Ao longo de 20 anos, a revista revistou personagens, revoluções, transformações urbanas e marcos culturais para recuperar a memória do Estado e aproximar os acontecimentos do passado dos debates do presente.
*Por Rafael Dantas
Em um Estado marcado por várias revoluções e por seus heróis locais, como Frei Caneca, a memória dos grandes acontecimentos históricos não poderia ficar de fora das páginas da Revista Algomais em seus 20 anos de atividades. Porém, com uma característica analítica e propositiva, mesmo nessas matérias sobre acontecimentos pregressos, as discussões eram atualizadas a partir de dilemas contemporâneos vividos pelo Estado. Análises que relacionavam o passado a questões urbanas, econômicas, ambientais, políticas ou culturais de Pernambuco.
Para resgatar parte dessas coberturas, que marcaram datas importantes ou retomaram as histórias de grandes personalidades, os leitores e colaboradores indicaram reportagens que consideraram marcantes nessas duas décadas. Participaram desta seleção o historiador José Ricardo, a fisioterapeuta Natácia Carlos, a psicóloga Elizete Maciel, a jornalista Isabel Ribeiro e o cientista político Manoel Moraes. As escolhas e comentários percorrem diferentes momentos e dimensões da história pernambucana, das revoluções e seus personagens às transformações da cidade, da paisagem e das relações da população com o território.
A MEMÓRIA DO HERÓI FREI CANECA
Entre 2024, a Algomais percorreu uma das histórias mais intrigantes do Estado: a Confederação do Equador, que estava completando 200 anos. Embora Frei Caneca tivesse participado da Revolução Pernambucana de 1817, foi em 1824 que ele se tornou o líder que abalou o País, que vivia seus primeiros anos de independência.

O historiador José Ricardo, professor da rede pública de ensino em Paulista, destaca que o tema ganhou a capa de várias edições da Algomais. A revista percorreu em 2024 os passos da revolução com as reportagens 1824 – um marco contra o autoritarismo, 1824 – o fim da Revolução e O Nordeste pós-Confederação do Equador. Em janeiro de 2025, em referência aos 200 anos do fuzilamento do líder revolucionário, publicamos ainda Frei Caneca, o herói esquecido.
“Revisitar a história épica de Frei Caneca dentro das comemorações do Bicentenário da Confederação do Equador é uma forma de resgatar o papel do frade carmelita dentro da história de Pernambuco, enquanto religioso, maçom, jornalista e revolucionário”.

Colaborador e leitor da revista, José Ricardo ressalta que Frei Caneca conseguiu problematizar na sua época questões que ainda hoje são pertinentes, a exemplo do combate ao autoritarismo dos governantes, da liberdade de imprensa e também do papel de cada estado (na época, províncias) dentro do Pacto Federativo. “Caneca deixou um legado que até hoje ressoa como urgente e necessário. Não por acaso, escreveu: “quem bebe de minha caneca, sente sede de liberdade”, resumiu.
Entre os debates contemporâneos suscitados pela série estão a necessidade de repensar o Pacto Federativo, os impactos para Pernambuco da severa punição imposta ao Estado após os movimentos revolucionários e o reconhecimento da trajetória de Frei Caneca. Apesar de sua relevância histórica, o líder da Confederação do Equador ainda é pouco conhecido pela população e não conta sequer com uma estrutura permanente em Pernambuco que preserve e valorize sua contribuição para a história do Estado.
UM POEMA QUE ENTROU PARA A HISTÓRIA
Em 2018, quando o clássico poema O Rio, de João Cabral de Melo Neto, completava 65 anos, a Algomais percorreu diversas cidades cortadas pelo Capibaribe para recontar essa história. Da nascente, em Jataúba, até seu percurso mais conhecido, na capital pernambucana, a equipe de reportagem revisitou as paisagens vistas pelo poeta, pontuando as mudanças e continuidades registradas nos versos. A série, chamada Rio da Resistência, resultou em três reportagens especiais.

