Artigos

demorval santos filho

As contribuições do afroempreendedorismo para a economia brasileira

Da resistência à geração de riqueza: a força econômica do afroempreendedorismo *Por Demorval dos Santos Filho O “movimento” afroempreendedor crescente no Brasil está diretamente ligado às evoluções e às constantes discussões sobre as pautas raciais e a importância do afro-brasileiro para o crescimento econômico do nosso país. Ao longo de todo o território brasileiro, percebemos o quanto vem sendo corriqueiro (e extremamente necessário) a existência de feiras, eventos empreendedores, congressos acadêmicos, rodas de conversa, entre outros, que tratam do posicionamento social da cultura negra e de como ela tem sido importante para a nossa evolução. Muito além de discutir apenas a questão do racismo, esses momentos têm proporcionado oportunidades empreendedoras a uma grande parcela da população brasileira que antes não tinha a chance de reconhecer que suas técnicas de produção afro-brasileiras também eram lucrativas e poderiam se transformar em negócios. Vou dar um exemplo: quando há um movimento sociocultural reconhecendo as tranças nagô como um instrumento cultural de relevância social, isso ajuda no despertar das classes sociais, que passam a adotar o modelo com um padrão aceitável de estilo capilar. Esse processo dá início a toda uma cadeia produtiva que, em sua grande maioria, é liderada por pessoas negras. A sociedade, a partir de sua evolução sociocultural, cria novos padrões empreendedores. Um dos maiores movimentos brasileiros que têm trazido visibilidade aos afroempreendimentos é a Expo Favela Innovation. A feira tem rodado o Brasil, em datas programadas, recrutando empreendedores residentes em comunidades com o objetivo de apresentar à sociedade o mercado empreendedor das favelas e dos negócios criativos. Em sua grande maioria, os empresários são afro-brasileiros. Na Região Nordeste, de acordo com dados do SEBRAE (2024), os afroempreendedores correspondem a cerca de 32,7% do total nacional, ficando atrás apenas da região Sudeste, que concentra 37,7% desse segmento. Ao realizarmos uma análise mais específica sobre o estado de Pernambuco, de acordo com dados do SEBRAE e com base na PNAD Contínua do IBGE, estima-se que cerca de 77% dos empreendimentos totais estão na informalidade — e, destes, cerca de 66% são afroempreendedores. Os dados sobre o quantitativo de afroempreendimentos ainda são tímidos quando falamos em nível de Pernambuco. O Instituto Afro Origem fez um investimento de capital humano em sua unidade neste ano de 2025, aqui no estado, e acredita-se que, para o futuro, teremos mais clareza sobre a real dimensão dos afroempreendimentos pernambucanos. Os empreendimentos afro, em Pernambuco, são em sua grande maioria pequenos negócios e informais, com presença crescente na agropecuária, construção, beleza e alimentação. Eventos como o Empodera Afro, realizado pelo SEBRAE, têm estimulado a formalização e o fortalecimento desses negócios, além de promover a valorização cultural e o networking entre os empreendedores. A maioria dessas atividades ocorre em espaços variados, desde estabelecimentos fixos até locais improvisados, sem endereço comercial definido. O afroempreendedorismo contribui para a economia ao gerar emprego e renda, promover a inclusão social e cultural e fomentar a diversidade e a inovação nos negócios locais. Embora predominem micro e pequenos negócios, a tendência é de aumento da formalização e da qualificação dos empreendedores — especialmente mulheres negras —, o que tende a ampliar ainda mais o impacto econômico. Esses dados evidenciam que o afroempreendedorismo é uma força econômica importante no Nordeste e em Pernambuco, com grande potencial de crescimento e fortalecimento por meio de políticas públicas e iniciativas privadas que reduzam a informalidade e promovam capacitação e acesso ao crédito. *Demorval dos Santos Filho é economista

As contribuições do afroempreendedorismo para a economia brasileira Read More »

Rodrigo Bourscheidt CEO da Energy

O poder nas mãos de muitos: como os pequenos consumidores estão moldando o futuro da energia solar

