Pesquisas apontam equilíbrio entre Raquel Lyra e João Campos, enquanto alianças, avaliação das gestões, força digital e disputa pelo Senado desenham um cenário ainda aberto
*Por Rafael Dantas
Pernambuco deve protagonizar uma das disputas mais acirradas do País nas eleições de 2026. As diversas pesquisas eleitorais têm apontado para uma leve vantagem da governadora Raquel Lyra, diante do ex-prefeito do Recife João Campos, o que dentro da margem de erro, evidencia empate. Uma disputa tensa, que tem elementos da polarização nacional no tabuleiro, além de peças relevantes no campo das redes sociais e das alianças locais. Um verdadeiro xadrez para descobrir quem comandará o Palácio do Campo das Princesas a partir do próximo ano.
No tabuleiro que se apresentou até o final de julho, segundo as pesquisas eleitorais, nenhuma das peças parece ter encontrado ainda uma posição confortável. A tabulação desses estudos de intenção de votos, calculado por Maurício Costa Romão, Ph.D. em economia pela Universidade de Illinois, mostra Raquel Lyra à frente em cinco dos nove institutos considerados, enquanto João Campos aparece na dianteira em três e há um empate.
Na média dos levantamentos, a governadora soma 44,4% das intenções de voto, contra 41% do ex-prefeito do Recife, uma diferença de 3,4 pontos percentuais É uma partida em que o controle do centro ainda está em disputa e cada nova jogada pode alterar a configuração do tabuleiro. “É uma eleição bastante acirrada, equilibrada, e que tem um prospecto futuro meio que imprevisível”, afirmou Maurício Costa Romão.
Além dos números das pesquisas, o economista aponta paralelos entre os candidatos do PSD e do PSB. “Aqui em Pernambuco, nós temos dois jovens políticos de futuros promissores, descendentes de famílias tradicionais e de grande prestígio, de vertente política. São jovens carismáticos, bem falantes e estão antenados com os tempos modernos em termos de ambientes de digitalidade. Eles se apresentam com as circunstâncias”, apontou Romão.

No balanço dos dois lados do tabuleiro, os herdeiros políticos de Eduardo Campos e João Lyra, que governaram o Estado juntos entre 2004 e 2010, têm experiência administrativa, ambos obtiveram índices de aprovação elevados em suas gestões, com importante presença digital e apoio da maioria das prefeituras no interior e na Região Metropolitana.
Nesse tabuleiro, não sobrou quase nenhum espaço para uma terceira via em Pernambuco, embora haja seis outras candidaturas. Ivan Morais terá a difícil missão de representar o PSOL no pleito. O partido teve sua melhor votação com Dani Portela, em 2018, ficando em terceiro lugar com aproximadamente 5% dos votos. Camila Falcão (Unidade Popular), Guilherme Fonseca (PSTU), Jeremias Cosmo (Democrata), Renan Hallais (Missão) e Victor Assis (PCO) são os demais candidatos ao cargo.
POLARIZAÇÃO INFLUENCIARÁ A ELEIÇÃO?
Na análise do cientista político e professor da UFPE Adriano Oliveira, o xeque-mate das eleições em Pernambuco não será por uma jogada nacional, mas local. Mesmo com a intensa polarização do País, entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), ele afirma que as pesquisas qualitativas revelam que os eleitores estão separando essas duas decisões.
“Todas as pesquisas qualitativas que eu tenho feito em vários estados do Brasil, em particular, Ceará, Paraíba, Pernambuco, Maranhão, eu tenho encontrado a seguinte afirmação do eleitor quando eu faço a pergunta: ‘Flávio Bolsonaro e o presidente Lula influenciam no seu voto?’ Eles dizem claramente que não influenciam”, afirma Adriano Oliveira.

