Algomais 20 anos: Os desafios para desenvolver a infraestrutura de Pernambuco

*Por Rafael Dantas

Existem assuntos que são áridos, mas necessários. Um dos motivos que explica a diferença tão grande entre as regiões do Brasil é justamente uma questão difícil de compreender, mas urgente para o desenvolvimento de qualquer lugar: a infraestrutura. Na série Algomais 20 anos, lembramos, a partir da indicação de leitores, de algumas coberturas que destacaram avanços, apontaram soluções ou que foram mais intensamente críticas. 

Afinal, desafios de infraestrutura não nos faltam. Em um Estado com maioria do território no Semiárido, com uma região metropolitana com mobilidade travada e com um amplo parque industrial sem uma ferrovia, as necessidades falam por si. Para indicar algumas reportagens que costuraram esses debates menos populares que a Algomais cobriu nessas duas décadas, recebemos as contribuições dos leitores Aluísio Sampaio Neto, morador de Petrolina e doutorando em ecologia humana e gestão socioambiental; Rudinei Miranda, empresário e liderança nacional no setor de energias renováveis; Salomão Maia, funcionário público; Jerisio Elias de Melo, aposentado; e de André Nascimento, jornalista e radialista.

A ferrovia que a Algomais se recusou a esquecer 

Sem dúvidas, um dos assuntos de infraestrutura que ganhou mais páginas da Algomais foi o desmonte da malha ferroviária do Nordeste e a até então frustrada retomada da ferrovia no Estado. A reportagem Como Anda a Transnordestina em Pernambuco?, de 2025, é a indicação de Aluísio Sampaio Neto. “Para mim, foi uma matéria sensacional, porque abordou de maneira esclarecedora o contexto da ferrovia Transnordestina, seu potencial para o desenvolvimento da região Nordeste, destacando Pernambuco, e os fatores que explicam o atraso em sua conclusão”. 

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O leitor de Petrolina ressaltou a importância dessa cobertura para a população pernambucana refletir sobre a relevância desse projeto. “A reportagem contribui para recolocar esse empreendimento em debate na sociedade e entre os governantes, fortalecendo a expectativa de que esse projeto estratégico finalmente se concretize, mesmo diante dos desafios e da lentidão que ainda marcam sua execução”.

A cobertura da Transnordestina teve seus primeiros passos ainda em 2023, quando o Estado tinha acabado de ver amputado o percurso entre Salgueiro e Suape. Sem normalizar a derrota local, a cobertura desde então, com a série Era Uma Vez Uma Ferrovia pautou vários debates sobre o empreendimento até que o Governo Federal decidiu ressuscitar o projeto. A Infra S.A. passou a conduzir a sua construção e os primeiros recursos começaram a ser destinados. 

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Retomar as obras e ver a ferrovia concretizada segue sendo um amplo desafio para o Estado, mas o assunto tem ganhado densidade. Uma das propostas discutidas nos encontros do projeto Pernambuco em Perspectiva, inclusive, foi a criação de uma Secretaria Especial da Transnordestina.

Ferrovias além da Transnordestina

Apesar do maior destaque dado ao projeto da Transnordestina, ele não é o único empreendimento logístico ferroviário de interesse de Pernambuco e do Nordeste. Isso ficou evidente na reportagem Apartheid Logístico, destacada pelo nosso assinante e funcionário público Salomão Maia.

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“A matéria sobre a malha ferroviária no Nordeste é de muita pertinência para o contexto pernambucano, pois aponta para a falta de investimento nessa área aqui em Pernambuco. O escoamento de produtos e a prestação de serviços se tornariam bem mais competitivos com investimentos na infraestrutura da ferrovia percorrendo as principais cidades pernambucanas. Também o setor de turismo seria impulsionado com os investimentos, pois, além do transporte de carga, abriria portas para viagens intermunicipais de passageiros, como havia quando eu era criança”, afirmou Salomão.

