Para o filósofo e professor da USP, o mundo vivencia a emergência do fascismo, que tem origem no passado colonial e irrompe na atualidade como resposta às crises contemporâneas: ambiental, econômica, política, demográfica, social e psíquica. Ele ressalta a importância de se nomear sem subterfúgios esse processo e analisa como essa realidade afeta a saúde mental das pessoas.
O filósofo e professor da Universidade de São Paulo, Vladimir Safatle não tem meias palavras ao analisar a realidade atual do Brasil e do mundo: o que vivemos hoje é a ascensão do fascismo. De acordo com sua tese, essa situação não é resultante de fatores externos, mas irrompe organicamente do passado colonial e escravagista, impulsionada pelas diversas crises contemporâneas: ambiental, econômica, política, social e psíquica.
A persistência da herança da colonização no presente leva a um estado denominado por Safatle de “fascismo restrito”. Isto porque as garantias democráticas não são usufruídas por todos os setores da população da mesma forma. “Eu, que moro em Higienópolis, um bairro central de São Paulo, posso falar que vivo na democracia, porque sei que a polícia não vai bater na minha porta, sem mandado. Agora, a situação é diferente para quem mora no Complexo do Alemão, que há meses viu 122 pessoas serem assassinadas, sem que até hoje fossem conhecidos os nomes delas, sem que fossem punidos os responsáveis”, compara o filósofo.
Para Safatle, o fascismo é estrutural no Brasil, prova disso é a atuação, nos anos 1930, da Ação Integralista Brasileira, “o maior partido fascista fora da Europa”, com mais de um milhão de membros – alguns dos quais participaram do Golpe de 1964. “O integralismo é um elemento constituinte da história da sociedade brasileira”, afirma o filósofo que esteve no Recife para lançar o livro Ameaça Interna – Psicanálise dos Novos Fascismos Globais, na Livraria do Jardim, e concedeu entrevista a Cláudia Santos.
Ele refletiu sobre como as crises atuais geram uma dinâmica de dessensibilização e violência e de que forma esse cenário impacta no crescimento de casos de ansiedade e depressão. Também argumentou que a saída para esses tempos difíceis começa por nomearmos, de forma correta, os problemas que enfrentamos.

No seu livro, você parte da ideia de que vivemos uma emergência do fascismo no mundo. Quais as condições econômicas, políticas e sociais que nos levaram a essa situação?
Minha tendência é ler o fascismo como uma explicitação das dinâmicas do capitalismo no seu momento mais terminal. Ou seja, o desenvolvimento, a modernização capitalista necessariamente terminaria dessa forma. Não é um desvio de rota, é a realização de uma potencialidade interna desde o início. Agora, a questão sua indica um problema que é: em que condições essa potencialidade se torna essa força tão grande como a que a gente está vendo? Acho necessário ter um sistema de crises estacionárias e conexas, ou seja, crises que não passam mais e que se retroalimentam.
Esse diagnóstico da policrise não é meu. Isso vem desde o Morin (Edgar, filósofo francês), várias outras pessoas utilizaram a ideia de que vivemos numa crise ecológica, crise demográfica, crise social, crise política, crise econômica, crises psíquicas, crise epistêmica, todas ao mesmo tempo. E essas crises se estabilizaram como crise, ou seja, elas não são mais aquilo que impede a gestão do governo, elas são a condição para a gestão de governo dentro desse horizonte quando há uma crise que não se acaba.
Não há mais a ideia de um processo em que a sociedade vai integrando grupos e alargando cada vez mais, porque você está em situação excepcional, numa crise econômica que nunca passa. E o que o fascismo faz? Ele é uma perspectiva realista diante desse cenário, porque ele diz: de fato, é isso mesmo, não tem mais sociedade para todo mundo. Agora, a gente vai ter que saber qual vai ser o sistema de partilha, quem vai ser expulso, quem vai ser predado, quem vai ser superexplorado no trabalho, quem vai ser deportado, quem vai ter uma vida completamente precarizada, cuja morte não vai fazer a menor diferença e quem vai ser protegido. Então, o fascismo é a figura de uma decomposição do corpo social.
