Especialistas explicam as raízes históricas da discriminação contra os nordestinos, o papel das redes sociais na disseminação dos ataques e os caminhos para enfrentar o problema.
*Por Yuri Euzébio
Pela quarta eleição consecutiva, o Nordeste foi alvo de uma onda de ataques xenofóbicos. De acordo com o estudo “O Nordeste no Banco dos Réus”, da Ativaweb DataLab, somente nas primeiras 72 horas após o primeiro turno das eleições de 2026 foram registradas nas redes sociais 32,8 milhões de menções, links ou compartilhamentos que relacionavam a região ao cenário eleitoral. Desse volume, 82,2% zombavam do voto da região. Foram 27 milhões de mensagens ofensivas em apenas 3 dias.
Não é de hoje, nem é pelo período eleitoral acirrado, que o preconceito contra os nordestinos se faz presente. Os analistas apontam que o momento atual só aflora o que já está enraizado em uma boa parcela do País. Uma construção histórica de narrativas que associam Pernambuco e os demais estados vizinhos ao atraso, à miséria e à ignorância.

“Mesmo quando o mapa eleitoral era diferente, já se tentava pautar o Nordeste em uma visão preconceituosa do Centro-Sul como irracional politicamente”, afirma a pesquisadora e socióloga Marina Macedo Rêgo. Ela avalia que os estados do Nordeste têm representado na última década uma salvaguarda do Brasil na valorização de aspectos democráticos, diante da crescente polarização política nacional.

SEMENTES DA DIVISÃO NACIONAL
As raízes desse racha no País são de alguns séculos atrás. “Isso acontece porque desde o final do Século XIX, quando teve o declínio da economia açucareira e o centro-sul começou a crescer com a industrialização, começaram a se pautar certas narrativas de que o Nordeste representava o atraso. E isso tem muito a ver não só com a concentração de renda mas, também, com o racismo”, completou Marina.
Túlio Velho Barreto, cientista político e pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco, destaca que o deslocamento do poder central político do Brasil, especialmente de Salvador e do Recife para o Sudeste, tendo o Rio de Janeiro como capital, também contribuiu para a depreciação da região. “Isso foi acompanhado pela substituição do açúcar como motor da economia do país pelo processo contínuo de industrialização, que não deixou de ter enorme relevância para criar essa ruptura entre as regiões”.

De acordo com Marina Macedo Rêgo, durante seu processo de formação, o Brasil também tentou ativamente “embranquecer” a sua população. Nesse cenário, quem recebia imigrantes europeus e brancos era, principalmente, São Paulo. O Nordeste era visto como uma representação do passado porque tinha a maioria da população negra e indígena. Os estados da região eram vistos como locais que jamais poderiam “embranquecer”, portanto, não poderiam evoluir. Então, desde o final do Século XIX temos essa tentativa de contrastar o Nordeste com o avanço político.
Essa construção de uma imagem negativa da região também é destacada pelo jornalista, escritor e doutor em Ciências da Comunicação, Octávio Santiago, que relaciona o preconceito à própria formação da identidade regional. “Eu acho que a eleição não é a gênese desse entendimento equivocado e resumido sobre o Nordeste, ele remonta a própria gênese do Nordeste, região denominada assim pela burocracia estatal no início do Século XX, precisamente em 1919.”, explicou.

Octávio relembra que já naquele tempo existia um fortalecimento do discurso de um Brasil que supostamente dava certo, que seria o Sul, contra um Brasil que supostamente não dava certo, que era o Norte. “Esse processo firmou São Paulo como esse novo centro de poder político, econômico e social. E, aí, você tem um gesto de um presidente paraibano [Epitácio Pessoa] que vai na contramão de um pacto sudestino que tinha sido firmado e, a partir de então, quando o Nordeste é criado no papel, já existe um levante de depreciação do Nordeste e da sua população”, completou o escritor.
Os movimentos migratórios também contribuíram para consolidar essa visão discriminatória. Túlio Velho Barreto aponta que a chegada de milhares de nordestinos ao Sudeste, em busca de oportunidades de trabalho, aprofundou o preconceito, especialmente pela desvalorização das atividades braçais desempenhadas por esses trabalhadores. “Embora a escravização dos povos sequestrados da África para o Brasil não seja algo que aconteceu apenas no Nordeste, aqui não houve fluxos migratórios significativos de europeus no início do Século XX, como ocorreu no Sul e Sudeste. Por outro lado, o fluxo migratório interno, com milhares de pessoas saindo do Nordeste para o Sudeste, não deixou de contribuir para o preconceito na medida em que tais imigrantes foram trabalhar como mão de obra, fazer o trabalho braçal, tido como menor ou até mesmo desprezível pelas elites brancas sulistas e sudestinos”.

