Algomais 20 anos: Soluções para preservar o Meio Ambiente

*Por Rafael Dantas

A Algomais completa 20 anos em 2026. Desde suas primeiras páginas, em 2006, até hoje, o mundo, o Brasil e Pernambuco parecem ter capotado algumas vezes. Do boom de crescimento de Suape à crise do coronavírus, da celebração da chegada da Stellantis às turbulências políticas que abalaram o País, buscamos manter uma atuação propositiva, analítica e comprometida com o desenvolvimento do Estado. Valores que guiam nosso trabalho e que brotaram da nossa Carta de Princípios, criada na fundação da revista.

Da edição impressa mensal, mantida até 2020, ao jornalismo exclusivamente digital, percorremos uma trajetória que atravessa muitas das transformações da comunicação contemporânea. Distante do típico “lacre” que domina as redes sociais, preservamos o respeito às pessoas, às instituições e à diversidade de opiniões. Enquanto o universo digital prima pela informação rápida, em poucos caracteres e na trend do momento, nossas matérias seguem longas, buscando um algo a mais dos entrevistados, além de um olhar mais aprofundado dos desafios e oportunidades enfrentados pelos pernambucanos. Sempre com pautas ousadas e inovadoras.

No início dessa comemoração dos 20 anos, abrimos a série de reportagens ouvindo nossos leitores e colaboradores. Nós os convidamos para refletir sobre grandes ideias transformadoras para Pernambuco que nasceram nas reportagens, entrevistas ou artigos das nossas páginas. Neste mês, em que se celebra o meio ambiente, resgatamos cinco grandes temas, indicados por quem acompanha a Algomais de perto. As indicações de hoje vieram de Roberto Montezuma, arquiteto, professor da UFPE e coordenador geral do projeto Recife Cidade Parque; Cláudia Lima, presidente do Instituto Tecnológico das Cadeias Biossustentáveis (ITCBio); Milton Tenório, ativista socioambiental, fundador do Movimento Gato-Maracajá; Raynaia Uchôa, jornalista, e Cibele Almeida, estudante. De vários assuntos que provocamos, alguns tiveram frutos reais nas políticas públicas. Outros permanecem como propostas e debates fundamentais para o desenvolvimento de Pernambuco.

UM MERGULHO PELO RIO CAPIBARIBE

Um dos temas perseguidos pela Algomais nesses 20 anos foi a defesa do Rio Capibaribe. Ainda que suas águas permaneçam escuras da poluição, a cidade virou seus olhos para o rio. Isso é incontestável. Roberto Montezuma, entrevistado em diversas reportagens e também leitor da revista, lembrou da edição com a reportagem A Reinvenção do Capibaribe, que trazia uma lontra na capa, no ano de 2014.

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As discussões sobre o Capibaribe começaram um pouco antes, com a cobertura O Recife que Precisamos, de 2012. Produzida pela repórter Luíza Assis, a série de matérias rendeu um prêmio Cristina Tavares daquele ano. Mais que o reconhecimento, a discussão foi apresentada aos candidatos à Prefeitura do Recife naquele pleito eleitoral e incluída no plano de governo do ex-prefeito Geraldo Julio.

Foram desses debates que nasceu a primeira peça do Parque Capibaribe, o Jardim do Baobá. Embora o Recife ainda esteja longe de se tornar a cidade-parque imaginada pelo projeto, várias peças desse quebra-cabeça já foram montadas. Uma das mais emblemáticas foi o Parque das Graças. Uma luta da sociedade pernambucana para transformar um projeto de uma via expressa de quatro faixas para carro em um parque público. Um espaço que obrigatoriamente leva os recifenses a observarem as suas águas.

“Nos últimos 20 anos, a Revista Algomais atuou como veículo estratégico para reinventar o Recife. Suas reportagens documentaram os Recife Exchanges – intercâmbios internacionais que produziram visões, como o Recife como Árvore d’Água, a Ilha de Todos os Tempos e a Carta do Recife do Futuro para o Recife do Presente. Também impulsionaram propostas concretas: o Parque Capibaribe, que estrutura uma zona parque em torno da bacia hidrográfica com potencial de expansão para as bacias dos rios Beberibe e Tejipió, e a Membrana Anfíbia, que abriu caminho para imaginar um Parque Marinho”, relembra Roberto Montezuma.