Além desse elemento, em Pernambuco há uma configuração distinta do cenário típico da polarização nacional. Mesmo com uma maioria de eleitores que avaliam positivamente o Governo Federal, 63% de aprovação segundo a Real Time Big Data e 61% de acordo com a Quaest, a percepção dos analistas é que esse eleitor não está caminhando integralmente para João Campos, que é o candidato apoiado pelo presidente Lula.
Mesmo abrigando os bolsonaristas na sua chapa, na avaliação de Romão, a governadora teve habilidade em transitar nesse ambiente polarizado. O analista diz que ela consegue ser uma alternativa ao antipetismo “sem, no entanto, ser uma candidata anti-Lula”.
O esforço da candidatura de João Campos é na direção oposta, de demonstrar a proximidade com o presidente Lula e a composição de uma chapa mais à esquerda. Para isso, escalou como peças o senador petista Humberto Costa, a ex-deputada e prima Marília Arraes (PDT) e tem como vice Carlos Costa (Republicanos), irmão de Silvio Costa Filho, que até março foi ministro dos Portos e Aeroportos do Governo Federal.
AVALIAÇÃO DA GESTÃO ESTARÁ EM JOGO
“Governador bem avaliado tende a ser reeleito”, afirma Adriano. Segundo ele, o que pesa na escolha do eleitor é a avaliação da gestão e a percepção de que o governante está trabalhando. No caso de Raquel Lyra, o cientista político identifica ainda um terceiro elemento: a sensação de que a governadora tem mais quatro anos para fazer mais pelo Estado. Nesse cenário, apesar do equilíbrio apontado pelas pesquisas quantitativas, ele avalia que há um favoritismo por parte da governadora.

Na capital, João Campos alcançou aprovação de 81% na AtlasIntel e fez a reeleição no maior colégio eleitoral do Estado com 78% dos votos válidos. A avaliação do Governo Raquel Lyra cresceu muito no último ano, chegando a marca do 68%, de acordo com a mais recente pesquisa da Quaest, em julho, em Pernambuco. A curva foi de crescimento nos últimos seis meses. Em fevereiro deste ano, a aprovação dela era de 51%.
A diferença entre a avaliação da gestão de Raquel Lyra e a intenção de voto ajuda a explicar por que a disputa permanece aberta. Maurício Costa Romão cita uma aprovação próxima de 65% para a governadora contra 45% de intenção de voto. Para ele, a distância “já mostra o campo de apoio de Raquel muito mais amplo do que o seu patamar eleitoral”, afirma.
Na avaliação do economista, parte desse eleitorado que aprova a governadora pode optar por João Campos diante da força do adversário. “Quando ela se defronta com um candidato como João Campos, que é forte, bem-posicionado, tem entregas, tem gestão, tem histórico, uma parte desses que a aprovam prefere ficar com João Campos”, explica. O movimento ajuda a entender por que uma aprovação elevada da gestão não se traduz numa liderança mais sólida, deixando o jogo eleitoral em aberto.
UM SEGUNDO TABULEIRO NO SENADO
Se a disputa pelo Governo de Pernambuco se desenha em torno de dois polos, a eleição para o Senado apresenta um tabuleiro mais embaralhado e até mais difícil de prever, pois a população conhece pouco sobre as atribuições do cargo. Como o debate fica mais intenso no poder executivo, os candidatos ao governo tendem a ser determinantes para a eleição para a câmara alta. “Se o eleitor não sabe o que é o cargo de senador, não sabe em quem votar para senador, é óbvio que a eleição para governador serve como atalho para o eleitor votar no senador”, declarou Adriano Oliveira.

O cientista político identifica Eduardo da Fonte, Túlio Gadêlha e Humberto Costa como os principais concorrentes pela primeira vaga, enquanto vê Mendonça Filho com força especialmente na Região Metropolitana. Apesar de as pesquisas quantitativas apontarem para outra direção, Adriano Oliveira enxerga o deputado federal Eduardo da Fonte com um leve favoritismo. Ele considera que Marília Arraes enfrentaria como principal obstáculo a falta de estrutura, mas a maioria das pesquisas aponta a liderança da candidata do PDT, sendo seguida por Humberto Costa. As posições de Túlio Gadêlha (PSD), Mendonça Filho (PL) e Eduardo da Fonte (PP) se alternam a depender de cada instituto, mas muito próximas.
ALIANÇAS E TEMPO DE TELEVISÃO
Outros três fatores que consolidam no embate eleitoral de 2026 entre Raquel Lyra e João Campos são a força da costura de alianças, o tempo de televisão que cada candidatura terá e a presença digital de ambos os lados. Maurício Costa Romão estima que Raquel Lyra terá aproximadamente 145 prefeituras apoiando sua reeleição, enquanto João Campos deve ter o apoio de cerca de 40 prefeitos. Mesmo com essa diferença, o candidato do PSB tem em sua base o maior município, o Recife (com 1,2 milhão de eleitores), e algumas cidades de grande porte regional, como o Cabo de Santo Agostinho (198 mil), Vitória de Santo Antão (103,9 mil), Garanhuns (99,6 mil). Entre os maiores colégios eleitorais, Raquel conta com Caruaru (254,2 mil), Jaboatão dos Guararapes (498 mil), Olinda (301,7 mil) e Petrolina (248 mil).

