“Essa crise de relevância no ensino superior e básico requer liderança e estratégia” 
Luciano Meira e Mariana Valença

Chico e Fabiana

O programa Pernambuco em Perspectiva reuniu dois dos principais pensadores sobre educação do Estado, Luciano Meira, professor da UFPE e head de pedagogia na Proz Educação, e Mariana Valença,  professora do curso de Geografia e do Mestrado Profissional em Educação Inclusiva na UPE, para discutir o panorama atual do ensino em Pernambuco e os desafios atuais diante do desenvolvimento das tecnologias.

Com mediação de Fabiana Pirro e Francisco Cunha, neste episódio os convidados abordam desde o panorama da aprendizagem no Estado até a necessidade de transformar o ensino superior a partir da relação com a inteligência artificial e a situação de desinteresse atual dos jovens nas universidades.

Realizado numa parceria entre a Revista Algomais e a TV Tribuna, o programa tem a direção de Leo Crivellare e produção de Rafael Dantas e Inácio França e apresenta uma série de debates sobre temas estratégicos para o futuro do Estado.

Professores

Fabiana Pirro A educação é frequentemente apontada como chave para o futuro e em uma reportagem da revista Algomais o senhor citou que a aula faliu. A escola brasileira, de forma geral, ainda ensina para o passado? Podemos dizer que o modelo tradicional de ensino está esgotado?

Luciano Meira – A referência à aula faliu, Fabiana, foi uma alegoria, uma metáfora a indicadores muito antigos, pouco dinâmicos, pouco contemporâneos que usamos para descrever esse momento tão especial que é o encontro, essa construção de relações de aprendizagem na sala de aula. A sala de aula não faliu, a escola não faliu ainda, mas a gente tem que tomar conta porque há um conjunto de inovações em emergência, como inteligência artificial, por exemplo, que podem realmente esvaziar as salas de aula de universidades e do ensino básico muito rapidamente. 

E a gente está diante de um mundo que eu reputo como figital, ou seja, um mundo que tem atravessamentos do físico com o digital, com o social, e que a aula não contempla usualmente. 

Sala de Aula II

Francisco Cunha – Luciano, quando eu li, pela primeira vez, essa sua afirmação de que a aula tinha falido, eu entendi que a sala de aula tinha falido. Mas você disse que não, é a aula. A sala de aula ainda pode ser salva. Você pode explicar um pouco mais essa diferença, que parece sutil?

Luciano Meira – Pois é, Francisco, pense hoje num parque desses que temos muitos agora, inclusive, no qual  a pessoa que está lá fazendo o seu exercício e porta um smartwatch que captura dados da sua fisicalidade no mundo, seus batimentos cardíacos, quantos passos deu, ao mesmo tempo que, mais adiante, tem um grupo de jovens que usa o Spotify, uma plataforma de música que tem influência sobre seus corpos, porque eles dançam de acordo com essa música que está streaming, né? Essa música está vindo por uma plataforma, eles vão publicar essa dança no TikTok e isso viraliza. Então, são pessoas no mundo físico, mas que estão conectadas com essa camada digital que atravessa nossos comportamentos diários, menos na sala de aula.

Mariana Valença – É importante a gente falar que a sala de aula nessa perspectiva mais tradicional, ela continua sendo vista e utilizada como o único espaço de aprendizagem. Então, quando a gente sai da sala de aula para fazer uma atividade de campo, por exemplo, quando a gente faz uma atividade extraclasse, dentro da própria instituição de ensino, levando um grupo de cultura popular, uma ciranda, um maracatu, isso não é menos importante do que a sala de aula com o conteúdo de português, de geografia. Então, a gente precisa pensar nessa sala de aula de forma ampliada.

Eu vejo ainda muitos professores, muitos profissionais da educação presos a essa dimensão da sala de aula física, conteudista, preso nos seus conteúdos, quando, na verdade, a gente pode ir muito além. Eu costumo dizer na universidade que se a gente tem uma atividade diferente que choque com o horário de aula, não tem problema que a minha aula deixe de acontecer, para que aconteça aquele momento que é interdisciplinar, que é único, porque a minha aula pode ser retomada a partir da leitura de um texto, por exemplo. E aquela vivência, aquela experiência, ela é tão importante quanto o debate teórico dentro da sala de aula.

Mercado de trabalho

Fabiana Pirro – Olhando para a empregabilidade e o interesse dos jovens na escola e no ensino superior, podemos afirmar que existe um descompasso entre o que se ensina e o que o mercado demanda? 

Luciano Meira – Definitivamente, tanto é que o mercado, as grandes organizações, todas elas hoje possuem seus próprios processos formativos, o que é de uma certa maneira óbvio, né? Porque o conhecimento é muito dinâmico e ele é enriquecido com as práticas locais de dentro das organizações. Mas chegou a um ponto em que o jovem e suas famílias perderam uma certa credibilidade no ensino universitário, por exemplo, justamente devido a essa distância que a universidade produziu da sociedade, dos setores produtivos ao longo dos últimos anos.