O próprio processo neoliberal acabou culminando nisso?
Não sei se o neoliberalismo é intrinsecamente fascista, mas ele dá todas as condições para isso, e a principal delas é compreender a sociedade como uma espécie de guerra civil. O neoliberalismo nasce de maneira autoritária. É bom lembrar que o primeiro país que implementou o neoliberalismo como política de governo foi o Chile do Pinochet. Ou seja, dentro de um horizonte em que você precisa transformar todo o conflito social numa sedição (insurreição) contra o Estado. Mobilizam-se as forças do Estado para despolitizar a sociedade, para que possa impor uma ideia de liberdade vinculada à livre iniciativa e ao livre empreendedorismo.
Só que setores da sociedade entendem essa ideia de liberdade como a perpetuação de um sistema de privilégios. Por isso que eles são extremamente refratários a isso, porque sabem que o que vai acontecer é que dentro de uma sociedade concentrada como as nossas, quem tem livre iniciativa e quem tem nível de empreendedorismo é quem já tem capital. Então, para o neoliberalismo conseguir se impor, ele vai precisar quebrar o sistema de lutas desses grupos e, para isso, vai precisar de um nível extremamente elevado de violência.
Nessa perspectiva da violência, você parte da premissa de que o fascismo ocorre quando governos europeus transferem para a Europa os métodos autoritários e de extermínio utilizados nas colônias. Você poderia explicar esse pensamento?
Mais uma vez, essa não é uma tese que desenvolvi, é uma tese mais ou menos clássica. O fascismo nada mais é do que a transposição da lógica da violência colonial para as metrópoles. Quer dizer, todas as tecnologias de violência que o fascismo utiliza estavam em operação nas metrópoles: guerra de raças, supremacismo, indiferença a genocídio, massacres administrativos, campos de concentração, campos de extermínio.
Um dado me chamou atenção: no jogo da República Democrática do Congo na Copa a imprensa resolveu trazer um pouco da história do país e descreveram que foi um processo colonizador muito violento. O que eles chamam de processo colonizador muito violento foi o maior genocídio da história: foram 10 milhões de pessoas mortas. Você percebe que isso é o apagamento de um genocídio que você não consegue nem falar o nome. Só para a gente ter uma dimensão disso, o holocausto judaico na Segunda Guerra gerou 6 milhões de mortos.

Não houve nenhum trabalho de integração da memória coletiva do dolo. O país foi destroçado e é destroçado até hoje por causa disso. Esse tipo de dessensibilização em relação à violência mais brutal é a base fundamental para o fascismo. Mas isso mostra uma coisa interessante: significa que as condições libidinais para uma subjetividade fascista estavam presentes na sociedade liberal desde sempre.
Eu poderia lembrar como esse processo de indiferença ao genocídio é um elemento constituinte do liberalismo, porque não há liberalismo sem colonialismo. O colonialismo britânico na Índia obrigou todo o sistema da agricultura indiana a se transformar na produção de plantation de algodão – o que a gente chamaria hoje de commodities. O resultado foram crises de fome que mataram em torno de 30 milhões a 40 milhões de pessoas.

O fantástico não é o fato, mas o apagamento do fato, é a naturalização. Não é nem um pouco estranho que sociedades que naturalizaram, que não quiseram saber nada sobre isso, nos seus momentos de crise simplesmente generalizam essa violência para o seu espaço também.
Daí a importância que você dá à necessidade de denominar essa situação de fascismo?
Eu recebi, inclusive, algumas críticas por utilizar o termo fascismo dessa maneira. Eu diria o seguinte: olha, nenhuma das ciências humanas hoje é mais miserável do que a ciência política. Ela acaba fazendo um desserviço.
Por quê?
