O Semiárido foi o tema do mais recente episódio do Programa Pernambuco em Perspectiva, que vai ao ar na TV Tribuna, aos sábados, às 11h30. Os especialistas defenderam o bioma como grande referência em biodiversidade e o papel do pequeno agricultor como pilar essencial da agricultura familiar.
O Semiárido Brasileiro abrange cerca de 12% do território nacional, estendendo-se por todos os estados da região Nordeste e pelo norte de Minas Gerais. Apesar disso, durante muito tempo, o bioma foi tratado como um problema, recentemente especialistas perceberam que a região é muito mais oportunidade do que apenas dificuldades. A região onde chove menos de 800mm por ano e 60% a mais de risco de seca, aumentou sua área territorial dos atuais 569,4 mil Km2 para 796 mil Km2, indicando um crescimento de 75 mil Km2 a cada década, desde 1960.
Conversaram sobre o tema Geraldo Eugênio, engenheiro agrônomo e professor da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) e Pedro Sena, biólogo e coordenador técnico do Centro de Pesquisas Ambientais do Nordeste (Cepan). Eles refletiram sobre o potencial de oportunidades do Semiárido brasileiro, os desafios para o pleno desenvolvimento do bioma e a importância de compreender a região como determinante para o futuro do Estado.
Com mediação de Fabiana Pirro e Francisco Cunha, o programa é realizado numa parceria entre a Revista Algomais e a TV Tribuna, com direção de Leo Crivellare e produção de Rafael Dantas e Inácio França. A série de debates abrange temas estratégicos para o futuro do Estado.

Fabiana Pirro – Geraldo, por muito tempo olhamos para o Semiárido apenas para o solo rachado. Podemos dizer que esse olhar começa a focar, agora, na sua rica vegetação? Começamos a mudar a percepção do Semiárido ?
Geraldo Eugênio – Quando eu era jovem, estudante de agronomia, estagiando no Sertão, o sol representava o castigo de Deus. Era inclemente. Hoje temos o sol como a principal fonte de energia. Aquilo que salvou a nação nessas últimas três décadas. Gosto sempre de lembrar que no último ano do governo Fernando Henrique, tínhamos um Ministério do Apagão. Bom, e quando nós vamos para as outras áreas, por exemplo, no caso da agricultura, coincidentemente esse Semiárido tem o maior rio brasileiro, que é o São Francisco.
E o exemplo que esse pessoal deu, principalmente na região entre Petrolina e Jatobá, foi uma coisa impressionante, tanto em Pernambuco quanto na Bahia, instalando ali um dos principais celeiros em termos de fruticultura do mundo. Do ponto de vista tecnológico, é equivalente a Espanha, Israel, Califórnia.
Mas, temos outro Semiárido, aquele que depende de chuvas, para o qual temos sido pouco cuidadosos com ele, porque temos uma vegetação que evoluiu em milhões de anos, além de roedores, micro-organismos e nós não temos historicamente conseguido tirar o proveito disso.

Fabiana Pirro – Pedro, 90% do território pernambucano está no Semiárido. Além de ser uma região com menos água, o que caracteriza o nosso Semiárido ?
Pedro Sena – O Semiárido pernambucano é caracterizado pelos regimes hídricos de diferenças entre período chuvoso e período seco. Então, essa sazonalidade, como chamamos, é muito marcada. Quase 100% do Semiárido possui vegetação de Caatinga, que é uma das áreas que estudamos e que nos dedicamos para conservar.
Mas eu costumo dizer que o Semiárido não é feito apenas de biodiversidade e de vegetação. Ele é o que caracteriza talvez mais fortemente esse imaginário. Quando a gente fecha o olho, imaginamos uma vegetação que é verde em determinado momento e, em outro momento, seca, a mata branca, como é o nome da Caatinga. Alguns animais são clássicos quando pensamos na Caatinga. Entretanto, ele também é composto por uma cultura que envolve pessoas que subsistem, existem e convivem com o Semiárido há muitos, muitos e muitos anos, que é a cultura sertaneja, das pessoas que vivem no interior do Brasil.
Pernambuco tem o Semiárido mais populoso do mundo todo. São 28 milhões de pessoas morando, residindo, tirando o sustento de alguma forma dentro dessa grande área, que para muitas pessoas é pobre, não tem vida, não tem oportunidade de desenvolvimento econômico. Então, além da riqueza de biodiversidade e patrimônio natural e mineral (temos grandes oportunidades de mineração surgidas ao longo de muito tempo), ele também é um local de desenvolvimento e manutenção da cultura. Essa cultura é desenvolvida há muitos anos e é mantida e arraigada.

