“Tenho fascínio por representar e fazer personagens, sejam cômicos ou dramáticos”

À vontade em qualquer papel, Aramis Trindade já cresceu em meio às artes a partir da experiência de seu pai, Boris Trindade, um dos fundadores da Nova Jerusalém. Precursor de uma rica geração de atores pernambucanos, Aramis é um dos rostos mais reconhecidos do teatro, da TV e do cinema brasileiro. Ele é aquele tipo de ator que mesmo em papéis ditos coadjuvantes, consegue compor personagens tão marcantes que se tornam inesquecíveis.

Desde os 13 anos, Aramis sabia o que queria fazer da vida. São inúmeras novelas, minisséries, seriados, peças de teatro, espetáculos de circo, mais de 70 filmes, entre 55 longas e 20 curtas. O ator mantém o mesmo ímpeto e brilho nos olhos de quem está começando no ofício.

Em entrevista a Yuri Euzébio, ele fala da carreira, das dificuldades do setor cultural, do seu monólogo na peça Romeu e Julieta, com texto de Ariano Suassuna, das dificuldades da profissão e das delícias de fazer o que ama.  

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Como é que foi o início da sua carreira?

Foi em 1978, eu tinha 13 anos. Lá em Nova Jerusalém, tinha o Circo Brasinha atrás do cenário da Santa Ceia, eu fui ver Pascoal, Robinho, Suruca, Nena Pacheco e eu me encantei com aquilo. Não é exatamente palhaçaria, mas eu me sinto confortável na comédia, no drama, na tragédia, enfim. Meu pai, Bóris Trindade, era advogado criminalista, por isso ele era diretor jurídico e sócio-fundador da Sociedade Teatral de Fazenda Nova, que é a Nova Jerusalém.

Robson Pacheco, o Robinho, que atualmente é o presidente da Sociedade Teatral Fazenda Nova, era o apresentador e eu era o palhaço Cocorote. Tinha o palhaço Brasinha, que fazia dupla comigo, e Xuruca, que agora é uma grande figurinista, era bailarina junto com a irmã Nena Pacheco, que hoje cuida da parte mais administrativa do teatro. 

E aí eu descobri que aquele era o meu fascínio e até hoje eu faço com o mesmo ímpeto com que eu fazia naquela época. E minhas brincadeiras, meus primeiros exercícios como ator, eu imitava os dubladores dos desenhos animados e depois fui trabalhar com eles. Por exemplo, seu Orlando Drummond, com quem trabalhei no Zorra Total. Eu imitava o Scooby Doo, o Salsicha, fazia Fred Flintstone, o Barney. E eu fui fazendo com o mesmo ímpeto. Porque cada um tem o seu propósito né? E quando você descobre e é feliz com isso é muito massa porque é muito bom você trabalhar com o que você ama.

salsicha e scooby doo Credito Reproducao Warner Bros

Dessa época de palhaçaria para o seu início no teatro, como é que foi?

Eu fiquei fazendo palhaçaria de 1978 até 1982, mais ou menos, em 1983 eu fiz a peça A Aurora Da Minha Vida com direção de José Pimentel e o texto de Naum Alves de Souza sobre o sistema educacional brasileiro. Naum foi um autor carioca muito engraçado e essa peça era uma comédia que fez bastante sucesso. Depois foi uma série de peças na Aquarius Produções. Meu pai fundou, fora da Nova Jerusalém, a Aquarius Produções Artísticas e eu fiz muitas peças. 

Teve uma peça sobre a Jovem Guarda que ficou mais de três anos em cartaz chamada É Uma Brasa Mora, onde eu fazia Roberto Carlos. Anos depois, fiz uma peça no Rio com o Lucinho Mauro e Bruno Mazzeo chamada Homem Objeto e era uma colagem de textos de Veríssimo. Eu fazia o Roberto Carlos lá também com esse texto do [Luis Fernando] Veríssimo. Já o É Uma Brasa Mora foi aqui no Recife e o texto foi do meu pai, Boris Trindade. A gente ficou quase três anos em cartaz. Eu nunca fiz faculdade de Teatro porque, na minha época aqui, não havia curso para ator. Agora tem no Centro de Artes e Comunicação da UFPE. Eu fiz Educação Artística, na época.

Eu até ganhei uma bolsa, no Rio de Janeiro, de José Wilker e Luiz Mendonça, que administravam a Escola de Teatro Martins Pena. Mas, quando eu estava para ir, a escola fechou. Eu aprendi teatro fazendo, lendo, observando. Indo na Livro Sete, que era a livraria que tinha na época aqui. Frequentando cinema, teatro, aprendi fazendo muita peça, muito teatro. Só fui para o cinema para fazer meus primeiros curtas, em 1986. Dirigido por Paulo Caldas. E depois fiz O Baile Perfumado do mesmo Paulo Caldas e de Lírio Ferreira. O primeiro curta-metragem que eu fiz foi O Bandido da Sétima Luz, de Paulo Caldas, era um filme sobre como é ser um traficante de imagens. E esse traficante era interpretado por Fernando Spencer, famoso superoitista, que fez participação como ator. Ele era esse protagonista do filme. Essa foi minha primeira aparição no cinema. 

