Presidente da ATI-PE, Fred Vasconcelos destaca avanços em conectividade, saúde digital e serviços integrados, além do potencial de Pernambuco na economia de dados e inovação
A transformação digital deixou de ser um elemento secundário para se tornar peça-chave na gestão pública. Na avaliação de Fred Vasconcelos, presidente da Agência Estadual de Tecnologia da Informação de Pernambuco (ATI-PE), o uso intensivo de tecnologia não apenas amplia a eficiência administrativa, como redefine a relação entre o Estado e o cidadão, facilitando o acesso a serviços e tornando o governo mais transparente e responsivo.
À frente da ATI-PE, Vasconcelos aposta em projetos estruturantes que vão desde a reformulação da infraestrutura de conectividade do Estado até iniciativas de inovação em áreas sensíveis, como a saúde. Em entrevista, ele detalha as prioridades da gestão, aponta tendências para o futuro, como a atração de data centers de inteligência artificial, e destaca o papel estratégico da tecnologia no desenvolvimento econômico e social de Pernambuco.
Em linhas gerais, quais são as principais contribuições do uso crescente de tecnologia e inovação na gestão pública? De que forma esses avanços têm impactado a relação entre o poder público e a população, além de promover melhorias nos serviços e nos processos administrativos?
Antes de mais nada, é importante dizer que a tecnologia, em algum momento do passado — e o setor público não é diferente —, já foi encarada como supérflua. No caso do setor público, quando as contas apertavam, era na tecnologia da informação, na agência de tecnologia da informação e em outras iniciativas tecnológicas que havia cortes. No entanto, hoje os cidadãos e a sociedade não vivem mais sem o uso da internet, da tecnologia e da inteligência artificial.
Portanto, é muito difícil dissociar o uso intensivo das tecnologias — as mais diversas — pelas pessoas e pelos governos, se querem atender melhor a população. Nesse sentido, a tecnologia tem um papel preponderante no setor público, pois ela é habilitadora, permitindo que as pessoas tenham ao seu alcance os mais diversos e complexos serviços que o governo pode ofertar.
Considerando a atuação da ATI Pernambuco, quais são os principais programas ou ações que têm norteado a atual gestão? Se possível, poderia destacar até três iniciativas prioritárias.
Eu venho da iniciativa privada, então fui escolhido a dedo pela governadora Raquel Lyra para tocar um projeto em que a ATI se posiciona centralmente na estratégia de governo. Aliás, não existe estratégia, seja ela no setor público ou no privado, sem o uso intensivo de tecnologia.
A governadora me pediu que eu avaliasse principalmente e contratasse a nova rede de telecomunicação e conectividade de Pernambuco. Nós temos o PE Conectado II, que já estava em final de contrato, então nós remodelamos essa rede. Hoje estamos licitando uma rede que, sob qualquer aspecto, antes de mais nada, é uma rede de segurança que tem telecomunicação; ela não é mais uma rede de conectividade que, por acaso, tem segurança. Isso porque, hoje em dia, os níveis de ataque que o Estado sofre são enormes, e boa parte desses ataques ocorre de dentro da própria rede.
Então, é necessário que a gente tenha uma rede de segurança que tenha inserida a telecomunicação. E a gente corrigiu erros históricos dos projetos de telemática do Estado — embora os PEs Conectados tenham sido exemplo para o Brasil inteiro. A maior parte dos estados copiou o que Pernambuco fez e vai copiar novamente com a Rede PE Ultradigital, que é essa nova rede que está sendo licitada agora.
Ela corrige erros como a estagnação de velocidade, que não podia ser aumentada. Agora, as velocidades são incrementadas automaticamente ano a ano. A gente parte de uma velocidade média 25 vezes maior que a que Pernambuco tem hoje. Além disso, partimos de um custo por megabyte equivalente a um quarto do valor pago em 2017, quando o PE Conectado II foi licitado pela última vez.
