*Por Geraldo Eugênio
O desafio do primeiro emprego
O sistema de pós-graduação deixou de ser uma opção para quem gostaria de se dedicar ao ensino e à pesquisa para se tornar um primeiro emprego. Esta é a realidade. Jovens brilhantes, ágeis, capazes e dedicados, diante do fato de não encontrarem ocupação, ingressam em um mestrado, doutorado e continuam com um pós-doutorado, como a opção que o sistema lhes oferece de empregabilidade.
Que a academia necessita de estudantes extremamente qualificados, não há dúvida, mas as empresas, sejam consolidadas ou novos empreendimentos, demandam pessoas tão ou mais preparadas se querem sobreviver à competição. O fato é que para aqueles que conseguem concluir seus cursos de graduação, o afunilamento das oportunidades é de tal forma que as principais opções são o serviço público, cujas vagas existem em proporções mínimas, continuar estudando ou enfrentar meses ou anos em busca de uma colocação no mercado de trabalho.
A situação do emprego público é de uma dificuldade fora do comum. Na maioria dos casos, as instituições necessitam de renovação mas, com os orçamentos comprometidos, os governos se negam a abrir essas vagas. Por outro lado – e isso ocorre de forma mais contundente entre os governos municipais – quando abrem um edital de concurso oferecem remunerações tão baixas que, além de desestimulantes, vão de encontro aos pisos salariais profissionais. O resultado é a seleção dos mais desesperados ou daqueles menos talentosos. Isso faz com que esse serviço público planejado para oferecer o melhor à comunidade passe a ser um mero cabide de empregos.
Remuneração irreal
Há pouco tempo, chegou a ser objeto de discussão em fóruns profissionais e associações representativas de profissões um edital de concurso de um município do Sertão de Pernambuco, cuja oferta de salário para as engenharias não passava de dois salários-mínimos, o mesmo vale para os profissionais médicos, para os quais o valor não representava sua remuneração básica. Ainda assim, oferecendo uma única vaga para as três ou quatro modalidades de engenharia. A seleção sinalizava que a presença do profissional no quadro de colaboradores tinha como objetivo contar com os requisitos legais mínimos para ter um representante legal que pudesse assinar processos e procedimentos sem os quais os recursos não seriam disponibilizados para aquele e tantos outros municípios.

Este alerta serve também para a iniciativa privada. Boa parte do empresariado insiste em pensar que o lucro está na pressão sobre os salários, mesmo quando todos sabem muito bem que o principal ativo de uma empresa é um corpo funcional qualificado e que se sente parte da organização. Remuneração inadequada contribui para a elevada rotatividade e baixa produtividade, situações que precedem a ausência de ânimo e pertencimento para com sua segunda casa.
Apostar na formação de empresas
Em um cenário com essas características, o caminho é o incentivo à constituição de empresas com essa mão de obra, apostando-se na qualidade das propostas, no aproveitamento de dois a três egressos em cada proposta, visando-se claramente a sobrevivência da inciativa e o compromisso com a geração de emprego. Em alguns textos temos feito referência a um programa de amplitude nacional denominado Primeira Empresa, em que recursos de fomento seriam disponibilizados a fundo perdido para financiar as propostas selecionadas por um período de dois anos, incluindo uma remuneração como bolsa para esses novos empresários e valores para aquisição de uma infraestrutura básica e o capital de custeio.

Alguém pode questionar de onde retirar recursos orçamentários para esse investimento. É importante ressaltar que o custo de três alunos em uma universidade pública ou privada por igual período é superior a uma proposta em que se destine algo como R$ 300 mil ou R$ 400 mil para cada nova empresa, dependendo do caráter de negócio e da demanda por equipamentos e custeio. Nos valores atuais, algo ao redor de US$ 60 mil.
O importante em uma iniciativa como essa é a capacidade de se elegerem propostas que dialoguem com a demanda e o mercado. Para tanto, nos comitês de avaliação, a participação de pequenos e médios empresários de todo o País seria uma condição essencial. Além dos atributos técnicos, o acoplamento à realidade seria fundamental, o que teria o efeito didático de forçar as escolas a preparar os jovens para uma realidade diferente da perspectiva de um concurso.
Clusters de pequenas empresas devem ser base de novas cooperativas
Como medida preventiva diante da exposição à dura competitividade do dia a dia de um pequeno negócio, sistematizar a formação de cooperativas nos novos segmentos ou associar automaticamente os novos empreendimentos às cooperativas existentes seria considerado prioritário. As chances de ultrapassar o período crítico dos primeiros anos e alcançar a consolidação do empreendimento seriam multiplicadas.
Esta proposta tem como base os números do que representa o cooperativismo no Brasil e em Pernambuco, em particular, conforme informado pela direção da Organização das Cooperativas do Brasil, capítulo de Pernambuco (OCB-PE). A região Agreste conta com 33 cooperativas, 57 mil cooperados e um faturamento anual de R$ 770 milhões, enquanto o Sertão tem 15 cooperativas, 69 mil cooperados e faturamento anual de R$ 244 milhões.

São valores expressivos e demonstram o crescimento na última década em particular no segmento de saúde, de crédito e, por incrível que se possa parecer, do sucroenergético. Atualmente, três usinas de açúcar que entraram em falência, deixando milhares de trabalhadores desempregados e sem perspectivas, reverteram o fogo morto de suas caldeiras para unidades produtivas.
É essa uma das apostas para valorizarmos o grande esforço que foi a democratização do ensino médio e superior da região semiárida. Para isso, é necessário contar com a parceria das escolas de nível médio e superior, do sistema cooperativo, dos bancos públicos, das fundações de amparo à pesquisa nos estados e das instituições de fomento em nível federal. Também é fundamental contar com a presença direta dos governos municipais, onde a batalha pelo emprego e pelo crescimento ocorre.