* Por Rodrigo Bourscheidt, CEO e fundador da Energy+ Durante décadas, o setor elétrico foi visto como um território de poucos, dominado por grandes geradoras, complexas estruturas e decisões centralizadas. Mas essa lógica está mudando. A transição energética e a democratização da energia solar estão promovendo uma revolução silenciosa, que nasce nos telhados de casas, comércios e pequenas propriedades rurais. A geração distribuída abriu caminho para uma nova forma de pensar e consumir eletricidade. Hoje, qualquer imóvel pode se transformar em uma mini usina sustentável, capaz de produzir, armazenar e até compartilhar energia. Essa autonomia representa muito mais do que economia na conta de luz: simboliza independência, eficiência e participação ativa no processo de descarbonização da economia. O avanço da tecnologia fotovoltaica e a queda nos custos de instalação tornaram o acesso à energia limpa mais democrático. Sistemas que antes exigiam alto investimento agora se tornaram acessíveis e atraentes para consumidores de diferentes perfis. É o empoderamento energético ganhando forma, uma mudança estrutural que aproxima as pessoas daquilo que antes parecia exclusivo do setor industrial. A digitalização é outro pilar dessa transformação. Plataformas inteligentes permitem acompanhar, em tempo real, quanto cada painel está gerando, o seu consumo e se está economizando. Essa visibilidade redefine a relação do consumidor com a energia: ela deixa de ser um serviço distante e passa a ser uma ferramenta estratégica, controlada na palma da mão. Mas o verdadeiro salto está na autonomia. O avanço das baterias e sistemas de armazenamento promete consolidar a independência energética dos pequenos consumidores. Armazenar o excedente gerado durante o dia para uso noturno ou em momentos de pico de demanda não é mais uma ideia de futuro, é uma realidade cada vez mais próxima. A autossuficiência energética, antes impensável, começa a se tornar um padrão desejado e viável. Esse movimento também carrega um impacto ambiental significativo. Cada telhado solar representa menos emissões de carbono, menos pressão sobre as fontes fósseis e mais resiliência para o sistema elétrico nacional. Quando somados, esses pequenos pontos de geração criam uma rede descentralizada e colaborativa, capaz de sustentar o crescimento econômico com responsabilidade ambiental. O protagonismo deixa de ser exclusivo das grandes companhias e passa a ser compartilhado com milhões de consumidores que, juntos, constroem um ecossistema mais equilibrado e inteligente. O futuro da energia não pertence a poucos, mas a todos que decidiram transformar seus espaços em centros de geração limpa, que a entendem como um ativo estratégico e que enxergam na sustentabilidade não um custo, mas uma oportunidade. São esses pequenos consumidores que, somados, estão moldando um dos capítulos mais promissores da história energética do país. *Rodrigo Bourscheidt é formado em Administração e Negócios pela Faculdade Sul Brasil. Atuou em equipes comerciais e estratégicas de empresas como AmBev, Grupo Embratel (Embratel, Claro e Net) e Grupo L’oreal, antes de se dedicar ao empreendedorismo. Em 2019 fundou a Energy+, rede de tecnologia em energias renováveis que oferece soluções voltadas para a geração de energia distribuída, onde atua como CEO.

O poder nas mãos de muitos: como os pequenos consumidores estão moldando o futuro da energia solar Read More »

mulher agua

Água e mulheres: quando elas decidem, tudo flui melhor

*Por Dawn Fleming Falar sobre água é falar sobre sobrevivência. Também é falar sobre poder, desigualdade e quem realmente decide como esse recurso vital chega até a população. E é aí que entra uma pergunta urgente: onde estão as mulheres nas decisões sobre a água? A verdade é que são as mulheres, principalmente nas periferias, que mais sentem os impactos da falta de água, de higiene e de saneamento. São elas que precisam improvisar soluções quando falta água na torneira, que cuidam dos filhos e parentes doentes por beberem água contaminada, que carregam baldes de um lado pro outro quando o sistema falha. E, muitas vezes, isso não é uma exceção: é o cotidiano de quem vive fora do sistema, permanentemente sem acesso garantido ao básico. Apesar disso, as mulheres continuam sendo invisíveis nas discussões que definem políticas públicas sobre água e saneamento. Isso precisa mudar. E os dados comprovam essa urgência. O Brasil obteve a classificação mais baixa em equidade de gênero entre 22 países latino-americanos avaliados na inclusão de gênero em políticas hídricas. No Conselho Nacional de Recursos Hídricos, apenas 28% dos membros são mulheres. Além disso, um relatório de 2022 mostra que 74% dos entrevistados no Brasil não possuem evidências adequadas sobre a inclusão de gênero na política hídrica, e 22% afirmaram que ela é inadequada. Ou seja, a falta de escuta às mulheres é estrutural. Felizmente, iniciativas como o projeto Água Delas, realizado no Cabo de Santo Agostinho, em Pernambuco, mostram que quando as mulheres entram na conversa, as soluções ficam mais eficientes e conectadas com a realidade. A proposta nasceu da ONG canadense Waterlution, em parceria com o Centro das Mulheres do Cabo, com apoio do Governo Federal do Canadá. O foco é claro: garantir que mulheres da periferia participem da governança da água, produzam conhecimento e influenciem políticas públicas com base em suas vivências. Mais do que participar de oficinas, essas mulheres estão desenvolvendo ferramentas de diagnóstico, propondo soluções e dialogando com o poder público municipal, estadual e nacional. Elas não estão pedindo favores, estão ocupando espaços, com legitimidade e clareza. E estão mostrando que sabem o que precisa ser feito. O projeto também reforça o compromisso com a Agenda 2030 da ONU, trabalhando diretamente em direção aos ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável): o ODS 5 (Igualdade de Gênero), o ODS 6 (Água Limpa e Saneamento) e o ODS 17 (Parcerias e Meios de Implementação). É uma ação concreta que conecta o local ao global, com impacto real na vida das pessoas. Como afirmou a UN Women / UN Water em 2023: “Projetos de água com participação ativa das mulheres podem ser até sete vezes mais eficazes e sustentáveis.” É simples: quando as mulheres têm voz, toda a comunidade ganha. É isso que precisamos ver mais: protagonismo feminino como política de estado. Governança da água com participação real das mulheres é um caminho para combater desigualdades, fortalecer comunidades e garantir que ninguém fique para trás. Porque, no fim das contas, quando as mulheres são ouvidas, a água corre melhor para todo mundo. *Dawn Fleming é responsável pelos programas da Waterlution Brasil e pela inovação nos programas globais da Waterlution.