Ele ressalta que todas essas iniciativas, divulgadas ou mesmo propostas nas páginas da Algomais convergem para um mesmo horizonte, de tornar o Recife uma cidade-parque. Esse conceito pode ser entendido como um sistema integrado de espaços públicos de qualidade, que busca reconciliar a cidade com sua natureza, reduzir desigualdades socioespaciais e torná-la mais inclusiva, saudável e próspera. “Sua força está na escala, se aplicado na política estadual às demais bacias hidrográficas, pode estruturar uma rede de cidades-parque em todo Pernambuco”, afirmou Montezuma.

UM GRITO PELA MATA ATLÂNTICA

Ainda na temática ambiental e urbana, em uma cobertura mais recente, abordamos entre 2025 e 2026 os impactos de dois delicados projetos na Área de Proteção Ambiental Aldeia-Beberibe: o Arco Metropolitano e a Escola de Sargentos do Exército. A indicação é do leitor Milton Tenório, ativista socioambiental, fundador do Movimento Gato-Maracajá e morador da região. Ao ouvir a comunidade moradora, especialistas, gestores públicos e o Exército Brasileiro, a cobertura não ficou presa às críticas ao projeto, mas apresentou propostas que partiram da sociedade, caminhos para conciliar os almejados investimentos com a preservação ambiental.

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O tema foi discutido ainda durante o seminário do projeto Pernambuco em Perspectiva que recebeu Sérgio Xavier, coordenador do Fórum Brasileiro Mudança do Clima, e Ana Luiza Ferreira, então secretária de Meio Ambiente de Pernambuco.

O futuro da APA Aldeia-Beberibe continua em disputa. A discussão técnica aponta para a escolha de alternativas diferentes dos projetos do Governo do Estado e do Exército Brasileiro. A cobertura trouxe as discussões propostas pelo Fórum Socioambiental de Aldeia (FSA), além de entrevistas e artigos abordando as riquezas ambientais dessa área para a Região Metropolitana do Recife, como a descoberta de uma espécie única de anfíbio no mundo, a Ololygon paulofreirei.

“Desenvolvimento só existe quando está associado à sustentabilidade e à responsabilidade socioambiental. Fora disso, não é desenvolvimento, é atraso. A Algomais tem sido muito feliz ao levantar pautas socioambientais e qualificar esse debate. Um exemplo foi a cobertura do projeto da Escola de Sargentos do Exército, em Aldeia, que não se limitou a discutir os impactos ambientais da proposta, mas também apresentou alternativas locacionais para a instalação do empreendimento. A cobertura aprofundada é o melhor antídoto contra o greenwashing (a famosa maquiagem verde). É muito fácil para o poder público, para grandes instituições e os políticos criarem narrativas lineares de ‘desenvolvimento e progresso’, camuflando impactos socioambientais severos sob o manto de discursos sustentáveis superficiais”, adverte Milton Tenório.

Diferente do projeto do Parque Capibaribe, que já teve resultados bem concretos de mudança do direcionamento das políticas públicas, no caso dos empreendimentos de grande impacto na APA Aldeia Beberibe, ainda existem grandes indefinições. Afinal, haverá a opção pelas alternativas locacionais da Escola de Sargentos ou a rota do Arco Metropolitano de “arrudiar” a mata será aceita? Os debates estão intensos. Mas nas discussões dessas perguntas, os impactos desses empreendimentos e as alternativas até então construídas já são mais que conhecidas.

UMA CIDADE PARA CONVIVER COM A ÁGUA

A entrevista intitulada Cidade-esponja é um caminho para o Recife se adaptar a eventos climáticos extremos, publicada pela Algomais em 2024, foi a indicação de Cláudia Lima, presidente do ITCBio, como uma das matérias mais relevantes para pensar o futuro do desenvolvimento pernambucano, em especial, da capital. A entrevistada foi a arquiteta e pesquisadora Mila Montezuma, que apresentou experiências internacionais e discutiu soluções urbanas baseadas na natureza para enfrentar enchentes, alagamentos e os impactos crescentes das mudanças climáticas.

