“As universidades se tornaram escolas de cursos superiores profissionalizantes”

Jones Albuquerque é professor da UFRPE e pesquisador do Laboratório de Imunopatologia Keizo Asami (LIKA-UFRPE) e do Instituto para Redução de Riscos e Desastres de Pernambuco. Nesta entrevista, concedida ao jornalista Rafael Dantas para a reportagem de capa da edição 187.3 da Revista Algomais, o pesquisador sugere que as universidades estejam mais focadas em “investigar o desconhecido” e fala sobre as conexões necessárias com os problemas reais da sociedade.

Em um depoimento, o Sr afirmou que precisamos “decidir se somos uma universidade ou uma escola de cursos superiores”. Qual a crítica que está inserida nesta provocação? Por que o Sr acha que as universidades se tornaram apenas escolas com cursos superiores?

As nossas universidades no País e em muitos outros Países, por demanda social, sempre priorizaram empregabilidade, claro. E assim, se tornaram muito mais “escolas de cursos superiores profissionalizantes” que ambientes investigativos antecipativos aos problemas da sociedade categorizando todos seus integrantes escolarmente inclusive: disciplinas compartimentalizadas, cadernetas, matrículas, frequência de aulas, conteúdo programático, “grades”curriculares com conhecimentos que parecem mais “aprisionar” que libertar… todos itens de uma escola mas desnecessários numa universidade.

Com o surgimento de Institutos de cursos superiores como IFs (antigas escolas técnicas), Faculdades SENAI de cursos superiores, etc… esta lacuna social parece estar no caminho de ser devidamente preenchida e, obviamente, que ainda precisa ser bastante escalada para que todos no País tenham acesso a seus cursos, a uma profissão e a uma melhor qualidade de vida por consequência. Assim, as universidades, pela primeira vez, poderiam reservar parte de seu esforço e verdadeiramente assumir seu papel secular de investigar o desconhecido. Parece que generalizamos demais e quase que obrigamos todos a serem tudo nas atuais “Escolas de Cursos Superiores”, principalmente no Brasil. Em muitos centros no mundo os “Institutos de Pesquisa Científica” têm se tornado cada vez mais evidenciados e dissociados da “escola de cursos superiores”, vide The Alan Turing Institute, The Francis Crick Institute, IRDR-UCL e tantos outros, esses citados conheço mais de perto.

As contribuições acadêmicas que ultrapassaram os muros da universidade, como as realizadas próprio IRRD e o LIKA, ganharam uma grande notoriedade na pandemia. Como essa experiência, em que parte dos serviços de extensão e pesquisa da universidade ganhou holofotes da sociedade, deve influenciar os próximos passos das instituições de ensino superior no País? Podemos esperar uma universidade mais conectada com a resolução de problemas reais da população?

Exatamente, universidades não são dissociadas dos problemas da sociedade, pelo contrário, a pesquisa científica deve estar sempre associada e tentar estar à frente, se antecipando às demandas da sociedade para quando ela precise e não “correndo” atrás delas como parecem estar agora. Foi assim com o LIKA-UFPE e IRRD-UFRPE, ambos operam como “Institutos de Pesquisa Científica” voltados a demandas científicas específicas tentando se antecipar às da sociedade desde suas concepções. Tanto que, em 2019, já tínhamos feito o mesmo que fizemos em COVID-19, só que para UNICEF-Malawi na África, em resposta à emergência pelo Ciclone IDAI e um surto de cólera no País. E no começo de março de 2020 já tínhamos colocado no ar toda a nossa plataforma de resposta à emergência a COVID, a mesma da África, só que voltada a COVID-19. Temos vários Institutos assim como LIKA e IRRD no País já há décadas. Mas, pelo que parece, alguns têm se tornado cada vez mais “escolas de cursos superiores” para atender demandas sociais, num caminho inverso, pelo que parece, aos institutos assim mundo a fora. Aqui segue uma discussão iniciada em 2016, sem revisão por pares, sobre pesquisa e ciência com o viés em Computação por formação minha, mas que pode se aplicar a outras áreas: (http://jonesalbuquerque.blogspot.com/2016/05/reflexoes-sobre-ciencia-e-pesquisa-no.html)

Quais as principais lições que esse período pandêmico deixa para as universidades e faculdades no País?

Parece que para a universidade foi muito bom, a pandemia. E para a escola de cursos superiores, terrível. Pois como todos os muros caíram, percebemos, de fato, que o conhecimento pode estar em quaisquer lugares do mundo e acessível a todos e por todos. Mas a prática profissionalizante, não. A exemplo do que a The Economist noticiou, estamos diante de novos tempos e precisamos de novas estratégias para “formar” nossos profissionais.
E, por exemplo, a UFRPE, numa estratégia brilhante, deu um passo muito importante na direção de uma universidade e possibilitou a todos os estudantes desde o 1º momento de pandemia acesso a cursos das melhores instituições do mundo via plataforma Coursera e continua até hoje. Experimentalmete eu mesmo com meus estudantes, desde o 1º momento da pandemia, fomos para a plataforma Coursera e eles se apropriaram disso e cursaram disciplinas nos melhores lugares do mundo. As minhas mesmo foram assim desde o 1º semestre de 2020 e seguiu pelos semestres seguintes 2020-2, 2021-1 e segue agora também assim. Para uma Escola de Cursos Superiores Profissionalizantes disciplinas assim podem não caracterizar a real demanda do estudante. Parece que seremos assim, de agora em diante, se quisermos ser uma universidade para todos os que quiserem, em todo lugar do mundo e nos melhores locais!

Que planos futuros o IRRD possui? Como tem sido a experiência do IRRD nessa pandemia?
O IRRD seguirá estudando todos os problemas que podem causar desastres à sociedade para tentar mitigá-los e ajudar a sociedade quando precisar. A Defesa Civil do Estado tem por definição esta função, a nossa ajudá-los a estarem prontos quando isso ocorrer. Para isso, além das áreas de desastres ambientais como o Derramamento do Óleo no Litoral (https://www.irrd.org/oilspillbr/) e Saúde como com Cholera na África (https://healthdrones.tech/malawi) e COVID-19 (https://www.irrd.org/covid-19/) estas atuações já conhecidas da População Pernambucana por matérias em mídia, áreas como desertificação, seca, incêndios, desastres (ambientais, urbanos, nucleares, eólicos), escoamento de populações, trânsito… são áreas de pesquisa científica que o IRRD-PE continuará a atuar e a tentar estar à frente das demandas da sociedade com sua rede de parceiros internacionais.

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