“Precisamos reservar tempo para nós mesmos, para pensar, relaxar, meditar ou simplesmente viver momentos de tranquilidade”
Foto de Abertura

O escritor e poeta esloveno Jurij Hudolin construiu uma trajetória marcada por viagens, literatura e reflexões bem subjetivas sobre a experiência humana. Autor de cerca de 40 livros, traduzidos em diversos idiomas, Hudolin também atua como editor literário, colunista e roteirista de documentários. Em passagem por Pernambuco, a convite da Associação dos Eslovenos no Nordeste e do Consulado Honorário da República da Eslovênia no Recife, ele visitou a capital pernambucana, Palmares e a Usina de Arte, em Água Preta, onde falou sobre a relação entre natureza, escrita e cotidiano, além das impressões que levou do Brasil para o novo livro que prepara sobre o País.

Entre jardins mediterrâneos, relatos de viagem e reflexões sobre o mundo contemporâneo, Jurij Hudolin defende a necessidade de desacelerar e preservar espaços de contemplação em meio à vida acelerada das grandes cidades. Na entrevista, ele comenta o impacto da natureza pernambucana, a crise do jornalismo e da cultura na Europa, sua ligação com a literatura de viagem e o desejo de construir, por meio da escrita, “um caminho que ofereça esperança para um amanhã melhor”.

Antes de falarmos da sua visita ao Brasil, em uma entrevista recente você criticou o modo de vida acelerado e excessivamente produtivo da sociedade contemporânea. Quando o senhor fala sobre jardim, contemplação e dessa relação mais próxima com a natureza, isso também se transforma em matéria para a sua literatura?

Sim, encontro muita inspiração nisso. Mas também é verdade que faço muitas outras coisas. Sou muito ativo como tradutor e como editor de jornal, o que exige um trabalho intenso, parecido com o trabalho jornalístico, em que você precisa sentar, trabalhar e continuar trabalhando. Nesse tipo de atividade não existe exatamente aquela inspiração mais profunda que aparece no trabalho artístico.

Então, de certa forma, vivo uma situação meio bipolar. Uma parte da minha vida é voltada para a meditação, para o jardim, para um modo de vida mais contemplativo. A outra, é feita de trabalho duro, como o trabalho de qualquer pessoa, seja um escritor, um jornalista ou alguém vendendo um refrigerante na rua.

Acho que as pessoas precisam encontrar esse equilíbrio. Precisamos reservar tempo para nós mesmos, para pensar, relaxar, meditar ou simplesmente viver momentos de tranquilidade. E isso vale para qualquer profissão. Infelizmente, sinto que esse equilíbrio está cada vez mais distante. A tecnologia moderna também contribui para nos afastarmos de nós mesmos e dos outros. Vejo que isso gera mais violência, mais isolamento e uma perda de conexão humana entre as pessoas.

Jardim



Seus mais novos trabalhos, “Jardim Mediterrâneo” e “Você simplesmente entra na batalha pela primavera”, nascem desse retorno a uma região ligada à sua história pessoal e ao antigo território da Iugoslávia. A viagem, a memória e a experiência vivida costumam estar no centro da sua literatura?

Na verdade, minha cidade natal é Ljubljana, a capital da Eslovênia. Já a Ístria é uma região mediterrânea, uma península litorânea à beira-mar, onde também vivo atualmente. O que me fascina está justamente ali. Posso dizer que, depois de ter viajado por metade do mundo, a Ístria é o lugar que mais me encanta. É um espaço pelo qual tenho um vínculo muito forte.

Na casa onde vivo tenho também um jardim. Trabalho bastante com horticultura e jardinagem. Cultivo um pequeno pedaço de terra e vivo, de certa forma, uma vida próxima à de um camponês, embora eu não plante alimentos, mas principalmente plantas ornamentais, árvores frutíferas e especiarias.