Ao destacar o conceito das cidades-esponja, adotado em países como Holanda e China, a reportagem trouxe para o debate local uma visão inovadora sobre a convivência com a água. Em vez de apenas acelerar o escoamento das chuvas, a proposta busca ampliar a capacidade de absorção do ambiente urbano por meio de parques, áreas verdes, jardins de chuva, pavimentos permeáveis e outras infraestruturas capazes de reduzir riscos e aumentar a resiliência das cidades.

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Para Cláudia Lima, a entrevista teve o mérito de conectar conhecimento científico, inovação e participação social em torno de um dos problemas mais urgentes da capital pernambucana. “Essa foi a matéria que mais me chamou a atenção, por ser um problema cada vez mais frequente, um problema que acomete o Recife o ano inteiro. Basta uma chuva maior, uma frente fria, que vem do oceano e alaga todas as ruas. Então é um problema frequente e cada vez maior”, afirma.

A presidente do ITCBio também destacou que a pauta serviu de inspiração para refletir sobre estratégias que integrem preservação ambiental, tecnologia e o conhecimento das comunidades que convivem diariamente com os manguezais, rios e áreas vulneráveis da cidade. Para ela, pensar soluções como as cidades-esponja é fundamental para prevenir desastres, proteger populações expostas aos alagamentos e construir uma agenda de desenvolvimento mais sustentável para o Recife. “Precisa ser pensada uma estratégia de bem-estar usando o conhecimento tecnológico e aproveitando o conhecimento dessas comunidades que vivem no mangue, na beira da praia e dos rios”, propõe. “São problemas que precisamos enfrentar de forma estratégica.”

As contribuições de Mila para o debate urbano do Recife vêm de reportagens anteriores, como na reportagem de capa Para o Recife não submergir, de 2020, no artigo Uma membrana para salvar o Recife, assinado por ela em 2020, e na reportagem Como evitar o afogamento do Recife, de 2023. O problema dos alagamentos da capital pernambucana, porém, segue como um grande desafio, que vai sendo agravado pelos efeitos extremos das mudanças climáticas.

A INTELIGÊNCIA DOS MANGUEZAIS

A reportagem Da lama e do caos: a sustentabilidade que vem dos manguezais, publicada pela Algomais em 2024, foi a indicação da jornalista e leitora Raynaia Uchôa como uma das matérias mais inspiradoras para refletir sobre o desenvolvimento sustentável de Pernambuco. Ao abordar os manguezais sob diferentes perspectivas – ambiental, social, econômica e cultural –, a reportagem mostrou como esse ecossistema é essencial para o equilíbrio climático, a proteção da costa e a sobrevivência de milhares de famílias que dependem diretamente de seus recursos.

Mais do que apresentar dados sobre a capacidade dos manguezais de armazenar carbono, proteger a biodiversidade e sustentar atividades produtivas, a matéria convidou os leitores a enxergar esse ambiente para além da paisagem. Em um momento em que as mudanças climáticas impõem desafios cada vez maiores às cidades costeiras, o texto destacou o papel estratégico dos manguezais como aliados naturais na construção de um futuro mais resiliente.

Para Raynaia Uchôa, um dos méritos da reportagem foi revelar que a inteligência necessária para enfrentar os desafios contemporâneos não está apenas nas soluções tecnológicas convencionais. “Como leitora, fiquei encantada com a forma como a reportagem nos convida a enxergar o manguezal para além da paisagem. O mangue é uma sofisticada tecnologia ancestral, capaz de capturar carbono, proteger a costa, alimentar comunidades e sustentar a vida”, explica. Segundo ela, a matéria evidencia que os ecossistemas também carregam conhecimentos valiosos construídos ao longo do tempo.

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A jornalista destacou ainda que a publicação ofereceu uma reflexão importante sobre inovação e desenvolvimento. “A reportagem nos lembra que a inteligência não está apenas nas máquinas ou nos laboratórios, mas também nos ecossistemas que se organizaram em relações de equilíbrio, criando as condições necessárias para a coexistência de inúmeras espécies”, observa. Em um contexto de crise climática, Raynaia considera que a principal lição da pauta está na capacidade de aprender com a natureza e com as populações que convivem com ela: “Talvez a maior inovação seja justamente reaprender a escutar os saberes da natureza e das populações tradicionais que convivem com ela há gerações”.