Em razão da maneira de descrever fenômenos políticos como se estivesse descrevendo disfuncionalidades de um sistema. Assim, elimina-se por completo a natureza da urgência dos processos porque tem-se uma noção abstrata, elástica do que significa democracia. É como se estivéssemos efetivamente num regime democrático, mas o que a gente chama de democracia liberal nunca foi democracia. Vivemos num fascismo restrito.
Por quê? Porque democracia é um tipo de termo que só pode ser utilizado ao se completar a frase com a seguinte pergunta: democracia na perspectiva de quem? Na minha perspectiva – eu, que moro em Higienópolis, um bairro central de São Paulo, seguro, posso falar que eu vivo na democracia, porque sei que a polícia não vai bater na minha porta às 5 da manhã, sem mandado, me colocando numa situação de completa precarização da vida. Eu tenho garantias da minha integridade pessoal.
Agora, a situação é diferente para quem mora no Complexo do Alemão, que há meses viu 122 pessoas serem assassinadas, sem que até hoje fossem conhecidos os nomes dessas pessoas, sem que fossem punidos os responsáveis. Por quê? Porque esse é um processo normal, porque sabemos que semana que vem isso pode acontecer de novo. Falar que essas pessoas vivem numa democracia é uma obscenidade do ponto de vista das exigências críticas do pensamento acadêmico.
O governo é fascista para essas pessoas. Esse é o termo. É um sistema de zoneamento. Para certas zonas, certos territórios, desenvolve-se um certo tipo de uso da lei. Para outros territórios, desenvolve-se outro tipo e sempre foi assim. Isso não muda porque é a da funcionalidade do sistema, que normalmente funciona dessa maneira.
Faltam teorias do Estado que permitam lidar melhor com essas clivagens territoriais, de grupos e classes que perpassam as nossas sociedades. Eu falei sobre o Brasil, mas podia falar sobre os Estados Unidos, a França, qualquer país europeu, que a realidade é estruturalmente muito similar.
Voltando para a questão do apagamento, como a herança do Integralismo no Brasil torna o País vulnerável às ideias fascistas?
Esse é um ponto também que acho que vale a pena uma autocrítica forte da classe acadêmica e intelectual, da qual faço parte. Eu começo o livro fazendo uma autocrítica: se alguém me falasse, há 10 anos, que nosso maior problema hoje seria um fascismo em ascensão, acharia que a pessoa estivesse brincando. Como é que a gente não viu? Porque um fenômeno como esse não aparece assim do nada.
É um processo lento e teria sido responsabilidade nossa analisar esse processo, fazer a sociedade se atentar para ele. Mas, ao contrário, a gente ajudou a escondê-lo. Estamos falando de um país que teve o maior partido fascista fora da Europa. O Integralismo teve 1,2 milhão de membros nos anos 1930. Todo mundo tem um parente integralista, ou seja, isso é um elemento constituinte da história da sociedade brasileira.

E a gente trata o fascismo nacional como uma anedota. Até que veio essa extrema-direita. Ela só destampou uma tendência mais ou menos orgânica de setores muito expressivos da sociedade brasileira. Acho que seria muito importante neste momento entender que num país, como o Brasil, que nunca acertou contas com a sua dinâmica colonial, que continuou basicamente fazendo o mesmo tipo de processo no interior da sociedade, marcado por todas essas formas de violência, não é nem um pouco estranho que a gente esteja na situação em que a gente está.
Como o integralismo participou do golpe de 1964?
Muitos militares que fizeram golpe eram integralistas. Costumo lembrar quando houve um golpe dentro do golpe, quando a linha dura assume, quando o Costa e Silva adoece, eles impedem o Pedro Aleixo de ser empossado porque ele era um vice civil. Assumiu uma junta militar, com três militares, dos quais dois são integralistas: o Márcio Meira e Augusto Rademaker, que virou vice-presidente do Brasil no Governo Médici. Então, quando você pega essa fileira do porão da ditadura que foi resultar nessa extrema-direita, era todo mundo integralista. Essa história continuou, não teria nem como desaparecer.
