Duplicação da BR-232 promete redesenhar a economia do interior

Por Érika Travassos

A duplicação de 109 quilômetros da BR-232, entre São Caetano e Arcoverde, promete redesenhar a logística, atrair investimentos e ampliar a integração entre a Região Metropolitana do Recife (RMR), o Agreste e o Sertão pernambucanos. A nova infraestrutura também deverá impactar a rotina e a qualidade de vida dos munícipes. Mas, para aproveitar essas oportunidades, será necessário avançar no planejamento do poder público e nas parcerias e projetos do setor privado.

As expectativas em torno da duplicação do principal eixo rodoviário do Estado não são por acaso. Estradas e ferrovias são elementos estratégicos para o desenvolvimento regional. Essas estruturas redesenham a geografia, ditam o ritmo dos negócios e estabelecem novos parâmetros de competitividade. Em Pernambuco, a BR-232, ao lado da Ferrovia Transnordestina e do Arco Metropolitano, promete impulsionar a circulação de riquezas e abrir novas oportunidades de crescimento econômico.

O Governo do Estado iniciou as obras de duplicação, conectando os municípios de São Caetano, Tacaimbó, Belo Jardim, Sanharó, Pesqueira e Arcoverde. As intervenções incluem, por exemplo, a restauração da pista atual, a construção de uma nova pista, a ampliação de faixas e a implantação de pontes. Os investimentos previstos somam R$ 272 milhões.

A obra atende a uma demanda histórica da população e do setor produtivo, já que a última grande duplicação da rodovia foi no trecho entre o Recife e Caruaru, concluída em 2004, durante a gestão do ex-governador Jarbas Vasconcelos. Os objetivos são reduzir os acidentes, criar um corredor expresso para o escoamento da produção e atrair novos investimentos para o interior.

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“A melhoria e a duplicação da BR-232 podem gerar impactos importantes sobre a competitividade da indústria pernambucana.” (Massimo Cadorin)

MAIS PREVISIBILIDADE PARA A INDÚSTRIA PERNAMBUCANA

O setor industrial é um dos principais entusiastas da obra, pois enxerga na transformação de uma rodovia saturada em um corredor duplicado um ganho direto de produtividade. A mudança deve reduzir gargalos, otimizar cadeias de suprimento e facilitar a conexão do interior com o Porto de Suape.

“A melhoria e a duplicação da BR-232 podem gerar impactos importantes sobre a competitividade da indústria pernambucana, principalmente pela redução dos custos logísticos e pelo aumento da eficiência no transporte de insumos e produtos”, enfatiza o presidente em exercício da Federação das Indústrias do Estado de Pernambuco (Fiepe), Massimo Cadorin.

Para a Fiepe, os benefícios devem alcançar sobretudo as indústrias de alimentos e bebidas, metalmecânica, materiais de construção e agroindústria, além dos segmentos de comércio, distribuição e logística. O executivo destaca municípios como Belo Jardim, Pesqueira e Arcoverde. “São cidades que possuem atividades industriais e exercem papel relevante como polos econômicos do interior”, endossa Cadorin.

A redução das barreiras físicas também altera a dinâmica dos negócios, segundo o economista Werson Kaval. “Uma cidade pode estar geograficamente próxima de um grande mercado, mas economicamente distante quando o transporte é demorado, caro e imprevisível. Uma rodovia duplicada reduz parte dessas barreiras. Por exemplo, para uma indústria, isso significa maior previsibilidade no recebimento de matérias-primas e na entrega dos seus produtos”, explica.

Na prática, a melhoria permite receber matérias-primas com maior regularidade, ampliar o alcance das entregas e reduzir estoques de segurança. Para empresas do interior, pode representar acesso a cadeias produtivas antes economicamente inviáveis. “Com a melhoria da rodovia, uma empresa pode deixar de operar exclusivamente em seu município e passar a considerar um mercado regional mais integrado”, diz o economista.

Entre os segmentos beneficiados, Kaval destaca a agroindústria e a cadeia de alimentos, incluindo laticínios, queijarias, frigoríficos, distribuidores e pequenas agroindústrias. “Para produtos perecíveis, a confiabilidade do tempo de transporte tem valor também economicamente adicional”, afirma.

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“Com a melhoria da rodovia, uma empresa pode deixar de operar exclusivamente em seu município e passar a considerar um mercado regional mais integrado.” (Werson Kaval)

A conexão mais rápida com o Porto de Suape é outro benefício esperado. “Com uma rodovia mais eficiente, o Agreste e o Sertão terão melhores condições de integração com a Região Metropolitana do Recife e com Suape, reduzindo custos logísticos e ampliando as possibilidades de atração de indústrias, centros de distribuição e novos investimentos”, arremata Massimo Cadorin.

