Café especial impulsiona nova fase da cafeicultura em Pernambuco

*Por Rafael Dantas

O café estava nas memórias afetivas de Pollyana Danda, que nasceu em Taquaritinga do Norte. Ela lembra da sua avó torrando os grãos produzidos no próprio sítio e do aroma tomando conta da casa. A vida profissional a levou ao Recife, para atuar no serviço público. Porém, anos após viver na agitação da capital, outro posto de trabalho permitiu-lhe retornar à sua cidade natal. Um retorno que por acaso despertou o desejo de voltar literalmente às raízes dos cafezais.

Em um dos festivais do município que celebram a bebida e movimentam a pequena cidade do Agreste, ela assistiu a uma palestra que apresentou o conceito dos cafés especiais: o produto deixou de ser apenas lembrança e passou a se revelar como oportunidade. Ali nascia o Flor do Agreste, uma das mais de 30 marcas de Taquaritinga do Norte. Uma trajetória que envolve agricultura familiar, manejo sem agrotóxicos e o charme singular que a cultura cafeeira carrega entre tantas outras que florescem no interior pernambucano.

“Eu não quero que a pessoa compre só um café, eu quero que ela compre uma história. Café para mim é celebração. É como se eu dissesse: sente na minha mesa e venha tomar uma xícara conosco”, conta a produtora, com um sorriso enorme, sobre as experiências da sua marca que está apenas no segundo ano. 

Pollyana Danda

Eu não quero que a pessoa compre só um café, eu quero que ela compre uma história. Café para mim é celebração. É como se eu dissesse: sente na minha mesa e venha tomar uma xícara conosco. (Pollyana Danda)

Mesmo com produções pequenas, como no caso do Flor do Agreste, o cultivo se mantém sustentável graças ao alto valor agregado. Um café é considerado especial quando alcança mais de 80 pontos em avaliações da Specialty Coffee Association. Essa classificação indica qualidade superior de um produto, resultado do cuidado em todas as etapas: do cultivo à xícara. Em Pernambuco, esse movimento vem ganhando força.

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O Estado está longe de figurar entre os principais produtores do País, que é líder mundial na produção e exportação desses grãos. Mas é justamente o café especial pernambucano que está garantindo o seu espaço nas mesas brasileiras. A produção sombreada, de altitude e da variedade Arábica Typica, a mais antiga cultivada no Brasil, são alguns desses elementos que tornam esse café tão atraente. 

De acordo com o IBGE, em 2024, Pernambuco produziu 573 toneladas de café. Taquaritinga do Norte, sozinha, foi responsável por 420 toneladas. Ou seja, 73,3% da produção. Os outros destaques no Estado são Saloá (45 toneladas), Triunfo (36 toneladas) e Vertentes (32 toneladas). Garanhuns (18 toneladas) e Paranatama (15 toneladas) completam a lista dos maiores produtores do grão.

“A Associação Brasileira de Cafés Especiais já reconhece Pernambuco como um território produtor de café. Isso significa que o Estado tem essa particularidade. Esse dado dos municípios é muito relevante, porque mostra que Taquaritinga do Norte concentra a maior parte da produção de café, o que demonstra a importância da região. Mas a gente também tem outras áreas produzindo, como Garanhuns, Exu e Belo Jardim, o que mostra que o café não está restrito a um único polo e ainda tem espaço para crescer”, analisa o engenheiro agrônomo e consultor do Ministério do Desenvolvimento Agrário, Álvaro Eugênio.

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IDENTIFICAÇÃO GEOGRÁFICA E COOPERATIVA NO RADAR

Além do reconhecimento dos consumidores, avança também um movimento institucional, liderado pelo Sebrae-PE, para o registro de Identificação Geográfica (IG) dos cafés de Taquaritinga do Norte (que engloba a produção também de Vertentes) e de Triunfo (também incluindo os agricultores de Santa Cruz da Baixa Verde). Com esse selo, a expectativa dos produtores locais é ampliar a visibilidade dos grãos especiais desses dois destinos, garantir a autenticidade do produto, além de abrir portas para mercados mais exigentes.