O contato com o jardim, com a terra e com o cotidiano daquele lugar é muito importante para mim. Foi também por isso que escrevi sobre esse retorno e sobre essa relação com a região onde vivo hoje. Mas a vida é longa, e tenho um espírito muito explorador. Por isso, não descarto a possibilidade de, nos próximos 15 ou 20 anos, acabar vivendo em outro lugar do mundo, em outro continente, ou me deixar fascinar por um novo caminho durante minhas viagens.

voce simplesmente entra na batalha pela primavera

O que trouxe você ao Brasil? De onde surgiu esse interesse pelo País e pela cultura brasileira?

A primeira vez que vim ao Brasil foi como pesquisador. Estive em São Paulo para escrever uma reportagem para um jornal da Eslovênia, em que publiquei um artigo sobre a cidade. Agora, voltei ao Brasil, a convite de Mihael Margon (vice-presidente da Associação dos Eslovenos no Nordeste) e de Rainier Michael (cônsul da Eslovênia). Durante essa viagem, também apresentei meu trabalho em duas faculdades no interior de Pernambuco.

Em breve, será publicada no Brasil, em português, minha coletânea de poemas Jardim Mediterrâneo. E, no próximo ano, pretendo lançar um novo livro sobre o Brasil, que será híbrido: vai misturar ficção com fatos históricos, geográficos e experiências reais que vivi aqui. Também haverá reflexões pessoais e impressões das minhas viagens pelo País. Acho que será uma obra bastante diversa e interessante.

Parte da introdução do livro nasceu das experiências que tive em São Paulo e do material que publiquei anteriormente no jornal da Eslovênia. A expectativa é concluir e publicar a obra primeiro na Eslovênia, até o final do próximo ano, e depois lançar a tradução em português.

Você esteve em São Paulo e agora conheceu Pernambuco e o Recife. O Brasil é muito grande, são muitos “Brasis” diferentes. Que diferenças mais chamaram sua atenção entre São Paulo e Pernambuco?

São Paulo e o Recife são cidades enormes. Na Europa existem poucas cidades desse tamanho. Na Eslovênia, por exemplo, há menos habitantes no país inteiro do que no Recife. Isso já é algo muito impressionante para um europeu.

Mas, como alguém que já conheceu grandes metrópoles da América do Sul, como Bogotá e Caracas, o que mais me fascinou aqui não foi exatamente o tamanho das cidades, e sim a natureza. O que mais me marcou em Pernambuco foi a paisagem natural que vi na região da Mata Sul, no caminho até a Usina de Arte. Aquela vegetação, a natureza e a atmosfera do lugar me impressionaram e me inspiraram muito.

usina de arte


Você esteve na Usina de Arte, que é um espaço muito particular porque une patrimônio histórico, memória e produção cultural contemporânea. Qual foi sua impressão sobre esse projeto?

Para mim, como artista, isso é algo extraordinário. Acho um gesto grandioso quando uma pessoa [Ricardo Pessôa de Queiroz Filho] que claramente poderia investir seus recursos em qualquer outra coisa decide investir em arte e cultura. Fiquei muito impressionado com a ideia de recuperar um espaço histórico e dar uma nova vida a ele por meio da arte. Isso demonstra uma compreensão de que a vida não se resume apenas a dinheiro, luxo ou poder, mas também ao desenvolvimento humano e espiritual.

Quem está por trás desse projeto poderia investir em qualquer outro negócio, mas escolheu investir em algo que permanece no tempo e que pode transformar as pessoas. Achei muito bonito perceber essa tentativa de aproximar arte e vida cotidiana, criando conexões humanas e fortalecendo o espírito das pessoas por meio da cultura.

Você também conheceu Palmares e um pouco do interior de Pernambuco. Que impressão ficou dessa experiência, que é bem diferente tanto do Recife quanto da própria Usina de Arte?

Eu diria que essa diferença entre cidade grande e interior existe em praticamente todo o mundo. Normalmente, as pessoas migram do campo para as grandes cidades em busca de melhores oportunidades. Na Eslovênia temos uma expressão que diz “seguir com o estômago atrás do pão”.

No meu caso, como artista, acontece o contrário: eu me sinto mais atraído pelo interior. Gostei muito do Recife, mas também do interior de Pernambuco. O que mais me inspirou foi a simplicidade das pessoas e o modo de vida dessas regiões. Essas experiências me deram ainda mais vontade de voltar ao Brasil.

