Realidade virtual, games e bonecos viram recursos pedagógicos – Revista Algomais – a revista de Pernambuco

Realidade virtual, games e bonecos viram recursos pedagógicos

Recursos de aprendizagem criativos, lúdicos e que parecem saídos de um filme de ficção científica começam a ser incorporados pelos cursos da área de saúde. Alguns não são necessariamente uma novidade, mas ganharam um alcance inimaginável com o advento das novas tecnologias. É o caso da imersão, muito utilizada no ensino de idioma, em que os alunos viajam para outro país e aprendem uma nova língua imersos no cotidiano de outra cultura. Ou por estudantes de arqueologia que aprendem o conteúdo estudado em visita a sítios arqueológicos.

Mas a imersão também é uma maneira de formar o profissional sem causar prejuízos a vidas humanas. Pilotos de avião, por exemplo, treinam numa primeira etapa em simuladores de voo, antes de dirigir, de fato, uma aeronave. “A educação imersiva coloca o aluno diretamente com o conteúdo da aprendizagem. Uma coisa é o aluno ouvir ou assistir explicações sobre determinado assunto. Outra, é experienciar esse conteúdo”, diferencia Romero Tori, professor da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP) e palestrante do CAM FPS.

O mesmo conceito começa a ser empregado na formação de profissionais de saúde a partir das novas tecnologias. Com o uso de óculos de realidade virtual, é possível simular ambientes hospitalares, consultórios e pacientes com grande realismo e baixo custo. Além de permitir a simulação de procedimentos, como uma cirurgia, a tecnologia imersiva também possibilita vivenciar as consequências de erros, como por exemplo, atingir uma artéria, durante a operação, causando uma hemorragia. “Os alunos vão poder repetir as ações até se sentirem aptos”, salienta Tori.

Outra vantagem é que todas as ações do aluno poderão ser gravadas e analisadas posteriormente pelos professores e pelo próprio estudante. “Isso traz impacto na qualidade do profissional formado que, ao fazer seu primeiro atendimento com o paciente real terá a segurança e a habilidade de quem já fez aquilo antes”, analisa o professor.

Tori é coordenador do Laboratório de Tecnologias Interativas da Poli-USP, onde desenvolve, junto com alunos e professores de várias áreas, projetos de educação imersiva. Uma das criações é o simulador para treinamento de anestesia odontológica, desenvolvido em parceria com a Faculdade de Odontologia da USP de Bauru. Ao usar óculos de realidade virtual, o aluno entra num ambiente de consultório, podendo observar a boca do paciente. “A simulação não é só visual, colocamos uma seringa na mão do estudante e ele sente a resistência da mucosa bucal quando introduz a agulha, dando mais realismo”, explica Tori. Isso é possível por meio de um dispositivo háptico (tátil), ao qual a seringa é acoplada e que produz um retorno de força que é controlado por computador.

“Todo procedimento é gravado e avaliado pelo sistema. Só que é uma gravação não em forma de vídeo, mas em realidade virtual. Quando o aluno ou o professor forem observar o que foi realizado, vai ser como se estivessem num ambiente real, podem revivenciar o treino”, acrescenta Tori. Ele coordena outro projeto em parceria a Faculdade de Enfermagem da USP de Ribeirão Preto para treinar a coleta de sangue num ambiente hospitalar. “Nossas próximas pesquisas vão envolver a simulação de emoções nos pacientes virtuais. Eles vão reagir com expressão de dor, medo ou susto, de acordo com as ações do treinando. Também vamos introduzir o uso da inteligência artificial para avaliar com precisão o desempenho do aluno e orientá-lo como se aprimorar”, planeja Romero Tori.

PARECE REALIDADE
A simulação, na verdade, é um recurso que vem sendo utilizado na formação de profissionais de saúde, antes mesmo da introdução das novas tecnologias. Instituições como a FPS, treinam seus alunos com manequins que guardam uma impressionante semelhança com humanos e apresentam órgãos internos muito parecidos com os das pessoas reais. Também pode-se recorrer a atores que interpretam o papel de paciente com todas as suas reações aos procedimentos a que é submetido.
“Poder oferecer ao profissional de saúde a oportunidade de treinamento em um ambiente que não oferece riscos aos pacientes é fundamental. Essa oportunidade de repetição da prática é condição básica para uma boa capacitação”, reconhece Brena Melo, obstetra do Imip e professora da FPS. A médica, que fará palestra sobre o tema no CAM FPS, ressalta que a simulação também pode ser utilizada como uma forma de avaliação ainda mais completa do que um simples teste convencional. “Podem-se analisar todas as competências necessárias a um bom profissional: cognitiva (saber o que deve ser feito), habilidades técnicas (saber como deve ser feito) e atitudes (fazer utilizando critérios éticos, empatia, trabalhando em equipe)”.

Outra vantagem da simulação é poder treinar o profissional de saúde numa situação rara, vista poucas vezes no dia a dia. Mas também em situações nem tão raras, nas quais a equipe hospitalar precisa estar muito bem treinada e apta para conduzir de maneira adequada o atendimento. “É o caso da hemorragia pós-parto, que acontece com uma certa frequência na maternidade e toda a equipe precisa estar muito bem engrenada na assistência à paciente”, exemplifica Brena.

Nesse arsenal pedagógico há espaço até para – quem diria! – o videogame. Os games educativos são jogos digitais que têm o objetivo de formar e desenvolver competências, não apenas de entretenimento. A relação positiva deles com a aprendizagem vem sendo muito estudada nas últimas décadas. “O desafio e a curiosidade presentes nessa ferramenta são aspectos que contribuem para a concentração e dedicação às tarefas”, informa Taciana Duque, coordenadora do Curso de Medicina da FPS.
Segundo a médica, estudos têm demonstrado que os jogadores de videogames são capazes de realizar trabalhos que requerem tomada de decisões com mais rapidez do que os não jogadores. Para profissionais como médicos, possibilitam o desenvolvimento de competências essenciais para sua atuação, como o pensamento estratégico e analítico, a capacidade de resolução de problemas e a formulação e execução de um plano de ação.

Diante de tantos benefícios, Taciana e os também docentes da FPS Luciana Lima e Raphael Bruno, se renderam às vantagens da ferramenta e desenvolveram o game Um bom dia para salvar vidas. O intuito é treinar profissionais para atender pacientes com acidente vascular encefálico (AVE), uma condição de urgência e emergência de grande incidência na população. “O jogo traz etapas e desafios relacionados a identificar quadro clínico, definir conduta, considerando o nível de complexidade do serviço em que se encontra o paciente, critérios de risco e complicações, assim como exames de imagem e demais etapas para investigação, tratamento e aspectos humanísticos de comunicação com a família e com o paciente”, detalha Taciana.
A recepção dos alunos pela novidade foi muito boa. “Fizemos um estudo a respeito da opinião dos estudantes sobre a utilização do game. Eles avaliaram positivamente tanto a funcionalidade como a interface do jogo, assim como a experiência pedagógica, com 100 % dos entrevistados considerando que contribuiu para a aprendizagem sobre o tema”.

*Por Cláudia Santos, editora da Revista Algomais

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