Água e mulheres: quando elas decidem, tudo flui melhor Read More »

IMG 20251110 WA0026 Easy Resize.com

Racismo Ambiental e Justiça Climática

*Milton Tenório As populações que menos contribuíram historicamente e atualmente para as emissões de gases de efeito estufa e a degradação ambiental – as populações pretas, indígenas, quilombolas e periféricas – são as mais vulneráveis e as primeiras a sofrerem os impactos mais severos da crise climática.Essa disparidade é frequentemente abordada no conceito de Justiça Climática e Racismo Ambiental, que reconhece como as questões ambientais se entrelaçam com as desigualdades sociais, raciais e econômicas. Aqui estão alguns pontos que confirmam e detalham essa realidade: Impactos do Aquecimento Global e Desmatamento em Áreas VulneráveisVulnerabilidade Estrutural: Muitas dessas comunidades vivem em moradias precárias e em locais de risco (encostas, margens de rios), onde a infraestrutura de saneamento básico e drenagem é insuficiente ou inexistente. Eventos Climáticos Extremos: O aumento da frequência e intensidade de chuvas, enchentes, deslizamentos de terra, secas e ondas de calor atinge essas áreas de forma desproporcional. Enchentes e Deslizamentos: Moradias em áreas ribeirinhas e encostas, muitas vezes construídas sem planejamento adequado, são as primeiras a serem destruídas por eventos climáticos extremos. Ondas de Calor: A falta de áreas verdes e a concentração de asfalto e concreto nas periferias (o chamado “efeito ilha de calor”) intensificam o calor, afetando a saúde, especialmente de idosos e crianças. Saúde Pública: A falta de saneamento básico, combinada com enchentes e calor, aumenta a incidência de doenças relacionadas à água contaminada, vetores (como mosquitos) e problemas respiratórios. Segurança Alimentar: Em comunidades tradicionais (como indígenas e quilombolas) e rurais, as mudanças nos padrões de chuva e temperatura afetam diretamente as plantações, a pesca e a coleta, ameaçando a segurança alimentar e os modos de vida. Deslocamento e Pobreza: A destruição de casas e a perda de meios de subsistência devido a desastres ambientais empurram essas populações ainda mais para a pobreza e, muitas vezes, as forçam a se deslocar, tornando-as “refugiados ambientais”.usado para descrever a forma como as populações marginalizadas, frequentemente compostas por pessoas negras e indígenas, são as mais afetadas pela degradação ambiental e, ao mesmo tempo, são as menos representadas e ouvidas nas decisões sobre políticas ambientais. *Milton Tenório é ativista ambiental no Movimento Gato Maracajá **A imagem de abertura é uma ilustração elaborada com IA a partir de uma foto de Milton Tenório

Racismo Ambiental e Justiça Climática Read More »

