Geração prateada e a saúde: qualidade de vida além dos hospitais

*Por Rafael Dantas

O envelhecimento da população brasileira e pernambucana avança em ritmo acelerado e já impõe transformações profundas na saúde, nas cidades e em diversos setores da economia. Entre os Censos de 2000 e 2022, o número de pessoas com mais de 60 anos dobrou em Pernambuco. No Recife, hoje a capital mais envelhecida do Nordeste, a chamada geração prateada mais que triplicou, passou de 84 mil moradores (5,9% da população) para 264 mil pessoas (17,7%). Uma transição demográfica que amplia os desafios para garantir qualidade de vida e atendimento adequado à população idosa.

Quem entrou nessa estatística na última década foi a aposentada Célia de Souza Pereira. Aos 69 anos, ela segue na ativa como síndica. Conhecida como “mãe do Pina”, ela é um retrato de parte dos “novos idosos”. Mesmo convivendo com dores nas pernas e após uma cirurgia por trombose, não abre mão do movimento. “A idade vai chegando e a gente tem que se movimentar, não pode ficar parada. Esse é um grande problema nosso”, afirma. Entre hidroginástica, zumba no Compaz Leda Alves, no Pina, consultas médicas e exames regulares de saúde, ela segue tentando manter o corpo ativo e a mente ocupada.

Porém, além de se movimentar, Célia conta que sempre buscou se cuidar. Já participou de programas de reeducação alimentar, faz acompanhamento médico, participa de palestras no Compaz e tem atendimento no Hospital da Pessoa Idosa. Ou seja, para ter qualidade de vida, procura bastante o serviço de saúde.

centro convivencia helia scheppa
Foto: Helia Scheppa

Para ter noção do tamanho do desafio para atender pessoas idosas, como Célia, há no Brasil atualmente um geriatra para cada 10 mil habitantes acima dos 60 anos, segundo a pesquisa da Demografia Médica Brasileira 2025. Enquanto o Brasil conta com 3.167 geriatras, Pernambuco possui 149 desses especialistas na saúde da pessoa idosa. Uma média de um profissional para aproximadamente 9 mil idosos no Estado. Além da escassez, a maior parte desses médicos está concentrada na capital, ampliando a dificuldade de acesso no interior. Apesar desse segmento ter registrado um crescimento forte na última década, os números são insuficientes para a demanda. A Organização Mundial da Saúde sugere que haja um geriatra para cada mil idosos. 

O desafio para o sistema de saúde, porém, vai muito além da formação de mais geriatras. A população que conquistou mais tempo de vida passa a demandar uma rede ampla de cuidados e serviços de saúde, necessários para viver com qualidade e ter e bem-estar, além de utilizar esses serviços com maior frequência do que os grupos mais jovens. Ela requer hospitais e clínicas, mas também uma série de outras estruturas necessárias para dar suporte ao processo de envelhecimento da população de forma mais satisfatória.

“O Brasil tem passado por um processo de envelhecimento muito acelerado. A França dobrou seu número de idosos em cerca de 150 anos. A gente está fazendo isso em menos de 30 anos”, alertou Alexandre de Mattos, que é coordenador da disciplina de geriatria da Universidade de Pernambuco e atua como geriatra Hospital Universitário Oswaldo Cruz. 

Alexandre Mattos
O Brasil tem passado por um processo de envelhecimento muito acelerado. A França dobrou seu número de idosos em cerca de 150 anos. A gente está fazendo isso em menos de 30 anos. (Alexandre de Mattos)

Diante do envelhecimento acelerado da população, as respostas do País ainda avançam lentamente. Para enfrentar esse cenário, Alexandre de Mattos defende uma “gerontologização” do sistema de saúde, ou seja, a incorporação do cuidado com idosos em diferentes áreas e profissões, e não apenas na geriatria. A proposta envolve preparar médicos da atenção básica, enfermeiros, fisioterapeutas e outros profissionais para lidar com doenças crônicas, fragilidade e perda de autonomia, garantindo um cuidado mais integral ao idoso.

SISTEMA MENOS FOCADO NAS DOENÇAS  E MAIS ATENTO ÀS PESSOAS

Um dos desafios do sistema de saúde, público e privado, é inverter a lógica compartimentada e centrada nas doenças. Quando uma pessoa idosa começa a conviver com diferentes doenças crônicas, cuidar da sua qualidade de vida de forma integral é mais eficiente do que tratar cada enfermidade de forma fragmentada. 

