Cada vez mais profissionais apostam na transição de carreiras – Revista Algomais – a revista de Pernambuco

Cada vez mais profissionais apostam na transição de carreiras

*Por Rafael Dantas

Se você está pensando na possibilidade de mudar de carreira, saiba que mais da metade dos brasileiros têm a mesma pretensão. Seja na busca de oportunidades em novas áreas ou por sonhar com um trabalho mais conectado à satisfação pessoal, 60% dos trabalhadores no País cogitam fazer uma transição no seu rumo profissional, segundo relatório publicado pelo Linkedin. Esse é um caminho traçado por vários pernambucanos, por motivações múltiplas, em busca sempre da felicidade laboral.

O levantamento do Linkedin, com 1,3 mil brasileiros, indicou que a busca por autossatisfação e bem-estar com o trabalho é o principal combustível para encarar uma mudança. Outro estudo, da PwC, publicado em 2023, revelou que entre os profissionais que desejam mudar de emprego, 20% sofrem com carga horária excessiva e 37% por falta de recursos.

Os caminhos e os impulsos para fazer essa travessia são bem diferentes. Desde a necessidade, em razão do desemprego, ou mesmo a chance de mergulhar em sonhos antigos que estavam à espera de uma oportunidade. “Muitos profissionais começam muito cedo a escolher a carreira profissional, sem ter um discernimento mais sólido sobre a área. Escolhem por causa dos pais ou por alguma pressão da sociedade. Às vezes, as pessoas vão desenvolvendo as atividades porque a vida as levam a fazer, mas chega o momento em que esse profissional se volta para atuar onde de fato ele quer”, afirma Carla Miranda, consultora e sócia da TGI e ÁgilisRH.

Carla Miranda ressalta que muitas pessoas começam cedo a escolher a carreira, sem um discernimento mais sólido. “Escolhem por causa dos pais ou por alguma pressão da sociedade. Mas chega o momento em que esse profissional se volta para atuar onde de fato ele quer”.

Muitas dessas escolhas são feitas em um momento de maior estabilidade, quando esses profissionais mudam a rota em direção das áreas que realmente desejavam atuar. Esse foi o caso de Caroline Rosendo. Formada em direito pela UFPE e com várias especializações e mestrado, ela acumulou vasta experiência como advogada, professora universitária e conselheira da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil). Apesar de ter uma carreira sólida, desde cedo sempre se interessou pelo ramo da beleza e estética. Até que a oportunidade chegou.

Caroline passou um ano no Canadá com a família, quando se aprofundou em novas práticas na área da beleza. Ao retornar ao Brasil, a advogada recebeu uma oferta de um cliente que queria vender uma barbearia. “A minha transição de carreira foi muito emocionante e gratificante. Primeiro porque veio de um cliente que procurou meu escritório para que a gente fizesse uma auditoria. Mas no meio do meu trabalho, como advogada, a socieda de dele acabou sendo desfeita. A empresa era uma barbearia. Eu disse: olha, eu até posso assumir a empresa, se tiver também o atendimento ao público feminino”.

Caroline Rosendo tem vasta experiência como advogada, mas sempre gostou do ramo da estética. Aprofundou-se em novas práticas na área no Canadá e, ao retornar ao Brasil, aceitou a oferta de um cliente que queria vender uma barbearia. “Minha transição de carreira foi gratificante”

A empresária transformou o negócio, incorporando espaços para beleza feminina e infantil, e investiu em mais de 30 cursos na área de estética e gestão de spas. Com o apoio do esposo e a parceria estratégica de seu irmão, ela estabeleceu um ambiente de trabalho acolhedor e o atendimento afetivo aos clientes como marca do novo negócio. Assim nascia o Espaço Toute Beauté, ao lado da Toute Barbearia. E a advogada se transformou em empreendedora.

Hoje, Caroline lidera um salão focado no “bem-estar e empoderamento feminino”. Muito feliz na nova fase da vida profissional, embora afirme ter gostado muito da vivência na advocacia também, a empresária tem planos de expansão no negócio, que incluem serviços de estética avançada e cuidados de saúde, além de continuar inspirando outras mulheres a seguirem seus sonhos.