Claro que o fascismo integralista não vai voltar da mesma maneira como foi nos anos 30. Nenhum fenômeno histórico volta da mesma maneira como apareceu pela primeira vez. Há um sistema de variáveis, de desvios, que é próprio de qualquer processo histórico. A noção de República, por exemplo, quando ela emergiu em Roma, tinha uma série de características que não tem nada a ver com o que a gente tem hoje. E por que a gente usa o mesmo termo? Porque a gente entende que República é um sistema de variáveis, ela vai se adaptar a vários contextos.
Seus estudos abrangem não apenas uma visão macro socioeconômica mas, também, como essa realidade impacta a saúde mental das pessoas. Nesse sentido como você analisa o aumento dos casos de depressão e ansiedade?

Como a expressão de uma crise psíquica muito profunda. Esses casos não são resultados de déficits individuais, de problemas que indivíduos sentem e passam, ou incapacidade. Existem 260 milhões de pessoas com ansiedade no mundo, 300 milhões com depressão, sendo que o Brasil é o segundo país em número de casos de diagnóstico de depressão no mundo e o primeiro em ansiedade.
Isso não tem nada a ver com a incapacidade dos indivíduos em conseguir realizar certas funções sociais. Tem a ver com a sociedade que se reproduz a partir do aumento exponencial do sofrimento psíquico. O sofrimento psíquico é um elemento interno ao funcionamento normal das nossas sociedades. Você pode falar que sempre foi mas, agora, há níveis extremamente impressionantes.
Existem várias razões para essa realidade, uma delas é que foram decompostos todos os níveis médios de solidariedade social: associações, território, comunidade, sindicatos, todos esses espaços, que eram importantes, não só de organização política e econômica mas, também, de solidariedade social. Ele se decompôs em nome de um discurso do aumento das responsabilidades individuais, dessa ilusão de fortalecimento dos fóruns individuais e decisão.
Numa situação como essa, o “eu” entra em colapso. Aumentou-se a responsabilidade das pessoas, mas elas não têm mais apoio em lugar nenhum. Você não consegue mais se apoiar em estruturas comunitárias para que esse problema não seja simplesmente um fracasso individual. Então o que acontece? As pessoas entram literalmente em colapso, com um nível muito forte do sofrimento psíquico, que é um elemento importante para a gente entender as radicalizações políticas. Pessoas em níveis extremos de sofrimento vão procurar respostas políticas extremas.
Dentro desse individualismo, surge a ideologia do empreendedorismo?
É uma das figuras importantes dessa ilusão do aumento dos fóruns individuais de decisão. É uma ilusão no sentido de que é um discurso sobrevivencialista que diz mais ou menos o seguinte: olha, não espere mais nada de ninguém, não espere mais nada do Estado. O máximo que a gente vai fazer é te liberar para você conseguir se virar. Se você for bom, você consegue. E, claro, rapidamente as pessoas vão percebendo que não têm a menor condição de conseguir resolver problemas que são coletivos, que não são problemas individuais, elas não têm como se integrar a uma sociedade totalmente desintegrada.
Pegando esse gancho da questão do individualismo, diante dessa realidade tão difícil, existe uma luz no fim do túnel. A saída é coletiva?
Olha, sou daqueles que acham que a primeira condição para ter uma saída é saber nomear bem os problemas. Esse processo “avestruz” de nunca querer enxergar a gravidade das coisas foi o que nos levou até aqui. Acho que esse esforço do pensamento crítico de conseguir nomear bem o problema não desmobiliza, pelo contrário, acho que é só esforço de dizer: olha, não dá para a gente ficar alimentando falsas soluções. Elas não vão resolver absolutamente nada. Então, vamos enxergar primeiro o que nós temos à nossa frente que aí, sim, vai ser possível colocar a imaginação coletiva a serviço de uma alternativa real. Porque a imaginação coletiva constrói coisas que aparentemente são impossíveis de pensar. Impossível é só o estado de uma situação num determinado momento.