criancas celular 2

Entre o brilho das telas e a luz da infância: reflexões pedagógicas

*Por Matheus de Abreu & Tatiana Roldan | Imagens: Freepik Há um brilho que encanta e captura: as telas. Nelas, a infância encontra imagens rápidas, gestos ensaiados, falas que muitas vezes pertencem ao mundo adulto. Entre risadas automáticas e coreografias repetidas, a criança parece, por vezes, vestir um figurino que não lhe cabe ainda. A velocidade da tela é fascinante, mas também apressa o tempo, encurtando os silêncios e os intervalos em que a imaginação poderia florescer livre.  Não se trata de negar a tecnologia, mas de reconhecer que, no excesso, ela rouba espaço do essencial. O brincar espontâneo, o corpo em movimento, a pausa do ócio criativo e a leitura sem pressa correm o risco de se perder quando a tela se torna o principal horizonte da criança. Pedagogicamente, sabemos que a atenção se fragmenta, o vocabulário e a sensibilidade narrativa se enfraquecem quando não há equilíbrio. A infância precisa de múltiplas linguagens: o gesto, o desenho, a palavra escrita, a conversa face a face. A tela é apenas uma delas e não pode ocupar o lugar de todas. Entre telas e livros, entre casa e escola, existe um território comum: a formação humana. É nesse território que a parceria se torna indispensável. Não basta que a escola aponte caminhos, nem que a família, sozinha, imponha limites: é no diálogo entre ambas que nascem estratégias mais justas e consistentes. Afinal, a infância não é responsabilidade de uma instituição ou de um lar apenas: é uma obra coletiva, feita de encontros e cuidados compartilhados. Essa parceria entre escola e família se torna ainda mais urgente diante de um cenário em que crianças crescem imersas em telas, estímulos constantes e excesso de informações. Cada vez mais distantes da escuta atenta e do vínculo humano, elas precisam de adultos alinhados, tanto no discurso quanto nas expectativas. Educar, hoje, é mais do que ensinar: é resistir ao ruído, proteger valores e cuidar, juntos, do que é essencial ao desenvolvimento infantil. Família e escola devem ser aliadas, não ilhas. O trabalho conjunto, traz à criança o que nenhuma tela entrega: segurança, presença e sentido. E é isso que, mais do que nunca, elas estão pedindo, ainda que em silêncio. A escola não quer, nem pode, substituir o papel da família. São os pais os primeiros responsáveis por mediar tudo o que se apresenta à rotina de seus filhos, incluindo o uso da tecnologia. Os pais devem ser os primeiros a estabelecer rotinas, acompanhando o conteúdo consumido e oferecendo um porto seguro para o diálogo. A escola estará pronta para complementar esse trabalho, ampliar debates e propor alternativas seguras ao uso da tecnologia, mas de forma alguma poderá caminhar sozinha. O uso de tecnologia exige mediação ativa. Não é sobre proibir, mas sobre estar presente: saber o que assistem, com quem interagem, por que estão tão conectados. A criança não precisa de mais autonomia digital, ela precisa de direcionamento. Mais do que nunca, é a escuta mútua entre escola e família que garantirá o desenvolvimento equilibrado da criança nesse mundo digital. Preservar a infância exige ação conjunta. Mais do que reconhecer os desafios, é preciso enfrentá-los com propostas concretas. A tela não é um problema isolado, mas um recurso ao qual se tem recorrido para entreter as crianças a todo custo. O diálogo e a reflexão nos trazem que já não é mais possível viver sem telas, mas reduzir o seu uso, e experimentar possibilidades sem o uso constante delas é muito mais fácil do que se pensa. Pais e educadores devem buscar um resgate constante da infância pura, criando momentos coletivos sem telas para as crianças. Podem resgatar o valor das leituras compartilhadas, incentivar brincadeiras criativas, propor rodas de conversa, participar de contação de histórias, e incentivar atividades físicas que devolvam à criança o prazer do corpo em movimento e do olho no olho. A escola pode, e deve, abrir espaço para encontros com as famílias, promovendo reflexões e buscando que as famílias firmem compromissos que ultrapassem os muros da instituição. Proteger a infância não é tarefa isolada, é um esforço cotidiano, coletivo, feito de presença, atenção, doação, escolhas intencionais e cuidado partilhado. *Matheus de Abreu e Tatiana Roldan são coordenadores pedagógicos da Rede Maple Bear Global Schools

Entre o brilho das telas e a luz da infância: reflexões pedagógicas Read More »

Diogo e Karollyne Queiroz Cavalcanti Advocacia

Como fazer a transição energética na área pública?