Também partimos de uma rede de segurança com equipamentos importantes para garantir a proteção dos dados do Estado. E, por fim, ampliamos significativamente o número de equipamentos: Pernambuco hoje conta com cerca de três mil, distribuídos em diversos prédios, e vamos partir para um total de 12 mil equipamentos, aumentando a resiliência da rede.
Naturalmente, teremos uma rede que chegará a quase o dobro de links. Isso significa dizer que cada prédio atendido pelo governo — cerca de três mil — terá dois links entrando por rotas diferentes, aumentando assim a resiliência e diminuindo as interrupções de serviço que hoje afetam escolas, hospitais etc., tornando a rede muito mais robusta e próxima do ideal de infalibilidade.
Essa foi uma das prioridades.
Qual a outra prioridade?
A segunda foi atuar na transformação digital da saúde. A saúde é uma área com muitas oportunidades de melhoria por meio da tecnologia, em projetos como o que estamos lançando agora, chamado Colo de Mãe, que atende às mulheres em período pré-natal. Nós identificamos essas mães, buscamos oferecer atendimento e acompanhamento durante todo o período, usando a tecnologia como meio de chegar a essas pessoas e atendê-las nos mais diversos locais e rincões do nosso Estado.
A telemedicina é outra ferramenta que vem para ajudar a reduzir as filas das UPAs, não é? Assim, é possível reduzir significativamente as filas nas UPAs. O que a gente quer é diminuir a fila de exames, a fila de hospitais, melhorar a qualidade do serviço e usar a tecnologia para vistoriar a estrutura hospitalar, além de viabilizar a entrega de medicamentos mediante prescrição. Tudo isso representa oportunidades na área da saúde, dentro das diretrizes estabelecidas pela governadora Raquel Lyra.
Além disso, a ATI atua de forma transversal. Por exemplo, nós temos a Copa do Mundo Feminina de Futebol da FIFA, que vai ocorrer em 2027 aqui em Pernambuco, tendo a Arena Pernambuco como sede. A Arena precisa passar por um processo de requalificação para atender tecnologicamente tanto os equipamentos das áreas-meio — como catracas, telões etc. — quanto os equipamentos dedicados aos próprios espectadores, como o acesso à internet. A Arena é uma estrutura com muito concreto e, portanto, apresenta dificuldade de sinal — quem já foi lá sabe que isso é uma realidade.
Em 2014, as tecnologias não ajudavam tanto, quando tivemos a Copa do Mundo aqui, mas hoje temos possibilidades diferentes. Então, há um projeto de requalificação da Arena que é importante.
Como é a experiência de vocês com o uso de TI na segurança pública?
Também temos projetos que atuam na segurança pública. Há um redirecionamento da ATI, um redesenho, em que passamos a contar com uma área dedicada à segurança da informação. Isso é algo importante destacar, assim como a parceria forte com a própria Polícia Civil, para que ataques cibernéticos sejam coibidos e seus infratores identificados. E, principalmente, para que possamos manter os dados do Estado seguros.
Vocês devem se lembrar de que, na transição de governo, tivemos os dados da educação sequestrados, e foi a ATI que conseguiu recuperar o backup desses dados. Tudo isso tem a ver com a segurança, com a política de dados e com a LGPD, que precisam estar fortes e bem aplicadas no nosso estado — e tudo isso é atribuição da ATI.
Naturalmente, temos no Estado uma Secretaria de Transformação Digital fortemente integrada à ATI e nós atuamos de forma ainda mais capilarizada. Temos programas de inovação que chegam à ponta, voltados aos servidores, formando-os e criando aplicações a partir das dificuldades que eles enfrentam ao atender os cidadãos. Acho que isso é algo importante de destacar.
Poderia apresentar alguns exemplos dessa atuação?