A mudança desse pensamento acerca do tratamento, porém, acontece em um momento em que todas as áreas da saúde, dos hospitais às UTIs e ambulatórios, estão pressionados pela demanda real do envelhecimento da população. “A gente não desenvolveu um modelo de saúde para receber essa quantidade de idosos e essa complexidade de cuidados”, alerta Lukas Lucena, geriatra e gerente médico da Clínica Florence Recife. Para ele, o sistema continua excessivamente “hospitalocêntrico” e “medicocêntrico”, enquanto o cuidado efetivo depende de equipes multidisciplinares, com participação de enfermeiros, terapeutas ocupacionais, nutricionistas, psicólogos e assistentes sociais.

Dr.Lukas
A gente [no Brasil] não desenvolveu um modelo de saúde para receber essa quantidade de idosos e essa complexidade de cuidados. (Lukas Lucena)

“Hoje, as pessoas têm vivido mais, mas não necessariamente com qualidade de vida”, constata o geriatra. O principal desafio do envelhecimento, nesse contexto, é preservar a funcionalidade e a autonomia dos pacientes pelo maior tempo possível. Para o médico, o modelo tradicional, centrado apenas em hospital e residência, já não consegue responder à complexidade do envelhecimento. Por isso, ganham espaço estruturas intermediárias, como os hospitais de transição, voltados à reabilitação e à recuperação da independência após eventos graves, como AVCs, cirurgias ou doenças neurológicas. “A gente consegue devolver o paciente à vida funcional e à vida independente”, destacou.

Em outras palavras, além de mais hospitais e clínicas, o envelhecimento da população demanda novos tipos de serviços. Além dos hospitais de transição, que é o modelo da Clínica Florence, o avanço dos Institutos de Longa Permanência para Idosos é uma outra tendência para a oferta de cuidados que as famílias não conseguem mais oferecer aos pais e avós devido às demandas profissionais.

Uma das novas estruturas defendidas também pelos especialistas são os chamados Centros de Convivência da Pessoa Idosa. O Recife inaugurou o primeiro nesse formato no começo desse ano. A proposta é promover envelhecimento ativo, autonomia e inclusão social dos recifenses acima de 60 anos, com atividades de saúde, educação, cultura, lazer e qualificação.

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A grande violência contra essa população começa no momento em que eles perdem a autonomia. E o grande violentador da pessoa idosa é a família, infelizmente. A convivência hoje é o que mais protege essa pessoa idosa. (Kylvia Martins)

“Só o hospital não dá conta dessa população”, afirmou Kylvia Martins. Ela também defende um olhar mais amplo do sistema de saúde para a terceira idade, tanto uma maior robustez da atenção básica, como investimentos em espaços de convivência que ajudam a dar mais autonomia aos idosos. “A grande violência contra essa população começa no momento em que os idosos perdem a autonomia. E o grande violentador da pessoa idosa é a família, infelizmente. A convivência hoje é o que mais protege essa pessoa idosa”, afirmou Kylvia.

Alguns dos grandes benefícios desses espaços são o combate ao isolamento, à depressão, à perda de autonomia, além da violência. No Centro de Convivência Maria da Conceição Guedes, que fica na Avenida Rui Barbosa, no Recife, dos 800 idosos inscritos, 80% moravam sozinhos. Pessoas que, mesmo com renda e residindo em apartamentos, apresentavam níveis elevados de ansiedade, além de quadros depressivos.

No Recife,  além de grupos formados pelos próprios hospitais, os Compaz (Centros Comunitários da Paz) contribuem para o fomento dessa convivência da população idosa. As igrejas também têm uma contribuição importante para evitar esse isolamento que adoece a população mais envelhecida. Célia, por exemplo, mora apenas com uma cadela. Viúva há mais de duas décadas e com pouco contato com os quatro filhos, encontrou nos grupos de idosos do hospital e das atividades do Compaz, além das amigas da vizinhança, uma forma de se manter em comunidade. “Para não me sentir tão só, preciso estar futucando alguma coisa”, diz. 

A participação na Igreja Nossa Senhora do Rosário, por exemplo, ajuda a amenizar parte desse vazio. Lá, ela participa de encontros, bingos e ações solidárias. Também mantém hábitos de que gosta: vai à praia, dança e relembra com saudade os tempos das festas dos clubes dançantes e do Recifolia. A violência urbana, no entanto, a restringe de circular mais pela cidade. “Tenho medo de sair de casa, porque ninguém respeita mais os idosos.”

No livro A Revolução da Longevidade, Alexandre Kalache ressalta que pessoas que envelhecem de forma ativa, como Célia, procuram aprender continuamente sobre saúde e “investir” em saúde ao longo da vida. “Aumentar os anos de vida é importante, mas dar qualidade a esses anos é igualmente fundamental. Envelhecer com saúde precária é um prêmio vazio”, aponta o médico. 