A Indicação Geográfica é um selo concedido pelo Inpi (Instituto Nacional da Propriedade Industrial) que identifica produtos de qualidade e com características que estão diretamente ligadas ao território onde são produzidos. No Estado, o pedido já foi protocolado para os dois destinos. Com critérios técnicos e de rastreabilidade, o selo também tende a elevar o padrão de qualidade e o valor agregado da produção local. Como resume Glícia Rafaela Fonsêca, gestora de projetos do Agronegócio do Sebrae Pernambuco: “O selo vai garantir e proteger a origem do produto, que é diferenciado no mercado, além de ganhar ainda mais notoriedade e agregar valor ao território.” 

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Atualmente, Triunfo conta com cerca de 30 produtores no total, sendo aproximadamente 10 dedicados à produção de cafés especiais. Com o avanço de projetos de capacitação e incentivo, a expectativa de Glícia é de que esse número triplique nos próximos anos, chegando aos 30 produtores nesse nicho. Uma tendência que pode fortalecer a identidade local. “A indicação geográfica vai trazer visibilidade, proteger a origem do produto e ajudar a agregar valor ao café especial da região.” 

Uma das exigências para o reconhecimento do IG é a organização de uma associação para gerenciar o selo. No Agreste vai nascer a Associação dos Produtores de Café de Taquaritinga do Norte. Segundo Álvaro, a organização será responsável por representar os produtores e formará um conselho curador para definir critérios e garantir o padrão do produto. 

“Com essas duas IGs, o café de Pernambuco ganha uma projeção muito maior. A gente passa a ter uma identidade clara, um território reconhecido. Isso valoriza o produto, organiza o setor e abre mercado. É um passo fundamental para mostrar que Pernambuco é, de fato, um produtor de café especial”, declarou Álvaro.

Além da associação, há um processo de articulação de uma cooperativa de produtores de café de Pernambuco. A proposta é que essa organização funcione como um instrumento para organizar e ampliar a comercialização do café pernambucano sem interferir na identidade dos produtores. Cada marca seguirá com seu café especial, enquanto a estrutura coletiva permitirá reunir parte da produção, sobretudo os cafés de alta qualidade, mas de um padrão um pouco menor, em uma identidade única. 

CONEXÃO COM O TURISMO

Com a estruturação do cultivo do café, essas cidades interioranas começam a abrigar também cafeterias especializadas e a formar uma rota dos amantes dos grãos e da bebida. Associada a essas estruturas, que ainda estão em fase inicial ou nos projetos, há ainda os eventos gastronômicos que dão musculatura a esse ecossistema. 

A relação entre o café e o turismo em Taquaritinga do Norte vem avançando. A partir do trabalho com os produtores, o Sebrae ajudou a estruturar uma rota que reúne cerca de 20 propriedades, com foco na visitação e na experiência do visitante com todo o processo, da produção à torra. Essa conexão também se fortalece durante o Festival do Café, que articula gastronomia, cultura e negócios. Apesar dos avanços, a própria dinâmica ainda depende muito da iniciativa dos produtores, que começam a abrir suas propriedades e cafeterias ao público

“Taquaritinga do Norte é historicamente conhecida como a terra do café. Para a economia da região, essa atividade é extremamente importante. Existe um grande potencial para turismo de experiência, mas ainda é uma atividade que está se estruturando”, afirma a analista do Sebrae em Caruaru, Fabiana Santos.

Na cidade do Agreste, já funcionam as cafeterias Rudimentar, Tawary e Marias Café. Com agendamento, algumas fazendas fazem a recepção de grupos para visitação, como no caso do Café Terral Ecológico. 

