Vício vira um problema de saúde pública. Além de impactar a vida financeira dos jogadores, as apostas online afetam o estado emocional podendo, nos casos mais graves, levar ao suicídio.
*Por Rafael Dantas
A goleada de publicidades de casas de apostas durante a Copa do Mundo ligou um sinal de alerta. Antes disso, a elevação do endividamento da população brasileira, tendo nos jogos eletrônicos uma das razões, já havia indicado uma crise no horizonte. Porém, além dos prejuízos econômicos, a avalanche das plataformas de apostas também tem provocado impactos na saúde mental, com aumento de casos de ansiedade, depressão e comportamento compulsivo.
Os números ajudam a dimensionar as consequências desse fenômeno. O dossiê A Saúde dos Brasileiros em Jogo, lançado pelo Instituto de Estudos para Políticas de Saúde em parceria com a Frente Parlamentar da Saúde Mental e a Umane (uma organização da sociedade civil), estima em R$ 30,4 bilhões os custos dos danos à saúde associados às apostas online. Ao mesmo tempo, uma pesquisa Quaest aponta que 29% dos brasileiros afirmam jogar em plataformas de apostas. Por trás desses indicadores, estão histórias de pessoas que viram uma aposta recreativa se transformar em um problema financeiro e emocional.
Luíza, 33 anos, moradora de Olinda, encarna esse dilema. Ela entrou nesse caminho iniciado com uma brincadeira de jogos online a convite de amigos do trabalho. Uma aposta de R$ 10 rendeu um prêmio de R$ 500. A falsa sensação de que era possível ganhar dinheiro com facilidade foi a porta de entrada para um inferno psicológico e financeiro. A promessa de lucro rápido transformou sua vida em uma rotina de dívidas, ansiedade e noites em claro. O que começou como uma diversão evoluiu para uma compulsão que consumiu sua renda, a deixou endividada, inclusive com agiotas, e com muito arrependimento.

Em pouco tempo, as apostas passaram a ocupar espaço cada vez maior em sua vida. Sem recursos para pagar as despesas de casa, ela começou a fazer serviços extras, como passar roupa, para complementar a renda, enquanto as perdas continuavam aumentando. “Eu apostava pensando que ia recuperar o que tinha perdido, mas a gente só sai perdendo. O desespero era tão grande que eu não conseguia parar.”
Além dos prejuízos financeiros, a saúde mental foi destruída. Ela passou a conviver com crises de ansiedade, insônia e angústia constantes. Isso tudo sem que a família soubesse. A decisão de bloquear o próprio CPF nas plataformas de apostas foi decisiva para interromper o ciclo. Depois, contou aos familiares o que estava acontecendo e começou a reconstruir a vida. Hoje, ainda paga as parcelas do empréstimo, mas está longe das apostas desde o fim do ano passado. “Não foi fácil. Eu via faltar as coisas dentro de casa e continuava sem dinheiro. Mas hoje estou me reconstruindo”, conta Luiza, aliviada.
POR QUE É UMA QUESTÃO DE SAÚDE TAMBÉM?
O buraco em que Luíza caiu se chama transtorno de jogo. De acordo com a Isabela Pina, psiquiatra do Hospital das Clínicas da UFPE e membro da diretoria da Sociedade Pernambucana de Psiquiatria, esse é o nome dado a diagnósticos psiquiátricos para a dependência em apostas, que envolve regiões cerebrais que estão envolvidas com o sistema de recompensa, antecipando possíveis ganhos e a imprevisibilidade da resposta.

“Quando você aposta, pode ganhar ou pode não ganhar. Essa imprevisibilidade por si só já dispara uma descarga de dopamina. Então, traz a sensação de euforia, de gratificação, de empolgação, e com o tempo esse sistema vai ficando aumentado. A pessoa começa a precisar de mais estímulos, ou seja, mais apostas, apostas maiores, para conseguir ter o mesmo efeito, a mesma empolgação”, explica a psiquiatra.
Outro efeito ressaltado pela psiquiatra é que as pessoas com transtornos do jogo teriam também uma redução da atividade de regiões como o córtex pré-frontal. Essa é a área do cérebro em que acontece a tomada de decisão. Na prática, o indivíduo reduz ou perde a capacidade de perceber que uma determinada ação está sendo prejudicial. Há mais impulsividade.