Esse projeto de fôlego foi a recomendação da fisioterapeuta Natácia Carlos. Mesmo com uma narrativa poética e em diálogo com a memória do poeta e dos pernambucanos que conheceram o Agreste, a Zona da Mata e o Recife na década de 1950, foram outras questões que chamaram a atenção da leitora.
“Essas matérias mostram uma realidade muito importante de Pernambuco: a convivência do sertanejo com a seca e a resistência de quem depende da terra e do Rio Capibaribe para sobreviver, apesar de ainda ter tanta gente indiferente a ele. Ela mostra que o crescimento econômico pode acontecer sem que o meio ambiente seja prejudicado e que investir em sustentabilidade pode beneficiar a todos”, afirmou Natácia.

Com uma proposta multidisciplinar, a reportagem discutiu a preservação das margens do rio, com a participação da ONG Bichos da Caatinga, e reuniu vozes de instituições públicas, associações e da iniciativa privada para discutir os desafios ambientais do Capibaribe.
Em Toritama e Santa Cruz do Capibaribe, a reportagem mostrou os impactos do crescimento do Polo de Confecções e iniciativas que buscavam conciliar desenvolvimento econômico e preservação ambiental. Ao percorrer o caminho descrito por João Cabral, a Algomais atualizou o olhar sobre o rio e revelou um Pernambuco que havia mudado, mas ainda carregava muitos dos desafios presentes nos versos do poeta. Além do texto, a série Rio da Resistência também gerou um mini-doc, dirigido por Alexandre Mapa, que está disponível no nosso Youtube.
PRÉDIOS QUE CONTAM HISTÓRIAS
O Centro do Recife e o esforço pela sua revitalização ganharam várias reportagens da Algomais nos últimos anos. A entrevista O projeto do Moinho Recife demonstrou que não há dúvida sobre a viabilidade de investir no Centro, realizada por Cláudia Santos com os arquitetos Bruno Ferraz e Roberto Montezuma, foi destacada pela psicóloga e leitora Elizete Maciel.

Ela revela a memória de momentos áureos da cidade que foram suscitados com a leitura. “Durante muitos anos, circulei pelo Centro da cidade do Recife. Dá um susto e tristeza por ver hoje espaços esquecidos, além do medo da perda de memórias afetivas do tempo em que caminhava com meus pais”.
Ela valorizou a iniciativa apresentada na entrevista como um dos esforços para recuperar a capital pernambucana. “Articular projetos para a revitalização do Centro do Recife é essencial não apenas para a recuperação urbana, mas para a reconstrução de vínculos afetivos que sustentam a identidade coletiva”
A entrevista também mostrou que a recuperação do Centro passa por encontrar novos usos para os edifícios antigos sem apagar suas marcas. O projeto do Moinho Recife, apresentado pelos arquitetos como uma experiência pioneira de retrofit, combinou moradia, trabalho e lazer e demonstrou a viabilidade de envolver a iniciativa privada na reocupação de imóveis históricos. “Ao resgatar a memória das ruas cheias, do vai e vem das pessoas com suas sacolas, do comércio pulsante e dos cheiros que evocam vida e pertencimento, estimulamos o desenvolvimento econômico dessa região, que reativa também o sentimento dessa cidade viva. O Centro tem o seu papel de lugar de encontro, circulação e significado, fortalecendo a relação entre as pessoas e o território que habitam, misturando o passado e o presente, permitindo que as gerações se encontrem.”

Mais do que recuperar prédios, a discussão apontou para a necessidade de devolver vida ao Centro, com diversidade de moradores, atividades econômicas e convivência entre diferentes tempos da cidade. É uma perspectiva que une memória e futuro e que continua presente no debate sobre o Recife.
UM INTELECTUAL QUE ENTROU NA HISTÓRIA
Alvo de diversas reportagens da Algomais, as obras de Gilberto Freyre ajudam até hoje a compreender o Brasil e Pernambuco. Porém, foi a reportagem sobre os 125 anos sobre a sua trajetória como intelectual que chamou a atenção da jornalista Isabel Ribeiro. A matéria Olhar Pioneiro do Mestre de Apipucos, publicada em março de 2025, mostrou como o sociólogo antecipou discussões que permanecem presentes no debate público, abordando temas como ecologia, urbanização, gastronomia, mestiçagem e identidade nacional.

