Três visões para Pernambuco: o que propõem Raquel, João e Ivan

*Por Rafael Dantas

Há tempos Pernambuco não vive uma eleição com temperatura tão elevada e uma disputa tão equilibrada pela liderança do Estado. Em meio aos debates acalorados, porém, as propostas para os próximos quatro anos acabam muitas vezes em segundo plano nos guias eleitorais e na exposição pública dos candidatos. Fazendo um contraponto ao que domina a campanha, a Algomais ouviu especialistas para analisar forças, aspectos inovadores e fragilidades dos planos de governo registrados por Raquel Lyra (PSD), João Campos (PSB) e Ivan Moraes (PSOL). Mais do que comparar candidaturas, a análise identifica propostas e caminhos que podem contribuir para Pernambuco a partir de 2027, independentemente de quem assumir o Palácio do Campo das Princesas.

Apesar das diferenças de orientação política e prioridades, os três planos percorrem eixos semelhantes: desenvolvimento econômico e emprego, educação, saúde, segurança, infraestrutura e mobilidade, redução das desigualdades, sustentabilidade e modernização da gestão. O que muda são as ênfases e os caminhos propostos para enfrentar esses desafios.

Um dos pontos de fragilidade em comum identificados pela cientista política e especialista em gestão pública Raquel Lins, da plataforma Nordeste Transparente, é a ausência de números claros para dimensionar parte dos compromissos apresentados. “Legalmente, os planos de governo entregues à Justiça Eleitoral não são obrigados a conter percentuais ou números concretos, mas os que trazem dados explícitos demonstram que as propostas passaram por um diagnóstico baseado em evidências e são também uma proposta verificável. Quanto mais específica, mais fácil de cobrar depois, talvez por isso, os candidatos tenham evitado quantificar.”

Raquel Lins NE Transparente

PROPOSTA DE CONTINUIDADE DE RAQUEL LYRA

Líder nas pesquisas, mas em empate técnico com João Campos no último levantamento da Quaest, Raquel Lyra apresenta um plano de continuidade da atual gestão, conciliando desenvolvimento econômico, preservação ambiental e justiça social.

No aspecto econômico, o professor de economia da Unicap e sócio-diretor da consultoria Ceplan, Valdeci Monteiro, ressaltou que o Plano de Governo de Raquel Lyra está ancorado na estabilidade macrofiscal, continuidade administrativa e consolidação das reformas institucionais. “Diferente de modelos orientados a intervenções setoriais dirigidas, a estratégia da candidatura foca na melhoria horizontal do ambiente de negócios”.

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O economista aponta que a visão de desenvolvimento está ancorada na concepção de que “o crescimento econômico sustentável depende primariamente da redução dos custos de transação para as empresas privadas, da restauração da credibilidade fiscal do Estado e da eliminação dos gargalos crônicos de infraestrutura logística e hídrica”.

Para Valdeci Monteiro, um dos diferenciais do plano está na dimensão dos investimentos públicos. Segundo ele, o aporte de R$ 26 bilhões pode estimular a economia, com efeitos sobre a construção civil e a geração de empregos. “Ao articular esse montante com a disciplina no cumprimento de metas fiscais, o programa apresenta um horizonte orçamentário previsível para a atração de concessionárias e investidores privados”.

Valdeci Planos Governo

Ao analisar a agenda do desenvolvimento rural, o engenheiro agrônomo Álvaro Eugênio, consultor do Ministério do Desenvolvimento Agrário, aponta como principal mérito a continuidade e a ampliação de programas já existentes, como o Terra Plantar, o PEAAF (Programa de Educação Ambiental e Agricultura Familiar), o PAA Leite (Programa de Aquisição de Alimentos) e o PE Produz. “Essas iniciativas associadas à conclusão das obras vinculadas ao PISF (Projeto de Integração do Rio São Francisco com as Bacias Hidrográficas do Nordeste Setentrional) e à proposição de novos perímetros irrigados, têm potencial para ampliar significativamente as possibilidades de produção no Semiárido”. 

Ele ressalta também as propostas de infraestrutura logística como fundamentais para o setor agropecuário. “A recuperação de estradas vicinais atua diretamente sobre um dos principais entraves ao escoamento da produção. No entanto, o principal desafio estará em integrar essas ações para que água, terra, infraestrutura e crédito resultem efetivamente em aumento da produção, da renda e da permanência das famílias no campo”.

Sobre a modernização da gestão, Valdeci Monteiro ressaltou as iniciativas voltadas para a desburocratização e atração de investimentos. “A institucionalização da Lei de Liberdade Econômica, com a chancela de mais de 900 atividades econômicas isentas de alvarás de funcionamento, ataca um dos custos ocultos suportados pelos empreendedores. Somam-se a isso a valorização da economia criativa como política pública mensurável no PE Criativo e o pragmatismo em torno do Banco Estadual de Imóveis Públicos, instrumento de finanças urbanas capaz de destravar projetos imobiliários e parcerias empresariais”.

