O desafio de empreender: como melhorar o ambiente de negócios?
O empreendedorismo em Pernambuco ainda encontra barreiras na burocracia, na fragilidade de uma cultura que estimule novos negócios e na escassez de apoio aos empresários. *Por Rafael Dantas Pernambuco tem grandes cases de empreendedorismo. As milhares de empresas do Polo de Confecções do Agreste são alguns exemplos dessa força, assim como as startups do Porto Digital. A pujante produção da Baterias Moura, em Belo Jardim, e de produtos alimentícios da Tambaú Alimentos, em Custódia, puxam a lista de corporações que já deram outros passos. Porém, em meio a tantos sucessos, o ambiente de negócios estadual ainda é bastante desafiador. Essa é uma das constatações das discussões técnicas do projeto Pernambuco em Perspectiva, realizado pela Revista Algomais e pela Rede Gestão. Para o novo ciclo de desenvolvimento do Estado, garantir um empreendedorismo dinâmico é um fator considerado estratégico pelos especialistas que integram o corpo técnico da pesquisa. “Falar de empreendedorismo dinâmico é falar de ambiente de negócios”, resume o sócio da TGI e consultor Ricardo de Almeida. Ele ressalta que construir esse novo contexto não é algo abstrato, mas concreto. É preciso desenvolver caminhos para estimular o surgimento de novos talentos, a partir de uma cultura empreendedora, e para transformar ideias em resultados. A burocracia, o difícil acesso ao crédito e uma cultura ainda até certo ponto avessa ao empreendedorismo figuram entre os principais entraves enfrentados por quem deseja montar uma empresa no Estado. Na pesquisa do Mapa das Empresas, que mede o menor tempo médio de viabilidade entre os estados brasileiros (isto é, o tempo para confirmar se a empresa pode funcionar no local escolhido e usar o nome desejado), Pernambuco aparece apenas na 14ª posição nacional. Apesar de estar longe dos destaques, houve uma recuperação nos últimos anos. A analista do Sebrae-PE, Priscila Lapa, lembra que, em 2021, o Estado chegou a ser classificado como o pior do País para fazer negócios no relatório Doing Business Subnacional, realizado pelo Banco Mundial. “Em 2021 foi a primeira mensuração subnacional e Pernambuco ficou em último lugar como o estado mais difícil para abrir uma empresa, o pior ambiente de negócio. Isso impactou muito na época, e o governo contratou a consultoria do próprio Banco Mundial para implementar melhorias. Houve, sim, um avanço, Pernambuco deu uma melhorada nesse ranking, mas ainda está longe de estar no topo entre os melhores”, afirmou Priscila Lapa. ENTRE A NECESSIDADE E A OPORTUNIDADE No atual relatório do Global Entrepreneurship Monitor 2025/2026, o Brasil ficou na 44ª posição entre 53 países do índice do NECI, que é um índice que avalia justamente o contexto empreendedor. No estudo, 71% dos brasileiros afirmaram empreender para ganhar a vida devido à escassez de empregos. Esse é um dado muito revelador. Embora o Brasil figure em alguns estudos com percentuais elevados de empreendedorismo, muitos desses negócios ganham corpo pela necessidade do empreendedor e não pela identificação de boas oportunidades. Uma realidade que é percebida pelos especialistas justamente pelas barreiras econômicas, motivacionais e estruturais de criar uma empresa em Pernambuco e no País. “A gente fala muito em empreendedorismo por necessidade, mas o fundamental é o empreendedorismo por oportunidade”, alertou Ricardo de Almeida. Segundo ele, um ambiente de negócios favorável é o que permite que essas oportunidades surjam e sejam aproveitadas. Nesse processo, educação e cultura empreendedora têm papel central ao transformar a necessidade em novos caminhos. Priscila Lapa considera que, apesar dos avanços recentes, no eixo institucional e regulatório, o ambiente de negócios segue fragmentado e burocrático. Pernambuco ainda apresenta dificuldades como baixa integração entre órgãos, com muitos municípios fora da RedeSim (Rede Nacional para a Simplificação do Registro e da Legalização de Empresas e Negócios) e ainda sofre com a ausência de coordenação central. De acordo com dados da Junta Comercial de Pernambuco, 133 municípios dos 184 do Estado aderiram à RedeSim. Ou seja, 51, sequer iniciaram uma transição para a simplificação dos processos, segundo a Lei 11.598, em vigor há quase 19 anos. Além disso, muitas das prefeituras integradas ao sistema têm indicadores baixíssimos. JOVENS ENTRE A PRESSA E O EMPREENDEDORISMO Uma pesquisa nacional de opinião pública encomendada pelo ICL (Instituto Conhecimento Liberta), e recém-realizada pela Ágora Consultores, com 9.497 entrevistas, mostra que 57% dos jovens de 16 a 29 anos preferem empreender a ter um emprego tradicional. Enquanto isso, 31% optam por estabilidade (como concurso público) e 11% preferem um emprego bem remunerado, sem riscos. O desejo pelo negócio próprio é mais forte entre homens (51%) e pessoas com ensino fundamental (49%). Além disso, quando comparado com outras faixas etárias, o desejo de abrir uma empresa vai caindo sistematicamente. O interesse dos jovens por seguir um caminho próprio, no entanto, não aparece como unanimidade nas pesquisas de opinião. O Mapa do Ensino Superior no Brasil, publicação anual do Instituto Semesp (Sindicato das Entidades Mantenedoras de Estabelecimentos de Ensino Superior no Estado de São Paulo), mostra que 31% dos alunos de centros universitários desejam criar o próprio negócio ou uma startup. Nas faculdades, o índice cai para 23,8% e, nas universidades, para 19,6%. Ainda assim, os números permanecem relevantes. Essa atração dos jovens por abrir o próprio negócio já é percebida pela professora da UPE (Universidade de Pernambuco) Paula Callado. Ela, que é gerente de inovação aberta e empreendedorismo na Agência de Inovação da UPE, considera que há mudanças de comportamento importantes entre os universitários, como a pressa por trabalhar, por causa da realidade econômica e de um perfil mais aberto a iniciativas próprias. A docente avalia que o perfil dos jovens é de maior ousadia e de enxergar mais possibilidades de carreira e renda do que gerações anteriores. “A realidade social e econômica termina trazendo um sentimento de urgência nos jovens para começar a trabalhar. Muitas vezes, eles acabam entrando em trabalhos de menor qualificação e remuneração. Por outro lado, dentro da universidade, percebo uma maior diversidade de perspectivas de caminho. Ainda existem os que querem trabalhar em grandes empresas, mas há um crescimento do interesse em empreender. Eles são uma geração mais corajosa.” Já Priscila, avalia
O desafio de empreender: como melhorar o ambiente de negócios? Read More »