Para Isabel, um dos méritos da reportagem foi apresentar Freyre para além de uma perspectiva apenas pernambucana. “Ele traz uma visão nacional na questão cultural. Vai além de Pernambuco, porque fala muito da questão da escravidão, mas principalmente contextualiza dentro do nosso dia a dia, do nosso estado”, afirma. A jornalista também destaca a abordagem de obras como Açúcar e Casa-Grande & Senzala, que ajudam a compreender aspectos da formação social e cultural pernambucana. “É um orgulho mostrar que Pernambuco é mesmo um celeiro de talentos, de muita história e muita cultura, e o mundo todo tem que saber disso. Ele cumpriu bem o papel dele, e isso continua sendo muito valioso para o Estado.”
A reportagem também teve uma repercussão pessoal para Isabel. Na mesma época em que leu a matéria, ela planejava conhecer a Fundação Gilberto Freyre e acabou visitando o local com a mãe. “Foi muito bom ter aprofundado na história antes de ir à casa, porque, quando fui visitá-la, já estava com muito mais embasamento.” Para ela, a reportagem funcionou não apenas como registro histórico, mas como uma porta de entrada para conhecer melhor a trajetória e o legado do intelectual.

Isabel considera que a relevância da cobertura está também na dimensão universal da obra de Freyre. “Gilberto Freyre é universal, é internacional. É aquele personagem tão importante aqui dentro do nosso estado que abriu a nossa cultura, o nosso jeito de ser pernambucano e nordestino para o mundo.” Por isso, ela avalia que a reportagem cumpre uma função propositiva ao levar esse conhecimento a um público mais amplo, com pesquisa e informações acessíveis. “É uma forma de espalhar Pernambuco para o mundo.”
RESGATE DOS ANOS DE CHUMBO
A série Memórias do Golpe em Pernambuco, publicada em três reportagens, revisitou um dos períodos mais traumáticos da história recente do Estado. A cobertura percorreu o ambiente político que antecedeu 1964, a repressão e as diferentes formas de resistência à ditadura, chegando aos esforços de reparação após a redemocratização.

Para o cientista político Manoel Moraes, professor da Unicap e advogado, um dos méritos da série foi analisar os impactos do golpe civil militar de 1964 a partir de Pernambuco e das investigações da Comissão Estadual da Memória e Verdade Dom Helder Câmara. Ele destaca que as reportagens ajudam a compreender tanto as particularidades do que ocorreu no Estado quanto questões que permanecem atuais no País. “As matérias trouxeram não só um olhar a partir dessas investigações, como mostraram como o golpe a nível federal impactou o estado de Pernambuco e trouxe a partir do Nordeste um olhar próprio de uma situação que se alastra até hoje pelas remanescências do entulho autoritário que o golpe representa ainda para a sociedade brasileira.”
Moraes chama atenção ainda para a abordagem sobre a atuação da interferência estrangeira nas eleições brasileiras e o uso da desinformação no período. Para ele, são temas históricos que dialogam diretamente com discussões contemporâneas. A série também recuperou as práticas de tortura e as técnicas de monitoramento das organizações e da sociedade civil desenvolvidas durante a ditadura. “Essas matérias são um conjunto de informações que não só consolidam a revista como um espaço de contribuição da história, mas também fortalecem o direito à memória e à verdade.”

As reportagens mostraram a força da mobilização política que existia em Pernambuco antes do golpe, a atuação de diferentes grupos na resistência ao regime e, posteriormente, os esforços para reconhecer as violações cometidas durante a ditadura. Ao recuperar personagens e episódios dessa trajetória, a Algomais também trouxe para o presente a discussão sobre democracia e autoritarismo, neste momento de ascensão da extrema-direita no mundo.
Além das reportagens lembradas pelos leitores e colaboradores, muitas outras coberturas da Algomais tiveram a história de Pernambuco como ponto de partida. A revista acompanhou os bicentenários das Revoluções de 1817 e de 1821, revisitou o centenário da Semana de Arte Moderna de 1922 e do Congresso Regionalista de 1926 e recuperou personagens e episódios menos conhecidos, como a passagem do padre Joseph Lebret por Pernambuco, contada pelo jornalista José Neves Cabral na reportagem Um Profeta Passou Por Aqui. Ao longo dessas duas décadas, olhar para o passado foi também uma maneira de compreender as transformações do Estado e colocar em discussão os caminhos para o seu futuro.
*Rafael Dantas é repórter da Revista Algomais e assina as colunas Pernambuco Antigamente e Gente & Negócios (rafael@algomais.com | rafaeldantas.jornalista@gmail.com)