*Por Diogo Furtado e Karollyne Guerra O debate sobre a transição energética no Brasil frequentemente se concentra nos grandes agentes do setor elétrico, nos marcos regulatórios nacionais e nas metas de descarbonização. Contudo, experiências como a do município de São Vicente Férrer, no interior de Pernambuco, revelam a inclusão dos pequenos municípios como protagonistas dessa transformação. Com aproximadamente 16 mil habitantes, São Vicente Férrer adotou uma política pública inovadora ao instalar painéis solares em todos os prédios públicos e investir na eletrificação de sua frota municipal. A expectativa é de uma economia anual de cerca de R$ 1,5 milhão, valor que será reinvestido em áreas prioritárias como saúde e educação, promovendo ganhos sociais diretos. Essa iniciativa materializa o conceito de transição energética justa, que pressupõe o acesso ampliado à energia limpa e sustentável, de forma economicamente viável, ambientalmente responsável e juridicamente segura, mesmo em cidades de pequeno porte. Benefícios da energia solar em espaços públicos Felizmente, o exemplo de São Vicente Férrer não é isolado no Brasil. Outros municípios têm avançado em iniciativas semelhantes, comprovando a replicabilidade e os benefícios da energia solar em espaços públicos. Formosa do Sul (SC), por exemplo, alcançou mais de 80% de economia com a instalação de sistemas fotovoltaicos. Em Jataí (GO), a implementação de energia solar em prédios públicos gera uma economia mensal significativa. Vila Velha (ES), pioneira em seu estado, e Alagoinha (PI) também estão entre as cidades que investem na solarização de suas estruturas, visando eficiência e sustentabilidade. Do ponto de vista jurídico, destacam-se alguns pilares fundamentais: -A utilização dos instrumentos previstos na Lei nº 14.300/2022, que estabelece o marco legal da geração distribuída no Brasil. Essa legislação, em seu Artigo 20, permite que instalações de iluminação pública participem do sistema de compensação de energia, o que é diretamente aplicável a projetos municipais. -A adoção de licitações sustentáveis, com critérios técnicos e ambientais como norteadores da contratação pública. -A possibilidade de aplicação de recursos, como os oriundos do Fundo de Participação dos Municípios (FPM), para iniciativas de modernização energética. -O protagonismo municipal na liderança de projetos com impacto climático positivo, mostrando que a transição energética pode — e deve — ser descentralizada. Nesse sentido, a advocacia especializada tem um papel central nesse processo, atuando na estruturação jurídica dos projetos, na análise da viabilidade regulatória, na modelagem de parcerias público-privadas e na integração com políticas estaduais e federais de fomento à sustentabilidade, a exemplo de compromissos como o Pacto pela Sustentabilidade, voltado a empresas interessadas em adotar práticas ambientais, sociais e de governança (ESG). Experiência inclusiva Ao colocar a sustentabilidade no centro da gestão pública, a experiência de São Vicente Férrer e de outros municípios revela que a transição energética não é exclusividade de grandes centros urbanos ou grandes empresas. Ela pode ser inclusiva, territorialmente equilibrada e financeiramente sensata, respeitando a realidade fiscal e operacional dos pequenos entes federativos. Com os desafios orçamentários que são diariamente noticiados, iniciativas como estas, que geram economias significativas para o caixa municipal, permitindo que recursos sejam reinvestidos em áreas essenciais para a população, mostram um caminho concreto para o desenvolvimento local e a melhoria da qualidade de vida, especialmente em regiões que mais necessitam, como o Nordeste brasileiro. Afinal, a transição energética justa só será verdadeiramente justa se alcançar a todos, inclusive aqueles que historicamente ficaram à margem das grandes transformações. *Diogo Furtado é sócio-gestor do Queiroz Cavalcanti Advocacia e Karollyne Guerra é sócia do Queiroz Cavalcanti Advocacia e especialista em Direito de Energia

Como fazer a transição energética na área pública? Read More »

Boa Viagem

Na Avenida Boa Viagem não se paga muito impostos

*Por Bruno Moury Fernandes Dizem que a morte e os impostos são as únicas certezas da vida. No Brasil, contudo, parece que a morte continua democrática, mas os impostos andam muito seletivos na escolha de suas vítimas. Veja o trabalhador comum: acorda cedo, enfrenta ônibus lotado, carrega o peso do mês nas costas – e ainda devolve ao estado, religiosamente, 27,5% do que recebe. É um pacto sem discussão, um confisco automático, quase tão inevitável quanto o sol nascer no Sertão. Do outro lado, no andar dos ricos, tem ar-condicionado central. Ali não se fala em alíquota de 27,5%, nem de 15%, nem de 5%. Fala-se, com naturalidade, em alíquota zero. Lucros e dividendos, essa fonte mágica que alimenta a minoria, não conhecem a tesoura do Imposto de Renda. São rendimentos abençoados pela invisibilidade fiscal, um milagre brasileiro. Eis a ironia: não é que a carga tributária nacional seja insuportável em si. O problema é que ela foi desenhada para ser mal distribuída, como um cobertor curto que só aquece quem já dorme na cama king size. Sobre o pobre, pesam impostos no arroz, no feijão, na conta de luz, no botijão de gás. Sobre o rico, cai a leveza de um sopro: nenhuma mordida sobre seus milhões multiplicados no pregão da Bolsa, por exemplo. Chamam isso de sistema. Eu chamo de escárnio. O caixa do supermercado, que mal dobra o salário-mínimo, financia o Estado mais do que o acionista que brinda dividendos em taças de cristal. A regressividade é tamanha que parece piada – mas é piada sem/graça, dessas que terminam com a gargalhada do privilegiado e o silêncio constrangido da maioria. Muitos abrem a boca para acusar o Bolsa-Família de gasto excessivo para o estado. Muitos dos que bradam esse inconformismo, recebem o “bolsa lucro”: é o 1% mais rico da população brasileira que paga 0% de alíquota sobre seus lucros e dividendos. É como se houvesse um auxílio permanente para a elite mais rica desse País. Por aqui, uma professora, um pedreiro ou um auxiliar de escritório pagam bem mais – proporcionalmente ao que ganham – do que um milionário que reside da Avenida Boa Viagem. E assim seguimos, num país em que a justiça fiscal é uma quimera, e o privilégio, política de governo. Morremos todos, sim. Mas, até lá, uns morrem pagando 27,5% e outros vivem imortais na redoma dourada da alíquota zero.

