Confira entrevista com Bruno Padovano (FAU-USP) sobre desenvolvimento urbano sustentável – Revista Algomais – a revista de Pernambuco

Confira entrevista com Bruno Padovano (FAU-USP) sobre desenvolvimento urbano sustentável

Bruno Roberto Padovano, professor titular da Faculdade de Arquitetura de Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP) respondeu entrevista por e-mail para a Revista Algomais sobre urbanismo sustentável e protagonismo cidadão. O tema ganhou a matéria de capa da edição de junho.

Bruno Padovano é possui mestrado em Arquitetura (Harvard University) e em Desenho Urbano (Harvard University) e é doutor em Estruturas Ambientais Urbanas e Livre Docência em Arquitetura e Urbanismo (Universidade de São Paulo). Na USP ele exerce o cargo de Coordenador Científico do NUTAU/USP – Núcleo de Pesquisa em Tecnologia da Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo.

A ONU tem discutido como uma das metas para os próximos 20 anos da Nova Agenda Urbana Mundial ‘tornar as cidades inclusivas, seguras e sustentáveis’. Dentro dessa discussão, qual é a sua compreensão sobre o que é “urbanismo sustentável”?

Diria que o termo “Urbanismo Sustentável” reflete todo um trabalho de pesquisa, planejamento e projeto, realizado por agências internacionais (como a própria ONU), nacionais, regionais e locais (Primeiro Setor), para adotar medidas voltadas para o desenvolvimento urbano sustentável as grandes aglomerações humanas do mundo, concentradas principalmente em cidades e megacidades, mas também distribuídas na crescente urbanização difusa que diminui a diferença entre rural e urbano, no mundo inteiro. Este trabalho, hoje, inclui, além dessas agências, as empresas do Segundo e as ONGs do Terceiro, com alguns resultados bastante importantes sendo alcançados, especialmente nos centros urbanizados mais desenvolvidos do planeta, como Vancouver no Canadá.

Por “Urbanismo Sustentável” entendo processos de requalificação de áreas urbanizadas existentes e de novas áreas a serem criadas, para abrigar as imensas populações do planeta de forma a garantir a permanência da vida na Terra, recuperando-se os ecossistemas, garantindo os direitos das atuais e futuras gerações para uma existência mais saudável e segura em seu local de permanência, com cidadania assegurada, de acordo com a tríade de aspectos essenciais associada à sustentabilidade: ambientais, econômicos e sociais, passando, evidentemente, pelos político-administrativos e culturais.

Como você vê o desenvolvimento das cidades brasileiras?
As cidades brasileiras encontram-se envolvidas neste grande esforço mundial em busca do desenvolvimento urbano sustentável, sendo algumas mais pró-ativas (Curitiba, por exemplo) e outras menos, em função da prioridade das gestões político-administrativas adotadas nos diversos municípios. De maneira geral, temos Secretarias do Verde e Meio Ambiente (como em São Paulo) em muitas destas que, somadas às secretarias semelhantes dos estados e ao Ministério das Cidades, que concentram os aspectos ambientais desta equação, perfazem um todo institucional bastante promissor para políticas voltadas ao desenvolvimento sustentável nos três níveis do governo (federal, estadual e municipal) e os três setores da sociedade (Primeiro-Público, Segundo-Privado e Terceiro-Organizações Não-Governamentais). Infelizmente, não temos secretarias ou programas dirigidas de forma mais transdisciplinar para esta questão, que deveriam definir os parâmetros e as prioridades para ações saneadoras e preventivas que se fazem necessárias para fenômenos perniciosos e potencialmente dramáticos para a humanidade como um todo, tais quais o aquecimento global e a perda de biodiversidade, entre outros. Neste sentido, o desenvolvimento das cidades brasileiras é ainda pouco sustentável, ou mesmo insustentável, a curto e médio prazo, mesmo com os esforços mencionados.Isto significa que há muito o que ser feito, em todos os níveis, do educacional à atividade profissional, da participação à gestão, dentro deste novo conceito de urbanismo, uma profissão emergente de grande importância para o bem-estar social.