Os manguezais têm ganhado destaque no debate global sobre as mudanças climáticas e em Pernambuco, em especial, nas discussões sobre a sua destruição e o avanço dos tubarões no nosso litoral. Há iniciativas importantes em andamento, como uma recém-anunciada pesquisa do Centro de Tecnologias Estratégicas do Nordeste (Cetene), em parceria com a Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), bem como algumas iniciativas de replantio. Mas o desafio de preservação e de reconhecimento do seu potencial permanece.

A INOVAÇÃO QUE BROTA DA CAATINGA

Visto sempre como um problema, o Semiárido Nordestino, que ocupa cerca de 90% do território pernambucano, passou a ser observado nos últimos anos com um outro olhar. Ao invés de focar na escassez, essa região e seu principal bioma, a Caatinga, trazem ensinamentos importantes para um mundo vivendo um aquecimento global. A leitora Cibele Almeida, estudante do curso técnico em multimídia da Escola Porto Digital, recomendou a reportagem que trata do assunto intitulada Caatinga e Inovação: soluções do semiárido brasileiro para o mundo.

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Ao abordar pesquisas, tecnologias e experiências que nascem da Caatinga, a reportagem, publicada em 2025, apresentou uma mudança de perspectiva sobre uma região historicamente associada à escassez. A matéria reuniu iniciativas de universidades, startups, institutos de pesquisa, cooperativas e organizações sociais que estão transformando a biodiversidade do Semiárido em fonte de inovação, geração de renda e soluções para os desafios impostos pelas mudanças climáticas.

Para a leitora Cibele Almeida, um dos méritos da reportagem foi ajudar a desconstruir a visão estereotipada do Semiárido. “A matéria combate o preconceito de que a Caatinga é uma região pobre e seca. Pelo contrário, revela um bioma de grandes riquezas e amplia uma visão que, até então, eu mesma tinha de forma limitada. O que mais me surpreendeu foi a perspectiva de inovação e desenvolvimento tecnológico voltada à preservação da Caatinga, às pesquisas com recursos naturais e aos estudos de óleos essenciais de seus frutos. Essas iniciativas geram oportunidades, descobertas e benefícios para quem vive na região. Um lugar muitas vezes desprezado, mas que possui uma riqueza enorme e reforça a importância de compreender e valorizar a Caatinga.”

Ao reunir exemplos de empreendedorismo, pesquisa científica e inovação tecnológica, essa viagem pelos potenciais da Caatinga e do Semiárido revelou um território que produz respostas concretas para questões ligadas à segurança alimentar, à adaptação climática e à transição para uma economia de baixo carbono. Destaques que foram apresentados também em outras publicações da revista, como na entrevista A Caatinga é o mais eficiente dos biomas brasileiros para sequestrar carbono, com o pesquisador Aldrin Pérez e em vários artigos do colunista Geraldo Eugênio, que também defendeu essa visão na reportagem Soluções do Desenvolvimento passam pelo Semiárido.

O bioma e a região já são alvo de editais públicos de reflorestamento e pesquisa, diversas produções culturais, além de empreendimentos importantes e sustentáveis. Sinais de que a Caatinga deixou de ser vista apenas pelos seus limites para passar a ser reconhecida também pelas suas soluções.

IDEIAS PE SUSTENTAVEL

Nesse apanhado dos nossos leitores de temas sobre o meio ambienteque discutimos nos últimos anos, é possível perceber que o desenvolvimento de Pernambuco passa por aprender a enxergar seus ativos ambientais não como obstáculos ao progresso, mas como parte fundamental da solução. Cuidar, conhecer e inovar a partir dos nossos rios, florestas, manguezais e do Semiárido têm um potencial muito maior do que simplesmente explorar seus recursos mais imediatos ou implantar empreendimentos sem considerar seus impactos. Um aprendizado fundamental para semear iniciativas sustentáveis nas próximas décadas do Estado.

*Rafael Dantas é repórter da Revista Algomais e assina as colunas Pernambuco Antigamente e Gente & Negócios (rafael@algomais.com | rafaeldantas.jornalista@gmail.com)

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