Especialista do IEPS alerta que avanço das apostas online já representa um problema de saúde pública, com impactos sobre saúde mental, endividamento e exposição de jovens
As apostas esportivas online deixaram de ser apenas um fenômeno do mercado de entretenimento e passaram a ser tratadas como uma questão de saúde pública. É essa a principal defesa de Filipe Asth, mestre em psicologia, doutor em políticas públicas e especialista em relações institucionais do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS), a partir das conclusões do Dossiê A Saúde dos Brasileiros em Jogo, que compara os riscos das bets aos já reconhecidos em produtos como tabaco e álcool.
Segundo Asth, o Brasil ainda concentra a discussão das apostas em aspectos comerciais, como licenciamento, arrecadação e combate às plataformas ilegais, mas precisa avançar para uma regulação que considere os impactos sobre a saúde da população. Ele destaca que o crescimento da publicidade, o uso de influenciadores digitais e a facilidade de acesso às plataformas ampliam os riscos de dependência, endividamento e agravamento de transtornos mentais, especialmente entre jovens.
O dossiê A Saúde dos Brasileiros em Jogo menciona que o jogo já é reconhecido internacionalmente como um produto nocivo comparável ao tabaco e ao álcool. Como essa percepção muda a forma como o Estado deve tratar a regulação das “bets”?
Essa comparação tem implicações regulatórias concretas. Quando o Dossiê cita os estudos da The Lancet Public Health Commission on Gambling, que classificam as apostas como produto nocivo à saúde, comparável ao tabaco e ao álcool, está sinalizando que a lógica regulatória precisa mudar de eixo: sair do controle comercial e entrar no modelo sanitário. Foi com essa intenção que lançamos o Dossiê no 14º Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva, no final de 2025: apresentar o avanço das apostas e dos jogos online como um problema de saúde pública. No modelo regulatório vigente, o foco vinha sendo em quem pode operar, como licenciar, como arrecadar e, mais recentemente, em combater às operadoras ilegais.
O que falta, e o que a regulação do tabaco principalmente faz de forma exemplar, é controlar o próprio produto: sua publicidade, seu acesso, seu design de risco. O cigarro, no Brasil, não pode ser anunciado em nenhum meio de comunicação, nem na TV, nem no rádio, nem na internet. A Lei nº 9.294/1996 proíbe também o patrocínio de eventos esportivos e culturais, a distribuição de amostras e brindes, e exige advertências sanitárias obrigatórias em todas as embalagens. A única forma de “publicidade” permitida é a exposição do produto na prateleira do ponto de venda.
As bets, hoje, não têm nada comparável, e a Copa do Mundo escancarou isso: aparecem em transmissões esportivas ininterruptamente, são amplamente promovidas por influenciadores, oferecem bônus que estimulam comportamento impulsivo, sem limites de perda e sem monitoramento de padrões de risco. A mudança que o Dossiê propõe é estrutural: que o Estado deixe de ser mero caixa de arrecadação e assuma o papel de regulador de saúde pública nesse tema.
Com a estimativa de que 1,4 milhão de brasileiros já se enquadram nos critérios de Transtorno do Jogo e outros 10,9 milhões apresentam comportamento de risco, qual é o tamanho real do desafio para a saúde mental do país? O sistema atual de saúde, já fragilizado, tem condições de absorver essa demanda sem recursos carimbados?
De uma forma geral, o orçamento destinado à saúde mental sempre foi muito baixo. Além disso, o financiamento público para o enfrentamento desse problema específico dos jogos e apostas online está muito aquém da dimensão da crise que estamos vivendo. Pela Lei que regulamentou as apostas no Brasil, apenas 1% do produto da arrecadação de tributos pagos pelas empresas e pelos apostadores é destinado à saúde. Esse valor é considerado pelo próprio Ministério insuficiente para garantir o encaminhamento de todas as ações necessárias para o enfrentamento desse problema que tomou proporções gigantescas e tende a piorar com essa atuação agressiva da publicidade no contexto da Copa do Mundo.
O SUS, cronicamente subfinanciado e sem estrutura especializada para esse problema, vem construindo respostas a partir da própria Rede de Atenção Psicossocial (RAPS). Entre o final de 2025 e o início de 2026, o Ministério da Saúde lançou um conjunto articulado de respostas: um guia clínico de cuidado para pessoas com problemas relacionados a jogos de apostas; um curso EAD gratuito em parceria com a Fiocruz Brasília, com 20 mil vagas para trabalhadores da RAPS e da Atenção Primária; teleatendimento gratuito via Meu SUS Digital, em parceria com o Hospital Sírio-Libanês, com capacidade inicial de 600 atendimentos mensais; e a Plataforma Centralizada de Autoexclusão, já utilizada por quase 700 mil pessoas para bloquear o próprio acesso a sites de apostas.