Saio daqui com sentimentos muito positivos, tanto sobre o Recife quanto sobre o interior, e com esperança de retornar em breve para continuar vivendo o cotidiano brasileiro e aprendendo mais com as pessoas daqui.

Viagens Autor em Trieste na Italia

Brasil e Eslovênia são países muito distantes geográfica e culturalmente. O que da literatura e da cultura brasileira chega até a Eslovênia? Quais foram suas referências brasileiras antes de conhecer o País pessoalmente?

Algumas coisas da literatura brasileira chegam até nós na Eslovênia, especialmente autores mais conhecidos internacionalmente, como Paulo Coelho e outros nomes mais populares. Mas meu contato mais profundo com o Brasil aconteceu principalmente por meio da poesia e da literatura de viagem. Conheci bastante sobre o País com a obra da poeta croata Maja Klarič, que viajou por todo o Brasil e transformou essa experiência em poemas e relatos muito detalhados.

Foi por meio da escrita dela que comecei a construir uma imagem mais sensível e humana do Brasil, antes mesmo de conhecer o País pessoalmente. Esses textos despertaram meu interesse pela cultura, pelas paisagens e pelas experiências brasileiras.

Quais são os seus principais interesses na literatura e na escrita? 

Como autor esloveno, estou mais ligado a escrever sobre a Eslovênia e outros lugares, mas também sobre a descrição da minha própria vida. Talvez o que me diferencie de outros escritores contemporâneos do meu país seja o fato de eu viajar muito.

E viajo principalmente por razões literárias: por causa das traduções dos meus livros ou de participações em festivais literários. A maior parte das minhas viagens está relacionada à literatura, ao que escrevo e às pesquisas e experiências que faço para os meus textos.

Não escrevo apenas poesia, prosa e ensaios. Também sou editor de um jornal. Nos últimos anos, comecei a escrever relatos de viagem. Um desses trabalhos, sobre minhas impressões do Brasil, será publicado no próximo ano em livro. Espero também que essa obra possa ganhar uma tradução em português no Brasil.

maja
Poeta Maja Klaric


Como funciona essa política cultural da Eslovênia voltada para a literatura e para os escritores? De que maneira o país apoia os autores?

A Eslovênia possui uma agência pública do livro e da literatura, além de uma associação de escritores que reúne cerca de 300 membros. Essa agência pública promove diversos editais e concursos aos quais qualquer escritor pode se candidatar. A seleção leva em consideração fatores como a trajetória literária do autor, a recepção crítica e pública da obra, tanto dentro quanto fora do país, além da relevância dos trabalhos produzidos.

Esses programas ajudam bastante a sustentar a atividade literária, cobrindo parte importante dos custos editoriais e artísticos. Então, embora não seja fácil viver apenas da escrita, especialmente para quem deseja ter uma família e uma vida financeiramente mais confortável, existe uma estrutura pública que valoriza a literatura e oferece condições para que os escritores consigam continuar produzindo.

Ao mesmo tempo, a leitura ainda ocupa um espaço importante na sociedade eslovena. Talvez um escritor pudesse ganhar mais dinheiro em países maiores, como os Estados Unidos, mas, na Eslovênia, existe uma relação cultural muito forte com os livros e com os leitores, e isso tem um valor muito significativo para quem escreve.

Você também trabalha com jornalismo e edição. No Brasil vivemos uma crise muito forte nesse setor, algo que parece acontecer no mundo inteiro. Como é essa realidade na Eslovênia e na Europa?

Acredito que essa crise não acontece apenas no Brasil, mas no mundo todo. Hoje, na Eslovênia, muitos jovens inteligentes, preparados e bem formados já não desejam mais seguir carreira no jornalismo como acontecia há 20 anos. As pessoas estudam, mas acabam buscando outras áreas profissionais. Vejo isso acontecendo em toda a Europa: há um afastamento tanto do jornalismo quanto da cultura.

Grande parte dos meios de comunicação está nas mãos de grandes empresários e grandes grupos econômicos, que muitas vezes não têm interesse no verdadeiro jornalismo investigativo, mas apenas em conteúdos rápidos, superficiais ou em fake news.