Apesar de reconhecer a importância dos hábitos pessoais para um envelhecimento saudável, Kalache ressalta que os países e cidades que mais avançaram nessa agenda combinaram iniciativas da população com políticas públicas e transformações urbanas capazes de reduzir desigualdades e ampliar a qualidade de vida na velhice. “O comportamento individual, porém, é apenas parte do processo. O modelo de envelhecimento ativo propõe ações coletivas para remover barreiras ambientais à saúde (inclusive preconceitos estruturais) e para promover ambientes que favoreçam escolhas saudáveis. É no espaço entre as boas escolhas individuais e as boas políticas públicas que acontecem os maiores avanços em saúde”.

SOLIDÃO E SAÚDE MENTAL

Com o afastamento das famílias e o convívio com limitações de saúde, entre outras tantas transições que chegam com a terceira idade, o índice de depressão que atinge a população acima dos 60 anos é de 13,2% no Brasil, segundo o IBGE. Esses dados foram elaborados em 2019, ainda antes da crise sanitária. Porém, segundo a psicóloga e especialista em gerontologia, Elizete Maciel, a saúde mental dos idosos se agravou após a pandemia de Covid-19. 

“A pandemia deixou (e ainda podemos identificar) marcas importantes, principalmente pelo aumento do isolamento, do medo, do luto e da insegurança. Neste cenário da pandemia, muitas pessoas perderam vínculos sociais, e até a liberdade de de ir e vir, gerada pela perda da autonomia que tinham antes. Elas vivem  problemas econômicos, tornando-se a pessoa que sustenta financeiramente famílias inteiras e ainda assim enfrentam dificuldades de acesso à sua própria saúde, gerando redução no seu bem-estar. Tudo isso aumenta o estresse emocional e a sensação de vulnerabilidade”, explicou Elizete.

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[É importante ver] o envelhecimento de forma humana e coletiva. A qualidade de vida depende de tratamentos médicos e também de uma sociedade que valorize vínculos, inclusão, escuta e dignidade em todas as fases da vida. (Elizete Maciel)

É nesse contexto de ampliação da vulnerabilidade emocional, que aumentaram os sintomas de ansiedade, tristeza e de desesperança. “Muitas dessas pessoas passam a acreditar que não tem mais nada para fazer. Por isso a importância de visualizar o envelhecimento de forma mais humana e coletiva. A qualidade de vida depende de tratamentos médicos, porém depende também de uma sociedade que valorize vínculos, inclusão, escuta e dignidade em todas as fases da vida”, defendeu Elizete Maciel.

O maior contato coletivo com a natureza é um dos caminhos propostos pela psicóloga Natália Tavares, que integra o conselho fiscal da ABRAz-PE (Associação Brasileira de Alzheimer, em Pernambuco). Ao lado da médica Flávia Goldman, presidente da entidade, ela trabalha com a Terapia da Floresta, que é uma prática terapêutica baseada no contato consciente de ambientes naturais. Ela explica que as árvores liberam substâncias chamadas “terpenos”, compostos presentes nos óleos essenciais vegetais que, ao serem inalados, ajudariam a reduzir o estresse, melhorar a imunidade e favorecer o bem-estar.

Natalia Tavares
É fundamental criar espaços para socializar e também mais contato com a natureza. Criar saúde é criar espaços verdes na cidade. (Natália Tavares)

Na experiência local, a atividade acontece em um trecho da Mata Atlântica de Aldeia, onde os participantes realizam caminhadas mais leves e exercícios de conexão com as árvores e a vegetação local. “É fundamental criar espaços para socializar e também mais contato com a natureza. Criar saúde é criar espaços verdes na cidade”, defendeu.

Assim como o equilíbrio do corpo, a saúde mental, segundo Elizete, não se constrói por fatores isolados, nem se tratam apenas de instituições formais de cuidados médicos. “A saúde mental da pessoa idosa está relacionada desde o processo de aposentadoria, a síndrome do ninho vazio (quando os filhos saem), as perdas de entes queridos. São fatores que necessitam ser tratados com cuidado. Por isso, políticas públicas voltadas para cultura, lazer, educação, esporte, mobilidade urbana e assistência social também são fundamentais para um envelhecimento saudável”, destaca Elizete.

Além da oferta dos centros de convivência, ter universidades abertas para pessoas idosas e espaços públicos acessíveis são formas de promover encontros de estimulação cognitiva para esse público. O processo de retorno para a sala de aula, a inclusão em cursos de informática, canto, teatro, entre outros, são algumas alternativas para fortalecer a saúde mental dessa população.