De lá pra cá já são 50 longas e 30 curtas. Eu nem sabia disso aí me falaram pra botar no IMDB, que é a International Moving Data Banking. Eu fiquei pensando “Caramba, tenho mais filmes que a minha idade!” 

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Como foi receber um prêmio especial no Cine PE deste ano?

A palavra é uma só: gratidão por ter conseguido fazer um filme em 1996, quando Pernambuco estava há 20 anos sem fazer um longa-metragem. O último filme tinha sido O Palavrão, de Cleto Mergulhão, em 1976. Eu nem sabia disso. O Lírio Ferreira me falou, o último filme tinha sido do Cleto e a produção cinematográfica só voltou com a gente em 1996. Foi uma dificuldade muito grande, mas eu fico feliz que é uma comemoração. E, coincidentemente, com a mesma idade do Cine PE, 30 anos. Então, tanto O Baile Perfumado como o Cine PE, receberam muitas negativas. Mas, hoje, temos esse reconhecimento. As respostas positivas foram mais frequentes. A palavra é só gratidão pelo reconhecimento.

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Você aprendeu, na prática, e conseguiu furar a bolha, se estabelecer no Rio de Janeiro, numa época em que não era fácil. Hoje em dia existe uma maior receptividade com o ator nordestino?

Sim, mas hoje ainda há um certo preconceito. Alguns diretores, que não me conhecem, acham que eu só faço personagem de acordo com o meu sotaque. Mas eu já fiz personagens gaúchos, mineiros, paulistas. Hoje em dia, nos streamings, nas TVs, existem profissionais só de prosódia, com sotaque. Eu faço essas coisas desde pequeno, são mais de 50 anos. E tem uma frase que me guia muito, da Clarice Lispector, que fala assim: “o caminho lento aumenta a minha coragem secreta”. Então, essa frase sempre me guiou, sabe? Porque é um trabalho de formiguinha. A gente vai lançando uma peça atrás da outra e resistindo.

Imagina nos anos 1970 e 1980, o Recife sem fomento, sem leis de incentivo. Com outras políticas públicas, era muito mais difícil do que hoje. Então, haja amor pela sua profissão, pela dedicação, paciência, tanta coisa junta. Nossa, então essa frase de Clarice Lispector sempre me guiou. O caminho lento aumenta a minha coragem secreta. A certeza daquilo que eu quero, pode demorar, mas isso aí vai me fortalecendo. Em vez de ser o contrário.

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Como é que foi essa chegada na televisão?

Eu fui fazendo muito teatro aqui no Recife e quando eu fiz O Baile Perfumado, ganhei o prêmio de melhor ator em Brasília, o Candango em 1997, Guel Arraes me chamou para o Auto da Compadecida na TV Globo, que foi em 1998. Aí, as portas foram se abrindo mais. O Cabo 70 é um personagem que me popularizou, no bom sentido da palavra, digamos assim, é um personagem que é o delegado mais frouxo do Brasil, né? Então, foi bom demais estar no meio daquele time de estrelas. Quando me ligaram, a primeira vez da TV Globo, eu achei que era brincadeira, um trote, alguma pegadinha. Eu morava aqui no Recife na época. E, aí, eu fui vendo que era verdade mesmo. A gente filmou em Cabaceiras, na Paraíba, depois no Projac no Rio.

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Foi nessa mesma época que você conheceu Ariano Suassuna e surgiu essa ideia do monólogo de Romeu e Julieta?

Quando eu fiz O Auto da Comparecida, em 1998, naturalmente fui me aproximando de Ariano e ele me chamou para fazer A História do Amor de Romeu e Julieta, uma peça que ele adaptou. Ele me chamou para fazer uma substituição a ele, porque ele fez a adaptação do texto de um autor cearense chamado João Martins do Ataíde que tem uma peça chamada O Romance de Romeu e Julieta. Ariano adaptou e fez A História do Amor de Romeu e Julieta – mais de 200 versos e eu peguei a de Ariano e reduzi para 120 versos e fiz Romeu e Julieta – Cordel de Ariano Suassuna. 

Voltando para 1997, Ariano me chamou para substituí-lo porque ele era o narrador da peça, participava como ator, o personagem chamava-se Dom Pantero. E aí ele descobriu que eu me mimetizava nele, fazia imitações, brincando e tal. Aí ele ligou para mim, descobriu meu telefone, quando eu cheguei lá, ele me disse “Eu quero lhe convidar. Eu não quero mais ficar com essa peça pra lá e pra cá, lá pra Porto Alegre, lá pra Curitiba. Estão me convidando e tem que andar de avião.” Ele disse: “Não, eu não vou não, eu quero chamar você pra ir no meu lugar porque eu não gosto de avião, sabe por quê?”. Aí ele disse: “Porque onde o avião vai, o buraco acompanha”. 

Aí fui ficando na versão dele e em 2012 que eu fiz adaptação. Eu já estou há 14 anos em cartaz com essa peça. Ele viu o espetáculo várias vezes. Na segunda parte da peça eu faço uma imitação dele, é uma espécie de miniaula espetáculo. Quando ele assistiu, morreu de rir, viu umas três ou quatro vezes e sempre adorou. 