Ele lembra que a reportagem expôs uma diferença importante nos investimentos em relação às regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste que passam por expansão em suas malhas ferroviárias. “A matéria alerta para um provável aumento das desigualdades regionais envolvendo o Sul, Sudeste, Centro-Oeste e até entre os estados do Nordeste. Todos sabem da importância desses investimentos, ao lado de grandes projetos como a ferrovia bioceânica, que ligará o porto de Ilhéus ao de Chancay, no Peru, e a conexão com a ferrovia Norte-Sul. Serão necessárias ajudas de lideranças regionais e órgãos como a Sudene para trazer a Pernambuco o desenvolvimento que os pernambucanos merecem”, defendeu Salomão.

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A antiga Malha Nordeste, que conectava os portos dos estados de Alagoas, Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte, foi desmantelada após a privatização do final dos anos 1990. Sua retomada também está nesse conjunto de ações de integração logística. O tema foi discutido também em um Pernambucast, com a economista Tânia Bacelar.

A crise que continua nos trilhos

Ainda sobre os trilhos, outra reportagem lembrada pelos nossos leitores foi Qual a Saída Para o Metrô do Recife?, publicada em 2023. A análise sobre a crise do sistema metroviário pernambucano e os caminhos para sua recuperação foi indicada por Jerisio Elias de Melo, aposentado e morador do Recife.

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“Salvar o Metrô do Recife é algo que deveria ser prioridade dos Governos Federal e Estadual. Como já tenho 72 anos, acompanhei seu nascedouro, desde a inauguração do trecho até a Estação Werneck, depois a expansão para Jaboatão e Rodoviária (mais tarde Camaragibe, que chamava de Timbi). Para isso, é necessária uma decisão política de investir e fortalecer a empresa. Assim, seria possível renovar os trens, reformar as estações, melhorar a acessibilidade e a iluminação, aumentar a pontualidade e a confiabilidade e reduzir o intervalo entre as viagens, principalmente nos horários de pico”, propõe Jerisio.

A reportagem mostrou como o Metrô do Recife chegou a um quadro de sucateamento, perdendo mais da metade dos passageiros entre 2015 e 2022, em razão da deterioração da qualidade do serviço, do aumento da insegurança e da elevação da tarifa. Os especialistas ouvidos defenderam que a recuperação da infraestrutura e da operação deveria anteceder qualquer discussão sobre o futuro modelo de gestão do sistema. No entanto, a empresa permaneceu no Programa Nacional de Desestatização (PND) e continua enfrentando um cenário de subinvestimento e deterioração.

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Além da recuperação da malha existente, os técnicos destacaram a necessidade de ampliar a rede metroviária para atender ao crescimento da Região Metropolitana do Recife. Passados mais de dois anos da publicação da reportagem, nenhuma das medidas apontadas pelos especialistas foi implementada de forma significativa. O sistema segue operando em condições precárias, enquanto o debate sobre sua gestão continua sem oferecer respostas concretas para os usuários.

Energia limita novos investimentos

Outro tema técnico e estratégico abordado nas páginas da Algomais nos últimos anos foi a infraestrutura energética. Nesse eixo, a reportagem Sem Novas Linhas de Transmissão, Setor de Energia Em Pernambuco Pode Travar? foi indicada pelo empresário Rudinei Miranda. Embora Pernambuco atraia investimentos bilionários em energias renováveis, a limitação da rede de transmissão tem levado empreendimentos a migrarem para estados como Ceará, Bahia e Rio Grande do Norte, que contam com uma infraestrutura mais preparada para receber novos projetos.

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“Observo que a reportagem trouxe ao tema um enfoque relevante e que se converteu em resultados estratégicos e de alinhamento ao setor, dada as articulações e ações de aproximação e trabalho conjunto”, afirmou Rudinei Miranda, que preside a Aperenováveis.

