Luciana Almeida, consultora e sócia da TGI Consultoria
O número de mulheres empreendedoras no Brasil cresceu quase 30% nos últimos dez anos. Hoje, elas representam quase metade da população que lidera negócios no país. Será esse um dado puramente para comemorar? Confesso que tenho minhas dúvidas.
Afinal, muitas dessas mulheres optam pelo empreendedorismo diante das barreiras intransponíveis que enfrentam no mercado de trabalho tradicional, e não necessariamente por uma escolha genuína. Por outro lado, essa rota se mostra promissora: as mulheres vêm ampliando seus níveis de escolaridade e qualificação, o que aumenta suas chances de sucesso, apesar dos inúmeros obstáculos que ainda encontram pelo caminho.
Uma decisão recente do STF mexeu com a rotina de trabalho das mulheres. Sob a relatoria da ministra Cármen Lúcia, o tribunal validou a folga dominical quinzenal (prevista na CLT desde 1943) e a blindou de vez: agora, trata-se de um direito que não pode ser negociado ou reduzido por convenções coletivas. Confesso que a medida me causou estranheza. E faço essa crítica com total respeito, pois tenho profunda admiração pela trajetória irretocável da ministra.
Contudo, neste caso específico, entendo que houve um equívoco de análise. Uma medida que diferencia mulheres e homens, mesmo quando pretende oferecer um benefício compensatório, não me parece alinhada à verdadeira pauta da igualdade. Na prática, ao gerar custos adicionais para determinados setores, a decisão pode produzir um efeito colateral perverso: a redução das oportunidades para as próprias mulheres.
Infelizmente, é justamente esse o eco que tenho ouvido em diferentes espaços onde circulam empresários dos setores de gastronomia, comércio varejista e hotelaria, negócios que funcionam sem interrupção, de domingo a domingo. A frase colhida nos bastidores é clara: “Não vou contratar mais mulheres”.
Esse se torna apenas mais um dificultador entre tantos outros que a força de trabalho feminina enfrenta para conquistar uma vaga. Com 25 anos de atuação em processos seletivos para cargos estratégicos, já ouvi inúmeras vezes comentários desanimadores: “Nossa preferência é por homens”; “Ela tem filhos? Qual a idade deles? Vai conseguir dar conta de uma agenda de viagens?”; “Essa vaga exige muito relacionamento com o mercado, visitas comerciais e apresentações institucionais. Você sabe como é… um homem acaba tendo mais credibilidade porque vai tratar de homem para homem”.
Essa última frase sintetiza a realidade anacrônica que ainda impera em muitos ambientes corporativos. E por quê? Porque, na maioria das organizações, são os homens que ocupam os principais cargos de liderança. São eles que detêm o poder de decisão e que, na solidão das salas de entrevista, escolhem quem será contratado.
Tenho certeza de que, se a cena fosse mais frequentemente de mulher para mulher, o nível de compreensão sobre os desafios da outra e a solidariedade diante dessas jornadas seriam diferentes. Teríamos mais mulheres ocupando posições de destaque, servindo de inspiração e representatividade para tantas outras.
Mas o que tudo isso tem a ver com o aumento do número de empreendedoras? Ora, se o mercado tradicional fecha as portas ou se o emprego disponível não corresponde às expectativas de crescimento, reconhecimento e autonomia, o empreendedorismo surge como uma excelente alternativa de sobrevivência e ascensão. Torna-se a possibilidade de assumir a própria estratégia profissional, conquistar flexibilidade de horários e exercer o protagonismo, elementos ainda escassos no ecossistema corporativo.
Empreender, porém, está longe de ser um caminho romântico. As mulheres que gerenciam seus próprios negócios sabem que, por exemplo, o acesso a investimentos e linhas de crédito é notoriamente menor; a credibilidade diante de investidores precisa ser provada a cada minuto; e o desafio de conciliar múltiplos papéis permanece exaustivo.
Além disso, à medida que cresce a participação feminina no empreendedorismo, amplia-se também o peso econômico e a capacidade de influência desse grupo. Essa força coletiva começa a pressionar o mercado, as instituições e a sociedade por novas políticas e oportunidades.
Vemos surgir, cada vez mais, programas de capacitação, fundos de investimento dedicados, redes de apoio e grupos de negócios voltados ao fortalecimento do ecossistema feminino. As redes de mulheres têm desempenhado um papel fundamental nesse ecossistema, compartilhando conhecimento, multiplicando oportunidades e sustentando as bases umas das outras.
Ainda há um longo caminho pela frente.
Mas seguimos.
E seguimos juntas.