PESQUISAS PARA DAR SUPORTE AO ENVELHECIMENTO

Com o crescimento da população idosa, aumenta o interesse nas formações na área e também a gama de pesquisas para promover qualidade de vida em idades mais avançadas. Na UPE, por exemplo, Alexandre de Mattos afirma que há estudos em desenvolvimento relacionados às demências, que têm crescido muito, ao impacto do cuidado dos idosos sobre os familiares, à sarcopenia (a perda progressiva da massa muscular), entre outros temas de forte relevância para uma sociedade em envelhecimento. “Não estudamos apenas a doença, mas também o impacto físico e mental sobre o cuidador familiar”, ressalta.

A chamada polifarmácia é uma outra preocupação em estudo e na prática médica. Esse fenômeno refere-se ao uso simultâneo de vários medicamentos por uma mesma pessoa. Embora seja muito comum entre idosos, que acumulam doenças crônicas, ela se torna um problema quando há excesso de remédios ou mesmo combinações que aumentam o risco de efeitos colaterais. Essa prática está muito associada à fragmentação do cuidado, quando profissionais de diferentes especialidades tratam doenças isoladamente.

“A polifarmácia é um problema importante porque aumenta desfechos negativos na saúde. A tendência é enxergar o idoso como um todo e não apenas pelas doenças específicas”, defendeu o docente. O professor e pesquisador aponta como tendências futuras no cuidado da saúde dos idosos o crescimento do uso de inteligência artificial para detecção de doenças precoces, o fortalecimento das ações de prevenção, além do maior investimento na medicina personalizada e de precisão. 

TERCEIRA IDADE É PLURAL

Uma verdade enfatizada pelos especialistas na vida mais longeva é que não existe um padrão na terceira idade. Mesmo num mesmo País ou mesma cidade, os contextos de vida levam a desafios muito distintos, como explica Kylvia Martins. “Gosto de ressaltar que a velhice é muito plural, porque cada um envelhece de forma diferente. Porque as pessoas vão ter condições diferentes e vão ter necessidades diferentes.”

A condição econômica, evidentemente, é um fator que distingue os idosos, pelo acesso aos planos de saúde, à melhor alimentação e a financiar uma maior estrutura para os cuidados. Porém, está longe de ser a única definidora. Há ainda condições, como viver mais perto da família, ter amizades, capacidade de “conectar” com as novas tecnologias, entre muitas outras. São muitas situações que podem auxiliar num processo de envelhecimento mais ou menos saudável.

Essa percepção leva os profissionais da saúde a ter uma atenção redobrada ao contexto do idoso para sugerir um tratamento ou mesmo uma dieta. Afinal, esse cidadão tem autonomia para administrar diversos remédios? Ele tem condições econômicas de incluir todas as frutas e verduras recomendadas? São perguntas que mostram como envelhecer bem depende não apenas da medicina, mas também das redes de apoio, da renda, da moradia e das condições concretas de vida de cada pessoa.

A psicóloga Natália Tavares, que tem 70 anos, ressalta, inclusive, que não se pode focar no envelhecimento apenas pelo lado negativo. “Há um envelhecimento saudável também. Hoje em dia estamos envelhecendo mais porque a saúde avançou mais. Então, esse processo é produto também dos cuidados que a população teve de sua saúde, com mais atividades físicas, buscando viajar mais e batalhar pela autonomia. Tem um lado positivo”.

Mesmo entre idosos que perderam a autonomia e passaram a depender integralmente de cuidados, permanece o desejo de seguir vivendo. O geriatra Lukas de Lucena afirma que a sociedade costuma projetar seus próprios medos sobre a dependência física, sem considerar os valores e projetos pessoais de cada indivíduo. 

Ele cita estudos publicados pelas revistas BMJ Open e Neurology indicando que pacientes com dependência severa após eventos neurológicos ainda relatam elevados níveis de satisfação com a vida, próximos de 70%. “Existem várias pessoas vivendo sem funcionalidade e que querem continuar vivendo e que merecem continuar vivendo”, destaca. Para o médico, o desafio do sistema de saúde não é apenas recuperar a funcionalidade quando possível, mas também garantir dignidade, adaptação e qualidade de vida para aqueles que precisarão de cuidados permanentes.

A geração prateada não é mais um porvir. É uma realidade presente no sistema de saúde, mas também no mercado de trabalho, no consumo do lazer e do turismo. Uma parcela da sociedade cada vez maior e que em respeito aos seus cabelos prateados, exige atenção e deferência às suas novas necessidades. Os primeiros passos para reconhecê-los foram dados. Mas ainda faltam muitos para completar o caminho que ofereça qualidade de vida e dignidade aos idosos.

*Rafael Dantas é repórter da Revista Algomais e assina as colunas Pernambuco Antigamente e Gente & Negócios (rafael@algomais.com | rafaeldantas.jornalista@gmail.com)

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