Mesmo quem ainda está nos primeiros passos da produção, sonha também em receber visitantes. Os planos de Pollyana para o Sítio Flor do Agreste, por exemplo, apontam para a criação de um espaço de turismo de experiência que vá além da produção de café. A ideia é estruturar a propriedade para receber visitantes com degustações, vivências e atividades culturais, integrando o café a expressões como música, leitura e encontros reflexivos. “Pretendemos unir o café com arte, cultura, fazer encontros e trazer pessoas para viver essa experiência”.

Em Triunfo, que já tem uma tradição turística forte, o café se torna mais um atrativo para os visitantes do município sertanejo. A cidade dispõe de espaços como o Café do Brejo e o Café Sítio Gonçalves, além de promover o turismo de experiências no Sítio Brejinho. O município já teve algumas edições do Festival de Café e projeta retomar em 2026. Além disso, os produtores locais participaram também do Festival de Queijos, Vinhos e Delícias de Triunfo.  

Uma das marcas da cidade do Sertão do Pajeú que começa a apostar também no turismo é o Café Grão das Pedras. Os primeiros passos de Gabriela Antas, fisioterapeuta de formação, na produção aconteceram quando ela viu sua rotina profissional ser interrompida pela pandemia. Após ouvir falar dos cafés especiais em uma palestra, mesmo sem tradição familiar no segmento, ela iniciou o plantio em um sítio familiar que estava até então abandonado na cidade. Apostando em conhecimento técnico, inovação e na crescente valorização do produto, o negócio está se consolidando.

Joaquim Antas e Gabriela Antas
Gabriela Antas (ao lado como pai Joaquim) é fisioterapeuta, mas interrompeu a carreira na pandemia e ao assistir a uma palestra sobre café especiais, iniciou o cultivo num sítio familiar que estava abandonado.

 

A proposta de Gabriela é transformar o cafezal em um espaço de visitação, onde o público possa acompanhar todo o processo produtivo, além de degustar o café na própria origem. “Na visita ao cafezal, as pessoas podem conhecer um pé de café, plantar uma muda com a família, acompanhar o crescimento dessa muda, acompanhar a colheita do grão. Pretendemos fazer uma estrutura para receber uma cafeteria dentro da propriedade. Fazer toda a experiência de tomar o café lá, na hora, ver como é feita a torrefação e provar na xícara”, afirmou a empresária da marca.

Atualmente, muitos desses pequenos produtores especiais também ocupam espaços em feiras, como a Fenearte, que ampliam a visibilidade das marcas e geram muitas encomendas. Além disso, alguns deles estão também na Loja de Bebidas de Pernambuco, que representa outro importante ponto de escoamento desses produtores, que são muito conectados ao turismo.

GARGALOS

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Álvaro Eugênio ressalta que se o produtor se preparar melhor, pode produzir um café fermentado e vendê-lo por até R$ 100 o pacote de 250 gramas. “É um mercado em plena ascensão e aceitação”, explica o agrônomo, que também está lançando sua própria marca.

Enquanto a maioria dos setores econômicos têm na falta de mercados um dos seus principais desafios, no caso do café um dos obstáculos enfrentados está na produção. A demanda para os grãos especiais é muito alta. Porém, as mudanças climáticas têm criado problemas para os agricultores.

As variações intensas de produção a cada ano sinalizam isso. Em 2022, o IBGE registrou uma safra de 596 toneladas. Porém, no ano seguinte, em 2023, a produção caiu para 267 toneladas. Na sequência voltou a produzir 573 toneladas. Uma gangorra com explicações naturais. “O principal gargalo é a questão climática. Este ano, choveu muito abaixo do que a gente esperava”, afirmou Álvaro. Para 2026, as últimas projeções do IBGE estimam uma produção de 401 toneladas. 