Na área de inovação, Raquel Lins também destaca iniciativas da atual gestão, como os programas Cientista Arretado e Desafios.Gov, que aproximam startups e universidades da solução de problemas públicos. A especialista menciona ainda ações direcionadas a negócios liderados por mulheres, como o Pernambucanas Inovadoras.

Entre as fragilidades, Monteiro identifica o risco de uma aposta excessiva na continuidade de estruturas produtivas já consolidadas, sem uma resposta de igual intensidade à desindustrialização e à construção de novas matrizes tecnológicas de maior valor agregado. O economista chama atenção para o desafio de executar o volume de investimentos anunciado, que exigirá capacidade fiscal, administrativa e de contratação do Estado. 

REINDUSTRIALIZAÇÃO E INOVAÇÃO NOS PLANOS DE JOÃO

Como principal adversário da governadora, o ex-prefeito João Campos apresenta no Plano de Governo justamente uma proposta de mudança. Entre as principais âncoras estão o processo de fortalecimento da indústria local e os investimentos em inovação tecnológica. 

Na análise de Valdeci, o destaque dado à dimensão econômica do plano de João Campos parte do diagnóstico de que Pernambuco precisa elevar, com urgência, a complexidade de sua estrutura produtiva diante do cenário pós-guerra fiscal. A partir dessa perspectiva, o documento busca conectar a economia do Estado às novas fronteiras tecnológicas globais, como economia digital, inteligência artificial, bioeconomia e descarbonização.

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“A premissa norteadora consiste em mobilizar o Estado como agente propulsor, coordenador e cofinanciador da transformação produtiva. Em vez de uma postura passiva de mera concessão tributária, o programa preconiza uma articulação agressiva entre política industrial, ecossistemas de inovação, transição energética de baixo carbono e a formação intensiva de quadros técnicos qualificados”, afirmou o sócio da Ceplan.

Para Valdeci, um dos elementos distintivos da plataforma de governo do candidato do PSB é a percepção de que a competitividade futura de Pernambuco dependerá do adensamento tecnológico e da complexidade estrutural de sua cadeia de suprimentos. “A criação de uma Secretaria Executiva voltada para lidar com os desdobramentos operacionais e fiscais da transição tributária reflete a capacidade de antecipação institucional de primeira ordem”.

Acerca do desenvolvimento agropecuário, Álvaro Eugênio destaca a proposta de João Campos de criar programas específicos para o setor agropecuário, especialmente voltados à agricultura familiar. “A criação de eixos programáticos oferece um ponto norteador inicial para transformar diretrizes gerais em ações mais diretamente conectadas às necessidades dos produtores rurais. Entre as iniciativas apresentadas, ganham relevância os programas destinados à recuperação de estradas vicinais e à construção de passagens molhadas, à regularização de produtos agropecuários e ao estímulo à inovação no polo produtivo do Vale do São Francisco.”

Alvaro Planos Governo

Com foco no desenvolvimento tecnológico, outro pilar ressaltado por Valdeci é a estratégia de distribuir esse setor pelos diversos territórios do Estado. “Ao articular o Cinturão da Inteligência (conectando os cabos submarinos à indústria avançada de Goiana e ao interior) com a descentralização física do Porto Digital para cidades-âncora do Semiárido e Agreste, o plano supera o tradicional isolamento da capital pernambucana no campo da economia da informação”. 

Na avaliação do economista, a proposta combina a vocação agroexportadora já consolidada de Petrolina com o conhecimento tecnológico do Vale AgroTech do São Francisco. Essa articulação, associada à criação de estruturas de planejamento estadual de longo prazo, representaria um avanço na governança pública, em sintonia com experiências internacionais de reindustrialização apoiadas em polos de inovação.

Entre as fragilidades, Valdeci aponta a complexidade de execução das propostas, especialmente diante das dificuldades históricas de articulação entre a academia e o setor produtivo no Brasil. A reformulação do Programa de Desenvolvimento de Pernambuco (Prodepe), política estadual de incentivos fiscais, também exigiria elevada capacidade técnica e fiscal para preservar a atratividade de Pernambuco em relação aos demais estados nordestinos. Outro ponto de atenção seria a dependência de decisões e investimentos do Governo Federal para viabilizar projetos de infraestrutura, como o Ramal Suape da Transnordestina e as duplicações de rodovias federais.

ECONOMIA POPULAR NO PLANO DE IVAN

Representante do PSOL ao Palácio do Campo das Princesas, Ivan Moraes apresentou um programa de governo com foco nas teorias do bem-viver, na economia solidária e na justiça redistributiva. “A ruptura paradigmática representa a inovação conceitual mais contundente da disputa. Rompe explicitamente a tese de que o desenvolvimento econômico de Pernambuco decorre necessariamente da submissão aos grandes grupos econômicos e adota a tese de que o adensamento da economia popular é o caminho mais eficaz para diminuir a pobreza e estabilizar a demanda agregada no longo prazo”, explica Valdeci Monteiro.