Como você vê a participação dos cidadãos na busca por uma cidade mais sustentável (seja em movimentos como o Ocupe Estelita ou seja em outras instâncias, dentro das instituições) como uma forma de se apropriarem do espaço público?
Como sendo essencial, já que o direito à plena cidadania deve se manifestar em todos os níveis da vida pública, com intensa participação, especialmente da população afetada por processos de planejamento e de intervenções urbanas promovidas pelos três setores antes mencionados. Nada mais pode ser realizado de cima para baixo, de forma a não envolver todos os interessados, até porque na interface dos diversos atores sociais podem surgir ideias muito melhores do que aquelas que muitas vezes se originam em paradigmas superados. Estado, Mercado e ONGs devem trabalhar juntos para estabelecer os padrões urbanísticos que interessam para a maioria da população urbana e não grupos de interesse restrito. Há um enorme campo de trabalho numa perspectiva mais harmoniosa do que a incompatibilidade de ações, que resulta em movimentos sociais importantes como Ocupe Estelita, que tendem a manifestar a angústia de grupos sociais com relação a situações insustentáveis por meio de demonstrações e confrontações. Precisamos trabalhar todos juntos, por meio de iniciativas como os Workshops de Recife, para criarmos excelência urbana, boa para todos os agentes do desenvolvimento sustentável, unindo o interesse público ao privado, e os dois ao das comunidades. Com a união de todos, além de boas doses de respeito mútuo, não há porque ficar brigando tanto.

Um dos maiores problemas das grandes e médias cidades é a mobilidade. Quais as causas desse entrave e os possíveis caminhos para resolvê-lo?
Creio que este tema tem sido muito discutido e que não é novidade para ninguém hoje que o assunto da mobilidade é central para o desenvolvimento urbano sustentável. A importância de dotarmos as nossas cidades com sistemas inteligentes de transporte público de qualidade é indiscutível: reduzindo a necessidade do uso do automóvel particular, podemos gerar cidades mais humanas, seguras e saudáveis, além de reduzir as emissões de CO2, tão nocivas para a saúde dos moradores e do planeta. A forte expansão do setor automobilístico, facilitado pela compra indiscriminada de veículos pelo crédito ampliado por todos os segmentos da população, tem trazido problemas seríssimos para os brasileiros, como para os habitantes de outras partes do globo. é necessário que o estado brasileiro garanta o direito de escolha da população nacional entre modalidades coletivas e as individualizadas de mobilidade urbana, com prioridade total para as primeiras.

Além da integração de redes de metro e trens metropolitanos, como vem ocorrendo em São Paulo, a ampliação das redes de ciclovias e melhoras dos espaços públicos para a circulação de pedestres são alguns destes caminhos virtuosos, mas há também a possibilidade da criação e melhora de redes ferroviárias, hidroviárias e aéreas que podem aliviar os congestionamentos e diminuir o estresse de circularmos em cidades que acabaram sendo feitas para a circulação de automóveis e outros veículos sobre rodas, sabidamente incompatíveis com os estreitos espaços a estes destinados, resultando numa alta incidência de acidentes com vítimas sendo registrados no nosso dia a dia urbano.

Várias cidades brasileiras nos períodos de chuvas ocorrem deslizamentos, mortes de pessoas, alagamentos… De que forma a ausência de um planejamento territorial influencia nessas catástrofes?
Planejar significa antecipar situações adversas e perniciosas para a população das áreas urbanizadas e, portanto, adensadas, com medidas preventivas para evitar acidentes e situações dramáticas e inaceitáveis como estas. O mapeamento de “áreas de risco” em nossos centros urbanos é um primeiro passo importante, mas é necessário saber lidar com a relocação de grandes contingentes populacionais que nestas residem, com programas habitacionais de interesse social relacionados ao sistema de mobilidade coletiva, distribuindo a população de renda baixa de forma mais sustentável no território (como no modelo TOD – Transit Oriented Development, ou Desenvolvimento orientado pelo transporte).

A ausência de um planejamento territorial com base aos seus conceitos mais avançados, dentro do modelo do desenvolvimento urbano sustentável contemporâneo, é sem dúvida uma das causas dos problemas existentes e emergentes, especialmente em cidades dos países em desenvolvimento, com taxas de urbanização muito elevadas. Sua adoção, dentro deste esforço glocal (global-local) é fundamental para que possamos construir uma planeta novo, associando as forças humanas com as da Natureza da qual emergimos, como raça inteligente, há cerca de 2 milhões de anos atrás. Já era a hora de acertarmos o caminho, diante das demandas de bilhões de habitantes das cidades da Terra, sem mais delongas, como quer a ONU.

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