Na Avenida Boa Viagem não se paga muito impostos Read More »

APA Aldeia Beberibe

O impasse ambiental da Escola de Sargentos e os limites da política sustentável no Brasil

*Por Milton Tenório. Foto: Herbert Tejo Análise detalhada reflete a profunda frustração e o sentimento de urgência da sociedade civil diante do impasse na construção da Escola de Sargentos do Exército (ESA) na APA Aldeia-Beberibe, em Pernambuco. A reunião da última segunda-feira, com a participação de atores-chave como Exército, MPPE, MPF, Governo do Estado e o Fórum Socioambiental de Aldeia, parece ter reafirmado o cenário de intransigência, em que os argumentos técnicos e ambientais se chocam com decisões políticas. As conclusões que se apresentam ligam o projeto da Escola de Sargentos do Exército na APA Aldeia-Beberibe a questões ideológicas mais amplas: à tensão entre desenvolvimento e sustentabilidade e à falta de accountability política — críticas recorrentes e centrais no debate socioambiental brasileiro. O projeto da ESA e a persistência do impasse O cerne do conflito é o projeto da Escola de Sargentos, que, embora tenha sofrido revisões e redução da área a ser desmatada — de 188 hectares para cerca de 94 hectares (o que ainda representa a derrubada de aproximadamente 200 mil árvores) —, permanece dentro da Área de Proteção Ambiental (APA) Aldeia-Beberibe. Pontos de conflito central Desmatamento e biodiversidade: a área é um remanescente crucial de Mata Atlântica, um bioma severamente ameaçado. A derrubada de árvores coloca em risco a fauna endêmica (como o gato-maracajá e outras 46 espécies ameaçadas) e os serviços ecossistêmicos. Recursos hídricos: o projeto ameaça nascentes do Rio Catucá, vitais para o Sistema Botafogo, que abastece cerca de um milhão de pessoas na Região Metropolitana do Recife. Licenciamento ambiental: a construção da ESA na APA ainda é alvo de controvérsia e, segundo ativistas e análises, carece de autorização final dos órgãos competentes. O Fórum Socioambiental defende a alternativa do desmatamento zero. Conclusões ambientais e a crítica política 1. A tensão entre sustentabilidade e “desenvolvimentismo” O descompasso ideológico é evidente. O projeto da ESA é visto por muitos como um símbolo de um “desenvolvimentismo” tradicional, que prioriza grandes obras e investimentos — como os R$ 2 bilhões previstos para a ESA — em detrimento da conservação. Esse modelo, mesmo em governos progressistas, pode entrar em choque com a agenda ecocêntrica, gerando a percepção de que a urgência climática e a pauta de Marina Silva são “rifadas” por interesses setoriais mais alinhados ao crescimento econômico imediato. 2. Antropocentrismo vs. direitos não humanos A defesa dos direitos não humanos e a adoção de uma visão ecocêntrica são, de fato, o próximo passo na evolução do ativismo ambiental. Ao focar em espécies como o gato-maracajá, a mobilização de Aldeia eleva a discussão a um nível ético que desafia a política tradicional, ainda dominada por um antropocentrismo que mede o valor da floresta apenas em termos de benefícios humanos (água, ar puro). 3. Poder sem accountability (prestação de contas e responsabilidade) A crítica ao poder ilimitado e à falta de accountability se manifesta na figura de agentes públicos de longo mandato ou alta influência — como o Ministro da Defesa, a AGU, o general coordenador do projeto e a postura do Governo do Estado. A percepção é que o lobby político e as decisões de cúpula se sobrepõem à técnica dos órgãos fiscalizadores e às demandas da sociedade civil, esvaziando o processo democrático e ambiental. A acusação de greenwashing (“maquiagem verde”) por parte do Exército, que tenta parecer aberto ao diálogo enquanto avança com o projeto, resume essa desconfiança. A esperança nos órgãos de controle e nos movimentos sociais A esperança depositada no Ministério Público Federal (MPF) e no Ministério Público de Pernambuco (MPPE) é a chave do cenário atual. O MP, por sua autonomia e função constitucional, tem o poder de exigir o licenciamento ambiental completo, propor ações judiciais e garantir que a legislação seja cumprida, barrando politicamente atos que possam ser considerados crimes ambientais. Os movimentos sociais e ONGs, como o Fórum Socioambiental de Aldeia, o Movimento Gato-Maracajá, Artistas pelo Clima e a SAAB (Salve a APA Aldeia-Beberibe), atuam como instrumentos de monitoramento constante e de pressão popular — essenciais para manter o tema em pauta e fornecer aos órgãos de controle as bases e o apoio social necessários para suas decisões. A persistência na bandeira do “Desmatamento Zero” é o que mantém a pressão para que o Exército considere alternativas locacionais, que, conforme apontado pelo Fórum Socioambiental de Aldeia, já foram apresentadas e negadas. Sigamos no desmatamento zero! Milton TenórioProfissional liberal, estudante de Bacharelado em Agroecologia na UFRPE, ativista ambiental e morador de Aldeia.

