O que não disseram ainda sobre o futuro Internacional de Pernambuco?

O mundo mudou — e mudou de forma que interessa diretamente a Pernambuco. O acordo Mercosul-União Europeia avança para ratificação e reposicionará o Porto de Suape como corredor atlântico estratégico entre a América do Sul e a Europa. A corrida global por energia renovável transforma o potencial solar, eólico e de hidrogênio verde do Nordeste em ativo de negociação geopolítica de primeira ordem. A demanda energética para infraestrutura de inteligência artificial pode crescer 50% até 2030, segundo a Agência Internacional de Energia. As cadeias globais de valor se reorganizam pós-pandemia, abrindo espaço para novos fornecedores em setores nos quais Pernambuco tem vocação real: alimentos, têxteis, tecnologia e serviços criativos digitais.

Essas janelas não ficam abertas para sempre. Estados que tiverem arquitetura paradiplomática construída vão capturar esses fluxos de investimento. Os que não tiverem vão assistir de fora.

É nesse contexto — o mais favorável das últimas décadas para a inserção internacional de Pernambuco — que Raquel Lyra e João Campos chegam ao maior ciclo eleitoral pernambucano dos últimos anos em empate técnico nas pesquisas. Os dois têm histórico na agenda internacional. Os dois têm realizações verificáveis. E os dois ainda não responderam à pergunta mais importante para quem pensa no desenvolvimento de longo prazo do estado:

O que você vai fazer para que Pernambuco pare de desperdiçar o que já tem?

Porque o problema de Pernambuco não é ausência de potencial internacional. É a incapacidade estrutural de convertê-lo em política pública. E nenhum dos dois candidatos falou sobre isso com a especificidade que o momento exige.

O que os números revelam — e ninguém comenta: Pernambuco é o segundo maior hub diplomático do Brasil, com mais de quarenta representações consulares instaladas no Recife — atrás apenas de São Paulo. Tem o Porto de Suape, que movimentou mais de 33 milhões de toneladas em 2023, um dos mais modernos da América do Sul. Tem o frevo inscrito no Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO desde 2012. Tem o Porto Digital como referência nacional de inovação. Tem sol e vento em abundância para liderar a produção de hidrogênio verde — combustível que o mundo inteiro está correndo para comprar.

E ainda assim exportou apenas US$ 1,9 bilhão em 2024. O Ceará exportou US$ 4 bilhões. A Bahia chegou a US$ 12 bilhões. O déficit comercial pernambucano supera US$ 5,2 bilhões. Em 2023, as exportações caíram 15,3% — porque a pauta está concentrada em poucos produtos e poucos parceiros, e quando os EUA reduziram a demanda por derivados de petróleo e a Argentina entrou em colapso, Pernambuco sentiu o impacto de forma desproporcional.

Esses números não são fatalidade. São a conta de décadas de política de internacionalização que nunca se tornou política de Estado.

A lei existe. A estrutura, não. Em janeiro de 2024, o governo Lyra publicou a Lei nº 18.487, atualizando o mandato da Secretaria da Assessoria Especial à Governadora e Relações Internacionais — a SAESPRI. Uma boa lei. Ela prevê que a secretaria coordene as ações internacionais do estado em articulação permanente com todos os órgãos do governo, prospecte ativamente parcerias e apoie a internacionalização da estrutura produtiva pernambucana.

Mas a lei não se traduz em prática. Com três profissionais identificáveis publicamente e sem orçamento próprio para execução de projetos, a SAESPRI opera sistematicamente abaixo do seu mandato legal. No Edital Conexão Pernambuco-Sichuan — a principal iniciativa de cooperação internacional do período —, quem coordenou foi a Secretaria de Ciência e Tecnologia, quem executou foi a FACEPE, e a SAESPRI prestou “apoio dentro de suas atribuições legais”. Na visita da CATL a Suape, a agenda foi liderada pela Secretaria de Desenvolvimento Econômico. A lei manda coordenar; a estrutura acompanha. A lei manda prospectar ativamente; a agenda é reativa. A lei manda monitorar convênios com organismos internacionais; nenhum relatório anual de atividades da SAESPRI foi encontrado publicamente.

Não é crítica às pessoas. É diagnóstico de um problema de arquitetura institucional que atravessa governos — e que nenhum candidato ainda se comprometeu a resolver.

O paradoxo que custa caro

Há uma contradição estrutural que o debate público pernambucano ainda não enfrentou: Pernambuco possui duas instâncias com mandato de atuação internacional operando em paralelo — a SAESPRI no Executivo e a Comissão de Assuntos Internacionais da Assembleia Legislativa —, com agendas distintas e sem mecanismo formal de coordenação entre si.