Então isso é um problema grave. A universidade tem que se reinventar nesse sentido e ficar mais próxima, eu não digo nem do mercado, mas do mundo do trabalho. A universidade tem que estudar continuamente o mundo do trabalho, suas mudanças, ver o que que a inteligência artificial está fazendo em vários setores e observar de maneira muito precisa, muito próxima, não pelo hype que, por exemplo, a inteligência artificial pode gerar, mas analisar cientificamente.

A universidade tem que estar muito melhor conectada com o mundo do trabalho para que essa formação, a partir de uma perspectiva de uma aprendizagem significativa com as várias metodologias dinâmicas e ativas que hoje nós conhecemos, possa capturar um imaginário, não só dos jovens. A universidade de hoje tem um espectro de uma audiência bastante ampla, como do idoso também, que frequenta esse espaço de aprendizagem e, portanto, nós podemos realizar essa missão que é apoiar a transformação da sociedade.

Ensino Superior

Fabiana Pirro –  Mariana, como você avalia o interesse e o engajamento dos jovens na formação superior? Que estratégias que as universidades têm adotado para manter o interesse dos jovens na formação acadêmica? 

Mariana Valença – É um desafio imenso que a universidade de um modo geral tem enfrentado. Recentemente a gente discutiu isso na universidade, no nosso conselho superior, exatamente porque hoje a gente tem vaga ociosa na universidade. Se durante muito tempo a gente tinha uma disputa por essas vagas, hoje a gente vê que algumas áreas estão deixando de serem disputadas, de terem o interesse dessa juventude para atuar nessas áreas.

A gente tem, de fato, uma democratização do acesso à educação, em tese, mas não necessariamente a gente tem uma educação que acompanhou um processo formativo, que acompanhou essas mudanças. Não sei como a instituição consegue fazer isso considerando a diversidade de professores, a  diversidade de áreas, a diversidade de gerações, enfim, uma série de diversidades que estão presentes dentro da universidade. Como é que ela consegue dar conta de trazer isso, de forma coletiva, enquanto instituição? Mas é necessário que ela faça, sim, esse incentivo, que ela traga sempre esse debate, provoque os professores para essas mudanças todas, porque, de fato, a gente tem visto uma diminuição significativa do interesse pelo ensino superior, inclusive, sobretudo, do ensino superior público.

Porque agora o ensino superior público passou a ser lido como a nova rodoviária, a partir desse processo de expansão do ensino superior. Então a classe média mais alta, já não quer mais chegar à universidade pública, porque agora a universidade pública tem gente pobre, tem gente preta e aí essa classe média alta não está mais querendo acessar o ensino superior.

Luciano Meira – E Mariana, essa crise de relevância no ensino superior e também o ensino básico requer liderança e estratégia. Para começar a mudar, precisamos ter pessoas que tenham processos, que tenha a dimensão da missão que lhes é entregue, seja como reitores ou professores ou professoras, e desenhar estratégias, tanto locais do ponto de vista da sua sala de aula, mas também estratégias, que conectam esse espaço de aprendizagem ao mundo do trabalho. Então, por exemplo, o ensino técnico é uma estratégia.

Agora, como sabemos, o Governo Federal começa a investir no Propag, que é o programa de de juros por educação, que é uma possibilidade, talvez a última, a qual o Brasil se lance fazendo do ensino técnico público, um primeiro degrau muito consistente e robusto, com excelência, que conecta o jovem ao mercado de trabalho de forma mais imediata. Inclusive, antes do ensino superior e logo após o ensino médio ou concomitante ao ensino médio. Assim, liderança e estratégia são absolutamente fundamentais para a gente vencer esse desafio.

Professores 1

Francisco Cunha – O entendimento de vocês em relação à relevância do ensino, que é absolutamente fundamental para qualquer tipo de desenvolvimento, seja o desenvolvimento do País, de um estado, de uma cidade. Mas, ao mesmo tempo, vocês dizem, que talvez a educação esteja sofrendo um dos maiores impactos da sua existência moderna. Então algo que está acontecendo agora, está mudando essa forma de realizar a educação, essencialmente impactada pela tecnologia, inteligência artificial, etc. Como é que vocês encaram essa questão? 

Luciano Meira – Quinhentos anos atrás, o livro foi disruptivo nas salas de aula e também do ponto de vista de tecnologia e novos artefatos, uma radicalização da distribuição do conhecimento. De novo, ali também o professor perdia essa centralidade do discurso. Ele podia ser distribuído, era  o início da “commoditização” do conteúdo, que podia distribuir entre livros. Agora, muito mais, porque você pode distribuir em plataformas. Então, a gente está precisando, com liderança e estratégia, de uma revolução pedagógica para capturar o valor dessas plataformas e serviços digitais no mundo que é interconectado. Não tem jeito, isso de uma certa forma não tem volta. O problema é como é que a gente vai redesenhar, reinventar os espaços universitários, do ensino básico, para contemplar o poder e as possibilidades que essas novas tecnologias nos apresentam? 