EMPREENDEDORISMO

Assim como Caroline, Ana Angélica de Souza também gostava das atividades que desempenhava no interior do Estado. Professora de ensino infantil e presidente da Associação dos Agricultores e Criadores de Paraguaçu, no município de Itambé, na Zona da Mata pernambucana, ela migrou de trabalho, no entanto, por outras motivações e em um contexto bem diferente.

Na pandemia, tanto a escola onde ela trabalhava, como a feira onde era comercializada a sua produção agrícola fecharam. Foi nesse momento que precisou se reinventar e aprendeu a fazer chips com a macaxeira que produzia em sua propriedade. Um movimento conhecido como empreendedorismo por necessidade. Esse foi o perfil de 47,3% dos novos negócios do Brasil em 2022, de acordo com um relatório produzido pelo GRM (Global Entrepreneurship Monitor). No caso de Ana, deu muito certo.

Um dia estava sentada no sítio, vendo tanta macaxeira se estragando. Aprendemos na internet a preparar os chips e os resultados foram além do que esperávamos. No próximo dia 30, será meu último dia como professora. (Ana Angélica de Souza)

“Um dia estava sentada no sítio, vendo tanta macaxeira se estragando, acabávamos doando. Junto com a pandemia, veio a crise. Fizemos um trabalho social, com distribuição de alimentos. Mas aprendemos na internet a preparar os chips. Eu e meu esposo fomos adaptando, vendo a crocância, o tempero e oferecendo para as pessoas próximas experimentarem. Mas os resultados foram bem além do que esperávamos”, conta Ana de Souza.

Os novos empreendimentos envolvendo alimentos ou refeições, como o de Ana, são muito comuns, segundo a consultora Carla Miranda. “Uma das coisas que mais percebo são as pessoas empreenderem na gastronomia. Muitas profissões ou postos de trabalho estão sumindo, há também pessoas que não querem viver de carteira assinada ou depender apenas do emprego. É na comida onde muitos desses novos empreendedores se aventuram”.

O negócio da Ana Chips começou pequeno, testando o produto, com uma embalagem simples e vendendo apenas para os poucos banhistas que se aventuravam na praia de Ponta de Pedras, em Goiana. Sua cunhada experimentou e levou para o trabalho, em uma grande indústria da região, para vender. Começaram a surgir outros clientes e vendedores interessados. Com apoio do Sebrae, que ela já conhecia pelo trabalho na associação, pouco a pouco o empreendimento foi se sofisticando.

Há apenas um ano, a nova atividade de Ana ganhou um CNPJ de microempreendedor individual. Neste mês, o volume de atividades que a Ana Chips demanda irá tirá-la da escola para onde ela havia retornado após o fim da pandemia. “No próximo dia 30, será meu último dia como professora. Ficarei integral no negócio. Estou saindo da sala de aula para me dedicar inteiramente à microempresa”.

Ela segue na associação mas, agora, compra parte da produção dos associados para preparar os lanches que estão alcançando cada vez mais praças e eventos. Nesse período, por exemplo, a empresa familiar diversificou os sabores do chips, aperfeiçoou a embalagem e ampliou os pontos de venda. Do sonho que nasceu no difícil momento da pandemia, hoje os chips preparados por Ana e pela família chegam em casas de temperos e padarias de cidades da região, cantina de uma faculdade, além dos eventos do setor artesanal e de empreendedorismo para os quais ela é convidada a participar.

ATRAÇÃO DO SETOR DE TECNOLOGIA

No movimento global de mudanças de carreira, um dos setores que mais atraem profissionais é o de tecnologia da informação. Um estudo publicado pela plataforma Alura indicou que 78% dos profissionais que atuam em outras áreas têm pretensão de migrar para o setor. No Recife, com o crescimento acelerado do Porto Digital ano a ano, essa procura é ainda maior. Seja por atuarem em áreas em crise ou por buscar postos mais valorizados, muitos pernambucanos têm investido, por exemplo, na atividade de desenvolvedor.