Fabiana Pirro – Geraldo, você trabalha em Serra Talhada, uma das centralidades importantes no Sertão. O que você apontaria como principais desafios dessa região?
Geraldo Eugênio – Se nós formos verificar o que era Serra Talhada há 30, 40 anos atrás, era o sinônimo da violência. Digo sempre que Serra Talhada era o exílio e Araripina era o Gulag. Mas hoje, por exemplo, temos uma população de 100 mil habitantes com 14 instituições de ensino superior. Temos esse redesenho, e dentre as questões ligadas ao campo, tem me surpreendido recentemente no ambiente de Semiárido dependente de chuva a apicultura, uma força que a gente às vezes subestima e não imagina quão importante é essa atividade. É uma atividade econômica, cultural, socioambiental e principalmente a mais importante política de preservação da Caatinga. Por quê? Porque você produz o mel e seus derivados, de altíssimo valor na farmacologia, na perfumaria, nas indústrias de alimentos e também como uso medicinal comum poderoso.
E o que é que tem havido? Temos observado que há uma congregação entre os municípios, as associações estão vibrantes, estão acreditando. Mas temos que ficar atentos porque grande parte do nosso mel ainda vai para o Ceará e para o Piauí e chega lá como um genérico. É de ninguém. Porque o mel é vendido a partir de quem tem. Se é do Piauí e é um mel do Piauí.

Fabiana Pirro – Pedro, o Cepan tem uma forte atuação no reflorestamento da Caatinga. Antes de falar dessa experiência, hoje quais as principais ameaças ao bioma?
Pedro Sena -Só dando um passinho atrás para explicar: o Cepan é o Centro de Pesquisas Ambientais do Nordeste. A instituição do terceiro setor foi fundada dentro da Universidade Federal de Pernambuco como parte da universidade. A gente se expandiu a ponto de trabalhar com projetos socioambientais, com conservação e agora muito fortemente com restauração. Dentro do Cepan há um trabalho muito forte com esses indicadores de restauração e de conservação. O que a observamos é que a Caatinga é ameaçada de diferentes formas, uma das principais é o desmatamento. Infelizmente, a gente segue vendo números altos. Apesar disso, houve uma redução de 25% este ano no desmatamento da Caatinga. É um ponto para a gente comemorar. Entretanto, ainda são 849 mil hectares só em 2025 que foram desmatados; 30% desse número é proveniente de áreas de supressão legal, ou seja, o governo autorizou.
Não é que não deva ter desmatamento nenhum, o desmatamento precisa seguir as formas da lei. Foram emitidas autorizações para essas áreas, mas 70% dos alertas de desmatamento recentes em 2025 foram feitos fora das áreas autorizadas para supressão. A Caatinga não foi vista como um ambiente de riqueza por muitos anos. É, talvez, a última fronteira agrícola do País no sentido de derrubar um recurso natural. O desmatamento é o principal fator de degradação ainda que ocorre na Caatinga, somado a um outro efeito, que é uma doença silenciosa, que é a perturbação crônica, que é aquela floresta que está em pé, tem a copa, está frondosa, mas ela está sendo muito perturbada.
Não se trata de o sertanejo entrar e tirar uma madeira ou outra. Mas a exploração forte do carvão, da madeira, mas sem derrubar a floresta, justamente para não chamar atenção. A gente chama isso de perturbação crônica e aí há florestas que parecem saudáveis, mas quando você entra, os indicadores não estão positivos. Isso é um fenômeno particularmente forte na Caatinga. É muito difícil de medir porque no satélite, não conseguimos detectar.

Francisco Cunha – O mundo inteiro está se deparando com o problema da falta d’água e do aumento da temperatura, enquanto a região semiárida do Nordeste vive isso há milhares de milhões de anos. Essa forma de sobreviver ao calor extremo e à falta d’água, nós já temos. Poderíamos transformá-la em conhecimento, em ciência, tecnologia e exportá-la. É nessa linha mesmo que se deve tratar essa questão?
Pedro Sena – Exatamente, Francisco. Estamos vendo um planeta que se transforma em árido e semiárido. Então o planeta que aparentemente era verde, úmido, tem que se defrontar com as mudanças climáticas em curso palpáveis. Bom, e o que ocorre com a natureza? Ora, para um pequeno mamífero, um preá, um mocó, sobrevive a esses anos todos de seca, como de 2012 a 2018. Não apenas ele, a minhoca, o pássaro, o jericó, que parece um musgo pequeno. E para você ter uma ideia, um amigo meu coletou um jericó e guardou num birô. Muito tempo depois disse: “Puxa vida, aquela planta eu guardei lá, vou ver como é que ela está”. Aí, ele colocou o jericó num pratinho com água e ficou observando em quanto tempo ficava verde.
Ele disse: “Por incrível que pareça, voltou a ser verde em 59 minutos!”. Então, o que estamos dizendo? Ali tem alguma coisa muito mais valiosa do que qualquer diamante. E esse diamante não é apenas para nós que estamos lá, é para a humanidade, que vai necessitar dessas informações biológicas, genéticas para que as outras espécies também possam resistir a esse aumento de temperatura e a essa menor quantidade de água.
Agora, não podemos deixar que isso vá embora gratuitamente. Todos os países souberam aproveitar bem seus recursos naturais e nós temos que fazer o mesmo. Temos que caracterizar, catalogar, fazer registros legais e comerciais corretos e comercializar, de modo que a gente possa, além de preservar essa Caatinga, fazer com que ela seja uma riqueza para aqueles que estão lá.