Segundo o empresário, a reportagem, inspirada em um dos debates da Exporenováveis 2025, contribuiu para mobilizar o poder público em torno do problema e reforçou a necessidade de uma atuação conjunta entre governo e iniciativa privada. Ao longo do ano, esse movimento se refletiu na realização de estudos, na construção de agendas estratégicas e na formulação de iniciativas para estruturar políticas públicas em parceria com o Governo Federal.

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Miranda avalia que a discussão também fortaleceu o diálogo entre o Governo de Pernambuco e o setor produtivo, permitindo um planejamento mais alinhado às expectativas dos investidores e às necessidades da infraestrutura estadual. Embora o principal objetivo seja inserir o tema como prioridade na agenda da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), o que ainda não foi alcançado, ele considera positivo o fato de a questão ter ganhado maior atenção e permanecido na pauta dos diferentes atores envolvidos.

O desafio que ainda corre pelas torneiras 

Ninguém gosta de conversar sobre esgoto ou falta d’água. Mas, para quem sofre com a ausência de saneamento básico, são problemas imprescindíveis e que mesmo menos populares, entraram na pauta da Algomais em algumas edições. Nosso leitor e jornalista André Nascimento indicou a reportagem O Desafio Para Ofertar Água e Tratamento de Esgoto, publicada em agosto de 2024, que expôs vários dramas vividos pelos pernambucanos.

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“A água é o bem natural mais importante para os seres humanos. É triste saber que esse bem ainda não está livremente disponibilizado a toda população por causa de falhas na forma de distribuir a água. Para quem vive em cidades como o Recife, onde a maioria dos bairros tem água na torneira todos os dias, saber que grandes polos como Santa Cruz do Capibaribe passam por racionamento é chocante”, relatou o jornalista. “É mais triste ainda saber que o saneamento básico não é uma realidade para a maioria dos pernambucanos. É preciso olhar para essa situação com o pensamento de que todo cidadão precisa ter sua dignidade mantida. E isso passam, principalmente, por ter acesso a recursos básicos para uma sobrevivência minimamente digna para todos as Marias e Joões pernambucanos”.

A reportagem destacou que o saneamento básico em Pernambuco apresentava um cenário considerado dramático e crônico, marcado por um forte contraste: embora 96% da população esteja conectada à rede de água, cerca de 4,3 milhões de pessoas conviviam na época com rodízios severos há décadas. A situação do esgotamento sanitário é ainda mais grave, com apenas 30% de cobertura no Estado, o que impõe o desafio de acelerar investimentos para cumprir as metas do Marco Legal do Saneamento, que exige a universalização dos serviços até 2033.

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Os especialistas sugeriram a aceleração dos investimentos e a adoção de contratos de performance, que remuneram as empresas por resultados obtidos, e defendem uma gestão mais profissionalizada para modernizar a cultura corporativa da estatal. Além disso, há um alerta para que o processo de concessão na época evitasse outorgas onerosas que pudessem elevar as tarifas. Havia ainda a cobrança por uma grande revisão da PPP do Saneamento da RMR para alinhar metas e prazos ao novo Marco Legal.

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Ao revisitar essas reportagens escolhidas pelos nossos leitores, fica evidente que a infraestrutura nunca foi apenas um conjunto de obras. Ela define oportunidades, reduz desigualdades e influencia diretamente a competitividade de Pernambuco. Ferrovias, mobilidade urbana, energia e saneamento continuam sendo desafios que atravessam governos e exigem planejamento de longo prazo, coordenação entre diferentes atores e capacidade de execução. Mais do que registrar esses debates, a Algomais buscou manter esses temas na agenda pública, contribuindo para uma discussão que permanece essencial para o desenvolvimento do Estado. 

*Rafael Dantas é repórter da Revista Algomais e assina as colunas Pernambuco Antigamente e Gente & Negócios (rafael@algomais.com | rafaeldantas.jornalista@gmail.com)

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