O programa Agentes Digitais já desenvolveu software para regularização fundiária. Já entregamos mais de 100 mil títulos de regularização fundiária por meio da Perpart. Além disso, temos uma série de sistemas — mais de 30 — desenvolvidos para atender às diversas secretarias e a tendência é que esse número cresça ainda mais.
No campo da inovação, a própria Secretaria de Ciência e Tecnologia (SECTI) oferece um programa chamado Cientista Arretado, por meio do qual conseguimos trazer pesquisa de alto nível aplicada ao governo. A secretaria pode buscar doutores da UFPE e da UPE para apoiar na pesquisa e no desenvolvimento de soluções de altíssimo padrão para o Estado.
Outro programa importante da SECTI, que não posso deixar de mencionar, é o Desafios GOV, que aplica recursos em pequenas soluções, com simplificação de compras, voltadas à inovação. São iniciativas que fortalecem o ecossistema de inovação e tecnologia no Estado de Pernambuco.
Por fim, não menos importante, lançamos a plataforma que interopera todos os serviços de Pernambuco, chamada PE.GOV. É uma aplicação multiplataforma, acessível por aplicativo e portal web, em que o cidadão tem à sua disposição, em um só lugar, todos os serviços do Estado. A plataforma conta ainda com a simpática agente digital LIS para tirar todas as dúvidas e guiar o cidadão no consumo dos serviços com inteligência artificial.
Ele não vai mais precisar entrar no Detran para emitir uma guia, nem, caso tenha pago em duplicidade, ir à Sefaz para solicitar ressarcimento. Tudo isso poderá ser resolvido na palma da mão.
Acho que esse é um dos maiores avanços que a ATI realizou nos últimos tempos, ao entregar algo que a sociedade anseia há muito tempo: melhores serviços e melhor acesso. Em algum nível, isso também contribui para um entendimento mais claro de que o governo existe para servir ao cidadão e não para dificultar a sua vida.
Sabemos que, quando o serviço é mal executado, o cidadão pode ter a percepção contrária. Por isso, ao desenharmos um serviço — uma jornada do cidadão — partimos da dor que ele sente ao tentar acessar o serviço público. Isso muda completamente a forma como o serviço é executado.
Desenhamos jornadas para cada serviço, sempre com foco no cidadão, e isso tem feito uma diferença significativa nos resultados e no sentimento dos cidadãos pernambucanos em relação à sua interação com o governo.
Historicamente, o setor público tende a ser mais cauteloso em relação à adoção de inovação e tecnologia. No entanto, especialmente após a pandemia, observou-se um avanço significativo nesse campo. Olhando para o futuro, quais são as principais tendências no uso de tecnologia voltadas à melhoria da gestão pública?
Antes de mais nada, é natural, pela forma como os governos historicamente se organizaram em relação à tecnologia, que talvez não houvesse uma estrutura adequada, com profissionais da área conduzindo esses processos. É muito diferente da estrutura que a governadora Raquel Lyra montou em seu time. Eu próprio, como falei, não venho do governo, venho da iniciativa privada; fui CEO de duas empresas do Porto Digital nos últimos 30 anos e tenho uma agenda cidadã, com entregas concretas a realizar.
Pensando na sua pergunta, é muito importante lembrar que, ao olhar para a tecnologia, não se trata apenas de resolver problemas da sociedade, mas também de ampliar as divisas econômicas do Estado, buscar novas fronteiras e novas formas de incentivar outros nichos e economias. Pernambuco já conta com alguns clusters em funcionamento: temos um polo de tecnologia muito forte, que é o Porto Digital; um polo automotivo; um polo cervejeiro; um polo médico, que é o segundo maior do Brasil; além de um polo de medicamentos e o Porto de Suape. A questão é: como fortalecer esses polos e atrair novos?
Pernambuco passou a ser um contender na atração de data centers de IA. Hoje, existe uma grande concentração de cabos submarinos no Ceará, por uma questão geográfica, e não necessariamente por incentivo governamental. Pernambuco, por sua vez, tem, inclusive por sua preparação histórica, oferta de energia abundante, muitas vezes desperdiçada. Precisamos atrair equipamentos que demandem energia para fortalecer ainda mais esse setor.