São iniciativas fundamentais, mas ainda insuficientes diante de todo o contexto de crescimento do mercado de apostas. Os 10,9 milhões de brasileiros em comportamento de risco nos ajudam a ter uma dimensão do problema. Avançar de forma efetiva exige atacar o problema nas duas pontas: proibir a propaganda das bets, porque enquanto as plataformas puderem anunciar sem limites, estaremos enxugando gelo e ampliar o financiamento das ações de cuidado para os mais de 1,4 milhão de brasileiros que já se enquadram nos critérios de Transtorno do Jogo. É nessa direção de atacar a causa do problema é que a Frente Parlamentar da Saúde Mental protocolou, simultaneamente, o Projeto de Lei nº 2478/2026 na Câmara dos Deputados e o Projeto de Lei nº 2470/2026 no Senado, propondo a proibição dos jogos de alto risco, o fim da publicidade e do patrocínio, e o fortalecimento dos mecanismos de proteção para jovens e pessoas vulneráveis. As duas propostas reúnem quase 100 autores de mais de 17 partidos, o maior número de signatários em um projeto de lei na Câmara desde 2003, e traduzem um sinal político claro: o problema das bets está deixando de ser pauta setorial e se tornando prioridade suprapartidária.
Além do vício em si, o estudo aponta correlações com ansiedade, depressão e risco de suicídio. Como o endividamento financeiro atua como um catalisador para o agravamento desses quadros clínicos?
O endividamento está no centro do mecanismo de deterioração da saúde mental. A pessoa aposta, perde, tenta recuperar o prejuízo, perde mais, acumula dívidas e passa a esconder a situação da família, instalando-se num estado permanente de pressão psicológica. É esse ambiente de vergonha, sigilo e descontrole que agrava quadros de ansiedade e depressão e que, em casos mais graves, eleva o risco de suicídio. Os dados da pesquisa Ipespe de outubro de 2024 tornam essa trajetória concreta: mais da metade dos apostadores diz que o dinheiro faz falta ao fim do mês; 40% já contraíram dívidas por causa do jogo; mais de um terço precisou pedir dinheiro emprestado. O impacto vai além das finanças pessoais: 37% cortaram gastos com alimentação, 36% atrasaram contas básicas, 32% reduziram gastos com saúde e 13% dos inquilinos atrasaram ou deixaram de pagar o aluguel.
Do ponto de vista clínico, o endividamento intensifica o sofrimento de pelo menos três formas. Primeiro, porque a perda financeira tem impacto desproporcional em famílias de baixa renda, R$ 500 perdidos por quem vive em situação de pobreza têm consequências muito mais severas do que a mesma quantia para quem tem renda mais alta. Segundo, porque a sensação de armadilha sem saída é um fator de risco reconhecido para ideação suicida. Terceiro, porque o estresse financeiro crônico afeta o sono, a alimentação, a convivência familiar e a capacidade de trabalho, deteriorando a qualidade de vida de forma sistêmica. O Dossiê traduz essa perda em cifras: R$ 10,4 bilhões em custo por perda de qualidade de vida associada à depressão e R$ 17 bilhões em mortes adicionais por suicídio. Não é só dívida, é vida saudável perdida.
O dossiê revela que mais da metade (55,2%) dos adolescentes que apostaram no último ano apresentaram indicativos de jogo de risco ou problemático. Quais são as consequências a longo prazo dessa exposição tão precoce, mediada por influenciadores digitais?
Esse dado aponta para uma situação que acontece apesar de a lei proibir o acesso de menores de 18 anos às plataformas. Mas as bets aparecem nas redes sociais, nos canais de streaming, nas transmissões esportivas e são promovidas por influenciadores que fazem parte do cotidiano desses jovens, sem qualquer barreira efetiva por faixa etária. O resultado é uma exposição publicitária massiva a que toda uma geração está submetida, e as consequências disso já são visíveis. O jogo problemático entre adolescentes está associado ao desenvolvimento de ansiedade, depressão, isolamento social e a uma visão distorcida da relação com o dinheiro, padrões que tendem a se cronificar quanto mais cedo se instalam.
A experiência espanhola é um sinal de alerta concreto. Após a legalização do jogo online em 2011, a proporção de jovens menores de 26 anos entre os que buscaram tratamento para transtorno do jogo passou de 3,8% para 16% em apenas quatro anos, segundo estudo da FEJAR com a Universidade de Valencia. O Brasil segue trajetória semelhante. Quando as apostas são promovidas por influenciadores que esses jovens seguem, estão presentes em transmissões esportivas e estampam camisas de times de futebol, o comportamento deixa de parecer de risco e passa a ser percebido como uma atividade de lazer qualquer.
Quando a percepção de risco se perde, recuperá-la exige muito mais do que campanhas educativas, e é exatamente isso que a exposição contínua e naturalizada às apostas está produzindo entre os jovens. Os impactos chegam também ao projeto de vida: dados da ABMES de 2025 indicam que um em cada três jovens que pretendiam ingressar no ensino superior precisou adiar os planos por causa de gastos com apostas. Mas a literatura sobre consequências de longo prazo ainda é limitada, porque esse fenômeno é recente na escala em que o vivemos. Isso é, em si mesmo, um argumento regulatório urgente: estamos diante de uma geração exposta a um produto de alto risco sem que seus efeitos plenos tenham sido mensurados. Sem restrição efetiva de publicidade e sem políticas estruturadas de prevenção voltadas para jovens, o custo social tende a crescer significativamente nas próximas décadas.