Enquanto a SAESPRI concentra sua agenda no eixo China, a Comissão da ALEPE — que publicou Relatório Anual de Atividades em 2025 — construiu relações com a Itália, a Grécia, o Chipre, a Suíça e Cabo Verde, o primeiro país africano a receber o Prêmio País Amigo de Pernambuco. A Itália, premiada pelo Legislativo, está ausente de qualquer iniciativa identificada da SAESPRI. Cabo Verde, honorificado pela ALEPE, não aparece em nenhuma missão executiva. A Europa Central — onde os consulados honorários da Eslovênia, Áustria e República Tcheca representam pontes construídas ao longo de anos — permanece fora da agenda do Executivo.

Dois organismos constroem relações com parceiros distintos sem qualquer potencialização mútua. O capital relacional acumulado por um não alimenta o trabalho do outro. Isso tem nome: é desperdício institucional. E custa caro a um estado que poderia estar capturando investimentos que vão para outros destinos.

O interior que a paradiplomacia esqueceu

Há ainda uma dimensão do problema que raramente aparece no debate: a invisibilidade do interior do estado na agenda paradiplomática pernambucana. Nem a SAESPRI nem a Comissão da ALEPE registram iniciativas voltadas para as regiões produtoras do interior. A Zona da Mata Sul — com vocações exportadoras reais em cachaça artesanal, mel, produtos orgânicos e artesanato com potencial de inserção em cadeias de Comércio Justo na Europa —, o Agreste têxtil, a fruticultura irrigada do Vale do São Francisco e a agricultura familiar do Sertão são, na prática, invisíveis para a política internacional do estado.

Quando 60% das exportações pernambucanas originam-se da Região Metropolitana do Recife e as missões internacionais do estado nunca chegam ao interior, a paradiplomacia pernambucana aprofunda desigualdades regionais em vez de mitigá-las. Internacionalização que só beneficia a capital não é política de desenvolvimento territorial. É concentração de renda com sotaque diplomático.

O cenário que torna 2026 decisivo

O Brasil vive um momento de reorganização geopolítica sem precedentes. O acordo Mercosul-União Europeia avança para ratificação e reposicionará Suape como corredor atlântico estratégico entre a América do Sul e a Europa. A demanda energética para infraestrutura de inteligência artificial pode crescer 50% até 2030, segundo a Agência Internacional de Energia — e o Nordeste tem as condições naturais mais favoráveis do hemisfério ocidental para produzir hidrogênio verde. As cadeias globais de valor se reorganizam pós-pandemia, abrindo espaço para novos fornecedores em setores nos quais Pernambuco tem vocação real: alimentos processados, têxteis, tecnologia e serviços criativos digitais.

Essas janelas não ficam abertas para sempre. Estados que construírem agora sua arquitetura paradiplomática capturarão os investimentos que definirão suas trajetórias nas próximas duas décadas. Os que não o fizerem — que ficarem repetindo o ciclo da missão, da foto, do memorando e do recomeço do zero — vão perceber, retrospectivamente, que a janela se fechou enquanto debatiam se deviam abri-la.

A pergunta que não foi feita — e precisa ser respondida

Raquel Lyra tem realizações concretas na agenda internacional: a missão a Sichuan, o Edital Pernambuco-Sichuan, a ampliação das rotas aéreas internacionais do Recife, a articulação com a CATL para Suape. São iniciativas reais — mas dentro do modelo existente, sem indicação de que a próxima gestão representaria uma transformação estrutural da paradiplomacia pernambucana.

João Campos tem o argumento paradiplomático mais consistente entre os candidatos: transformou a paradiplomacia do Recife em política pública institucionalizada, com resultados verificáveis. Mas o que funcionou na escala municipal precisa demonstrar que pode escalar para a complexidade do governo estadual.

A ambos, a mesma pergunta — e ela precisa de resposta antes de outubro: Como você vai transformar a SAESPRI de secretaria de acompanhamento em secretaria de coordenação ativa, com orçamento próprio, equipe compatível e mandato real de liderança sobre a agenda internacional do estado? Como vai formalizar a coordenação com a Comissão de Assuntos Internacionais da ALEPE para que o capital relacional dos dois organismos se some em vez de se desperdiçar? Como vai fazer a paradiplomacia pernambucana chegar a Palmares, a Caruaru, a Petrolina e a Salgueiro — e não apenas ao Recife?

A boa notícia é que não é necessário criar uma nova lei. A Lei 18.487/2024 já autoriza o que precisa ser feito. O que falta é a decisão política de criar as condições materiais para que ela seja cumprida — e o compromisso público, verificável e mensurável, de fazê-lo nos primeiros cem dias de governo.

Pernambuco tem o segundo maior hub diplomático do Brasil. Tem Suape. Tem o frevo na UNESCO. Tem o potencial energético que o mundo inteiro quer comprar. O que os candidatos ainda não disseram é se vão, finalmente, usar tudo isso. É isso que 2026 precisa responder.

Tiago Lima

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