IMPULSO AO COMÉRCIO NA REGIÃO

O setor do comércio de bens, serviços e turismo será um dos grandes beneficiados com a duplicação. Ao garantir maior fluidez ao tráfego, a obra expande o raio de atração de consumidores e confere dinamismo ao abastecimento do varejo e do atacado. Cidades estratégicas como Caruaru e Arcoverde tendem a consolidar suas posições como polos de negócios. Para o presidente do Sistema Fecomércio-PE, Bernardo Peixoto, a duplicação representa um “eixo relevante para a competitividade e o desenvolvimento regional”.

“A expectativa é positiva para a duplicação da BR-232 que liga São Caetano, com cerca de 39 mil habitantes e cerca de 1.900 empresas, a Arcoverde com 82 mil habitantes e 6.900 empresas. Naturalmente, é Arcoverde que se beneficia pelo papel de núcleo da atividade econômica da região, contudo, não deixa para trás São Caetano, que terá mais facilidade de acessos e produtividade, principalmente em termos logísticos para a região”, analisa Peixoto. O presidente da Fecomércio/Sesc/Senac-PE destaca que a experiência anterior da BR-232 reforça essa expectativa. Ele relembra que entre 2004 – ano de conclusão da duplicação – e 2008, os municípios ao longo do eixo registraram forte crescimento. “O PIB de Caruaru passou de R$ 1,497 bilhão para R$ 2,502 bilhões, alta de 67%. Bezerros mais que dobrou seu produto, de R$ 160 milhões para R$ 322 milhões, crescimento de 101%. Vitória de Santo Antão cresceu 74% e Gravatá, 62%. A infraestrutura não é o único fator por trás desse desempenho, mas é um eixo relevante para a competitividade e o desenvolvimento regional”, pontua.

O avanço viário também coloca os municípios de menor porte na rota da expansão comercial. Segundo Bernardo Peixoto, centros de distribuição, atacarejos, transportadoras e atividades ligadas à hotelaria estão entre os segmentos com potencial de crescimento. O dirigente ressalta, porém, a importância de acompanhar os indicadores de emprego, abertura de empresas e consumo para identificar setores que possam enfrentar maior concorrência. Para o economista Werson Kaval, a duplicação rompe com as fronteiras locais e provoca uma transformação importante na escala de atuação das empresas. Setores como comércio atacadista, serviços automotivos, assistência técnica, manutenção industrial, saúde e educação poderão atender consumidores de uma área geográfica maior. O potencial também se estende ao turismo e à economia criativa. “Pesqueira, Arcoverde e outros municípios podem estruturar roteiros culturais, gastronômicos e de turismo rural, aproveitando a maior facilidade de deslocamento dos visitantes”, destaca Kaval. Mesmo durante as obras, o comércio tem ganho efetivo, pois “durante a construção, nós temos o efeito direto da contratação de trabalhadores, máquinas, equipamentos e serviços de engenharia. Há também o efeito indireto, que é quando as empresas contratadas compram materiais e serviços de outros fornecedores. E o efeito induzido, que é decorrente do consumo das famílias que recebem essa renda”, reforça o economista.

MOBILIDADE, SEGURANÇA VIÁRIA E AVANÇO SOCIAL Para além dos números de frete e faturamento, a duplicação representa a preservação de vidas e a melhoria da mobilidade da população. Com a nova pista, a expectativa é de redução dos acidentes, tornando o trânsito mais seguro e ampliando o bem-estar nas viagens intermunicipais. O jornalista André Luiz Melo, morador de Belo Jardim que trafega frequentemente pela rodovia, descreve os riscos da pista simples e a disputa por espaço com o tráfego pesado. “Embora seja um trecho relativamente curto, cerca de 30 km, a pista simples associada ao denso tráfego de carretas torna a viagem lenta, exaustiva e extremamente perigosa. A frequência de acidentes é alarmante. Eu vivenciei o risco no ano passado. Preso atrás de um caminhão, sem margem para ultrapassagem segura devido ao fluxo oposto, fui atingido pelos estilhaços de um pneu da carreta que estourou na minha frente. Felizmente foram apenas danos materiais no meu veículo, mas o episódio ilustra o risco diário a que todos estamos submetidos”, compartilha.

A infraestrutura amplia o acesso a oportunidades de trabalho, redes de saúde especializada, polos educacionais e opções de lazer, permitindo que as pessoas transitem entre os municípios de forma mais dinâmica.