André Lucena Raboni, atualmente líder técnico na startup Di2Win, é um exemplo de transição de carreira bem-sucedida. Ele formou-se em história pela UFPE. Inicialmente atuou como professor nas redes públicas municipal e estadual. Durante seus anos de docência também se dedicou a atividades de comunicação, escrevendo para blogs em uma época em que a blogosfera brasileira vivia seu auge. Trabalhou por cerca de cinco anos no blog pernambucano Acerto de Contas.

Sabia que poderia encontrar uma posição no setor de TI, numa área que não fosse deprimente como a que eu estava trabalhando com redes sociais e que não me desse apenas boas oportunidades de salário, mas alegria de trabalhar. (André Lucena)

Apesar de ter vivido grandes experiências profissionais nessa fase inicial da carreira, a saturação com o ambiente digital e a política conturbada da internet brasileira a partir de 2016 levaram André a buscar uma nova direção profissional. A decisão de transitar para o campo da tecnologia foi influenciada por sua longa relação com computadores desde a infância, quando fazia manutenção de equipamentos e experimentava programação básica. Seus primeiros passos foram em cursos promovidos pelo Porto Digital, sendo recompensado com um trabalho de desenvolvedor júnior de front-end em 2021.

“Comecei a perceber que o mercado de tecnologia estava realmente em ascensão, crescendo e oferecendo várias oportunidades. Eu sabia que tinha um perfil criativo e que era capaz de encontrar uma posição no setor de TI, em uma área que não fosse mais aquela deprimente que eu estava trabalhando com redes sociais. Descobri que ali poderia encontrar um ambiente que não me desse apenas boas oportunidades de salário, mas felicidade mesmo, alegria de trabalhar. Era isso que eu estava buscando”, conta André Lucena.

O background de experiências anteriores, como redator, professor, analista de dados e até web designer, contribuiu para a chegada na TI. “Quando a gente faz transição de carreira não vamos deixar tudo que a gente sabe para trás e adquirir um novo universo de habilidades. A gente precisa entender que vamos somar as habilidades”.

Esse uso de conhecimentos prévios para a transição é uma das marcas desse fenômeno de troca de percurso profissional, na análise de Carla Miranda. “Fazer uma transição de carreira não é resultado de ter dado errado na primeira tentativa. Muita gente, na verdade, usa a carreira primária como uma ponte para fazer a sua carreira secundária, que é aque- la que deseja desenvolver e se dedicar”. Ela lembra que tanto há gente que inicia esse movimento de mudança em paralelo à sua atividade principal, como aqueles que esperam a hora oportuna para migrar.

Com as antigas formações e formado em análise e desenvolvimento de sistemas, André foi selecionado e cresceu na Di2Win, que desenvolve soluções baseadas em inteligência artificial. Em três anos, ele se tornou o líder técnico do time de produtos da empresa. “É um trabalho que me dá muita alegria de conduzir, pois estamos construindo uma empresa com DNA pernambucano, mas com capacidade de oferecer soluções de ponta para o mercado nacional e internacional, com registros de muitas patentes de propriedade industrial”. Uma transição em que ganharam o trabalhador e o mercado.

MUDANÇA APÓS A APOSENTADORIA

Entre os fenômenos da vida profissional, está a maior extensão do tempo de atividade laboral. Após ser chargista e professor univer- sitário, ocupação com a qual se aposentou, Clériston, aos 71 anos, hoje é artista plástico. Desde criança, ele se dedicava ao desenho e, aos 15 anos, tentou ingressar em Belas Artes, sem sucesso. O mergulho no desejo inicial veio mais de meio século depois.

Fascinado pelo humor gráfico e influenciado por publicações como O Pasquim, Clériston mergulhou nos quadrinhos, tornando-se um artista visual profissional aos 23 anos. Durante sua carreira, ele se destacou como humorista gráfico e professor, lecionando por mais de 20 anos na UFPE.