Na mesma direção, Octávio Santiago relembra que os nordestinos que migravam para o Sul em busca de oportunidades encontravam um ambiente pouco acolhedor, marcado pela preferência por trabalhadores estrangeiros e brancos. “Eles não encontravam um ambiente de acolhimento porque aqueles empregos, aquelas oportunidades, estavam mesmo direcionadas aos imigrantes estrangeiros, que eram brancos e nós, por sermos considerados miscigenados demais, não encontramos ali um espaço de acolhimento. Então, essa ideia de apequenar o Nordeste em poucas linhas, ela acompanha a própria criação do Nordeste. E é inerente a esse processo. Nasce o Nordeste, nasce o nordestino e nasce o preconceito ao mesmo tempo”, resumiu Octávio.
EXPLORAÇÃO DO PRECONCEITO COMO ESTRATÉGIA ELEITORAL
Marina pontua que essa onda atual de ódio direcionada ao Nordeste depois da apuração acontece desde as primeiras eleições após a redemocratização. Ou seja, desde 1989, quando o Partido dos Trabalhadores sequer era majoritário na região. A questão é que as redes sociais amplificam a narrativa discriminatória.
De acordo com a socióloga, a exploração do preconceito contra os nordestinos tornou-se uma estratégia recorrente nas disputas eleitorais, por produzir resultados políticos. Na avaliação dela, alguns grupos políticos utilizam a humilhação pública da população nordestina para mobilizar sentimentos discriminatórios presentes em parte da sociedade do Centro-Sul do País.

João Francisco (nome fictício) é pernambucano, mas mora em Santa Catarina e detalha como o preconceito se perpetua no seu dia a dia. “O interessante é que percebo que grande parte dos sulistas não conhecem o Nordeste. Chegam a dividir o país geograficamente como Norte e Sul para afirmar que o Sul sustenta o Brasil. Nesse período eleitoral, por termos um dos candidatos do Nordeste e outro do Sul, eles se sentem à vontade para fazer piadas e gestos desclassificatórios, como se o nordestino fosse uma raça inferior”.
O pernambucano afirma que percebe o julgamento dos nordestinos como incapazes, preguiçosos e aproveitadores. “Isso invalida a competência do nordestino e muito disso vem da falta de informação do que de fato é a região Nordeste, aliada aos interesses dos políticos da região sul”, completou João.
REDES SOCIAIS AMPLIFICAM DISCURSO DE ÓDIO
A socióloga também aponta que as redes sociais desempenham um papel central na disseminação desses discursos. “Desde 2010, quando a internet passou a ser mais massificada no País, nós temos em todas as eleições uma onda de ódio contra o Nordeste. Significa que não havia ódio antes? Ou que não houve essa tentativa de demarcar as populações nordestinas como inferiores politicamente? Não”, explica Marina, destacando que o poder dessas plataformas apenas agravou a divisão do País.