Francisco Cunha – Geraldo, quando a gente olha para o Semiárido no futuro, considerando pelo menos uma geração, que legado precisamos começar a construir hoje para que essa região seja reconhecida, não pelos seus limites, mas principalmente pelo seu grande potencial.
Geraldo Eugênio – Olha, Francisco, vou chamar atenção em dois aspectos. O primeiro é a água. Ocorreu um grande avanço nos últimos 30 anos e hoje nós temos basicamente água potável do São Francisco na maioria das nossas médias e grandes cidades com a transposição. Recentemente, as granjas de São Bento do Una eram abastecidas com carro pipa.
Hoje resolvemos parcialmente isso, mas temos essa outra grande quantidade de água que exige um pensar no uso eficiente dela. Isto é, temos que ver o que é que eu posso fazer com cada litro de água, considerando que toda e qualquer propriedade tem uma área nobre. Ela pode ser maior ou menor. O sertanejo chama de baixio. Cada região tem sua denominação, mas temos que fazer o uso eficiente da água, esse bem absolutamente fantástico, eu digo quase mítico. Essa é a primeira história.
A segunda: o que é que nós vamos ainda fazer? Nós discutimos aqui a questão da inteligência, do conhecimento e o que se vê é que nesse eixo central do Estado de Pernambuco, vamos ter vários centros de desenvolvimento científico e cultural. Essas cidades de médio porte tipo Belo Jardim, Arcoverde, Custódia, Serra, Salgueiro, Araripina, vão se tornar outro tipo de situação. Em Araripina, a última das nossas cidades já ao lado do Piauí, é impressionante porque possui uma avenida principal com 22 restaurantes.
Em outras palavras, você só tem restaurante porque tem consumidor e a tendência é se avolumar. Você chega em Serra, com 10 mil estudantes de nível superior numa população de 100 mil pessoas.
Essas duas questões precisam ser objeto do poder local, porque inclusive você não expande uma cidade sem planejamento. Então, tem que haver o planejamento, tem que se pensar no futuro e principalmente essa conexão entre a urbe e o campo.

Fabiana Pirro – Esse ano, nós temos eleições. Que propostas estruturais para o desenvolvimento Semiárido poderíamos sugerir aos candidatos?
Pedro Sena – Pensar numa política pública e em propostas de política pública que tragam valorização para o pequeno agricultor, que é quem carrega a agricultura familiar, quem fornece alimento para o País. Acho que a uma proposta superinteressante de desenvolvimento político para o Estado, pensando nos próximos anos, é dar protagonismo para a agricultura familiar, desenvolver, dar ferramentas. A gente hoje vive um cenário absurdo de evasão rural. Um jovem não está vendo mais oportunidade dentro da área rural.
Geraldo Eugênio – Pedro tocou bem nessa questão. Costumo dizer que o futuro da agricultura está na pequena e média propriedade. O latifúndio, que é muito importante, faz a agricultura de exportação, mas ele tem suas pernas, tem como trazer o consultor, como comprar, como vender. Mas esse que faz o dia a dia do alimento é onde está exatamente o grande esforço.
E eu coloco aqui duas situações, uma em termos de logística. A primeira é que teria que ter um grande programa de pavimentação das escolas, dos estados rurais. Ninguém imagina a dificuldade. Eu tenho exemplos como o estado do Espírito Santo, que há cerca de 12 anos iniciou essa ação, e a diferença é brutal. Não é o asfalto da PE, não é o asfalto da BR, mas é um pavimento que faz com que transite aquelas mercadorias e as pessoas de forma digna, rápida, que não vai poder se perturbar quando houver qualquer chuva. Isso faz uma diferença absolutamente fantástica.
No estado de Pernambuco temos um quesito que deve ser posto e ele é binário. Um é a BR-232. É inconcebível ter essa estrada duplicada apenas até São Caetano, provocando um aumento no consumo de energia, combustível, tempo e exaurindo lucro. Essa é uma história. A outra, independente de quem quer que seja e de qualquer o partido, é ficar dando as costas para essa questão da ferrovia. Hoje a Transnordestina se transformou numa ferrovia cearense. Quem está se beneficiando é o Ceará, porque essa conexão dele com Salgueiro e com Eliseu Martins viabiliza o Porto de Pecém.
E lembrando que a ferrovia já está feita até Custódia. Então, se já começa a transitar esse trem de custódia para Salgueiro, de Salgueiro para Pecém, quando concluir Salgueiro-Suape, todos os contratos já estarão feitos. “Cabe a quem quer que seja o governador de Pernambuco abrir os olhos para a Transnordestina, arregaçar as mangas e trabalhar.”

