A ilusão do heroísmo e a militância quixotesca

Há algo de quixotesco na militância dos nossos dias. Em tempos de eleições, quando as redes sociais se transformam em campos de batalha, não são poucos os que vestem suas armaduras, empunham suas espadas e partem para a guerra. A diferença é que, agora, as armas cabem no bolso.

Cada um parece ter recebido uma missão histórica: salvar o Brasil. De um lado ou de outro, pouco importa. O roteiro é semelhante. Publicam-se denúncias, compartilham-se vídeos, disparam-se mensagens nos grupos da família e do trabalho. Uma discussão começa durante o almoço e termina à noite, sem que ninguém tenha mudado de opinião. Ainda assim, há quem vá dormir com a consciência tranquila de quem acabou de vencer uma batalha decisiva pela pátria.

É difícil não se lembrar de Dom Quixote, o cavaleiro que enxergava gigantes onde havia moinhos de vento. Convencido de sua missão, ele interpretava o mundo a partir das imagens grandiosas que sua imaginação lhe oferecia. Bastava apenas que o cavaleiro precisasse de um inimigo à altura de sua aventura.

Talvez resida aí uma das ironias da militância digital: às vezes, não procuramos compreender a realidade, mas encontrar nela personagens que confirmem a batalha que já decidimos travar. O adversário deixa de ser alguém com quem discordamos e passa a representar todo o mal que precisamos combater. Uma frase fora de contexto vira prova definitiva; uma divergência, sinal de cumplicidade com o inimigo. Já não discutimos ideias: distribuímos sentenças.

E há uma recompensa silenciosa nesse teatro. A tela oferece ao militante a sensação de protagonismo. Por alguns instantes, ele não é apenas alguém preocupado com o destino do país. É alguém que participa ativamente de sua salvação. Cada compartilhamento ganha a importância de um manifesto; cada resposta atravessada, a solenidade de um discurso histórico. A revolução parece estar sempre a uma publicação de distância.

Mas o Brasil, esse velho moinho… continua girando precariamente.

Continua na escola que precisa de melhores condições, no hospital onde falta atendimento, no trabalhador que enfrenta longas jornadas, na comunidade que convive com a ausência de serviços básicos. A vida concreta, com seus problemas pouco épicos e suas soluções demoradas, raramente oferece o mesmo entusiasmo de uma batalha travada nas redes. Transformar a realidade exige mais do que indignação: exige trabalho, participação, escuta, responsabilidade e disposição para lidar com aquilo que não cabe em frases de efeito e cards gerados por IA.

Isso não significa que a militância digital seja inútil. Uma denúncia pode romper o silêncio, uma informação pode esclarecer, uma mobilização pode reunir pessoas em torno de uma causa legítima. O problema começa quando a representação da luta passa a ocupar o lugar da própria luta, quando parecer engajado se torna mais importante do que compreender o problema, e vencer uma discussão vale mais do que contribuir para alguma mudança.

No fundo, talvez cada época invente suas próprias armaduras. A nossa tem notificações, fotografias de perfil, vídeos curtos e palavras de ordem. Também inventamos nossos gigantes: figuras monstruosas que nos permitem sentir a grandeza de enfrentá-las. E, como o cavaleiro de Cervantes, podemos acabar tão apaixonados pela nobreza de nossa missão que já não percebemos a distância entre aquilo que imaginamos combater e aquilo que realmente está diante de nós.

O perigo não está em sonhar com um país melhor, nem em lutar por ele. Está em confundir a imagem que fazemos de nós mesmos com aquilo que efetivamente fazemos. Afinal, é possível passar o dia inteiro tentando salvar o Brasil e não dedicar sequer alguns minutos a compreender o Brasil real.

Dom Quixote, ao menos, saía de casa. Nós, muitas vezes, nem precisamos levantar do sofá.

E lá fora…os moinhos de vento continuam sendo apenas moinhos de vento.

Thiago Oliveira é Professor de História da Rede Pública Estadual e especialista em Ciência Política

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