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Em termos operacionais, o economista observa que a plataforma de Ivan Moraes propõe direcionar o poder de compra governamental ao fomento econômico territorial, diferenciando essa estratégia do modelo tradicional de licitações públicas. 

Entre as novidades destacadas pelo economista está o Nota Verde Pernambuco, que propõe utilizar mecanismos tributários para estimular práticas mais sustentáveis de produção e consumo. Monteiro também chama atenção para a Tarifa Zero no transporte coletivo metropolitano. Na avaliação dele, a gratuidade pode ampliar o acesso à mobilidade e produzir efeitos econômicos.  “A proposta trata o deslocamento não como mercadoria tarifada, mas como infraestrutura básica com repercussão direta no aumento da produtividade do trabalho e na renda real das famílias trabalhadoras. O plano tem, portanto, o mérito de centrar a política pública nas massas trabalhadoras e na base da pirâmide produtiva, atacando a concentração da renda pernambucana e propondo instrumentos inovadores”, disse Valdeci.

Raquel Lins também avalia positivamente a proposta de retomar o Todos Com a Nota em formato digital, associando o CPF às compras e permitindo a troca de pontos por atividades culturais e esportivas, livros, cursos e produtos da economia solidária. A especialista destaca ainda a Nota Verde Pernambuco, que prevê benefícios para consumidores de cooperativas, agricultura familiar, reciclagem, economia circular e negócios de baixo impacto ambiental. Na área de resíduos, chama atenção a proposta de substituir gradualmente um modelo centrado no descarte em aterros por uma política de redução, reaproveitamento e valorização dos materiais. “Ele foi o único a enfatizar que o Estado precisa entrar em uma nova fase: reduzir o volume enterrado, recuperar recicláveis, compostar orgânicos, fortalecer a logística reversa e remunerar catadores e catadoras como agentes ambientais.”

Na agenda rural, Álvaro Eugênio destaca que a estratégia de utilizar o poder de compra do Estado pode fortalecer a agricultura familiar e as cooperativas ao aproximar a produção dos mercados consumidores. Para o engenheiro agrônomo, porém, a efetividade dessas medidas dependerá das condições para colocá-las em prática. “Ao garantir demanda para a agricultura familiar e para as cooperativas, o Estado pode transformar políticas de apoio em geração efetiva de renda nos territórios. O desafio central será assegurar escala, orçamento e capacidade operacional para que essas propostas ultrapassem o caráter programático e produzam efeitos econômicos mensuráveis no meio rural.”

Entre as fragilidades, Valdeci aponta dúvidas sobre a viabilidade fiscal de propostas de alto custo, como a Tarifa Zero e a Renda Básica estadual, diante da ausência de maior detalhamento sobre suas fontes de financiamento. O economista também identifica pouca atenção aos possíveis impactos da perda de grandes investimentos industriais sobre a arrecadação e a economia pernambucana.

QUESTÕES TRANSVERSAIS

Além das fragilidades específicas de cada proposta, Raquel Lins identifica temas que receberam pouca atenção nos planos, como o enfrentamento do analfabetismo entre jovens e adultos, o fortalecimento de bibliotecas e a mobilidade dos pedestres. Questões como recuperação e padronização de calçadas, travessias seguras e eliminação de barreiras aparecem pouco nas estratégias de mobilidade urbana. A cientista política também aponta a necessidade de detalhar como a transformação digital poderá melhorar o acesso aos serviços públicos, inclusive com maior transparência sobre filas e demandas em áreas como saúde, educação, cultura e esportes.

PERNAMBUCO EM PERSPECTIVA

Diante de desafios históricos que se somam a novas questões econômicas, sociais e ambientais, a Revista Algomais e a Rede Gestão promoveram, nos últimos anos, o projeto Pernambuco em Perspectiva, em parceria com as consultorias TGI, Ceplan e Factta. A iniciativa reuniu especialistas, gestores, empresários e representantes da sociedade em uma série de debates sobre os caminhos para o desenvolvimento do Estado, mobilizando cerca de 2,5 mil participantes.

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Uma das propostas-síntese do projeto é a criação do Sistema Pernambucano de Planejamento Estratégico (SPPE), estrutura permanente destinada a pensar o desenvolvimento para além dos ciclos eleitorais e articular governo, sociedade e academia. A proposta inclui a construção do Plano Pernambuco 2050, com objetivos de longo prazo que possam orientar sucessivas gestões e transformar o planejamento em política de Estado. 

O documento foi entregue a lideranças políticas e institucionais de Pernambuco, levando ao debate eleitoral propostas construídas ao longo do projeto e reforçando a importância de uma agenda de planejamento de longo prazo para o Estado. Passados os dias quentes das eleições, revisitar as contribuições dos planos de governo e da sociedade civil organizada será fundamental para construir caminhos de curto, médio e longo prazo para Pernambuco.

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