Diante das dificuldades climáticas, a empresária Gabriela Antas destaca que um dos desafios são os altos investimentos para garantir a estrutura hídrica. Com um café 100% irrigado, foi preciso ampliar a capacidade de armazenamento de água para enfrentar os períodos de estiagem. Com uma produção crescente, por essa estrutura que garante a sustentabilidade da colheita, ela tem a expectativa de alcançar o mercado para além das fronteiras do Brasil.

A dificuldade de contratação de mão de obra qualificada para lidar com as exigências do café especial, que demanda cuidado constante e processos altamente técnicos, é outro fator mencionado como preocupação de vários produtores. Devido às condições dos terrenos plantados e das características dos cafezais pernambucanos, muitos processos produtivos precisam ser ainda manuais.

Antes do selo de IG, outro ponto sensível, segundo Gabriela, era o risco de falsificação do produto. “Eu faço toda a produção com todo o custo que é elevado para se fazer um café especial. Não é justo outro empacotar um café de qualquer lugar e dizer que é de Triunfo”, lamenta a produtora.

Fabiana Santos, do Sebrae, aponta que os principais gargalos do setor cafeeiro no Agreste estão relacionados à baixa escala de produção, à limitação na estrutura de processamento e à padronização dos produtos. Segundo ela, embora haja avanços recentes com apoio técnico e projetos de melhoria, muitos produtores ainda operam em um nível inicial de organização comercial. “A gente não tem uma produção em larga escala, não tem uma produção para exportar”, afirmou.

Apesar do reconhecimento nacional, produtores avaliam que ainda há pouco conhecimento, por parte dos próprios pernambucanos, sobre a produção local de café. O que hoje aparece como gargalo pode se transformar em oportunidade, especialmente diante do “bairrismo” característico do Estado, que favorece a valorização e o consumo de produtos made in Pernambuco

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Foto: Tom Cabral

BENEFICIAMENTO DO PRODUTO

Além de avançar na estruturação dos roteiros de turismo e de renovar parte dos cafezais mais antigos para garantir melhor produtividade, há outras oportunidades que estão no radar dos produtores. Tanto o Café das Pedras como o Flor do Agreste miram, por exemplo, na diversificação de produtos, como o licor de café, a comercialização de cápsulas e até a oferta de drip coffee (método individual e portátil de café coado).

“O café de Pernambuco já está bem posicionado. O pacote de 250 gramas varia entre R$ 30 e R$ 40. Mas, se o produtor se preparar melhor, pode fazer um café fermentado que é vendido por até R$ 100 o mesmo pacote. É um mercado em plena ascensão e aceitação”, explica Álvaro, que está lançando também a sua própria marca, a Sereníssima, produzida em Taquaritinga do Norte. 

O desenvolvimento de subprodutos, como pudim, brigadeiro e chá de café, já está em prática em algumas cafeterias ou nos planos dos produtores. A oferta de acessórios, como xícaras e pequenos kits com as marcas, é outro segmento que, aos poucos, começa a ganhar espaço nas prateleiras.

Com o valor que o próprio mercado nacional oferece ao produto, os cafeicultores ficam divididos entre atravessar as fronteiras do Brasil ou focar no consumo interno. No momento, a ampliação da produção, sem perder a qualidade, e o avanço da infraestrutura para oferta de serviços e de novos produtos relacionados ao grão estão na pauta de prioridades.

Mais que uma produção charmosa e cheia de afetos, o café vem se afirmando como um segmento produtivo relevante no campo. O despertar de novos empreendedores, com uma visão de negócio mais ampla, envolvendo o turismo e outros produtos gastronômicos, está abrindo novos horizontes para a produção pernambucana. Independentemente de atravessar fronteiras ou não, de grão em grão, esse setor vai convidando novos consumidores para a sua mesa.

*Rafael Dantas é repórter da Revista Algomais e assina as colunas Pernambuco Antigamente e Gente & Negócios (rafael@algomais.com | rafaeldantas.jornalista@gmail.com)

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