“O indivíduo faz determinadas ações sem conseguir pensar deliberadamente sobre isso. Então, a gente tem uma hipofunção do córtex pré-frontal, que é essa região de tomada de decisão, de controle da ação. E, por outro lado, tem um aumento, uma hiperatividade, dessa região do sistema de recompensa. Mais a relação com a dopamina. Com o tempo vai ficando cada vez mais difícil resistir ao impulso de jogar porque é um prazer, é uma empolgação, que outras atividades do cotidiano não vão conseguir provocar”, esclarece Isabela Pina.
O endividamento está no centro do mecanismo de deterioração da saúde mental, na avaliação do psicólogo Filipe Asth, especialista em relações institucionais do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS). “A pessoa aposta, perde, tenta recuperar o prejuízo, perde mais, acumula dívidas e passa a esconder a situação da família, instalando-se num estado permanente de pressão psicológica”, ressaltou.
Para a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), os jogos de aposta já configuram um importante problema de saúde pública. Segundo o presidente da entidade, Antônio Geraldo da Silva, os impactos vão além do indivíduo que desenvolve o transtorno e atingem familiares, com prejuízos emocionais, sociais e financeiros. A entidade alerta ainda para a associação do transtorno do jogo com ansiedade, depressão e uso de substâncias, o que torna o quadro mais complexo e difícil de tratar.
SOFRIMENTO PSICOLÓGICO E ISOLAMENTO
Quem viveu esse ciclo foi o vendedor recifense João (nome fictício). Há quatro anos, ele acreditou que poderia transformar o conhecimento sobre futebol em uma fonte de renda. O primeiro contato com as apostas veio por indicação de um amigo. Eram inicialmente apostas esportivas baseadas em análises das partidas. Com o tempo, ele mergulhou em mentorias e em estudar estratégias cada vez mais sofisticadas, até migrar para os cassinos virtuais. A promessa de dinheiro rápido parecia se confirmar: em determinado período, ele estima ter acumulado entre R$ 120 mil e R$ 150 mil. Um desempenho que o fez criar um grupo premium para orientar outros jogadores, que pagavam para ter a receita do “sucesso”.

Porém, a sequência de ganhos deu lugar a um ciclo de perdas cada vez mais agressivo. Para recuperar o dinheiro que evaporava, ele passou a fazer apostas de risco elevado. Seguia estratégias que exigiam dobrar o valor investido a cada tentativa. Em apenas três dias, perdeu mais de R$ 60 mil. “Quando estava ganhando, fazia R$ 20 mil ou R$ 30 mil. No outro dia perdia tudo e ainda tirava dinheiro do bolso. Isso foi criando uma ansiedade muito forte”, conta. O impacto foi além das finanças: ele se isolava, alternava momentos de euforia e frustração e passou a enfrentar um forte desgaste psicológico.
Após as grandes perdas, iguais às sofridas por Luíza, ele também se fechava completamente. Em vez de dividir a angústia com familiares ou amigos, preferia ficar sozinho, remoendo os prejuízos e tentando encontrar uma forma de recuperar o dinheiro. Passava horas pensando em como jogar, convencido de que ainda tinha capacidade para reverter a situação. Um cenário que intensificava o quadro de ansiedade e de culpa.
É nesse período que os efeitos na saúde mental se tornam mais perigosos e dramáticos, segundo Filipe Asth. “Esse ambiente de vergonha, sigilo e descontrole agrava quadros de ansiedade e depressão e, em casos mais graves, eleva o risco de suicídio”. Ele acrescenta que os dados da pesquisa Ipespe, de 2024, mostram que mais da metade dos apostadores diz que o dinheiro faz falta ao fim do mês. Além disso, 40% já contraíram dívidas por causa do jogo e mais de um terço precisou pedir dinheiro emprestado.
No caso de João, a mudança de horizonte começou quando percebeu que já não reconhecia a si mesmo. Criado em uma família cristã, diz que encontrou na fé a força para abandonar as apostas. Após dias de oração, decidiu encerrar aquele ciclo. Hoje, oito meses depois de deixar as plataformas, afirma que não sente mais vontade de apostar e faz um alerta sobre a ilusão do dinheiro fácil. “Depois dessa etapa, virei a chave. Vi que a vida só se ganha com trabalho. A aposta é uma ilusão. Uma hora você ganha, outra hora a banca ganha tudo de volta”.

A ABP reforça que a ludopatia é um transtorno reconhecido pela Classificação Internacional de Doenças (CID-11) e não deve ser entendida como falta de força de vontade. A entidade destaca que todos os apostadores iniciam acreditando na possibilidade de ganho, mas que o sistema é estruturado para favorecer a casa no longo prazo, o que contribui para o desenvolvimento da dependência.
EFEITOS ECONÔMICOS QUE AGRAVAM A ESPIRAL DE QUEDA NA SAÚDE MENTAL