Mesmo com mais municípios no apoio, o arco de alianças partidárias de João Campos é superior e dará mais tempo de TV ao ex-prefeito do Recife. A estimativa é de que João tenha pouco mais de 5 minutos em cada bloco do guia eleitoral, enquanto a candidatura de governadora deve ter cerca de 4 minutos. Ivan Morais terá menos de um minuto.
Além da disputa no tempo de TV, João e Raquel também têm forte presença nas mídias digitais. No Instagram, Campos tem 3 milhões de seguidores e Lyra 1,9 milhão. Já no TikTok, o ex-prefeito conta com 985 mil de seguidores, enquanto a governadora tem 386 mil. Influenciadores com redes potentes apoiam os dois lados. No campo digital, mesmo com uma presença muito mais tímida, o candidato do PSOL tem apoio do influenciador Jones Manoel, que tem 2 milhões de seguidores no Instagram, além de 307 mil seguidores no TikTok.
DESAFIO DE QUALIFICAR O DEBATE
Se a partida promete ser disputada, outro desafio está fora do tabuleiro eleitoral: qualificar o debate temático. Ou seja, garantir que o período de campanha avance no campo programático, com agendas estratégicas para o Estado e ampla participação da sociedade civil. Em uma disputa tão equilibrada, a eleição pode ser também uma oportunidade para discutir não apenas quem governará Pernambuco, mas quais caminhos o Estado pretende seguir nos próximos anos.

É nessa direção que o projeto Pernambuco em Perspectiva faz uma proposição incisiva: apontar caminhos necessários para o desenvolvimento do Estado e estimular que essas questões sejam incorporadas aos programas de governo. Após quase três anos de encontros presenciais, com um programa de TV em andamento e o recém-lançado livro, a iniciativa da Revista Algomais e da Rede Gestão reúne diagnósticos, propostas e reflexões sobre temas estratégicos para Pernambuco e se propõe a discutir com as candidaturas pernambucanas sobre os debates construídos.
A necessidade dessa articulação é destacada por Francisco Cunha, sócio da Algomais, ao defender uma aproximação entre as demandas da sociedade, a capacidade de realização do poder público e o conhecimento produzido pela academia. “Se nós conseguirmos mobilizar a demanda que a sociedade expressa e articulá-la com a capacidade de realização do Governo, em conjunto com o conhecimento, a ciência, a pesquisa, a tecnologia e a inovação, que partem da academia, teremos condições de avançar. Sem essa articulação, muito provavelmente vai dar errado. É preciso articular essas capacidades para que o modelo de desenvolvimento seja redesenhado de acordo com as demandas e os desafios atuais.”
Além de apresentar importantes temas estratégicos para o futuro do Estado, como educação, infraestrutura e tecnologia, o projeto propõe a criação de um Sistema Pernambucano de Planejamento Estratégico (SPPE), a ser incluído na Constituição Estadual, e, na sequência, de um Conselho Pernambucano de Planejamento Estratégico.
No fim, a vitória no xadrez eleitoral de 2026, seja de Raquel Lyra, João Campos ou qualquer outra das candidaturas postas, será apenas o início de uma disputa muito maior: a competição para conquistar o desenvolvimento de Pernambuco. O desafio que se coloca para quem chegar ao Palácio do Campo das Princesas não será apenas administrar o Estado, mas construir uma estratégia capaz de responder às intensas transformações econômicas, sociais, tecnológicas e ambientais que já estão em curso.
*Rafael Dantas é repórter da Revista Algomais e assina as colunas Pernambuco Antigamente e Gente & Negócios (rafael@algomais.com | rafaeldantas.jornalista@gmail.com)