Enquanto o mundo continuar mais interessado apenas no capital do que nas pessoas e na humanidade, acredito que continuaremos caminhando para uma crise cada vez maior. Tenho a sensação de que estamos nos aproximando perigosamente de um cenário de desumanização.

Premio Fanny Haussmann

Como funciona a sua produção jornalística? De que forma ela dialoga com a sua produção literária? Existe um traço de jornalismo literário no que você faz?

Sem dúvida, me sinto mais próximo da literatura, porque nela tenho muito mais liberdade de expressão. No jornalismo, eu não trabalho tanto com entrevistas ou reportagens tradicionais. O que faço principalmente é escrever colunas. E esse formato acaba me aproximando bastante da literatura, porque a coluna permite mais liberdade de linguagem, reflexão e até mesmo um certo uso da ficção.

Nas minhas colunas, posso misturar observações pessoais, experiências vividas, imaginação e elementos literários. Então existe um diálogo constante entre as duas áreas. Mas, no fundo, a literatura continua sendo o espaço onde consigo me expressar de maneira mais completa e mais livre.

Sua literatura tem um caráter mais intimista, ligada às suas vivências e sentimentos. Mas queria saber como a história de conflitos e guerras nos Bálcãs influenciou sua escrita?

As guerras, sejam próximas ou distantes, influenciam qualquer pessoa sensível, independentemente da profissão ou da forma como ela se expressa artisticamente. No meu caso, isso certamente afeta meus sentimentos, meus pensamentos e minha escrita.

Os conflitos que vemos no mundo deveriam sensibilizar todas as pessoas, porque fazem parte da experiência humana e do nosso tempo. Mas, apesar de tudo, penso que é necessário manter o otimismo. Mesmo vivendo cercados por guerras e tensões em várias partes do mundo, não vejo sentido na vida se carregarmos mais pessimismo do que esperança dentro de nós.

Por isso, tento preservar uma visão otimista, acreditando que as coisas podem melhorar. O pessimismo constante é algo muito destrutivo para o ser humano.


Entre as premiações que você recebeu, qual tem um significado mais especial para você?

Recebi vários prêmios ao longo da carreira, mas há um que tem um significado muito especial para mim: o Prêmio Fanny Hausmann, que recebi pelo livro Jardim Mediterrâneo. Essa obra fala muito sobre meu jardim, minha relação com a natureza e a felicidade encontrada nas coisas simples. Por isso, esse prêmio me toca profundamente, porque reconheceu esse sentimento que tentei transmitir nos poemas: a experiência humana de estar diante da natureza, em silêncio, observando e vivendo aquele espaço.

Sua visão de mundo se aproxima dessa ideia de “slow life”, de uma vida mais desacelerada e ligada ao campo?

Não exatamente. Eu não diria que defendo um modelo específico de vida para todas as pessoas. O que defendo é que cada indivíduo encontre seu próprio caminho e descubra, por si mesmo, o que significa felicidade.

Acho importante que cada pessoa viva da maneira que considera mais verdadeira para si, desde que não prejudique os outros. O essencial é viver com dignidade, cultivar bons hábitos, trabalhar e construir relações humanas saudáveis. Cada um precisa encontrar sua própria forma de equilíbrio e realização.

Agora, já a poucas horas de deixar o Brasil, qual é a principal impressão que você leva do País?

Nos últimos anos, me aproximei muito da natureza. Por isso, o que mais me fascinou no Brasil foi a natureza e a maneira como ela ainda convive de forma muito viva com as pessoas e os animais. Essa convivência entre o ser humano e a natureza foi algo que realmente me marcou e que vou levar comigo no coração e na memória.

Ao mesmo tempo, na Usina de Arte, conheci uma realidade muito especial. Achei muito significativo perceber que, ao redor daquele espaço artístico, existem comunidades simples convivendo dentro desse mesmo universo cultural e natural. Isso me deu uma sensação de esperança. Sinto que essa experiência me fez acreditar um pouco mais na possibilidade de um mundo melhor. 

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