O impasse ambiental da Escola de Sargentos e os limites da política sustentável no Brasil Read More »

Monike Batista

A importância do voluntariado corporativo

Por Monike Batista Solidariedade, empatia, comprometimento e altruísmo — esses são apenas alguns dos valores de quem busca fazer a diferença por meio do trabalho voluntário. Além de beneficiar comunidades e promover o bem-estar social, o voluntariado é uma experiência de transformação interna para a pessoa que o pratica. Ele fortalece o sentimento de propósito, melhora a autoestima, desenvolve habilidades transversais e ainda contribui para a ampliação da rede de contatos. No Brasil, mais de 55 milhões de pessoas se dedicam ao trabalho voluntário, de acordo com dados da última Pesquisa de Voluntariado no Brasil, realizada pelo Desenvolvendo o Investimento Social (Idis) e o Datafolha, em 2021. Apesar desse número expressivo, cerca de 65% dos voluntários atuam sem uma frequência definida. Ou seja, ainda precisamos avançar em direção a um cenário de engajamento contínuo e estruturado com a causa solidária.  Compreendendo a importância desse avanço, a Sicredi Recife tem se empenhado em promover iniciativas que incentivam o voluntariado entre seus colaboradores, associados e a comunidade em geral. O objetivo é criar uma cultura de solidariedade ativa e consistente. Por isso, a Cooperativa celebra, todo ano, o Dia Internacional do Cooperativismo – um conjunto de atividades de responsabilidade social lideradas pelo Sistema OCB (Organização das Cooperativas do Brasil). Em 2023, mais de 3 milhões de pessoas foram beneficiadas pelas ações do Dia C, no Brasil desenvolvidas por mais de mil cooperativas em mais de 2.000 municípios. No total, foram 5.586 atividades voluntárias, mobilizando mais de 140 mil voluntários. Em Pernambuco, ao longo de 10 anos, as ações voluntárias da Sicredi Recife já beneficiaram mais de 20 instituições no estado e mais de 1000 pessoas. Além disso, foram entregues mais de 2.000 cestas básicas e 300 kits de higiene, fraldas e leite. Segundo pesquisa realizada pela Escola de Administração da UFRGS, com apoio da organização Parceiros Voluntários, a maioria dos voluntários dá os primeiros passos nesse caminho por meio de empresas e instituições de ensino. Esses ambientes funcionam como verdadeiros catalisadores de transformação social, despertando nos indivíduos o desejo de contribuir com causas maiores. Diante desse cenário, iniciativas corporativas como as da Sicredi ganham ainda mais relevância. Quando o voluntariado é incentivado dentro do ambiente profissional, ele deixa de ser uma ação pontual e se torna parte da identidade institucional. Além disso, contribui para um clima organizacional mais humano, fortalece laços entre equipes e impulsiona o senso de pertencimento. Assim, para que o Brasil avance rumo a um futuro cada vez mais justo e colaborativo, é essencial que as empresas promovam o trabalho voluntário e valorizem cada gesto solidário. *Monike Batista – Coordenadora de Desenvolvimento do Cooperativismo e Comunicação e Marketing da Sicredi Recife

A importância do voluntariado corporativo Read More »

saude mental crise 2

Sem tabu: falar de bem-estar deve ocupar os fóruns de discussão dos altos executivos