Filipe Asth lembra que a pesquisa do Ipespe de 2024 indicou ainda que o impacto vai além das finanças pessoais. Isso porque, para compensar os prejuízos, 37% dos apostadores cortaram gastos com alimentação, 36% atrasaram contas básicas, 32% reduziram gastos com saúde e 13% dos inquilinos chegaram a atrasar ou deixaram de pagar o aluguel.
“Do ponto de vista clínico, o endividamento intensifica o sofrimento de pelo menos três formas. Primeiro, porque a perda financeira tem impacto desproporcional em famílias de baixa renda, R$ 500 perdidos por quem vive em situação de pobreza têm consequências muito mais severas do que a mesma quantia para quem tem renda mais alta. Segundo, porque a sensação de armadilha sem saída é um fator de risco reconhecido para ideação suicida. Terceiro, porque o estresse financeiro crônico afeta o sono, a alimentação, a convivência familiar e a capacidade de trabalho, deteriorando a qualidade de vida de forma sistêmica”, afirmou o psicólogo.
O Dossiê elaborado pelo IEPS traduz essa perda em cifras. Ao todo, um montante de R$ 10,4 bilhões é o custo por perda de qualidade de vida associada à depressão e R$ 17 bilhões em mortes adicionais por suicídio. “Não é só dívida, é vida saudável perdida”, alerta Asth.
Além dos danos financeiros, fatores como a perda de credibilidade, o medo do julgamento e o sentimento de fracasso aprofundam o sofrimento emocional e provocam uma queda acentuada da autoestima entre pessoas com transtorno do jogo. “Os dados são bem assustadores de suicídios e tentativas de suicídio. São bastante prevalentes, em razão da sensação de que a dívida é impagável e que a solução é a morte, pela vergonha de trazer para a família esse problema, pelo medo do julgamento, de ter uma falta de caráter ou personalidade. Isso leva a pessoa a acabar pensando que a morte seria a melhor estratégia”, afirma Isabela Pina.
TRATAMENTOS
As experiências de superação de Luíza e João aconteceram sem nenhum auxílio de profissionais de saúde. O apoio da família, de amigos e da fé os ajudou a atravessar o problema. Porém, como se trata de um problema de saúde, há, sim, atendimentos especializados médicos que podem auxiliar a população a superar o vício das apostas online.
“A terapia cognitivo-comportamental e a entrevista motivacional são ferramentas validadas para ajudar a pessoa a organizar sua vida e crenças distorcidas. Por exemplo, a crença de que existem estratégias para ganhar. Mas são jogos de azar”, rechaça Isabela.
Ela lembra que existem também medicações que podem dar suporte, mas nenhuma é aprovada para o tratamento de transtorno por jogo em si. “Temos algumas medicações com bons estudos relatando a redução da vontade de jogar e da impulsividade e da fissura por apostar”, afirmou a psiquiatra. Ela defende que a família é fundamental para dar o suporte ao familiar, mas pagar as dívidas não resolve o problema.
Embora existam abordagens terapêuticas eficazes, especialistas alertam que o avanço acelerado das apostas online impõe um desafio para a rede pública de saúde. O crescimento do número de pessoas com transtorno do jogo tem pressionado um sistema que historicamente já enfrenta limitações de financiamento e de estrutura para o cuidado em saúde mental.
Segundo o psicólogo Filipe Asth, o financiamento destinado ao enfrentamento do problema ainda é incompatível com a dimensão da crise. Pela legislação das apostas, apenas 1% da arrecadação tributária do setor é destinado à saúde, percentual que ele considera insuficiente para garantir a expansão das políticas de prevenção e tratamento. “O SUS, que já é cronicamente subfinanciado, vem construindo respostas importantes, mas elas ainda estão muito aquém da velocidade de crescimento do mercado de apostas”, lamenta.
Porém, o psicólogo avalia que ampliar o acesso ao tratamento não será suficiente se o País continuar estimulando o consumo das apostas por meio da publicidade. “Precisamos atuar nas duas pontas: fortalecer o cuidado às pessoas que adoeceram e reduzir a exposição da população às bets”, afirma. Segundo ele, essa discussão já chegou ao Congresso Nacional, com projetos de lei que propõem restringir a publicidade das plataformas e ampliar os mecanismos de proteção para jovens e pessoas em situação de vulnerabilidade.
Nesse contexto, a ABP tem ampliado sua atuação no debate público e regulatório sobre as plataformas de apostas. A entidade participou de discussões no Congresso Nacional e na CPI das Bets, defendendo que a regulação do setor leve em conta evidências científicas sobre os riscos à saúde mental. Entre as propostas, estão restrições à publicidade direcionada a crianças e adolescentes, além de mecanismos de proteção aos usuários, como autoexclusão, limites de apostas e alertas de comportamento de risco.
Outra rede de apoio importante é a dos Jogadores Anônimos (JA). Inspirados no modelo dos Alcoólicos Anônimos, os grupos reúnem pessoas que convivem com a compulsão por jogos para compartilhar experiências, desafios e estratégias de recuperação. O objetivo é fortalecer a abstinência, oferecer apoio mútuo e ajudar outros jogadores compulsivos a interromper o ciclo do vício.
“A CPI também foi uma oportunidade para esclarecer que a ludopatia não é falta de caráter nem ausência de força de vontade. Trata-se de uma doença que compromete a capacidade de controlar o comportamento e que não pode ser enfrentada apenas com mensagens como ‘Jogue com responsabilidade’. Assim como ocorreu com o tabagismo, a experiência demonstra que medidas regulatórias bem estruturadas podem reduzir danos à saúde da população. Por isso, a ABP defende uma regulamentação responsável das plataformas de apostas, especialmente em relação à publicidade dirigida a crianças, adolescentes e outros públicos vulneráveis”, afirmou Antônio Geraldo da Silva.
Luíza e João conseguiram interromper o ciclo antes que as perdas fossem irreversíveis. Mas especialistas alertam que milhões de brasileiros seguem expostos a um mercado em rápida expansão, em que a conta já não é medida apenas em dinheiro perdido, mas também em sofrimento psíquico, adoecimento e vidas afetadas pela compulsão. O impacto já saltou da economia para a saúde pública.