Os data centers de IA são infraestruturas com alta demanda por energia que se beneficiarão desta oferta e irão contribuir também para a descentralização dessas estruturas críticas de cabos submarinos, que impactam diretamente a conectividade do país. Essa concentração no Ceará pode representar um risco: caso algo aconteça, pode haver reflexos em todo o Brasil, como um apagão de internet. Pernambuco pode colaborar com essa descentralização.
Além disso, o Estado está preparado: temos áreas disponíveis, com resiliência climática. Esses equipamentos, apesar de muitos pensarem que consomem muita água, utilizam, na verdade, sistemas robustos de resfriamento com líquidos específicos. Após a energia elétrica, o maior consumo é justamente desse fluido de arrefecimento. Essas estruturas atraem uma nova economia para o Estado e grandes players globais, como Google, Amazon, AWS e Meta, que, por sua vez, trazem seus próprios cabos submarinos. O governo pode incentivar essa vinda, inclusive participando da infraestrutura de cabeamento subterrâneo. Pernambuco se preparou e hoje possui um plano robusto de atração desses investimentos, com participação ativa da ATI.
Além disso, participamos da ABEP-TIC, que é o fórum nacional das empresas estaduais de tecnologia, em que discutimos e trocamos experiências diversas, além de compartilhar e adotar soluções entre os estados. Isso tem sido muito frutífero tanto para exportarmos tecnologias desenvolvidas aqui, quanto para trazermos casos de sucesso de outros lugares.
Um exemplo importante é um software que trouxemos do Piauí, da ETIPI (empresa de tecnologia do estado), chamado Credencia PE. Ele reduziu significativamente o tempo médio de compra de medicamentos na saúde. Já chegamos a ter prazos superiores a 120 dias para aquisição de medicamentos — algo inviável para quem precisa de tratamento imediato. Hoje, conseguimos reduzir esse prazo para cerca de duas semanas.
Esse sistema permite credenciar fornecedores e demandas, tornando o processo muito mais ágil. Isso tem ajudado bastante a nossa central de licitações a agir com maior rapidez, atendendo melhor o cidadão pernambucano, que é, no fim das contas, o nosso principal objetivo.
Quais são os principais investimentos e iniciativas — de curto e médio prazo — que estão nos planos da ATI para qualificar a gestão pública em Pernambuco? De que maneira essas ações também podem beneficiar as prefeituras e outras instituições ou empresas públicas no estado?
A gente tem atuado junto à Seplag, à Sefaz, à SAD e à Controladoria, que são partícipes importantes, além da CPF, nossa Comissão de Finanças, com sistemas de apoio à decisão que são muito robustos e têm ajudado bastante — todos desenvolvidos internamente.
Mas, naturalmente, quando falamos de apoio, precisamos lembrar que o Estado tem um papel preponderante que vai além das fronteiras dos seus órgãos e da administração direta e indireta. Os municípios de Pernambuco são muito carentes de tecnologia. Por isso, iniciamos agora uma Caravana de Entregas de Tecnologia. Montamos uma cesta de serviços que está sendo entregue: este ano, serão 20 municípios atendidos, inicialmente sem custo algum, para que possam firmar acordos de adoção das tecnologias mais importantes.
O objetivo é permitir que processos, compras e tudo o que é necessário para o funcionamento mínimo de um governo — com isonomia, clareza e transparência — possam ser adotados por todos os municípios, principalmente gerando mais agilidade para o cidadão.
A tendência é que essa caravana chegue a todos os municípios de Pernambuco. Temos tido bastante sucesso nas entregas: os prefeitos têm ficado muito satisfeitos, a população tem utilizado bastante, e isso é motivo de muito orgulho para nós.