André Luiz Melo

Na avaliação de André, a duplicação trará benefícios que vão além da redução do tempo de deslocamento, com reflexos na qualidade de vida. “Para quem faz o percurso com frequência, ela reduz o estresse da viagem, encurta distâncias psicológicas e diminui os custos de manutenção dos veículos. Do ponto de vista social e econômico, a infraestrutura amplia o acesso a oportunidades de trabalho, redes de saúde especializada, polos educacionais e opções de lazer, permitindo que as pessoas transitem entre os municípios de forma mais dinâmica”, celebra o jornalista. O economista Werson Kaval também destaca os ganhos sociais da duplicação. “Uma rodovia mais segura pode evitar perdas humanas, interrupções de tráfego, danos materiais e também afastamentos do trabalho. Além disso, há um benefício social que não pode ser reduzido à produtividade, que é a possibilidade de deslocar-se para estudar, trabalhar, visitar familiares ou mesmo buscar atendimento médico com maior segurança”, ratifica.

MUNICÍPIOS MENORES E O DESAFIO DA COMPETITIVIDADE Apesar do otimismo econômico, a infraestrutura rodoviária é uma via de mão dupla. À medida que facilita o escoamento da produção local, ela abre as portas para que produtos e serviços de centros maiores invadam os municípios menores. Se as cidades de pequeno e médio porte não se estruturarem, correm o risco de ver a arrecadação e seus moradores drenados para polos mais estruturados, como Caruaru e Arcoverde. Esse movimento já é observado em Belo Jardim, segundo o jornalista André Luiz Melo. Nos últimos anos, moradores das classes média e alta passaram a se estabelecer em condomínios de Caruaru, mantendo seus negócios ou atividades profissionais na cidade de origem. A duplicação pode intensificar essa migração, ao facilitar o deslocamento entre os municípios. “Caruaru é vista por esse público como uma metrópole regional que oferece um ecossistema completo de shoppings, lazer, medicina de alta complexidade e escolas particulares de ponta”, afirma.

Diante desse cenário, André defende uma atuação mais firme das administrações municipais para manter os moradores e atrair investimentos. “O poder público municipal precisa ser mais agressivo na atração de investimentos públicos e privados nas áreas de saúde e entretenimento. Qualidade de vida e bem-estar são os verdadeiros pilares que definem onde as pessoas escolhem morar e investir o seu dinheiro”, destaca. O economista Werson Kaval alerta que os municípios menores precisam se preparar para aproveitar as oportunidades da duplicação e enfrentar a concorrência de centros mais estruturados. Enquanto cidades como Belo Jardim, Pesqueira e Arcoverde podem fortalecer suas atividades econômicas, Tacaimbó e Sanharó terão novos desafios e possibilidades de crescimento. “Uma pequena cidade pode ganhar acesso a consumidores de municípios vizinhos mas, simultaneamente, seus moradores podem passar a fazer compras em centros comerciais maiores, que oferecem mais variedade, escala e preços competitivos”, explica. O economista ressalta que é preciso “abandonar a ideia de que a duplicação isoladamente produzirá desenvolvimento econômico”, pois a competitividade de cada município “será construída pelas decisões tomadas antes e depois da obra”.

O planejamento do poder público será determinante para a atração de investimentos para o Agreste e Sertão, descomprimindo a crise imobiliária, social e de emprego que se abate sobre a região.

Geraldo Eugênio

Jardim, Pesqueira, Arcoverde e Serra Talhada têm uma dinâmica própria e suas economias não serão ‘engolidas’ por Caruaru e pelo Recife”. A duplicação, pelo contrário, deverá facilitar o acesso ao Porto de Suape e ao Aeroporto Internacional dos Guararapes, melhorando a logística e a circulação de pessoas e bens. O professor ressalta, porém, que o planejamento do “poder público será determinante no que se refere à atração de investimentos para o Agreste e Sertão, descomprimindo a crise imobiliária, social e de emprego que se abate sobre a região”. A duplicação da BR-232 pode representar o ponto de partida de um novo ciclo para o Agreste e o Sertão. Mais do que reduzir o tempo das viagens e os custos logísticos, a obra tem potencial para encurtar a distância econômica entre o interior e as oportunidades de desenvolvimento. Contudo, os setores público e privado precisarão responder às demandas históricas da região, com investimentos em educação, saúde, saneamento, energia, entretenimento e fomento ao empreendedorismo. É dessa combinação que dependerá a transformação das oportunidades abertas pela rodovia em desenvolvimento para a região.

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