Octávio Santiago entende que além de amplificar esse discurso de ódio, as redes promovem uma visão ultrapassada da região. “O indivíduo tem nas redes essa possibilidade de uma pedra ser atirada a quilômetros de distância. É diferente de um embate ao vivo, existe um falso encorajamento das pessoas que se sentem à vontade porque estão em suas casas a milhares de quilômetros de distância. Às vezes nem têm vontade de fazer aquilo, mas ao verem outras pessoas atirando, então parece que a responsabilidade vai ser diluída”, disse o autor de Só Sei Que Foi Assim: A Trama do Preconceito Contra o Povo do Nordeste (Editora Autêntica).
Ele avalia que já houve uma correção, nesse sentido, feita pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), quando equiparou como racismo o crime de discriminação contra pessoas do Nordeste. “Isso foi consequência das eleições de 2022. Temos também hoje um Nordeste muito vigilante contra esses ataques racistas”, afirmou. Octávio esclarece que hoje o eleitor nordestino já responde muito rápido às ofensas e usa também suas redes sociais, sobretudo criadores de conteúdo, para quebrar um pouco essas ideias engessadas sobre o Nordeste.
“Antes mesmo do período eleitoral já vimos um movimento muito interessante nesse sentido de haver uma posição revisando essas ideias pequenas sobre o Nordeste. Inclusive no campo do humor. Um humor consciente e politizado sobre a região.”, disse Octávio citando a influenciadora Ademara, como um bom exemplo desse discurso online.
Como virar o jogo?
Octávio Santiago ressalta que a mão de obra nordestina teve papel importante na consolidação de São Paulo como potência econômica. Segundo o escritor, uma maneira de arrefecer esse preconceito ou de diminuir os seus efeitos é acessando a memória.

“Eu apelo muito para a memória. Eu só queria que essa geração jovem que acha que vem revolucionar sendo CEO da própria MEI tivesse cuidado para não se aliar justamente a quem sempre agiu contra eles. Acho interessante que nós vínhamos numa onda nas artes de trabalhar a memória. Ainda estou aqui e O Agente Secreto são filmes sobre memória e parece que era quase um aviso do campo artístico no sentido de acessarmos nossas memórias”, refletiu Octávio.

O escritor relembra que seu livro Só Sei Que Foi Assim foi fruto dessa ideia de Nordeste e de uma vontade de tornar público o debate sobre o que é a região. “Meu livro nasceu de uma pesquisa acadêmica que eu fazia e dizia: não pode ficar só na academia, isso não tem condição de ficar na gaveta. Eu fui escrevendo porque eu queria que as pessoas recebessem as informações. Eu queria que elas entendessem o que aconteceu. Quando conhecemos a nossa história verdadeiramente, conseguimos enfrentar melhor o preconceito”.

Túlio defende que o preconceito nasce justamente do desconhecimento do que é a região. “Há um componente de ignorância e desconhecimento significativo, sobretudo no que diz respeito à questão intelectual”. Ele lembra de alguns nordestinos e nordestinas, tanto nas artes, como na cultura, educação e ciência de destaque, como Celso Furtado, Josué de Castro, Clarice Lispector, Joaquim Nabuco, Paulo Freire, Manuel Bandeira, João Cabral de Melo Neto, Graciliano Ramos, Gilberto Freyre, Luiz Gonzaga, Chico Science, entre outros tantos nomes.
O Nordeste é a região que mais fez medalhistas na última edição da Olimpíada Nacional de História do Brasil. A maior parte das escolas entre as 500 melhores escolas de ensino infantil do Brasil está no Nordeste também. A região também lidera o último ranking das melhores escolas públicas do Brasil. Dados do último Radar Índice de Desenvolvimento Humano (IDHM) mostram que três estados da região registraram os maiores crescimentos dos respectivos índices.
Apesar disso, Marina recorda que sentiu na pele desde cedo as marcas desse preconceito. “Eu sofria muito no colégio, ouvia muita coisa ruim e ficava muito chateada. Um dos principais elementos que começaram a mobilizar meu argumento, quando eu comecei a crescer, estudar sobre isso, é escancarar. Precisamos escancarar esse preconceito contra populações nordestinas. O nome é racismo”, afirmou, taxativa. “Quando você fala Baiano, Paraíba, cabeça chata, Ceará, como adjetivos pejorativos no Centro-Sul, você não está falando de pessoas brancas. E isso serve muito para esse racismo à brasileira que não se afirma abertamente.”
Para os especialistas, enfrentar o preconceito contra os nordestinos exige mais do que reagir às ofensas que se multiplicam a cada eleição. Passa também pelo reconhecimento das raízes históricas dessa discriminação, pela valorização das contribuições da região para o desenvolvimento do País e pelo combate às narrativas que ainda associam o Nordeste ao atraso e à inferioridade.
*Yuri Euzébio é jornalista e repórter na Revista Algomais