Clériston se destacou como humorista gráfico, atuando como chargista, e professor, lecionando por mais de 20 anos na UFPE. Hoje, aposentado, dedica-se à pintura de quadros. “Não falam de charge mais comigo, mas me procuram pelas artes plásticas”, afirma.

Em 2022, já após alguns anos aposentado, Clériston decidiu dedicar-se exclusivamente às artes plásticas. “Eu não planejei isso, era um cartunista sem muita atividade. Mas foi um período em que me juntei a artistas e fotógrafos, colocando charges à venda. Metade dos recursos era para a campanha em uma mobilização pela democracia”.

Foi nessa empreitada que ele recebeu a provocação de pintar em telas. Um insight que mudou sua vida dali em diante. “Não comecei nas artes agora. Agora comecei a produzir na tela, mas eu pinto e desenho há 50 anos”. Inspirado por outros artistas e pela cena política do período, ele começou a criar pinturas, explorando técnicas expressionistas e temas variados. Sua paixão pelo desenho, cultivada ao longo de cinco décadas, agora se manifesta em obras vibrantes e críticas, que misturam elementos do cartoon e da arte surrealista. Clériston está empenhado em se estabelecer como artista plástico, participando de exposições e colaborando com coletivos artísticos. Ele já organizou várias exposições, incluindo uma série inspirada em músicas, e se envolveu em iniciativas como o Coletivo Raíz e o Caminhos Coletivo de Arte.

“Entrei de cabeça na arte. Eu acordo pintando, se não tiver pintando estou num projeto. Essa carreira de artista plástico tenho levado a sério. Tenho várias etapas a cumprir, como empreendedorismo. Existem coisas óbvias que estou aprendendo com outros artistas para me legitimar, mas na cidade já me considero legitimado. Não falam de charge ou música mais comigo, mas me procuram pelas artes plásticas”.

TRANSIÇÕES EM BUSCA DA FELICIDADE

Para Fernanda Angeiras, gerente regional da Amcham/PE (Câmara Americana de Comércio), a relação da humanidade com o trabalho mudou muito ao longo do tempo e a satisfação virou uma peça chave no século 21. “Este é um momento delicado que vivemos como sociedade e as empresas estão passando por um processo de reacomodação de valores e também de entrega para seus consumidores e para a sociedade como um todo. As novas reivindicações dos trabalhadores englobam felicidade, bem-estar, saúde mental em dia”, afirma. A felicidade como estratégia nos negócios será inclusive tema do Amcham CEO Fórum, na segunda-feira (17/06/24).

Embora muitos direitos do trabalho e benefícios tradicionais das classes profissionais sofram grandes ataques e ainda não estejam garantidos a todos, as demandas que chegam às empresas são mais sofisticadas e humanizadas. “As pessoas transcendem o que se entendia como o benefício de uma relação de trabalho. Diante de toda essa mudança, trabalhadores que fizeram toda a sua carreira em empresas formais estão se movimentando, descobrindo habilidades que ainda não tinham tido a oportunidade de ter contato ou de desvendar de si mesmo na sua jornada profissional. Não é só a insatisfação que move o redirecionamento de carreira, é sim também a busca de novos desafios que dialoguem com o seu propósito como ser um humano, como agente da sociedade e como colaborador dentro da organização”, avalia Fernanda.

Este é um momento delicado. A sociedade e as empresas estão passando por um processo de reacomodação de valores. As novas reivindicações dos trabalhadores englobam felicidade, bem-estar, saúde mental em dia. (Fernanda Angeiras)

Novas tecnologias, maior extensão de tempo de vida de trabalho, desejo de viver novas experiências laborais… Um mix de fatores afetam o trabalho no mundo inteiro, movendo grandes desafios corporativos e, sem dúvida, permitindo novas formas de viver a atividade profissional, menos lineares.

*Rafael Dantas é repórter da Revista Algomais e assina as colunas Pernambuco Antigamente e Gente & Negócios (rafael@algomais.com | rafaeldantas.jornalista@gmail.com)

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