Mariana Valença – Na universidade, nos deparamos o tempo inteiro com atividades que são feitas com o uso de inteligência artificial, em que os alunos pegam a pergunta, jogam lá, não leem nem o que está escrito, porque muitos desses textos ainda dizem assim no final: “Você quer que eu transforme seu texto?” Ou seja, ele não leu. E aí não adianta dizer: Não use, porque eles vão usar.

 Então, eu acho que a gente precisa procurar estratégias para que ele use isso de forma mais eficiente, de forma que ele leia, que ele entenda, que ele faça a relação, que ele consiga fazer a relação daquilo que está sendo trabalhado com o território dele. E aí eu eu eu queria fazer uma referência a Milton Santos, que inclusive foi o centenário dele agora no dia 3 de maio, que foi um um grande pensador e que traz uma contribuição imensa para a geografia, no sentido de pensar a globalização, de pensar essa ampliação dos meios técnicos, que ele chamou de meio técnico, científico, informacional.

Mas existe a globalização como fábula, que é aquilo que a gente aprendeu há um tempo atrás, a globalização que a gente agora vai viver numa aldeia global, não existem mais fronteiras, não existem mais limites e todo mundo vai ter acesso à tecnologia. [Mas é preciso ver] a globalização como perversidade, que é de fato como ela é, que a gente sabe que a tecnologia não é acessível para todas as pessoas, não há essa democratização porque a globalização poderia ser esse meio técnico científico-informacional a serviço da humanidade, a serviço das pessoas.

Então a gente sabe como a tecnologia tem  ainda esse caráter de ampliação das desigualdades em alguma medida. Então, precisamos pensar nessas tecnologias para reduzir essa desigualdade e não para ampliar essas desigualdades territoriais. 

Luciano Meira – E tem uma regra básica, Francisco, nas ciências da aprendizagem que é quem realiza o pensamento ganha a aprendizagem. Se você delega o pensamento, terceirizando o raciocínio, portanto, para uma inteligência artificial, você não vai aprender. 

IA

Francisco Cunha – Trabalhando a hipótese de que o próximo governador ou a próxima governadora, depois de eleito, convidasse vocês dois para redesenharem o sistema educacional do Estado, o que é que vocês fariam?

Mariana Valença –  Eu penso que o processo de interiorização, de pensar nas dimensões territoriais e regionais, é algo que é fundamental. Nós temos um estado, que traz muito essa questão bairrista, né? “Pernambuco, meu país”. Mas, são vários Pernambucos. Pernambuco é muito diverso tanto em termos físico-ambientais, quanto em termos culturais, em termos sociais e econômicos. Então, a gente precisa pensar nessa diversidade e a educação não pode estar dissociada disso. 

Então, é necessário pensar estratégias. Acho que o ensino superior já tem feito isso em alguma medida, ainda não é o suficiente, mas eu acho que tem encaminhado nessa direção de pensar  no ciclo produtivo local, regional a partir dos arranjos produtivos locais, por exemplo, que a gente tem Garanhuns, Caruaru, Petrolina, para tirar essa centralidade da Região Metropolitana do Recife e fixar esses estudantes, esses novos profissionais em seus territórios.

Luciano Meira – Com certeza uma das coisas que eu faria como secretário seria o maior programa de requalificação docente já visto nesse País. Porque o fundamento da escola é a construção dessas relações entre professores e estudantes. Esse é o locus da construção do conhecimento e do desenvolvimento de competências. Com ou sem tecnologias digitais, é ali que reside e que se forma, de verdade, as pessoas para o mundo profissional, para o mundo da emocionalidade, enfim, para a vida. Eu chamo requalificação porque é necessário você tratar lá nas licenciaturas, mas é muito necessário você tratar do professor que está atuando já na escola, do professor e da professora. Então isso é absolutamente necessário. 

A interiorização muito bem pontuada pela Mariana pode ser liderada, por exemplo, por meio de distritos de inovação, a exemplo do que o Porto Digital tem feito, indo para Caruaru, para Petrolina, e assim por diante.

Estudantes

Mariana Valença – E Francisco, eu acho que a gente não tem como falar de educação,  de avanços na educação sem falar da valorização profissional. Isso é algo amplamente discutido como o professor, ele é hoje uma profissão que trabalha muito. A gente vê um processo de precarização do trabalho docente muito grande na escola, na universidade.

É uma carreira que é dolorosa, às vezes é necessário trabalhar em duas, três escolas para conseguir ter ali um salário digno. Nós não temos avanços na educação sem esse professor ganhando bem, tendo tempo para se qualificar e requalificar com um espaço adequado de trabalho. Precisamos pensar na dimensão do profissional. E os estados que hoje mais crescem no Brasil em termos de educação foram estados que valorizaram a carreira docente. Temos o exemplo do Maranhão, na Universidade Estadual do Maranhão, que tem uma carreira excelente hoje, temos no Ceará a educação básica, né? Temos alguns exemplos que podem inspirar Pernambuco nesse movimento. 

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