessário utilizar outro método contraceptivo até a confirmação do sucesso por espermograma e a liberação médica.
É reversível? Existe cirurgia de reversão, mas o resultado não é garantido. A vasectomia deve ser considerada um método permanente.
Onde buscar orientação: consulte um urologista ou um serviço de planejamento familiar para esclarecer dúvidas e avaliar se o procedimento é adequado ao seu caso.