*Por Nathália Grizzi Os dados do Ministério da Previdência Social são alarmantes: quase 500 mil afastamentos por saúde mental no Brasil em 2024; crescimento de 134% para esse tipo de afastamento em apenas dois anos; impacto estimado de R$ 3 bilhões na economia por causa desses afastamentos. Diante desses números, a resposta do Governo veio com a modificação da Norma Regulamentadora nº 1, editada pelo Ministério do Trabalho e Emprego. A NR-1 estabelece as disposições gerais sobre segurança e saúde no trabalho e exige a implantação do GRO (Gerenciamento de Riscos Ocupacionais) e do PGR (Programa de Gerenciamento de Riscos). A sua modificação mais recente, que entrou em vigor em maio deste ano, obriga as empresas a incluírem em seus gerenciamentos os fatores de riscos psicossociais. Mas, para além do cumprimento da norma, o mais importante para a alta liderança é primeiro quebrar o tabu e falar verdadeiramente sobre bem-estar e saúde mental e, depois, entender como aplicar métodos para implantação de uma cultura de produtividade consciente. Segundo dados de uma pesquisa realizada no Reino Unido com 1.989 empregados em tempo integral, o tempo médio de produtividade desses trabalhadores é de apenas 2h53min por dia. Não é coincidência que o Brasil registre recordes de adoecimento mental no mesmo momento em que dados globais revelam níveis históricos de improdutividade. Ambientes tóxicos geram pseudoprodutividade, que gera sobrecarga, que gera adoecimento, que gera mais custos e menos resultados. É um ciclo vicioso que está custando bilhões às organizações brasileiras. E qual é a origem desse problema e, mais importante do que isso, como resolvê-lo? Embora o mundo tenha evoluído drasticamente, nossa relação com o trabalho permanece fundamentalmente disfuncional. Criamos organizações que operam como máquinas de estresse, onde a ideia de “estar ocupado” é confundida com “ser produtivo”, recompensando aquelas pessoas que operam dentro dessa lógica. Quantas vezes você se viu obrigado a participar de reuniões improdutivas, a suportar uma sobrecarga constante sem resultados proporcionais ou mesmo diante de comunicações ineficientes, sejam institucionais ou com a liderança direta? Esses são apenas alguns sintomas organizacionais que demonstram a crise da pseudoprodutividade. Como então operar a transformação do paradigma da pseudoprodutividade para um ambiente de produtividade consciente? Primeiro e o mais importante: é fundamental entender que isso passa por uma mudança de cultura organizacional e que, necessariamente, tem que ser abraçada pela liderança, afinal, o exemplo arrasta! Segundo, é preciso ter método. Dentro de um framework de produtividade consciente, pode-se dividir as ações estratégicas em 5 pilares: 1) Redesenho do Tempo; 2) Recuperação Estratégica do Estresse; 3) Redesenho da Forma de Trabalho; 4) Redesenho das Comunicações; e 5) Segurança Psicológica e Pertencimento. Pilar 1 – Redesenho do Tempo. Frases que resumem esse pilar: “quando tudo é urgente, nada é urgente” e “nada realmente grandioso nasce do tempo que sobra”. É preciso implantar métodos para redução de reuniões, fazendo apenas aquelas que sejam realmente necessárias, com pauta clara e para tomada de decisões. Além disso, ferramentas simples como a aplicação da Matriz de Eisenhower e a criação de blocos de trabalho e concentração profunda precisam ser aplicadas no dia a dia para gestão de demandas e maior produtividade. Nesse bloco, também é fundamental usar estrategicamente a inteligência artificial como mecanismo de expansão de inteligência humana e de uso eficiente do tempo. Pilar 2 – Recuperação Estratégica do Estresse. Pausas são fundamentais. Não é bobagem investir em espaços de descompressão, em locais onde as pessoas possam parar, respirar e se conectar com outras pessoas. Pilar 3 – Redesenho da Forma de Trabalho. É urgente acabar com a cultura de super-herói dentro das organizações. Uma pessoa só não pode e não vai dar conta de tudo. As pessoas são diferentes e têm talentos diferentes. Reconhecer essas diferenças e alocar esses talentos estrategicamente em equipes multidisciplinares com objetivos e resultados-chave (OKRs) claros de curto, médio e longo prazo é simples e eficiente. Ter acompanhamentos estratégicos com reuniões focadas em evolução e não em problemas é outro mecanismo poderoso. Pilar 4 – Redesenho das Comunicações. Ter regras claras para comunicações facilita a dinâmica dos blocos de trabalho e concentração profunda. Essas regras incluem, necessariamente, uma clareza sobre prioridades, urgências e os canais de comunicação adequados para cada uma delas. Quando existe clareza estratégica, o “não” desempenha um papel fundamental na absorção de novas demandas e na alocação de tempo. Pilar 5 – Segurança Psicológica e Pertencimento. É preciso criar espaços seguros e de trocas verdadeiras. Isso só se constrói com diálogos e feedbacks radicalmente honestos e respeitosos e com vulnerabilidade, nos quais líderes admitem erros e limitações – seus e dos seus liderados – e fazem disso um material potente para a melhoria contínua da organização. No fim, o recado é simples: é preciso entender que a cultura de bem-estar não é antagonista aos resultados. Ao contrário: ela é a aliada mais poderosa, pois, no final das contas, tudo ainda é sobre pessoas. Sustentabilidade humana garante sustentabilidade e perenidade dos negócios. *Nathália Grizzi é advogada e sócia das áreas especializadas de Martorelli Advogados

Sem tabu: falar de bem-estar deve ocupar os fóruns de discussão dos altos executivos Read More »