Aramis Ariano e esposa na estreia foto

Qual o segredo para ser um ator que fica à vontade em qualquer papel?

Na verdade, não tem segredo. Eu acho que cada ator, cada artista, tem o seu método de formação. Existem atores brechtianos, que aplicam Brecht, tem outros que aplicam Grotowski, outros Stanislavski e assim vai. Existem muitos métodos de formação de ator, mas eu acho que não tem segredo. Cada artista é um artista, com suas virtudes e limitações, mas eu acredito que todos nós somos artistas.

Eu acredito que o teatro é inerente ao ser humano, independente de ser um profissional da arte de interpretar, digamos assim, não tem o DRT, mas mesmo a pessoa não sendo profissional, pode ser ator, atriz, porque é inerente ao ser humano. Desde o nascimento, o bebê imita os pais. Tudo que ele ouve, os gestos, a fala e, assim, vai evoluindo na comunicação. Isso é pura atuação.

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Ser ator em Pernambuco, no Nordeste, está mais fácil? 

Sim, porque com essa entrada dos streamings o mercado aqueceu. Antigamente havia poucos canais de veiculação, só TV aberta e tal. E isso deu uma fomentada com as leis de incentivo também, as políticas públicas que ficaram tão ausentes no governo anterior, por exemplo, voltaram. E com todo o retorno dos aparelhos culturais, do Ministério da Cultura, Ancine, enfim. Isso tudo fomenta a arte e a cultura. Então, é outro nível. Claro que ainda é duro, porque não é glamour. Mas, o cenário é completamente diferente dos anos 1970, 1980, imagina! Anos 90 começou a Lei Rouanet, em 1995, a lei de atração de imposto e outras, como a do Fundo Setorial, que é do audiovisual e até hoje essas leis estão avançando. 

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O que mais lhe encanta na profissão?

O fascínio! O fascínio que eu tenho pelo representar, de fazer personagens, sejam cômicos ou dramáticos, trágicos. Desde criança, eu tenho o mesmo fascínio, o mesmo ímpeto que eu fazia naquela época brincando, com exercícios de dubladores, imitando personagens que eu via e ouvia na TV. Esse mesmo fascínio que eu tinha com 10, 12 anos de idade, eu tenho hoje em dia, sabe? De verdade, é esse fascínio que me move. É o meu propósito. É uma dádiva trabalhar com o que a gente ama.

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Você vê diferenças nessas linguagens entre teatro, cinema, televisão? Qual que mais lhe encanta o que mais lhe agrada? 

Um trabalho chama o outro, de acordo com sua postura. Isso é em qualquer profissão. Sua postura de chegar no horário, de estudar o texto. Toda profissão tem suas metas, né? Para mim, as três linguagens se completam. Vai de acordo com o contexto. Se é teatro, é ao ar livre é uma coisa, Commedia Del Arte é quase a mesma coisa. O cinema é um tom dependendo da direção, o tom vai de acordo com o contexto. Mas, eu me sinto confortável e mantenho meu fascínio tanto no cinema, quanto no teatro e na TV. 

Eu acho que em toda profissão, ainda mais quando você está fora da sua cidade, ser ator ou atriz, aqui no Brasil, é um trabalho de formiguinha, A gente vai, de alguma forma, construindo castelos. É um trabalho dia após dia, um trabalho após o outro. É uma responsabilidade e é um conjunto de coisas que fazem com que as pessoas te olhem, te conheçam e te chamem para trabalhar.

Eu amo fazer teatro, cinema, televisão. Por exemplo, o teatro foi o precursor, o circo e o teatro foram os precursores do cinema e mais ainda da televisão. Primeiro veio o circo, as manifestações populares nas ruas. Depois o teatro, depois o cinema, depois chegou a TV. Teatro é a base de tudo. Pelo menos em relação à arte de interpretar.

Como é que você enxerga a hoje a cultura brasileira e a cultura pernambucana? Como é que você enxerga o cenário da cultura hoje?

Não só no cenário pernambucano, mas no cenário mais amplo, as políticas públicas, as leis de incentivos, os editais, a Lei Paulo Gustavo, o Programa Nacional Aldir Blanc, as pessoas de bom senso já fazem isso ter resultados crescentes e permanentes. E não só políticas públicas, mas também mais políticas privadas, as empresas já estão com mais consciência e acordos internacionais de coproduções. São resultados crescentes e permanentes. É realmente outro cenário comparado a quando eu comecei, aos anos 1970, 1980.

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Qual conselho você daria para alguém que está começando na profissão hoje?

O conselho é você seguir firme no que quer, no seu propósito, e com a certeza dele, você nunca desistir porque não é fácil, não é glamouroso como as pessoas acham. É construindo o castelo pedaço por pedaço. E quanto mais demorar, quanto mais o caminho for lento, isso vai te fortalecendo, ganhando conhecimento, vendo trabalhos, lendo, aprendendo, ouvindo, fazendo, estudando. Quanto mais demorar, mais a gente se fortalece. É isso o que eu acho.

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